Rua General Osório, 460

E cá estou mais uma vez no meu refúgio infantil, na minha base de vida, no meu início de gente; na casa simples que morei nos meus primeiros dezoito anos, na rua General Osório, 460. Enquanto escrevo, minha mãe faz o almoço no fogão a lenha. O calor do fogão aquece todo o ambiente. Ah, e como é aconchegante este lugar! Esta é a característica essencial da casinha de meus pais. Qualquer um que se aprochega por aqui, diz a mesma coisa.

Fogo no fogão, cheiro de comida e minha mãe vestindo aqueles aventais de dona de casa enquanto me diz, cheia de amor: “Ah, meu filho, como é bom ter vocês aqui!” Como é bom estar aqui, mãe! Há tanto para sentir! Há tanto para lembrar! Foi aqui, ao lado deste fogão de 1989, que tentei escrever o meu primeiro romance. Foi aqui, dentro desta casa, que criei as minhas primeiras composições. Foi aqui que formei grande parte de meu imaginário. É deste lugar que advém minhas lembranças mais primorosas e que resultam nas minhas crônicas mais profundas.

Eu devo tanto a tudo isso aqui. A esta cidade, a esta rua, a esta casa e, principalmente, aos meus pais. Por isso que insisto e enfatizo: os pais podem ter todos os defeitos do mundo, contanto que amem sua família, amem seus filhos. Me perguntei por anos o que de fato era a energia revigorante deste lugar. Digo-lhe, leitor, com toda certeza que me cabe: é o amor! Só o amor importa e só o amor vai nos salvar.

Hoje sentei-me na varanda, em frente ao gramado lindíssimo de minha mãe. O sol se abriu no horizonte, iluminando e aquecendo tudo o que seus raios tocavam. Por um momento, me senti imortal; e, de súbito, a vida se encheu de sentido. Agradeci a Deus por ter nascido na rua General Osório, 460, pois é isso o que me resta: agradecer.

CHEIRO DE SEXO

Antes de tudo, a minha infância foi cheiro. Sinto que o meu primeiro contato com o mundo, foi pelo olfato. O odor de óleo diesel com tabaco que sentia ao abraçar meu pai, marcou-me na alma, pois isso significava o meu herói de volta para mim. Quando me deitava para dormir naquele frio da serra gaúcha, o cheiro de amaciante dos travesseiros e das cobertas enternecia-me. Era o amor de minha mãe posto em odores. Eu dormia sorrindo, acalentado de amor.

Quando passei a morar sozinho, ao chegar em meu apartamento, após um dia inteiro de trabalho, deitava-me na cama, entretanto, não havia o cheiro de amaciante em meus travesseiros e lençóis. Não havia cheiro algum. Era insosso. Cheirava a nada. Eu ainda estava aprendendo a lavar roupas. E todo jovem, em suas primeiras lavagens, se frustra com o resultado: roupas que nem fedem e nem cheiram.

Toda vez que isso acontecia, admirava cada vez mais a minha mãe e seu esmero com as coisas da casa. “Como ela conseguia deixar tudo tão limpo e agradável?” Parecia tão fácil para ela. Ela fazia tudo aquilo com uma naturalidade invejável. Ela assumiu seu papel de mãe e dona do lar. Bateu no peito, como quem diz: “Deixa para mim!”. Executava tudo com maestria: a limpeza da casa, a educação das crianças, toda a parte gastronômica e, principalmente, o amor incondicional para com seus filhos. Se tem algo pelo qual nunca poderei reclamar, é de uma falta de amor. Como eu fui amado! Aliás, sou até hoje. Esta é a função primordial, fundamental e essencial dos pais: amarem seus filhos.

Mas eis o cheiro que eu queria falar: o cheiro de sexo. Escrevi três parágrafos poéticos e líricos para então acabar em sexo. Mas ainda estou no tema que me propus desde o início: antes de tudo, a minha infância foi cheiro, principalmente, cheiro de sexo. O senti pela primeira vez, quando meu pai pediu-me para levar alguma coisa até o seu quarto. Ao adentrar no ninho de amor de meus pais, senti aquele cheiro forte, o qual, na época, não soube identificar — ainda bem. Ora, meus pais tinham acabado de fazer amor. E o cheiro estava no ar.

Com o tempo, como não sou bobo nem nada, percebi do que se tratava o tal odor. Meu irmão mais velho, quando levava suas namoradas lá em casa, toda vez que saíam do quarto, lá estava o bendito e maldito cheiro de sexo. Então, meu querido leitor, o sexo, para mim, foi cheiro antes de ato. Quando iniciei o ato, buscava o cheiro. E que cheiro maravilhoso! Eis aqui mais uma de minhas obsessões sexuais: o cheiro de sexo. Quem não gosta do cheiro de sexo deve se calar quando o assunto é sexo, pois gostar de tal cheiro é fundamental para compreender sobre o desejo da carne.

Quero ir ainda mais longe com minhas obsessões: nada se compara ao cheiro da fêmea, o cheiro original, que exala daquele lugar feminino de onde o desejo pinga. Carinhosamente, o chamo de cio. Ora, qual homem não enlouquece com tal odor? Aquilo evoca pulsões atávicas no corpo masculino. Você, homem que me lê, lembra-se quando o sentiu pela primeira vez? “Eu nunca mais quero sentir outro perfume.” Este foi o pensamento que me veio de imediato. Digo-lhe para você, leitora: nem o perfume mais caro da Dior supera o aroma do cio da mulher — o cheiro genuíno da fêmea. O que me deixa abismado são homens que preferem cheirar carreira de pó do que você-sabe-o-quê!

Outro fato que me deixa abismado, é este mito de que os homens são apenas visuais quando o assunto é sexo. Eles precisam ver a mulher, precisam acender a luz — por isso que muitos não funcionam com as luzes apagadas. Entretanto, isso não serve para mim. Aliás, ver é o de menos. O tato, o paladar, a audição e, principalmente, o olfato, são deveras mais essenciais do que a visão. Eu poderia ser cego para o sexo, contanto que os outros sentidos estivessem intactos. Contanto que eu pudesse cheirar o sexo, ouvir o sexo, lamber o sexo, tocar no sexo.

Vez ou outra eu vejo a mulherada se preocupando com estrias e celulites, com uns pneuzinhos a mais na barriga, com cravos e espinhas, com seus seios pequenos ou muito grandes, ou caídos. Digo-lhe, minha leitora, com sinceridade: Se o homem gosta de mulher, e gosta com todos os sentidos, não será uma celulite que o fará sentir menos tesão por você! É claro que a beleza física importa, mas tome cuidado ao se apegar apenas a isso. Mulheres que vão apenas por este caminho se tornam neuróticas, histéricas e, normalmente, não conseguem chegar ao clímax, pois sexo, para elas, é só pose.

Em conversas de homens, é muito comum quando algum deles enche o peito para falar: “Sabe a fulana, a mais gostosa da empresa? Peguei, mas o sexo não foi tudo isso. É muita pose e pouco sexo.” Suponho que isso aconteça quando a mulher esquece dos outros sentidos, pois para ela, sexo é apenas aparência, é pose, é visual. Ela esquece de gemer no ouvido do homem, esquece de falar sobre o seu desejo; esquece de tocá-lo, acariciá-lo; esquece de escutá-lo; esquece do que é o sexo de fato.

E o que é o sexo? Uma troca de fluidos entre os amantes. E é desta troca maravilhosa de fluidos que advém o cheiro característico do sexo. Este cheiro bendito e maldito, que fez parte da minha infância, que desde a primeira vez que o senti, gostei; responsável por inúmeras loucuras, loucuras boas, loucuras ruins; foi o meu início, foi o meu meio e será o meu fim. Então repito: o sexo, para mim, foi cheiro antes de ato.

PEDRA

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Recebo um abraço, mas só vejo braços mesmo.

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Dou um beijo, mas só vejo uma boca beijando outra mesmo.

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Recebo uma carta de amor, mas só vejo tinta e papel mesmo.

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Toda vez que ela sai de casa, me diz o quanto me ama, mas só vejo palavras mesmo.

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Me deparo com atos de amor, e eu não sei mais o que é o amor mesmo, pois sou cego para a poesia. Tudo é pedra. Só vejo pedra. Tornei-me uma pedra.

O CANALHA DESONESTO

Na última crônica, contei em detalhes o dia em que quase faleci. Isso me fez lembrar de outra vez em que quase bati as botas. Esta história envolve sexo, traição e ciúme possessivo. Se você tem menos de dezoito anos, é melhor parar de ler esta crônica por aqui, caso contrário, não me responsabilizo pela sua saúde mental.

Há uns quatro anos, eu estava em um namoro fadado ao fracasso. E por quê? Os detalhes são muitos — explico os pormenores no Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho —, mas, para resumir, ela era insegura ao extremo, e isso resultava em um ciúme obsessivo. Não havia um dia sem discussões. Eu entrava em casa e pisava em ovos. Houve um tempo em que eu preferia fazer hora extra no trabalho do que voltar para casa. Eis o porquê este namoro estava fadado ao fracasso. E foi o que aconteceu alguns meses depois.

Mas eis o que eu queria dizer. Nesta época, ganhei a oportunidade de ir em uma viagem pela empresa na qual trabalhava. Na verdade, não foi só eu. Se fosse só eu, talvez hoje não estaria escrevendo esta crônica para você, leitor. Meu colega de trabalho na época, o G (O chamarei de G para manter seu anonimato), também foi nesta viagem. E é aqui que as coisas passam a ficar “complicadas”. Explico: há um tempo escrevi uma crônica apresentando o Naldo, o canalha honesto. G também era um canalha, entretanto, não era honesto, era desonesto. Era o canalha legítimo, que mentia para as mulheres para conseguir o que queria. Toda mulher já conheceu um assim.

Eu já sabia de seu histórico, mas, até aí, tudo bem. À medida em que o motorista avançava pela noite, fazendo seu itinerário obrigatório, mais mulheres adentravam naquele ônibus. Elas eram de outras empresas, pois também ganharam a tal viagem. Ao perceber que o ônibus estava repleto de mulheres e de pouquíssimos homens, pensei: “Ferrou! Se minha mulher souber disso, será outra briga daquelas.”

Em pouco tempo, estávamos todos de pé nos conhecendo. G era puro sorriso. Eu o conhecia há tempos. O canalha estava no “modo de caça”. G era tão canalha, que uma vez, enquanto estávamos em um bar, o safado conseguiu trocar mensagens com uma garota que estava sentada atrás de nós, e pegou seu número de telefone. Até aí, tudo bem, né?! Porém, o canalha já estava acompanhado. Sim! A mulher que o estava acompanhando, inocente, não percebeu quando G esticou o braço para pegar o bilhetinho da mesa de trás. É ou não é um canalha legítimo? No outro dia, nos contou o desfecho daquela noite: deixou a “oficial” em casa e terminou a noite com a danada da mesa de trás.

Voltando ao ônibus. Havia uma tal de Renata (nome fictício para manter minha integridade física), que assim como G, era uma canalha. É, meu querido leitor, há canalhas de todos os gêneros. Esta Renata me adicionou no Facebook, e eu fiz a burrada de aceitar. Perceba até aqui a bomba nuclear se formando: namorada possessiva em casa; ônibus cheio de mulheres; eu estava na companhia de G, o canalha; Renata me adiciona no Facebook e eu aceito.

O que falta para tudo isso explodir? Calma, ainda falta muito urânio e plutônio nessa bomba — urânio e plutônio são os principais elementos químicos da bomba nuclear. Viu? Eu também sou cultura.

Enfim, chegamos ao hotel. No outro dia, ainda iríamos nos aventurar em um parque com trilhas, tirolesas, escaladas e etc. Eu e G, obviamente, ficamos no mesmo quarto. Adivinha quem ficou no quarto ao lado? A Renata. Mais uma pitada de urânio na bomba. Entretanto, eu dormi feito um anjo. Acordei no outro dia, revigorado e pronto para escalar montanhas e fazer trilhas. Então G chega até mim e, com um sorriso canalha, diz: “— Tracei a Renata ontem à noite!” Até aí, nenhum problema, apenas mais uma pitada de urânio e plutônio em uma bomba que eu sequer sabia da existência. Ora, G era separado. Ele poderia fazer o que quiser da vida dele. E também, sejamos sinceros: quem aguentaria ser sua esposa? Até tentaram, mas você deve imaginar a dificuldade que era ter de aturá-lo.

O dia neste parque foi maravilhoso. Nada a reclamar e nem a declarar. O problema se inicia na volta para casa. Todos de banho tomado, sentadinhos no ônibus, cada um em seu banco. Eis que meu celular toca. Era minha mulher. Atendo com todo amor do mundo, mas já sou atropelado com a pergunta matadora: “Guilherme, por acaso você pegou essa Renata que está com vocês nessa viagem?” Eu não entendi bulhufas. Falei a verdade. E ela insistia: “Admita! Você está me traindo com ela. Eu sei.” Então minha mulher me liquida de vez: “O marido dela viu que você a aceitou no Face e veio falar comigo. Disse que vai te matar, pois sabe que você traçou a mulher dele.” Pronto: era o que faltava para a bomba nuclear explodir.

Meu mundo caiu, ou melhor, explodiu. Neste exato momento, senti o que é a verdadeira angústia de um homem injustiçado. Ora, como eu poderia provar para a minha mulher, uma possessiva, que eu não havia comido ninguém? E pior: como o marido da tal Renata afirmou que eu havia traçado sua mulher? Pensei comigo: “Um homem traído é capaz de matar. Eu li muito Nelson Rodrigues, e sei disso.” Só pelo fato de o corno ter ido falar com a minha mulher, já mostra tamanha loucura passional. Me afundei na angústia: “Quer dizer, meu colega de trabalho come alguém, eu não como ninguém, e ainda sou eu quem vai levar o tiro. Isso é muito injusto.”

Enquanto toda esta confusão acontecia dentro de minha cabeça, minha mulher me aporrinhava pelo telefone, dizendo que eu estava a traindo e etc. Tudo isso me deixou irritadíssimo. Eu não queria morrer de graça, como se eu fosse o canalha. Já pensava no meu velório: “Por que foi mexer com a mulher dos outros, agora tá aí, crivado de balas… tsc, tsc, tsc.” Fui em direção ao G e entreguei-lhe meu celular: “Diz a verdade para a minha mulher!” O desgraçado não disse a verdade. Mentiu na cara dura. É um canalha, o que eu poderia esperar? Falei para ele: “Cara, eu não vou morrer por tua causa. Admita o que você fez!”

O canalha foi falar com a Renata, para que ela falasse com o marido. Eis que o G chega até mim e diz: “Ela vai trocar uma ideia com ele. Pode ficar tranquilo.” Como confiar em um canalha? Assim que o ônibus parou em um posto de gasolina, fui até ela e disse tudo que havia falado para o G. “Já falei com ele. Meu marido é louco, tem crises de ciúmes.” Pensei comigo: “Deve ser porque você o trai nas viagens da empresa. Só por isso.” A Renata morava em uma cidade que ficava no meio de nosso itinerário. O meu estado de apreensão quando o ônibus parou para deixá-la no ponto, foi algo que senti poucas vezes na vida. Já imaginou se o corno entra armado no ônibus: “Onde está um tal de Guilherme? É um homem alto e de barba!” Não tinha erro.

Para a minha alegria, ele não entrou no ônibus. Que alívio! Agora era só encarar a minha mulher, que, na pior das hipóteses, me faria dormir na sala, mas, pelo menos, não me crivaria de balas. Nos dias seguintes àquele ocorrido, andava ressabiado pelas ruas. Vai que o corno estivesse à minha espera para se vingar, pois um chifre tem a capacidade de fazer até homens covardes tornarem-se assassinos sanguinários. O que sei e posso afirmar com toda essa história, é: não se misture com canalhas desonestos.

Eis aí outra de minhas obsessões sexuais: o contraste

Nunca gostei de motéis. Sempre preferi um galpão abandonado do que motéis. Escrevi uma crônica há uns dois anos sobre isso. Lembro-me até hoje do meu argumento infalível e irrefutável: no motel, tudo é sexualizado. A cama, o teto, as paredes, o banheiro, tudo. O sexo, o desejo entre o casal, é apenas mais uma gota de água dentro de um rio. Não há contraste. Eis aí outra de minhas obsessões sexuais: o contraste.

“Mas o que diabos é o contraste?” Explico. Deixe-me levá-lo para um galpão abandonado — calma, não é nada do que você está pensando. Estou levando o seu pensamento para que entenda o contraste. Ora, o que há num galpão abandonado? Feno? Foices? Teias de aranha? Não sei. A única coisa que eu sei, é: não há nada sexualizado neste ambiente e, justamente por isso, o desejo entre o casal passa a ser o contraste.

O motel é feito exclusivamente para o coito. E, por isso mesmo, é previsível. Lembro-lhe, leitor: o desejo tem ojeriza ao previsível; o que ele ama é o contraste, é o imprevisível. Um galpão abandonado, penso eu, não foi feito para o coito. Por isso mesmo que é neste lugar onde o desejo queima suas entranhas, urrando para ser saciado.

Após escrever estes três parágrafos, dei-me conta de algo: esta é uma obsessão minha, não de você que está lendo. Entretanto, o convido a refletir sobre suas experiências concupiscentes. Aposto que suas melhores lembranças não foram em motéis. Talvez no carro; em cima da máquina de lavar; no meio do mato; no pátio de casa; na mesa da cozinha; na praia; na cachoeira; numa fazenda. Sei lá. O que eu sei e posso afirmar, é: o desejo era o contraste, não o padrão.

Deu para entender? O desejo não se importa com a moralidade e muito menos com o previsível. Muito pelo contrário. Quebrar as regras, correr o risco, fazer o “proibido” e o inesperado, é o motivo pelo qual o desejo incendeia dentro de você.

Talvez você esteja me chamando de tarado por dizer tais “obscenidades”. Mas digo-lhe que tudo que escrevi, foi o óbvio ululante, como dizia Nelson Rodrigues. E, para terminar, mais uma do Nelson: “Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.” Ou seja, você que está lendo este texto também não passa de um tarado ou uma tarada.

O DIA EM QUE EU QUASE FALECI

Por pouco não passei desta para melhor, ou pior. A gente ainda não sabe o que nos espera no outro lado. O ateu militante se oporá: “Não há ‘outro lado’. Após morrer, tudo acaba!” Sempre desconfiei de quem tem certezas sobre a morte. Qualquer ser humano minimamente são, é capaz de conceber a incerteza do abismo. E é justamente quando aceitamos esta incerteza, penso eu, que passamos a nos instalar com os dois pés na realidade.

Mas eis o que eu queria dizer. Na terça-feira da semana passada acordei radiante, quase pleno. Digo isso pois na segunda-feira, tive um dos dias mais cansativos dos meus vinte e nove anos de existência. Fora cansativo, mas, ao mesmo tempo, fora um dos melhores dias da minha vida. E você irá perguntar-me: “Por quê?” Lhe respondo com sorriso nos lábios: porque eu falei para multidões. Pela manhã, apresentei a empresa na qual eu trabalho para os novos colaboradores, como de costume; e à tarde ocorrera o paroxismo monumental, a apoteose da minha alma.

Explico. Recebemos uma turma nova de jovens aprendizes lá na empresa. Não direi os pormenores, mas, para resumir: eles estavam sem atividade alguma. Ficariam a tarde inteira mexendo em seus smartphones de infinitas possibilidades para passar o tempo. Então fui incumbido de uma missão: improvisar. Cheguei na sala na qual estavam. Vinte adolescentes com hormônios à flor da pele me encararam. Pensei: “Eu tenho quatro horas com esses jovens. Vou fazer o que faço de melhor: ser eu.” Meu querido leitor, passei quatro horas interagindo intensamente com aqueles jovens. Ao olhar para aqueles meninos, nervosos ao se apresentar na frente de todos, me enxergava. Passei para eles a minha vivência, o meu conhecimento e muitas coisas das quais aprendi pelo caminho. Enquanto estava lá na frente falando a plenos pulmões, sentia que eu estava no lugar certo. “Nasci para isso”, pensava.

“Mas o que toda essa história tem a ver com você partir desta para melhor?” Calma aí, seu ansioso. Acontece que falar, cansa. Improvisar cansa mais ainda. Ficar de pé exalando energia um dia inteiro, cansa para um cacete! Cheguei em casa realizado, mas quase morto. Ainda fui na academia e segui minha rotina normal de estudos. Naquela segunda-feira, ao deitar-me na cama, apaguei de imediato. Só deu tempo de rezar um Pai Nosso e, de súbito, ir para o mundo dos sonhos.

Acordei-me na terça-feira, como disse, radiante e recuperadíssimo. Sentia-me pronto para outra. A parte triste e cômica desta crônica se inicia agora. Após o almoço, acometeu-me uma dor de cabeça. Não era daquelas insuportáveis, mas era um incômodo. Dor sempre é um incômodo, independente do lugar e do grau. O que uma pessoa normal faz neste momento? Ora, toma um remédio. Infelizmente eu não sou lá alguém muito normal, ou seja, não tomei remédio algum. Sempre evitei tomar remédios. Sou daqueles que só tomo remédio quando não há outra solução, como quem diz: “Tome remédio e viva ou não tome e morra!” Aí eu tomo.

Lembro-me de certa vez, quando tive uma infecção na garganta. Senti aquele incômodo ao engolir, mas pensei: “Vai passar. Meu sistema imunológico vai dar conta.” A dor aumentou. Ao olhar a minha garganta no espelho, deparei-me com minhas duas amídalas inchadas. Pensei: “Amanhã vai estar melhor.” No outro dia, sem conseguir engolir nem a saliva, ao olhar minhas amídalas pelo reflexo do espelho, além de estarem enormes, estavam com placas brancas. Sinal claro de infecção bacteriana. Pensei: “Será que vou ao médico?” Mostrei tal obscenidade para a minha namorada da época. A garota levou um susto: “Meu Deus, Guilherme! Você vai agora para o médico.” Eu fui. Quando o médico abriu minha boca e se deparou com aquela festa de bactérias em cima de duas bolas de tênis — sim, as minhas amídalas estavam tão inchadas, que pareciam duas bolas de tênis —, estarreceu: “Nossa! O negócio tá feio aí. As suas amídalas estão encostando uma na outra de tão infectadas que estão.” Só então tomei antibiótico. E pasmem: curou! Pois é isso o que acontece quando você toma remédios. É tão óbvio, não é mesmo?

Deixe-me voltar à história principal. A dor de cabeça passou. “Uhul! Vitória”, pensei. Infeliz engano. Logo que a dor de cabeça foi para as cucuias, passei a sentir um frio. Ao verificar a temperatura daquela tarde ensolarada, estranhei. Vinte e dois graus e eu tremendo de frio. Havia algo errado. A tremedeira começou a aumentar. Sentia muito frio, mas disse para eu mesmo: “Eu aguento! Capaz que vou no ambulatório médico da empresa por causa de uma tremedeirazinha.” Até que uma colega de trabalho, ao me ver naquele estado quase epilético, perguntou-me: “Você tá bem?” Tentei manter a pose: “Estou bem. Tô apenas com um pouco de frio.” Ela não engoliu minha resposta. Nem eu a engoli. Levantei-me e fui ao banheiro. Sentei-me no vaso e me abracei tentando diminuir o frio que sentia. Nada mais deprimente do que abraçar a si mesmo. Por uns momentos, enquanto tremia feito vara verde, refleti sobre a morte. “E se me der um enfarte? E se eu cair aqui agora e morrer abraçado em meus próprios braços?”

O frio não passou. Tomei a decisão inexorável: “Vou ao ambulatório!” Cheguei lá, expliquei a minha situação miserável e logo fui atendido. A enfermeira, simpaticíssima por sinal, pediu-me para que sentasse em uma cadeira. Assim que sentei, ela enfiou o termômetro embaixo do meu sovaco e, de imediato, amordaçou meu braço com aquele equipamento para medir a pressão. Naquele instante, me senti um desgraçado. Esta sensação piorou quando ela auferiu minha pressão: “Meu Deus, você sofre de pressão alta?” Respondi já esperando um diagnóstico fatal: “Não! Nunca tive pressão alta!” Ela auferiu novamente. Não acreditou que um jovem de vinte e nove anos estava com a pressão em vinte por alguma coisa. Eu nunca lembro do segundo número. Só lembro do vinte. Este vinte se tornará espectral a partir de agora em minha vida. O normal é treze ou doze, mas vinte é demais para a minha idade. E foi justamente isso o que ela falou.

Para eu me sentir ainda mais desgraçado, o termômetro apitou. Eu já sabia: estava com febre: 38,6 ºC. A enfermeira pediu-me para buscar minhas coisas, pois me levaria para o hospital. A caminhada até a minha sala de trabalho foi como a caminhada de um detento indo para o corredor da morte para então ser executado. “Minha pressão chegou a vinte… acabou.” Peguei minhas coisas, avisei meu superior imediato e parti com um enfermeiro para o hospital.


Enquanto estava a caminho da execução, quer dizer, do hospital, só pensava em minha noiva. Não queria preocupá-la. Entretanto, ela tinha de saber o que estava acontecendo. Mandei uma mensagem por WhatsApp dizendo que estava “tudo bem”, que era só febre e que a pressão estava um pouco alta. “Pouco alta”. Esta foi boa. Deus riu neste momento.

O enfermeiro deixou-me em frente ao hospital. Fui até a recepção e fiquei de pé, aguardando. Então uma moça de cara fechada, sem ao menos olhar-me na face, perguntou-me com aquela empolgação de quem ama lidar com o ser humano: “E pra você?”, enquanto digitava algo no computador. Expliquei a minha situação. “Ok, moço. Me passa a carteirinha da Unimed e um documento com foto, por favor.” A maldita não me dava a concessão de um mísero olhar. Nada. Era como se estivesse falando com uma máquina insossa e sem vida.

Se o sujeito chegasse ali em desesperança profunda por estar doente, e então fosse atendido por esta moça, em vez de passar o cartão da Unimed e um documento com foto, ele solicitaria uma corda e perguntaria onde ficaria o ventilador de teto mais próximo. Por alguns instantes, uma pergunta permeou meus pensamentos: “Moça, você já pensou em trabalhar em uma funerária? Lá você lida com mortos. Eu ainda não morri, ok?!”

Após o ótimo atendimento, ela pediu-me para esperar do lado de fora, embaixo de uma tenda. Lembro-me que quando cheguei na tenda e olhei para as cadeiras, só tinha velhos ali. Duas velhinhas e um velhinho. Acenei com a cabeça para eles e sentei-me. Fiquei estático olhando as pessoas passando na calçada, cheias de energia, cheias de disposição. É neste momento que passamos a dar valor na saúde. Ali perto tem uma academia de crossfiteiros. Vez ou outra, para ser ainda mais humilhado pelo universo, passavam uns crossfiteiros. Homens e mulheres com aqueles corpos esculturais, exalando saúde. E os homens, para me humilharem ainda mais, passavam sem camiseta, mostrando aqueles abdomens trincados de tanto músculo. “Não quero morrer com a lembrança de um crossfiteiro sem camiseta.”

Então alguém me chama. Sigo direto para uma salinha. A enfermeira aufere minha pressão e mede minha temperatura novamente. O estado febril permanece, porém, a pressão, para o alívio geral da nação, estava quinze por alguma coisa. Nunca lembro o outro número. De vinte baixou para quinze. Era isso o que importava. Glória a Deus. A enfermeira mandou-me de volta para as cadeiras lá embaixo da tenda. Logo que sento, eis que recebo uma mensagem. Era minha mulher. “Onde você está?” Expliquei para ela que estava embaixo de uma tenda, quase virando “the walking dead”. Ela me achou. Quando a vi, meus olhos rutilaram de paixão. Ela me abraçou. Neste momento eu poderia morrer. Lembro-me de ainda falar para ela: “Amor, se eu morrer, por favor, publica o Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho. O arquivo corrigido está na área de trabalho do meu computador. Te amo.”

Nós rimos. “Pare de falar bobagem, amor. Você é um touro, e não é por causa do chifre.” Ela tem este senso de humor sarcástico mesmo, mas é gente boa. Então ficamos ali, rindo das desgraças da vida até uma outra menina me chamar. Minha noiva, achando que poderia fazer o papel de minha mãe, perguntou: “Posso entrar com ele?” A menina riu e negou o pedido. Novamente na salinha, ela começou fazer algumas perguntas pessoais para então entregar-me o atestado de afastamento. Ora, é óbvio que poderia ser covid-19, por isso eu e minha noiva teríamos que ficar afastados de tudo e de todos. Quando a menina perguntou o nome completo da minha mulher, de súbito, deu-me um branco, fiquei lívido, mas não por causa das enfermidades que me acometiam, mas por causa do meu esquecimento: não sabia soletrar “Helfstein”. Sim, este é um dos sobrenomes da minha mulher. Tive que chamá-la.

Com o atestado feito, só faltava a avaliação do médico. Pois em seguida chegou o homem. O que a atendente tinha de amargurada, o médico tinha de docilidade. Gente boníssima. Explicou-me todos os pormenores da covid; sobre os remédios que eu iria tomar; sobre os sintomas que acometeram-me; enfim, deu-nos uma palestra de conhecimento e de bom atendimento. Saí do hospital com um sorriso no rosto.

Dois dias depois fiz o teste para a covid-19. E, diga-se de passagem, é um teste desconfortável para um cacete! A enfermeira, antes de enfiar-me aquele cotonete monumental nas narinas, vira-se para mim e pergunta: “Já fez o teste antes?”. Respondi firme: “Nunca!”. E ela: “Se prepare, pois não tem quem não chore!”. Pensei: “É assim que você acalma seus pacientes?” E era verdade. Chorei. Mas calma. Se você for fazer o teste, adianto aqui: não dói, mas é um incômodo. Ô se é. Não é confortável alguém enfiando um cotonete cheio de cerdas dentro de suas narinas. Um cotonete que possui a capacidade de tocar no seu cérebro.

Passei o resto do dia aguardando o resultado. Não estava preocupado. Não tinha mais nenhum sintoma. Aliás, no outro dia, após quase falecer, já estava exalando saúde. Mas eis que recebi o resultado: não reagente. Não sabia se ficava feliz ou triste. Se por um lado, não estar com a covid era algo bom, por outro lado, eu estava no escuro, pois não sabia o que diabos me pegou. De qualquer forma, nas raras vezes que sou acometido por alguma enfermidade, olho ainda mais para a face da morte. “Como seria se eu morresse hoje?”, “O que eu deixaria de legado?”, “Como as pessoas se lembrariam de mim?”. E não penso nisso de uma forma desesperada, apenas de uma forma reflexiva. Às vezes é importante para darmos valor no que realmente importa. Ah, e antes que eu me esqueça: nada como ficar doente e ter alguém para segurar-lhe a mão. Lute para ter este alguém em sua vida. Ninguém deveria ficar doente e sozinho; ninguém deveria ficar triste e sozinho; enfim, ninguém deveria envelhecer sozinho.

E se eu morrer na praia?

“O esforço que cria valor, gera riqueza, mas o esforço pelo esforço é desperdício.” Li esta frase numa foto do Thiago Nigro, o Primo Rico, e tive a audácia de discordar. Eu sei, você deve estar pensando: “Como alguém discorda do Primo Rico? Veja onde ele está e veja onde você está! Você é um bosta perto dele!” Ok, eu entendo a sua indignação. Entretanto, pelo menos, dê uma chance para este texto e deixe-me explicar o meu ponto.

Semanalmente, recebo mensagens de algumas pessoas angustiadas, com medo de que seus projetos fracassem, de que todos seus esforços sejam em vão. É um medo legítimo. Já passei muito por isso. Ora, eu criei uma Confraria por assinatura, vou lançar o meu terceiro livro, faço atendimentos psicoterapêuticos, gravo aulas e podcasts, e estou envolvido com estudos e com a escrita semanalmente. E se eu fracassar em tudo isso? E se este esforço todo for um desperdício, pois ainda não me gera riqueza e nem liberdade financeira?

Há algo que aprendi nos últimos tempos: nenhum esforço é desperdício. E tudo isso se trata de como você olha a sua realidade. Pensa comigo: o esforço, por obrigação, lhe tira da zona de conforto; e nós só crescemos no desconforto. Então, se seu projeto fracassar financeiramente, ou seja, se ele não lhe gerar riqueza monetária, olhe para o outro lado: ele lhe tornou alguém mais capaz. Você adquiriu novas habilidades, aprendeu novas técnicas, ficou mais forte e tornou-se alguém mais responsável. Vai me dizer que isso também não é riqueza?!

Eu nunca cresci tanto como nos últimos dois anos. Aprendi a gravar e a editar vídeos; minha escrita melhorou consideravelmente, assim como minha comunicação; desenvolvi uma criatividade absurda para conseguir postar quase que diariamente; nunca li e estudei tanto como nos últimos tempos; e agora estou aqui, muito melhor do que ontem. Será que tudo isso é desperdício?

Alguém poderá falar: “Já pensou você nadar assim e morrer na praia?” Antes de todo este esforço, eu já estava morto na praia. O que me fez ressuscitar como um Lázaro, fora o meu envolvimento com todos estes projetos, os quais me fazem levantar pela manhã, pois tornam a minha vida repleta de significado e sentido.

MEU AMOR PURO PELA AVRIL LAVIGNE

Neste último final de semana, enquanto fumava um cachimbo e bebia uma cerveja, eis que começa a tocar, de maneira aleatória no YouTube, Avril Lavigne. Sim, este é um dos momentos sublimes do fim de semana aqui de casa: fumar um bom cachimbo, beber uma cerveja encorpada e ouvir boa música. Eu sei, você deve estar pensando: “E desde quando Avril Lavigne é ‘boa música’?” Calma, deixe-me explicar. O YouTube a escolheu entre outras milhões de opções. Num momento tocava Johnny Cash, com aquela voz tonitruante e letras profundíssimas; e então os algoritmos do YouTube resolveram me sacanear colocando Avril Lavigne para tocar.

Eis onde quero chegar: estou mentindo para você que me lê. A Avril Lavigne foi um dos meus primeiros amores na vida. Qual o homem heterossexual que nascera nos anos 90 não se apaixonou pela Avril? Todos se apaixonaram! A música aleatória que se iniciou foi I’m With You. Imediatamente fui levado para 2002, quando eu tinha acabado de completar 10 anos de idade. Nesta época eu ainda era puro e inocente. Nem tanto, nem tanto. Mas eu não havia nem descoberto os prazeres do onanismo e sabia pouquíssimo sobre os pecados da carne. O máximo que tinha visto até aquele momento fora uma prima nua, que esquecera de trancar a porta do banheiro; e recordo-me também de ver umas revistas Playboy, que eram do meu irmão, com quase todas as páginas coladas. Você, moleque que nascera nos anos 2000, não deve ter tido a experiência de colar revistas adultas, né? Crônica para outra hora.

Deixe-me voltar à Avril. Conheci ela por causa de um de meus melhores amigos, o Murilo, que era um dos únicos conhecidos que tinha computador e internet em casa no ano de 2002. Lembro-me de um certo dia, ao chegar à casa dele, o menino, já encantado, atirou-me na cara sua empolgação: “Eu preciso te mostrar uma coisa!” Ele havia feito o download de dois clipes da Avril: “Complicated” e “Sk8er Boi”. Assisti primeiro Sk8er Boi e logo descobri o porquê da empolgação do Murilo. Após assistir ao clipe de Complicated, de súbito, decretei: “Eu nunca mais quero parar de escutar e de olhar pra essa garota!” Ficamos uma tarde inteira escutando as duas músicas como se fôssemos dois servos venerando uma deusa da antiguidade.

E você leitor irá indagar: “Mas o que essa Avril tem?” Eu não sei responder. Ok, ela era linda, mas não era só isso. Ela conversava diretamente com jovens entrando na puberdade. Ela passava para nós, pré-adolescentes — vulgos pré-punheteiros —, uma pureza de moça frágil e recatada, mas, ao mesmo tempo, também nos passava a imagem de uma garota rebelde e líder de uma banda de rock. Então juntou a fome com a vontade de comer. Todo jovem daquela época queria ter uma banda de rock e casar com uma garota como a Avril.

A partir daquele dia, ao deitar-me à noite para dormir, tecia minhas fantasias com a rockstar favorita dos pré-adolescentes. Mas não havia nada de sexual, absolutamente nada. Como falei, eu ainda carregava uma pureza infantil. Minhas fantasias se baseavam, na maior parte das vezes, em um ato heroico. Explico: a Avril passava por algum perigo, e lá estava eu, firme e forte para salvá-la. Ela era o meu amor puro, o amor sem desejo sexual algum, era o amor pelo amor. O meu desejo era simplesmente segurar-lhe sua mão, abraçá-la, fazê-la rir, protegê-la de todo o mal. Era puro. Não havia concupiscência.

O próximo passo desta paixão avassaladora foi atormentar meus pais. Eu precisava comprar seu álbum, o Let Go. E custava, na época, uns R$ 30,00. E trinta reais era muito dinheiro. Eis que após muita insistência, consegui o montante. Corri de imediato para a única loja da cidade que vendia CD’s. Comprei o ouro. Voltei para casa felicíssimo. Agora eu poderia ouvir a minha musa inspiradora eternamente. Foi o que fiz. Por dias escutei aquele álbum de cabo a rabo. Decorei todas as faixas, ficava horas vendo as fotos do encarte e tentava traduzir aquelas palavras em inglês. Cheguei a um ponto de me trancar no quarto várias vezes durante a semana, colocar o álbum da Avril e fantasiar que eu era o seu guitarrista. A minha imaginação era fértil, convenhamos.

O amor durou até eu descobrir que me trancar no quarto para ver as mulheres nuas da Playboy, me dava mais prazer carnal do que escutar a Avril. Pronto! O desejo carnal matou meu amor verdadeiro pela Avril. Adeus amor puro. A partir de então, a Avril deixou de ser a minha musa inspiradora e tornou-se apenas uma garota que tocava umas musiquinhas legais, as quais raramente eu escutava.

Entretanto, o fim completo do nosso romance, aconteceu após eu ouvir, de maneira despretensiosa, um de seus álbuns mais recentes. Fiquei decepcionado. Não havia mais pureza naquela menina, assim como não havia mais pureza em mim. Nós dois nos entregamos aos prazeres do mundo e perdemos a capacidade do amor puro. É triste, mas é verdade. Portanto, hoje, ao escutar qualquer música daquele álbum que tanto me marcou, me vem a nostalgia de quando eu ainda era um homem bom que sonhava em amar uma única mulher com aquele amor puro. Eis a verdade: após ter a minha primeira experiência sexual, comecei a morrer. Não é à toa que anos depois tornei-me um canalha completo. O sexo só faz pulhas e canalhas.

Estes dias, mais uma vez, iniciou-se uma música aleatória no YouTube. Não era a Avril, era um clipe da Luísa Sonza. Tive dificuldade de saber se estava no YouTube ou no PornHub. Eu olhei aquilo e permaneci estarrecido. Então minha noiva disse: “Sabe quem é essa? É a Luísa Sonza, a que era casada com o Whindersson!” Eu duvidei. “Não pode ser.” Em seguida ela me mostrou um vídeo da Luísa e do Whindersson lá em 2016, ambos apaixonados numa lancha. Ele: virado em sorriso, cheio de amor, tocando violão; e ela: cheia de vida, com uma pureza de alma, com uma certa timidez, cantava com uma voz doce, uma letra sobre amor. De súbito, acometeu-me uma tristeza.

“Valeu a Pena.”

Há uma pergunta que me persegue: “Quando será o casamento?” De todos à minha volta: pais, colegas de trabalho, sogros, amigos. Minha mulher, felicíssima, até já comprou o vestido para a cerimônia. Ela sempre quis entrar na igreja de noiva. Faltava-lhe o homem que a esperasse no altar. Agora não falta mais! Eu, um homem que nunca havia acreditado que casaria. E digo isto com pudor da minha pusilanimidade. Casamento, para mim, sempre fora algo grande demais, dispendioso demais, arriscado demais. Aliás, olhei tantas coisas na minha vida como “grandes demais”, e, por isso mesmo, virava-me de costas para elas; e então voltava-me para o caminho conhecido, ordenado e seguro.

Sempre fui um mesquinho de uma figa. Reclamão de primeira categoria. Prudente até o talo. Diante de um problema, esbravejava. Diante de um desafio, sofria antecipadamente. Sim, eu era demasiadamente ansioso, justamente por tentar controlar o que é incontrolável: o mundo, e, por não conseguir tal façanha, entristecia-me, ficava mal-humorado. Eu deparava-me com colegas de trabalho ganhando uma micharia e construindo casa, casando e etc. E eu permanecia lá, na mesma situação medíocre, pensando em tudo e não construindo nada.

O que quero dizer para você, leitor, é que podemos ser tantas coisas, mas não sejamos mesquinhos, pelo menos isso. É preciso colocar o pau na mesa! As maiores coisas que faremos na vida, é preciso simplesmente agir com o coração. Um coração que pulsa, feito de carne. É preciso abrir o peito para a vida, como quem diz: “Estou aqui! Pode vir!”

Mas eu mudei. Foi um processo que levou tempo, leitura, reflexão, humilhação, erros, autoanálise e enfrentamento. Passei a ver a vida com outros olhos, com olhos mais atentos e aguçados. Me corrigi. Melhorei minha postura. Passei a mirar no maior bem possível. Encontrei-me comigo mesmo. Achei meu propósito.

Sim, eu vou casar, terei filhos, irei construir minha casa, abrirei minha empresa, escreverei diversos livros, amarei minha esposa, amarei meus filhos, protegerei os meus entes, ajudarei a comunidade como eu puder e, quem sabe, ao fazer tudo isso, ao chegar no final da vida, eu olhe para trás e diga, com olhos rútilos: “Valeu a pena.”

FLORES AMARELAS

Estes dias, ao ir para o trabalho, de súbito, um pensamento surgiu em minha consciência enquanto caminhava. E foi assim, do nada! Ele simplesmente emergiu de algum lugar. Vez ou outra, isso acontece comigo. Estas coisas me intrigam. Por que este pensamento? Por que agora? Lembrei-me da época em que fiz as aulas práticas da autoescola. Espere! Minto. Este pensamento surgiu porque avistei um carro de autoescola — e juro para você leitor, que só agora lembrei do carro da autoescola —, andando daquela forma extremamente cuidadosa e irritante ao dobrar uma esquina sem movimento algum. Paciência.

Se irritar com os aprendizes a motorista é a regra. Mas não é isso o que eu queria dizer. Lembrei-me do meu instrutor na época: um ruivo, estilo irlandês, de quase dois metros de altura, costas largas, cara de cavalo, mãos de raquete. Era um brutamontes. Ele tinha tudo para botar medo em qualquer aluno cagão, mas ele usava óculos. Eis a sua docilidade: os óculos. Os óculos faziam toda a diferença. Já repararam nos maiores vilões da humanidade? Hitler, Lênin, Stalin. Nenhum usava óculos! Se usassem óculos ao invés de bigode, presumo que o mundo não teria cicatrizes tão doloridas e profundas. Cem milhões de mortos, mais ou menos.

Por outro lado, não há muitos heróis de óculos. Você pensou no Super-Homem? Eu também. Mas o Super-Homem só usava óculos quando não estava na sua vida de herói, ou seja, quando ele não era o Super-Homem, apenas um simples repórter de uma redação que precisava se disfarçar. Peter Parker, o Homem-Aranha, a mesma coisa. Na sua vidinha de aluno e jornalista, lá estavam os óculos, mascarando sua agressividade, mascarando sua pose de herói. Os óculos tornam os homens inofensivos. É isso! Cheguei onde eu queria. Ninguém bate em alguém de óculos. É humilhante! Dá pena. Agora entendi porque minha mulher adora me ver sem óculos, pois me transformo quase num Super-Homem cheio de virilidade. Menos Guilherme, menos.

Se semana passada eu disse aqui que roupa define caráter, por que não um acessório, como um par de óculos? Já imaginaram Hitler de óculos de grau, bermuda xadrez, chinelo de dedo e regata? O holocausto não estaria nos livros de história. Falei tudo isso e ainda não cheguei na reflexão principal, a qual me fez iniciar esta crônica. Bem, o meu instrutor brutamontes e inofensivo da autoescola, certo dia, enquanto me indicava as ruas pelas quais eu deveria passar, pediu-me para que eu parasse em frente a um gramado alto. Assim que parei o carro, ele desceu e foi até lá, onde havia umas flores amarelas, as quais não sei o nome. Eu fiquei olhando aquilo e pensando: “Por que diabos ele está pegando essas flores?”

Assim que entrou no carro, explicou: “Sempre que posso, paro aqui e levo essas flores para a minha mulher. Ela adora.” Este fora um dos atos mais doces e românticos que presenciei até hoje. E ele falou isso de uma maneira natural e sincera. Ele não tinha vergonha de seu romantismo, como a grande maioria dos homens têm. Nós, homens, na frente dos amigos, nos orgulhamos de sermos pulhas e canalhas, mas nos envergonhamos quando expomos nosso lado romântico. Esta cena me salvou. Eu que estava em um relacionamento no qual já havia perdido o significado e o romantismo, ao deparar-me com este ato, pensei: “Sou um merda!”

Esta cena não salvou meu namoro, mas salvou aquela fagulha de romantismo que havia dentro de mim. Aquelas flores amarelas fizeram uma fagulha romântica se transformar em um fogaréu vivo. Lembro-me de parabenizá-lo pelo ato de levar as flores amarelas para sua mulher. Em seguida fiz a confissão humilhante: “Eu era romântico no início, depois tudo se acabou.” De súbito, ele respondeu: “Este é o problema da maioria dos casais, eles deixam a rotina acabar com os pequenos romantismos.” E hoje eu penso que talvez, o ato de parar para recolher algumas flores amarelas num extenso gramado verdejante, fora um ato tão pequeno. Ora, é só parar o carro, descer, pegar as flores e pronto. Então por que não fazemos?

Talvez este ato seja pequeno para quem se deixou afogar pela liquidez do mundo moderno. Mas digo-lhe, leitor: este ato é gigante, pois se trata de um ato de amor, e qualquer ato de amor é monumental. É um brutamontes dócil, que no meio de seu trabalho, pede para o seu aluno parar o carro, enquanto ele vai até aquele gramado alto para pegar flores amarelas para sua mulher. Imagine esta mulher recebendo estas flores. Imagine o quão amada ela se sentiu ao ver o marido chegando em casa com flores amarelas nas mãos e dizendo-lhe: “São pra você!” Já falei por aqui e repito: um momento pode fazer uma vida inteira valer a pena. E esta cena das flores amarelas são um destes momentos.

Para passar o tempo, eu e o instrutor brutamontes, inofensivo e romântico, conversávamos muito sobre nossas vidas. Havia algo que ele falava de maneira obsessiva: dizia estar juntando dinheiro para comprar uma casa com sua mulher. E eu espero, do fundo do meu coração, que eles tenham conseguido comprar a casa, que estejam felizes, que se amem além da vida e além da morte, e, principalmente, que ele ainda leve flores amarelas para ela.

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