ANDAR A PÉ CONSTRÓI CARÁTER E LHE ENCHE O ESPÍRITO DE VITALIDADE

Desde que me conheço por gente, ando a pé. Lembro eu, pequenino, a acompanhar minha mãe no itinerário nosso de cada dia: casa, hotel da minha vó, centro, mercado, casa. Eu, vez ou outra, fazia birra. Não queria caminhar. Minha mãe encarava-me com uma face de poucos amigos. Às vezes, apenas com aquele olhar tirânico, eu engolia o choro e continuava na sua cola, sem reclamar, sem dar um pio. Porém, lá de vez em quando, ela precisava me dar alguns puxões de orelha. E ela fazia isso no meio da rua, sem pudor algum. Paciência não era o seu forte. E sejamos justos: eu mereci cada puxão daqueles. Ora, onde já se viu uma criança ficar de birra por ter de caminhar? Ou pior: por se negar a ir comprar uma carteira de cigarros para seus pais?

Naquele tempo, as crianças podiam comprar cigarros e bebidas alcoólicas nos estabelecimentos comerciais. O moleque saía de casa pensando: “Poxa vida, estou compactuando com a morte lenta de meus pais! Estou indo buscar o câncer deles!” Mentira. Eu apenas saía reclamando em pensamentos por ter de caminhar até a mercearia mais próxima. Pura preguiça.

Quando comecei a estudar, também: tudo a pé. Ia e voltava da escola a pé. Ao entrar na puberdade e adolescência, momentos da vida de um homem regado a festas e bacanais homéricos — não para mim —, meu meio de locomoção eram as pernas. Normalmente, ia e voltava das festas a pé, às vezes sozinho, às vezes com amigos e, às vezes, com conhecidos embriagados. No paroxismo da madrugada, lá estava eu, a voltar para casa a pé. De rua em rua, eu olhava para o céu e percebia a beleza da escuridão, a beleza das estrelas e a beleza da lua e das ruas. Lembro-me de fazer reflexões profundíssimas — deixe-me corrigir: profundíssimas partindo daquela minha consciência de dezesseis anos, pois, uma das verdades mais fundamentais de nosso século é que ninguém é profundo aos dezesseis anos. Talvez Kafka, talvez.

O leitor deve estar se perguntando: “Mas por que não usavam o carro?” Ora, porque não tínhamos carro. Então fazíamos tudo a pé. Mas veja o lado bom. Naquela época eu percebia mais o mundo à minha volta, pois além de não possuir um carro, também não possuía celular com internet móvel, aliás, fui ter um celular com internet só lá em meados de 2013 ou 2014. O máximo que um celular poderia me entreter, na adolescência, era com o jogo da “cobrinha”. De resto, vivíamos mais próximos da humanidade, ou melhor, vivíamos com a humanidade.

Após mudar-me para Foz do Iguaçu, em 2011, apesar de meu irmão ter um carro, nossos horários eram divergentes. Então lá ia eu, mais uma vez, a pé. Para o meu estágio, para a academia e para a faculdade à noite. Espere, minto. Certa vez comprei uma bicicleta, mas, como todo mundo que compra uma bicicleta, a usei por um ano e depois a deixei enferrujar em um canto. E o leitor, mais uma vez, poderá indagar: “Mas por que não pegava ônibus?” Eu preferia caminhar quatro quilômetros do que pegar um ônibus. Evitava ao máximo pegar um ônibus. Eu sempre tive horror a ônibus. E por quê? O ônibus, normalmente, era um lugar de gente triste e de um sentimento coletivo de desesperança.

Eu olhava aquelas mulheres passando a catraca — eram as mulheres que me chamavam a atenção —, com suas bolsas e sacolas, que pareciam, muitas vezes, pesadíssimas. Elas sentavam-se em algum banco sujo, ao lado de algum velho tarado que fedia a álcool, e suas faces eram de uma amargura monumental. Raramente havia algum riso ou algum parecer de felicidade sobre aquelas almas femininas. Nada. Eu pensava comigo mesmo: “Não era para essas mulheres estarem aqui, carregando sacolas, num calor de quarenta graus, aguentando todo tipo de pulha. Eu sou homem. Eu fui feito para essas mazelas. Estas moças eram para estar em casa, protegidas deste mundo injusto, cuidando do lar e da família. Em algum ponto a gente errou como civilização.” Este era o pensamento que passava pela minha cabeça toda vez que eu pegava um ônibus.

Eis o que eu queria dizer. Tudo na vida há de ter um lado bom, e caminhar tem vários. Em meu primeiro namoro, nunca esqueço-me quando minha namorada, com olhos rútilos de desejo, elogiou-me assim, de súbito: “Nossa, amor, como eu amo suas pernas! Elas me excitam!”. Ouvir aquilo foi alento para o meu ego frágil e melancólico. Eu não estava acostumado com elogios cara a cara vindo daquela mulher. “Já caminhei muito nessa vida. Por isso!” Disse eu, com um certo ar de superioridade enquanto exaltava meus músculos protuberantes das pernas. Me senti como aqueles homens que passaram por uma vida inteira de mazelas e então se encontram diante de um jovem rapaz, que ainda não sabe bulhufas da vida. É um prato cheio para o ego do sujeito.

Mas não pense, você, leitor, que caminhar ajuda apenas no porte físico. Não, senhor! Andar a pé constrói caráter e lhe enche de vitalidade. Percebi isso esta semana, ao ir, depois de muito tempo, a pé para a academia. Hoje eu tenho a possibilidade de ir de carro para qualquer lugar. Pernas, para que te quero? Estava indo trabalhar de carro, voltava de carro, seguia para a academia de carro, voltava de carro e etc. Eis que esta semana minha mulher precisou utilizar o carro e me deixou a pé. Saí de casa em direção à academia e não levei celular. O sol estava se pondo no horizonte, o crepúsculo logo se iniciaria. O ar fresco lufava a minha face. As aves gorjeavam no céu. Eu inspirava e expirava aquele ar límpido, profundamente. Maravilhoso! A vizinhança idosa, que há muito não cumprimentava pois estava sempre de carro, agora os cumprimentei, um a um. Abanei para eles, vi seus rostos e seus sorrisos depois de muito tempo. Pareciam felizes em me ver. Passei por algumas crianças que brincavam a esmo na calçada e lembrei da minha infância. Quanta felicidade e quanta paz de espírito que senti apenas com uma caminhada. Pode parecer uma descrição piegas, mas hoje, para o nosso mundo líquido e insosso, qualquer descrição de sentimentalismo é piegas.

Perceba, você, leitor, que nesta caminhada curtíssima enchi o meu espírito de vitalidade. Senti o mundo real, a vida real, voltei à humanidade. Andar a pé também lhe permite refletir, ficar consigo mesmo. Eu já perdi as contas de quantas ideias me surgiram para crônicas, contos e romances por meio de um simples ato: o ato de caminhar. Inclusive esta crônica ocorreu-me na caminhada. E quantas vezes obtive respostas para perguntas que estavam a consumir minha consciência? Diversas vezes. Tome tento, homem, e caminhe, mas não leve smartphone ou qualquer outro aparelho digital. É você e Deus. É você e a vida pulsante à sua volta.

Hoje o sujeito levanta, e antes de dar um “bom dia” para sua amada, olha o celular; sai de casa apressado, entra no carro, segue para o trabalho; passa o dia inteiro atrás de uma máquina fazendo tarefas repetitivas e automáticas; volta para casa de carro; em casa, em vez de conversar com a esposa, prefere ficar apático em seu smartphone, longe do mundo real, longe da vida pulsante. E assim ele segue, dia após dia, se afastando de tudo que importa. Com menos de trinta e cinco anos, este sujeito passa a sofrer de ansiedade. Algumas neuroses, que antes não lhe causavam sofrimento, agora passam a fatigá-lo de uma maneira irascível. Ao procurar ajuda, recebe também o diagnóstico de “depressão”. Seu casamento, que vinha de mal a pior, principalmente por falta de afeto, termina de uma vez. Sem esperança alguma, sem motivação para levantar-se da cama, o que lhe resta? Ressentimento? Suicídio? A vida deste sujeito esvaiu-se de dentro dele. E por quê? Por falta de vida real, por falta de humanidade.

Não quero finalizar esta crônica de uma forma trágica, por isso lembrei-me de quando estava a conhecer minha namorada, numa das primeiras vezes em que ela fora lá em casa, eu, inocente, arrisquei um convite inesperado num domingo de tardezinha: “Vamos dar uma caminhada?” Ela encarou-me com uma face de poucos amigos, exatamente como a face de minha mãe no tempo em que eu fazia birra ao ter de acompanhá-la a pé em nosso itinerário. Pelo menos, desta vez, não levei um puxão de orelha. Ela apenas não estava acostumada a receber convites de homens para caminhar. Após um silêncio, ela me dá sua resposta triunfante: “Quê?! É sério?” Era tão sério que estou com a moça até hoje.

UM PAI, POR OBRIGAÇÃO, DEVE TER UM ANTEBRAÇO LARGO E FORTE

Neste final de semana peguei a estrada, minto: pegamos a estrada. Eu, minha mulher e o Adão, nosso gato preto da sorte. Deixe-me fazer um breve comentário antes de continuar a crônica. Nada como ter um gato. O Adão, apesar de pequenino e de ser apenas um bicho “irracional” — coloco entre aspas, pois, às vezes, penso que o Adão não é tão irracional assim —, preencheu a nossa casa de compaixão e fofura. Minha mulher, ao se direcionar a ele, volta a ser uma menina melíflua e doce. Eu também, não vou mentir. Imaginem: um homenzarrão de 1,92, barba por fazer, voz grave, ao pegar o Adão no colo, de súbito, transforma-se em um poço de sensibilidade e comiseração. A voz afina de imediato, a postura — que antes era de um homem ereto como um mordomo de filme inglês — agora, com aquele bichinho inocente no colo, fica comprometida, curvada.

Ao falar com o Adão, usamos o menor número possível de consoantes e letras que carregam um som “mais autoritário”, “mais sério”. Minha mulher o chama carinhosamente de “pocalia”, ao invés de “porcaria”. Tira-se o ‘r’, e insere-se um ‘l’. Imagine-se em uma discussão. Seu oponente, de súbito, lhe adjetiva: “Seu pocalia!” Não haveria discussões, brigas e guerras no mundo se usássemos a linguagem do Cebolinha (Turma da Mônica).

Dias atrás ouvi o hino da antiquíssima União Soviética. De imediato invadiu-me uma motivação cujo resultado fora pensamentos beligerantes: “Preciso de uma arma para acabar com o capitalismo!” Deixe-me voltar ao Adão. Reparem na seguinte cena. Minha mulher entra em casa, desarma-se ao ver o Adãozinho, e, em seguida, diz: “Vem cá, pocalia da mãe.” E lá vem ele, todo pomposo. Eu e ela podemos estar irritados um com o outro, fulos da vida com algum infortúnio, mas, ao abrir a porta de casa e deparar-se com o Adão, lá se vai a cólera.

Mas eis o que eu queria dizer. Antes de partirmos da cidade, passamos no posto para abastecer o carro. Enquanto o frentista enchia o tanque, tive uma epifania. Lembrei-me da infância, lembrei-me de meu pai e da minha profunda admiração por aquele homem de antebraço forte — todo pai da velha guarda possuía um antebraço grosso, duro, pulsante. Antigamente se trabalhava fazendo força. Tenho diversas lembranças de infância, onde meu pai está a fazer força, seja trocando o pneu do caminhão, seja enlonando e amarrando a carga, mas lá estava ele, com seu antebraço sujo de graxa exalando confiança. Da minha geração em diante, nascemos todos deficientes de antebraço, e pior, não carregamos um mísero saco de batatas para engrossá-lo. Eis o declínio físico e moral do homem moderno.

Meu pai é caminhoneiro, e mais: tem alma de caminhoneiro. Ele não está apenas cumprindo uma função monótona como um funcionário dos Correios. Não. Meu pai trocou o Bradesco para ser caminhoneiro. Há de se admitir que ser caminhoneiro é sua vocação. E eu sabia disso desde criança. Na minha tenra cabeça já era impossível separar “pai”, “caminhão” e “estrada”. Tornaram-se sinônimos espectrais.

Ao despedir-se de mim para pegar a estrada, começava meu choro sincero. Meu pai era o meu herói, era como se ele estivesse saindo de casa para caçar bandidos. E caçar bandidos é perigoso. Ora, ele poderia não retornar para casa. A primeira vez que tomei consciência que poderia perder meu pai para a estrada, foi quando, em uma viagem com ele, nos deparamos com um acidente. Lembro-me de ver, com olhos curiosos de criança, o motorista do caminhão, esmagado pelo próprio para-brisa. Aquilo marcou-me com força. E você, leitor, poderá indagar: “Como seus pais deixaram você ver tal horror?” Bem, eles não deixaram, mas eu espiei. Como disse, olhos curiosos de um garoto que estava a descobrir o mundo. Não consigo esquecer a face de sofrimento do morto. “Poderia ser meu pai ali.” A partir daí, toda vez que meu pai chegava de viagem, era um alívio, era uma vitória. Ao ouvir o som tonitruante do motor ecoar pela General Osório, um sorriso de orelha a orelha invadia-me os lábios. “É o pai, mãe! É o pai!”

Eu o esperava na porta de casa. Ele descia do caminhão e, apesar de cansado, me colocava em seu colo. Ao abraçá-lo, o cheiro que eu sentia era sempre o mesmo. Uma mistura de óleo diesel com tabaco. Talvez venha daí a minha adoração pelos aromas de elementos inflamáveis: gasolina, fósforo, querosene e etc. Minha mãe, normalmente o esperava com a janta na mesa. E nós dois ficávamos ali, com olhos rútilos, ouvindo meu pai relatar toda a sua jornada.

Na minha cabeça de criança, um homem dirigir um caminhão — algo grandioso e pesado — e, além disso, partir do Rio Grande do Sul até o nordeste do país, era um desafio insano. Apenas super-heróis poderiam fazer tal feito. Eu pensava comigo: “Será que um dia eu conseguirei fazer isso? Como meu pai não se perde na estrada? Como ele consegue ir e voltar toda semana?” Vez ou outra, ao viajar com ele, parávamos na praia de Itapema, em Santa Catarina. Entrávamos no mar. Meu pai, com seus braços fortes e antebraços largos, me colocava em seus ombros. Eu me sentia um gigante, eu me sentia seguro, pois estava com o meu herói. Naquele momento poderíamos enfrentar um tsunami. Eu olhava para aquele homem e o admirava. Meu pai, meu herói.

Hoje eu também pego a estrada, mas não vou de caminhão, vou de carro. E não vou até a Bahia ou até Minas Gerais, vou, no máximo, até Foz do Iguaçu. Espero que meu filho tenha, pelo menos, metade da admiração que tive pelo meu pai na infância. Mas, como disse anteriormente: não se fazem mais homens de antebraços largos e fortes. Um pai, por obrigação, deve ter um antebraço largo e forte. Acho que descobri mais uma de minhas obsessões.

AQUI NO BRASIL HÁ UM HITLER EM CADA ESQUINA

Aqui no Brasil, há em nosso cotidiano, um Hitler em cada esquina, porém, sem poder, sem exército. O leitor poderá assustar-se com tal afirmação, mas hei de explicá-la ao longo da crônica. Abra o seu Twitter — se não tiver, melhor ainda, você deve ser uma pessoa com mais paz de espírito e bom senso —, quem é o “cancelado” da semana, ou melhor, do dia? Quem precisamos odiar no dia de hoje? Fiquei sabendo, na véspera, que os cancelados do momento era o Leo Lins e sua esposa. A moça, ao gravar um stories no Instagram, onde filmava o Leo encarando o chão e pensando em algo, tomou a infeliz decisão de chamá-lo de “autista”. Pronto! Já bastou para os hitlerzinhos saírem do armário. Os ditadores de plantão passaram a ameaçá-los de morte. Repito: ameaçá-los de morte! E fizeram pior: como se não bastasse ameaçar o Leo e sua esposa, a SS (polícia do Estado nazista) foi ainda mais longe, ameaçaram os pais do casal.

Não há possibilidades de darmos certo. De súbito, pensei: “Quantas e quantas vezes a minha mulher me chama de autista?” Diversas vezes. E por quê? Simplesmente porque, amiúde, me recolho em meu mundo e fico ali, a olhar para o nada, pensando em tudo — Essa foi ruim, hein. Ela está apenas usando uma analogia para definir-me. A gente ainda vai chegar em um ponto, onde o Estado, apoiado pelos hitlerzinhos de plantão, terá o monopólio da linguagem, e, obviamente, será proibido analogias, figuras de linguagem, metáforas, piadas e qualquer palavra que ouse “ofender” alguém ou algum grupo específico. Quem vai pagar para ver? Na crônica da semana passada, tirei sarro dos pronomes neutros e das “vítimas” de gordofobia. Eu, sinceramente, não duvido mais de nada, de nada.

Orwell, em seu clássico 1984, errou por pouco ao tentar vaticinar o que nos tornaríamos. Em 1984, há o Big Brother, o Grande Irmão, o Hitler, o Stalin daquele universo. E o que sobra para a população? Ora, medo e covardia a dar com pau. É assim que Winston — o protagonista — é pego. Alguém próximo a ele o entrega para o Grande Irmão. A traição parece ocorrer por medo, e não como uma forma de inflar o ego do traidor, como ocorre hoje. Há Hitlers em cada esquina, Stalins em cada bairro que se orgulham de sua tirania. Passamos a ser os Big Brother uns dos outros. “Você chamou seu namorado de ‘autista’ por ele encarar o chão enquanto pensa em algo? Morra! Você não está seguindo a cartilha que nos mandaram seguir.”, “Você ousou opinar na vestimenta de sua mulher? Machista. Paredão, agora!”, “Você está fazendo piadas com gordos? Merece o exílio!”, “Você teve a coragem de chamar um ‘não-binário’ de ele em vez de ‘ili’? Prisão, agora!”.

Engana-se quem pensa que os hitlerzinhos estão buscando justiça. Nada me tira da cachola que estes canalhas almejam apenas inflarem seus egos. Se tivessem o exército vermelho ao seu dispor, estaríamos no paredão de fuzilamento, agora mesmo. A antiga União Soviética seria brincadeira de criança perto do que fariam aqui na República das Bananas. E vejam bem, a URSS fora um dos piores episódios que a humanidade já passou. Lá, a liberdade deixou de dar as caras por completo. O clima comunista era regado a tensão, medo, covardia, tirania e maldade. O ego dos comunistas era tamanho que, se você não aplaudisse um discurso de Stalin, você seria condenado por “ato contra-revolucionário”, e sua pena seria: ou fuzilamento ou campos de trabalho forçado. Ora, não é à toa que morreram mais de 20 milhões de pessoas apenas na URSS. “Morreram” ficou ruim, admito. Até parece que viveram uma vida inteira felizes e morreram velhinhos, em suas camas confortáveis. Deixe-me corrigir: 20 milhões foram assassinados das maneiras mais horrendas e vis que você possa imaginar. Assim ficou melhor.

O cômico de tudo isso, é existirem partidos comunistas ainda hoje, e pior, pessoas que os apoiam. Mas estes pormenores, deixemos para outro dia. O que esperar dos hitlerzinhos e stalinzinhos de nosso tempo, não é mesmo?! Não serei hipócrita, talvez há um Hitler e um Stalin em cada um de nós, babando para ser libertado, e é justamente nesta cultura do “cancelamento” que percebemos quem os deixou sair. Cuidado, meu caro, cuidado.

PODRES DE MIMADOS!

A humanidade anda muito sem ter o que fazer. Estamos enfados de confortos. Alguns dirão que o pior mal da COVID fora o tédio. Para a grande maioria, sim. O tédio foi tamanho, que, dias atrás, descubro a existência de um pessoal irascível, lutando para que sejam usados os tais “pronomes neutros” ao se comunicar com um ser humano “inidentificável”, ou, como eles dizem, pessoas não-binárias. Se seguirmos o caminho do Canadá ou de qualquer outro país cujo excesso de conforto dobrou o número de idiotas, é possível que esta patifaria torne-se lei, pois se o Seu Zé, o pedreiro da minha sogra, dirigir-se a um “não-binário” utilizando masculino ou feminino, e este sentir-se ofendido, seu Zé estará cometendo um crime perante a lei.

Aliás, não lembro se o nome do Seu Zé, é Seu Zé, mas não importa, todo pedreiro chama-se Seu Zé. Podemos até trocar o Zé por João, mas o “Seu” continua intacto, espectral. Imagine você, leitor, que a partir de agora, o Seu Zé precise estudar pronomes neutros. Um homem da prática, que levanta casas e muros com a força física, de súbito, terá que preocupar-se em usar “elu” em vez de “ele”, ou usar “delu” em vez de “dele”. Seu Zé, um homem que certa vez, ao ser questionado se gostara do bolo de laranja que minha sogra havia lhe dado, apenas respondeu: “Não se preocupe, dona, ‘nóis’ não têm paladar!” Esta foi uma das respostas mais maravilhosas que já ouvi. É um óbvio ululante que o Seu Zé e sua equipe não têm paladar. Eles colocam para dentro o que vier. No mundo prático, a frescura não tem vez. Vocês conhecem algum pedreiro com intolerância à lactose? Bem, eu não.

Esse pessoal anda nadando no conforto para propor uma estupidez deste tamanho. Repito: é não ter o que fazer! Com os dois parágrafos acima, já poderia encerrar a crônica desta semana, mas quero ir além, quero falar ainda de uma entrevista que assisti na véspera, onde um homem acima do peso, rechonchudo, gorducho, enorme, reclamava em um programa, na Globo, de como sua vida era difícil, pois em um país ‘gordofóbico’ como o Brasil, pessoas obesas tinham que se submeter a humilhações ao fazer uma simples viagem, pois não cabiam nos assentos dos ônibus, aviões ou qualquer outro meio de transporte que inventamos. O rechonchudo bramava: “As empresas precisam criar assentos especiais para nós, senão fica muito difícil viver.” Ou seja: “Mundo, se adeque a mim!” Pergunto-me se nem por um momento não passou pela cabeça deste homem algo como: “Acho que eu preciso emagrecer. Não consigo sequer sentar-me em um simples assento.” Pelo jeito, não. E este retrato mostra o que nos tornamos: podres de mimados!

A partir do momento em que a humanidade, sentada em seu sofá confortabilíssimo, conseguiu pedir 5000 calorias por telefone, iniciou-se a nossa queda como civilização. A queda moral. Imagine uma criança na África Subsaariana a morrer de inanição, escrava do próprio destino terrível, deparar-se com o tal homem gordo reclamando por não existir assentos que o suporte, pois ele comeu demais, ele comeu para, pelo menos, viver três vidas inteiras. A pobre criança africana sequer conseguiu comer para durar quatro anos.

E é justamente esse pessoal que enche o peito para falar que é um absurdo vivermos em um mundo tão desigual, tão preconceituoso, tão problemático. Vos digo: a maior prova de que nunca se vivera em um mundo tão imoral e desumano, são pessoas lutando por essas pautas mesquinhas. São esses podres de mimados que bramam por aí: “Precisamos salvar o mundo!”, mas não arrumam a cama do próprio quarto. Sim, arrumar a cama do seu quarto é mais digno do que ir a um programa chorar por não caber em um assento. E por quê? Ora, de um lado temos o gordo ressentido com a humanidade porque ela não se adequou a ele, e do outro, há alguém que entendeu que a única possibilidade de existência é fazer suas responsabilidades, dia após dia, e, assim, talvez construir um mundo com menos sofrimento.

A parte mais triste de toda esta crônica é perceber que em nossa contemporaneidade é preciso explicar a diferença abissal e ululante que há entre estes dois personagens de nosso tempo: o ressentido e o adulto.

QUANDO O CORAÇÃO ESTÁ NO LUGAR CERTO

Vez ou outra pergunto-me se meu coração está no lugar certo. Já fui tanta gente, já fui o bonzinho e melífluo da turma, já escrevi de maneira odiosa e colérica, já agi como se soubesse de tudo, já deixei de agir pois pensava que não sabia nada. Já fui o cara romântico ridículo, que é desesperado pela aprovação da amada, como também já fui o babaca que trata uma mulher como um verdadeiro objeto. Já pensei em ser gestor de projetos, engenheiro ambiental, professor de Excel, como também já pensei em ser músico, palestrante e escritor. São tantos Eu’s, são tantas personalidades criadas, corrigidas, recriadas. Mas quem de fato sou eu? Quem de fato está aqui, agora, escrevendo estas palavras endereçadas para você e para mim mesmo?

Alguém poderia objetar: “Hipócrita! Você não passa de um hipócrita!” E quem não o é? Quem já nasceu com o coração no lugar certo? Pouquíssimos felizardos tiveram essa sorte. Infelizmente, não sou um deles. Eu sempre fui o “perdidão” da turma. Deparava-me com alguns amigos que tinham a certeza na fuça: sabiam o que cursar, no que trabalhar, em qual religião acreditar e até quem namorar. Invejava a certeza como uma criança inveja um amiguinho de brinquedo novo.

Eu sempre fui amigo do muro. Ora, grande parte da minha vida eu voltei para cima dele e, muitas vezes, ali fiquei. Já fui ateu, agnóstico e religioso. Já fui de esquerda, direita e libertário. Já comprei livros de Richard Dawkins e Charles Darwin, como já consumi livros de Santo Agostinho e Dostoiévski. Já escrevi contos, crônicas, artigos e poesias. Já mudei tantas vezes de opinião como quem muda de roupa. Estes dias fiz um teste de temperamento: 70% melancólico, 30% sanguíneo. Dois opostos. Este sou eu, um oposto em mim mesmo. Puxei o sanguíneo de meu pai. Aliás, vocês deveriam conhecê-lo. É um homem deveras caloroso, extrovertido e exala uma energia positiva inexplicável. Sanguíneo puro. O melancólico veio de minha mãe. Como explicar o meu apreço pelo isolamento voluntário? Namorei a solidão durante muito tempo, entretanto, tenho muita afeição pelo afeto humano, em conversar e ouvir as pessoas, suas histórias, suas confissões. Abraçá-las, dar carinho, receber carinho.

Independente do fato de eu ser um oposto em mim mesmo, a energia para a criação sempre esteve aqui dentro de mim, pulsando como um coração estupidamente apaixonado. E ela precisa sair. É preciso dar vazão a esta energia. É preciso direcioná-la. Ah, e como é difícil escolher tal direção. São tantas as possibilidades. Graças a Deus descobri a escrita. Posso afirmar: a escrita me salvou. E por quê? Porque uma página em branco aceita qualquer coisa, aceita qualquer absurdidade, aceita qualquer tradução de um silêncio. Meu primeiro livro — ou melhor, meu primeiro projeto de livro — foram reflexões variadas sobre a vida (Quando a Vida Vale a Pena); o segundo livro tratou-se de um romance de ficção científica (Depois de Nós); o terceiro será de confissões sobre o afeto (Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho); o quarto será outro romance, intitulado Quilômetro Treze; o quinto será de crônicas; o sexto ainda não está claro, mas tem tudo para ser meu terceiro romance.

Além disso, tenho mais de trinta músicas compostas, guardadas na gaveta, e apenas quatro delas fazem meu coração pulsar até hoje. São as quatro últimas. Quando as compus, eu estava com o coração no lugar certo. E por quê? Há algo na arte que se chama “verdade”. Eis uma das tarefas mais hercúleas da arte. Quantas e quantas vezes eu desejei ser alguém que não era eu. E isso reflete como um canhão de luz na arte do artista. Lembro-me de minhas primeiras composições: letras prolixas, acordes difíceis e riffs estranhos. Ora, eu compunha músicas para o público. Primeiro a plateia, depois o artista. Vos digo: esta receita da modernidade destrói a verdade da arte.
E a verdade não é a tal “complexidade” — como eu achava na adolescência, ao tentar compor músicas e escrever textos “complexos”, ou, pior ainda, tentar ser alguém que não era eu —, a verdade é simplesmente quando o artista está com o coração no lugar certo, quando ele se descobre e, a partir de então, passa a ser sincero consigo mesmo. Se sair simples, tudo bem. Se sair complexo, tudo bem. Contanto que ele esteja sendo sincero com sua essência.

Talvez todos estes Eu’s que evidenciei ao longo do texto, fora eu tentando achar a minha verdade, o meu caminho. Hoje sei que estou mais perto de mim. E esta aproximação deve-se ao fato da tentativa. É como uma luta contra o adversário mais forte de sua circunstância: a vida. E você apanha, cai, se machuca, pensa em desistir, e, quando a vida já tem a certeza da vitória na fuça, quando ela passa a comemorar e a bradar sua conquista, você levanta novamente e a surpreende, como quem diz: “É só isso que você tem?” Já escrevi há tempos: a questão aqui não é o quanto você aguenta bater, mas o quanto você aguenta apanha e continuar lutando.

E por mais que estas tentativas muitas vezes estejam longe da sua essência como artista, há algo de você ali, nem que seja uma centelha, mas está ali. Quando algum jovem deseja iniciar na escrita e pergunta-me o que escrever, repondo-lhe: “Escreva, apenas escreva. Você precisa arriscar.” Já conheci “escritores” que só passaram a escrever depois do advento da internet, pois assim tinham público para inflarem seus egos e ferramentas “apropriadas” para a sua escrita. Ou seja, esses “artistas” de uma figa abandonariam a arte se não tivessem as ferramentas “certas” ou um público vociferando seus nomes para elevar-lhes o ego. Aqui a gente separa os homens dos moleques, ou melhor, os artistas dos artistas de fachada.

Se você realmente ama uma arte, você não precisa de plateia, você não precisa da ferramenta “perfeita” para então colocá-la em prática. Você vai lá e faz com o que tem, pois aquilo está na sua alma, implorando para sair. Lembro-me de minhas primeiras tentativas na escrita: caneta Bic, um caderno velho, uma cadeira surrada para sentar-se, e o principal: a vontade de escrever.

O DIA EM QUE O ESCRETE FOI MASSACRADO

Não espere nada de mim. Olhe para este homem que lhe escreve e não espere absolutamente nada. Faça pior: diga-me que sou incapaz de suprir suas expectativas. Aqui começa uma de minhas maiores alegrias da pré-adolescência: o sentimento primoroso de surpreender aqueles que não apostavam sequer um mísero centavo no meu potencial, ou melhor, no potencial do meu time, lá no ano de 2006 ou 2007, na Escola Técnica Estadual Monteiro Lobato.

Nesta época rebelde, eu estava no primeiro ou no segundo ano do ensino médio. Formamos um time com os garotos de nossa turma, queríamos participar do torneio de futsal que acontecia anualmente. Nosso time não era ruim, mas, comparado ao escrete dos garotos do terceiro ano, éramos um nada, éramos o cocô do cavalo do bandido. O escrete não andava pela escola, eles desfilavam como se fossem semideuses. Eles tinham a certeza na fuça. Além de bons de bola, faziam sucesso com as garotas. Ora, é um óbvio ululante que as moças preferem o escrete em qualquer lugar do mundo. Eles denotavam poder naquele universo adolescente, e poder, atitude e malandragem, atraem mulheres como nádegas femininas atraem homens. Isto nunca mudará.

Eu sempre joguei atrás pelo fato do meu tamanho. Eu era o típico zagueiro do interior: alto e magricelo, sem habilidade para driblar, passava bem a bola, tinha força no chute e, vez ou outra, estava disposto a deixar a bola passar por mim, mas o adversário ficava entre os meus cascos. Para ser sincero, eu tinha tudo para ser um grande jogador de futebol: chuteiras, meias, calção. Só me faltava futebol. Detalhes, apenas detalhes.

Não lembro com pormenores de nosso time, mas lembro que nos dávamos muito bem, principalmente fora de quadra. Éramos amigos, e isso é tudo o que importa na adolescência, os amigos. Alguém sem amigos na adolescência está fadado a um futuro ressentido e triste, aliás, isso é fruto de uma infância mal desenvolvida, onde a criança não consegue criar laços sociais com o mundo externo e, quando o cria, ofende-se por tudo, não aceita as chacotas — pesadas muitas vezes — das outras crianças, o famoso bullying. Foi nesta época que compreendi algo elementar para a vida: ensinem seus filhos a lidarem com o mundo, e não o mundo a lidarem com os seus filhos.

Deixe-me voltar à história: momentos antes do torneio começar, reunimos nosso time na arquibancada, que estava apinhada de gente, principalmente de garotas histéricas, que ansiavam ver um duelo entre os homens mais viris da escola. Quase como a multidão que reunia-se para assistir os gladiadores se enfrentarem até a morte nos antigos jogos romanos. Pelo menos, no nosso modesto torneio, o perdedor não teria a vida ceifada, talvez a dignidade perante as garotas, mas a vida, graças a Deus, não.

Cada time tinha sua torcida organizada. Normalmente eram as garotas da própria turma, com exceção, é claro, do escrete, que tinha à disposição garotas de todas as turmas para torcer por eles. Era uma legião de fãs gritando efusivamente sem parar. Minutos antes do torneio começar, com o ginásio lotado, sentíamos a pressão na pele, ela pingava por meio de nosso suor frio. E pasmem! Conseguimos passar da fase de grupos. Agora enfrentaríamos o escrete nas oitavas de final. Era o jogo da nossa vida em meio aquele universo adolescente. Lembro-me do nosso time no vestiário, pouco antes de iniciar a partida. Nos olhávamos tensos, respirávamos fundo. Por mais que a classificação tivesse nos dado um ânimo, tínhamos consciência da nossa limitação diante do escrete. Eis que o Adriano, o ala do nosso time, em um ato súbito e glorioso, enfatizou-nos com sangue nos olhos: “A gente pode vencer! Eles estão nas alturas, eles têm a certeza da vitória na cara. Eles estão há semanas se vangloriando entre os corredores da escola. Todos acreditam na vitória deles! Até vocês. Isso tem que mudar agora! Está na hora da gente acabar com essa invencibilidade. E pra isso, precisamos dar o máximo lá na quadra. Essa é a nossa chance.”

O Adriano sempre esteve à frente do nosso tempo. E aquele discurso fez-me transformar uma fagulha de esperança, que queimava lentamente, em um fogaréu vivo e pulsante. Entramos na quadra de cabeça erguida e olhos bem abertos, encarando face a face o escrete, que sorriam com aquele cinismo típico da certeza. Nós os odiávamos e daríamos o sangue a partir do apito do juiz. Meu nervosismo escafedeu-se diante de um propósito maior: ganhar do escrete.

Iniciou-se a partida. Chegávamos firmes naquela malandragem cínica. Eles tocavam a bola, mas não conseguiam ultrapassar nossa defesa. A torcida ensandecida vociferava o nome deles, clamavam por um gol do escrete, mas o gol não saía. Aquela face cínica do início da partida deu lugar ao nervosismo. Com o nervosismo, eles passaram a errar passes, errando passes, vieram as discussões entre eles, e, entre estas discussões, roubei a bola do pivô, corri até o meio da quadra, e, com toda a gana e ódio que invadia-me, chutei em direção ao gol… na gaveta. Golaço! O goleiro sequer viu a cor da bola. Urrei como um ancestral após matar um mamute, urrei como um espartano após degolar um inimigo na arena. Cumprimentei cada companheiro de nosso time e os encarei nos olhos, como quem diz: “A gente vai acabar com eles!”

Na arquibancada, houve um silêncio sepulcral. Apenas algumas de nossas colegas bramavam nossa performance. Para o escrete, o que já estava ruim, piorou. Brigavam entre si. E nós aproveitamos a fraqueza do adversário. Fizemos mais um gol. A torcida feminina do escrete passou a nos apoiar a partir de então. Naquele momento éramos imbatíveis! Estávamos com fome de vitória. Nosso time manteve o ritmo durante toda a partida. Não cansávamos de correr e marcar forte. Destruímos o escrete, ou melhor, eles se destruíram. No apito final nos abraçamos e comemoramos. Que felicidade, meus amigos, que cena mágica ganhar dos favoritos.

Enquanto comemorávamos nossa vitória merecidíssima, dois jogadores do “ex-escrete” trocavam socos entre si. “Como assim a gente perdeu para estes moleques do segundo ano?” Eles não podiam nos culpar, então tentaram jogar a culpa um no outro. Sentiam-se humilhados e ofendidos e não sabiam lidar com estes sentimentos humanos, pois eram os reis daquele universo, eram os ditadores daquele território. Ditadores não aceitam derrotas e humilhações. Stalin matou mais de 20 milhões tentando suplantar sua utopia comunista, que, ao chocar-se contra a realidade, humilhava-o como uma criancinha que é repreendida na frente dos amiguinhos.

Para nós, o torneio acabou ali. Nossa energia psíquica e física esgotou-se contra o escrete. Não passamos das semifinais, mas cumprimos nossa missão. Saímos de cabeça erguida e com a imagem eterna em nossas mentes: o dia em que o escrete cínico e malandro fora massacrado pela raça e pela vontade de vencer.

Se você precisa se amar antes de agir, você está fodido.

Me pergunto: o que vem primeiro, o sentimento de inutilidade e depois a inação perante o mundo ou a inação perante o mundo e então o sentimento de inutilidade? De qualquer forma, este é o ciclo do horror para qualquer alma humana.
 
Ante de se amar, acredito que é preciso construir este amor em si mesmo, caso contrário, não há um porquê em amar-se. “Nunca trabalhei, nunca servi ninguém, nunca me propus a nada, nunca me responsabilizei por nada.” Ora, como me amarei se sou um pulha e um inútil?
 
Toda vez que percebi uma mudança significativa em minha vida para melhor, não foi graças ao “amor próprio”,  muito pelo contrário, foi pela culpa, foi quando tomei consciência de que eu precisava melhorar. Seja na escrita, seja na leitura, seja na minha saúde física, seja no meu caráter, seja nos meus relacionamentos.
 
A partir do momento que você se propõe a fazer algo e vai lá e faz este algo, o ciclo do horror se transforma:
 
Sentimento de inutilidademe proponho a fazer algo (Responsabilidade)faço este algome sinto bem comigo mesmo
 
Este “se sentir bem consigo mesmo” será o amor próprio? Não sei. Mas digo e repito há tempos por aqui: não há nada a não ser a responsabilidade. Ao se responsabilizar pela sua vida, você passa a ser uma pessoa mais confiável, tanto aos olhos dos outros quanto aos seus próprios olhos. Entende? Você passa a sentir-se mais seguro. Você está construindo algo sólido. Eis aí a possibilidade de amar-se verdadeiramente. Seja lá o que “amor próprio” signifique.

Perceba que o “amor próprio” é algo a ser conquistado, é algo que demanda esforço, pois trata-se de uma construção. Ele é o efeito, não a causa. “Ah, Guilherme, e como vou me motivar a fazer algo se eu não me amo?” Quer motivação maior do que se olhar no espelho e sentir-se um merda? Aqui está a importância do “tomar consciência” da vida e saber lidar com sentimentos “negativos”. Sentimentos são afetos investidos de energia psíquica, use esta energia para motivar-se.

Se você precisa se amar antes de agir, você está fodido.

E com isso, não estou dizendo que o tal “sentimento de inutilidade” não vai dar as caras. Ele vai. Vez ou outra entraremos no ciclo do horror, principalmente naquele domingo preguiçoso, onde estamos no sofá, suando após comermos feitos uns condenados no almoço, e então pensamos na existência. É inevitável! Lhe garanto, leitor, no meu puro achismo: o domingo é o dia dos suicidas. Se não nos suicidamos no domingo, planejamos o ato para o futuro. Não importa. O domingo é o dia da melancolia.

A notícia boa: o domingo acaba! Caso o seu domingo não acabe, procure ajuda.

O PRIMEIRO BEIJO

Vocês lembram do primeiro beijo? Sim! Aquele beijo que possui uma expectativa infantil e avassaladora. Tornamo-nos psicóticos pensando no primeiro beijo. Criamos uma realidade ficcional: lá está a garota que desejo; ela tem os olhos rútilos e os lábios úmidos. Seus cabelos são compridos e charmosos. Eu chego e, de súbito, a beijo lentamente por minutos. Nossos lábios se tocam e sinto um calor subir pelo meu corpo. Eis que acordo deste delírio beijando uma laranja. Na minha época, falava-se exaustivamente sobre treinar beijo com laranjas: — É batata! Quem treina beijando laranjas, será um beijoqueiro contumaz.

Cansado de chupar laranjas, faltava-me ir para a prática. Eu queria beijar uma mulher que não fosse o beijo do tipo “selinho”. Vocês que nasceram nos anos 2000, sabem o que é selinho? Deixe-me explicar-lhes: apenas dois lábios secos se tocam rapidamente. Sem língua ou saliva. Este é o selinho. Em minha época, um selinho não valia mais de nada. Era como beijar uma bochecha. Triste. Depois, o beijo de língua não valia mais de nada, depois, a nudez fora profanada, até chegarmos, então, no sexo, que também parece estar perdendo o valor.

Ao ouvir que alguns de meus colegas homens já haviam beijado, a inveja acometia-me como uma doença grave. Eu ficava mal. Me sentia um frouxo, um ser inferior. O pior era ter de ouvi-los contando vantagem em nossas conversas e brincadeiras. E sabe como é jovem, né? Exageram até não poderem mais. Alguns falavam que até já tinham conseguido colocar a mão em algumas nádegas femininas durante o beijo. Ó céus, e eu aqui, sem nada, sem um mísero contato físico com uma mulher. Espere, minto.

Em minha primeira infância, as professoras obrigavam os meninos a darem as mãos para as meninas quando tínhamos que sair da sala de aula em fila ou em determinadas brincadeiras. Este “dar as mãos” para o sexo oposto, fazia-nos suar frio. Era algo tão íntimo, sincero, ingênuo e inocente. Imaginem?! Tocar na pele de uma menina, segurar-lhe a mão, como papai e mamãe fazem quando estão apaixonados. No começo era constrangedor, depois passou a ser enobrecedor, ainda mais quando a menina era uma das mais bonitas da sala. Me sentia o homem mais viril do mundo, mesmo não sabendo o que significava a palavra “viril”. O sentimento estava ali, pulsando. Será que as professoras tinham noção do que acontecia dentro nós? Presumo que não.

Não sendo um garoto popular, mas, muito pelo contrário, sendo um garoto impopular, o que sobrava-me era o delírio, era imaginar-me com minhas colegas mais belas em atos heroicos: salvando-as de algum babaca de outra escola, recebendo sua admiração e, quem sabe, um beijo cheio de pecado. Entretanto, a realidade sempre surpreendia-me. No outro dia, ao chegar na sala de aula, descubro que as minhas colegas — aquelas que eu salvava na minha imaginação — andavam aos beijos com os babacas das outras escolas. Como assim elas preferiam os anti-heróis? Ninguém havia me falado isso. Os filmes mostravam-me o contrário: a moça em apuros apaixonava-se pelo herói, não pelo vilão. A verdade nua e crua é que elas preferiam os canalhas! Aqueles homens cheios de “marra” e trejeitos de malandro, que usavam roupas de marca e boné de aba reta. Normalmente eram repetentes, mas tinham atitude. Eis o segredo: a atitude. Eu não tinha atitude alguma, logo, não poderia ser um herói e, menos ainda, um vilão. Para se ter atitude é preciso de coragem, e nada nos humilha mais do que a coragem alheia. Eis o porquê do meu ressentimento aos garotos corajosos e babacas.

Pelo fato da maior parte dos pré-adolescentes serem covardes, o primeiro beijo, na maioria das vezes, é algo terceirizado. Explico: você diz para um amigo que está interessado em uma garota, este amigo tem uma amiga que é chegada desta garota. Então começa o “telefone sem fio” mais deprimente da história. A resposta pode demorar, mas, normalmente, retorna. Todavia, eu era ainda mais covarde. Nem coragem para pedir a um amigo que eu estava a fim de uma garota, eu tinha. O meu medo era a rejeição. Era ouvir um tonitruante “não”! Eu tinha consciência da minha condição deprimente de existência, então ficava adiando o sofrimento.

Certo dia, lá estava eu, com meus doze anos, no recreio da escola. Thobias, meu amigo de infância, chamou-me em um canto: “Por que você não fica com a Júlia? Eu e ela somos amigos, posso fazer os teus lados com ela!” Meu coração foi parar direto na boca apenas com essa pergunta. Respondi, meio sem jeito: “Capaz, deixa pra lá.” Eis que o Thobias foi falar com a tal Júlia mesmo assim. Voltou algum tempo depois todo alegre e efusivo: “Ela aceitou, cara, ela aceitou! Vai ser na festa junina da escola, amanhã à noite.” Se de um lado eu queria pular de alegria pelo fato de uma menina aceitar beijar-me os lábios, de outro, eu sentia um aperto de angústia pesadíssimo esmagar meu peito. Era um sentimento de ansiedade que eu precisava expor para o mundo. “Como assim uma menina aceitou isso?” De súbito, perdi o apetite. Passei a imaginar como seria aquele beijo, como eu me sairia, como seria minha performance, será que ela ia gostar dos meus lábios? Já havia ouvido comentários do tipo: “Fulano não sabe beijar”, “Fulana tem bafo de bode”. E só Deus sabe o quanto isso pode ferir a honra na pré-adolescência.

Eu havia conversado com a Júlia de relance, e foram pouquíssimas vezes. Não tínhamos um pingo de intimidade um com o outro. Não dei-me conta disso à época. Ora, estamos falando de um jovem. O que esperar de um homem na puberdade? Nesta idade, o garoto passa a exalar hormônios. Descobre que o seu pinto não serve apenas para mijar — mas estas reminiscências, deixarei para outra crônica. Voltemos à Júlia. Ela não era bonita, mas eu também não. Eu não era alguém que poderia escolher o primeiro beijo.

As horas seguintes até o beijo foram um tormento. Ao chegar na festa junina, obviamente não consegui aproveitar bulhufas. Não tinha apetite, não conseguia me concentrar nas conversas dos amigos e, muito menos, participar das brincadeiras típicas. A minha expectativa estava a ponto de liquidar-me. Eis que chegamos ao fim da festa. A Júlia foi lá para o outro lado da escola, onde havia uma penumbra e pouco movimento. Thobias chegou e disse: “É agora! Ela está te esperando. Vai lá!” Tomei fôlego e fui. O Thobias veio junto. Ela estava ali, em minha frente. Havia algumas pessoas nas redondezas. Tudo neste momento era pressão. Tinha que ser rápido para nenhum professor nos pegar no flagra. A beijei. Enquanto a beijava, coloquei minhas mãos em sua cintura.

Nos beijamos e logo nos separamos. Um beijo típico do nosso tempo: seco, rápido e insosso. Toda aquela pressão de segundos atrás, capaz de matar-me por dentro, esvaiu-se em seguida. A minha fome voltou com força, a minha racionalidade também. Ao sair daquela penumbra, percebi que havia alguns meninos por ali, como se estivessem esperando alguma coisa. E estavam: “Cara, eles também vão ficar com a Júlia.” Disse o Thobias, numa crueldade ímpar. Pensei: “Como ela consegue fazer isso? E os pais dela, o que pensam a respeito disso?”

Preciso deixar uma coisa clara aqui: o beijo foi horrível! Aquele momento foi horrível! “É isso que vocês chamam de beijo? É isso que me fez perder o apetite? É isso que esse bando de crianças almeja fazer?” O lado bom desta história: eu beijei alguém. Inevitavelmente nosso ego vai às alturas. O lado ruim: eu beijei alguém. Bem, para tudo tem uma primeira vez, mas eu beijei “alguém”, e alguém não é ninguém. E não me entendam mal quando uso a expressão “ninguém”. A moça não era ninguém em meu mundo singular. O que importava era apenas o ato, o que importava, no fim das contas, era poder dizer para a multidão: “Eu não sou mais BV (boca virgem)!” E para ela eu também não era ninguém, como os outros da fila também não eram ninguém. Uma fila de homens buscando desesperadamente afirmar-se uns para os outros. A moça não valia de nada para nós, e, pensando melhor, o ato também não valia de nada. Deveria ser proibido beijar bocas e despir-se para o outro quando não se tem intimidade.

A Júlia não mudou. Continuou nessa vida de “filas”. Tempos depois, ficou conhecida como “Júlia Boquete”. As pessoas são cruéis, meus caros, são cruéis. Espero que ela tenha achado outro caminho. Espero que ela tenha achado um homem que a ame incondicionalmente e, que assim como eu, olhe para o passado e se sinta alguém idiota. O que nos resta agora é rir de tudo isso.

Acordei e percebi que a vida é sofrimento. Ok, e agora, o que eu faço com isso?

Acordei e percebi que a vida é sofrimento. Ok, e agora, o que eu faço com isso? Tenho a opção do ressentimento, ou seja, eu posso culpar tudo e todos pela existência, assim como Caim o fez na primeira história humana da bíblia. E por que digo que é a primeira história humana? Bem, Adão e Eva foram concebidos por Deus, mas Caim e Abel foram concebidos por um ato humano entre um homem e uma mulher.

Como vocês sabem, Caim escolheu o caminho da inveja, do rancor e do ressentimento; ele resolveu culpar seu irmão, Abel, pois Abel era um ideal a ser seguido; logo adiante culpou a humanidade e terminou culpando Deus por seu fracasso e sofrimento. Isso o levou tão fundo em suas sombras que já era impossível sair daquela escuridão.

Com a alma repleta de maldade, o único meio que encontrou para satisfazer seu ressentimento foi assassinando seu irmão como uma forma de vingança, como uma forma de protestar contra sua existência fracassada, e assim, mostrar para Deus que seu ideal não era de nada, era um fraco perante o mal. Perceba que Abel conseguiu agradar a Deus, mas não conseguiu vencer o mal humano.

Mas eu tenho a outra opção: construir uma vida com substância, construir uma vida com significado. Para isso precisamos limitar o mundo, pois ele é complexo e, muitas vezes, terrível. Limitar o mundo nada mais é do que assumir as responsabilidades da sua vida e da sua circunstância.

Digo-lhe, leitor, com minha maior sinceridade, que não há mais nada a se fazer a não ser carregar algum peso. Não há outra opção, aliás, há, mas não é um caminho que eu indicaria, nem para o meu pior inimigo – Abel que o diga —. O carregar peso significa fazer algo, significa ser útil para alguma coisa nesta existência terrível. Quando carregamos peso limitamos o mundo, e isso é maravilhoso. Do contrário eu enlouqueço diante da complexidade existencial.

SEXO LIVRE, INTIMIDADE MORTA

Há tempos, escrevi um texto intitulado Sexo Não É Intimidade. O título ainda é válido, porém, preciso fazer um adendo nesta história: o sexo não é intimidade hoje, em nosso mundo horizontal. Mas que diabos é o mundo horizontal? Primeiro, deixe-me dar-lhe um panorama do mundo vertical. O mundo vertical era o mundo antigo — mais ou menos 60 anos atrás. Este mundo era carregado de ordem e hierarquias. Tínhamos um norte a ser seguido, sabíamos qual religião acreditar, qual carreira se especializar, com quem poderíamos casar, qual passo que deveríamos dar; havia papeis definidos para homens e mulheres; havia a distinção entre melhor e pior, entre bem e mal, entre feio e belo e etc. Neste mundo, o indivíduo não tinha muitas opções. Partindo de uma visão otimista e simplista, o indivíduo, por ter menos opções disponíveis diante dele, era menos acometido pela angústia e pela ansiedade. Por outro lado, ele sofria repressões de todos os lados, principalmente se tratando da sexualidade. O sexo não era livre e escancarado como hoje; o desejo era escondido e, em grande parte, um tabu. A regra era: sexo somente depois do casamento. A mulher era obrigada a casar com o homem que sua família escolhera e a homossexualidade era vista como doença por grande parte da sociedade.

As coisas mudaram. Hoje vivemos em um mundo horizontalizado, ou seja, um mundo sem norte definido e repleto de relativismos de todos os lados. Podemos ser o que quisermos, tanto profissionalmente quanto pessoalmente. As distinções entre melhor e pior, entre bem e mal, entre belo e feio tornaram-se nebulosas. Neste mundo, o indivíduo tem à sua disposição milhares de opções em todas as nuances de sua vida, inclusive se tratando da sexualidade. O lado bom neste mundo horizontal, é sermos mais livres para escolher. Mas e agora, o que eu faço com essa liberdade? Ao mesmo tempo que sou mais livre para escolher entre milhares de opções, também passo a ser mais acometido por angústias e ansiedades. A tecnologia impulsionou todo este processo horizontal.

Perceba que ambos os mundos têm coisas boas e ruins. Segundo o psicanalista Jorge Forbes — o qual é responsável pela apresentação destes dois mundos —, sua visão perante a horizontalidade de nossa civilização, é otimista, basta a nós nos adequarmos a ela. Particularmente, não sou tão otimista assim, principalmente no campo sexual. E é aqui que quero aprofundar-me. Após a década de 60, houve uma mudança considerável na interação sexual entre homens e mulheres, e isso ocorreu principalmente pelo fato da descoberta da pílula contraceptiva. Agora seria possível transar com um risco mínimo de gerar um filho. Este fato impulsionou a nossa liberdade sexual, sobretudo, a liberdade da mulher. Antes disso, grande parte das pessoas obrigavam-se a se conter diante do desejo sexual. Ninguém queria filhos indesejados. Além do mais, toda a cultura da época aderia fortemente a essa ideia da repressão da libido, impulsionada, principalmente, pela religião cristã e todas as suas vertentes.

Bem, isso tinha um motivo claríssimo: frear a natureza humana. Ora, mas por que freá-la? O que de ruim poderia acontecer? Filhos indesejados, propagação de doenças venéreas e a morte da intimidade. Todas estas mazelas cresceram consideravelmente após os anos sessenta. Isto atingiu em cheio as famílias. O HIV, um vírus astuto que fora descoberto nos anos oitenta, aproveitou-se de nossa promiscuidade; as milhares de crianças que tiveram que crescer sem os pais e sem uma família estruturada também aumentaram após os anos sessenta; e o sexo foi separando-se da intimidade, até chegarmos ao ponto de nos relacionarmos com o sexo oposto como um cardápio de um restaurante, onde eu o abro e escolho o que vou degustar.

Além disso, a liberdade sexual nos levou a uma liberdade moral. O uso excessivo de drogas — principalmente o álcool — normalizou-se entre os jovens. Não é incomum encontrar alguém que foi a uma festa, bebeu até entorpecer-se e então acordara com um estranho ao seu lado. Grande parte das pessoas que são abusadas sexualmente, estão sob efeito de drogas. O mesmo acontece com os agressores. Esta é uma conversa que precisamos ter. As pessoas querem a parte boa dos dois mundos: serem livres para transar e fazer o que quiserem no mundo horizontal, e sentirem-se valorizadas e seguras no mundo vertical.

E agora, o que fazemos diante deste cenário? Particularmente, penso que a relação sexual não funciona tão bem fora de relacionamentos monogâmicos de longo prazo, principalmente por não levar em consideração a intimidade. Não acredito que consigamos separar sexo de intimidade — tanto emocionalmente quanto psicologicamente — sem deixar feridas expostas. E isto fica nítido em nosso mundo horizontal. A modernidade diz: “Vão lá, transem muito. Toda forma de expressão sexual é permitida, pois sexo é bom.” No outro dia alguém se sente usado e arrependido. E uma das coisas que têm acontecido com frequência nos movimentos radicais de anti-abuso sexual é a ideia de que se você faz sexo com alguém e então se arrepende no dia seguinte, isto evidencia que não foi consensual. Ficou claro que este ato não fora pensado no dia anterior. O indivíduo apenas seguiu sua natureza. “Foi bom ontem à noite, mas agora, pela manhã…”

Nós invertemos os polos da intimidade. Hoje, sexo não é intimidade para a maior parte das pessoas. Transamos com quem quer que seja como se déssemos “bom dia” para qualquer desconhecido. Entretanto, após o gozo sem intimidade, o que resta é o pudor. Grande parte das vezes, há até uma repulsa entre os amantes, que buscam separar-se imediatamente após a descarga da pulsão sexual, pois não possuem mais nada a oferecer um para o outro. A única coisa que os uniu agora não existe mais, esvaiu-se pelo gozo. Quem já passou por esta experiência, sabe exatamente do que estou falando: aquele sentimento de arrependimento, de vazio existencial, de insegurança perante um desconhecido.

Perceba que um menear de mãos em direção a uma sorveteria é considerado mais íntimo do que simplesmente uma trepada dentro de um quarto escuro entre dois desconhecidos. No mundo vertical era o oposto: primeiro você levaria a dama para tomar um sorvete, conquistaria sua intimidade ao longo do tempo e, após o casamento, ambos experimentariam o máximo da intimidade entre dois seres humanos: o sexo. “Então você sugere que voltemos para o mundo vertical?” Não! Mas preciso esclarecer alguns pontos: o desejo é fácil, é promíscuo e capaz de destruir a vida de pessoas incautas que se aventuram de forma irresponsável pelos meandros da luxúria. Talvez por isso mesmo, havia aquele freio do mundo vertical cuja regra geral era “sexo só depois do casamento”. Qual é a regra agora? “Não há regras! Regras são opressoras!” Me responderiam os jovens revolucionários. Creio que se Freud pudesse dar sua opinião sobre a nossa modernidade líquida, diria que nunca antes se viveu uma época tão infantil e histérica, onde os indivíduos acreditam piamente que podem realizar todas suas fantasias e desejos e, ao mesmo tempo, se manterem saudáveis, pois no alto de suas arrogâncias, a natureza humana pode ser moldada aos seu prazeres.

Concluo que tanto a repressão irrestrita quanto a liberdade irrestrita são problemáticas à vida sexual cotidiana. Se deixarmos o Id (instância psíquica responsável por nossos impulsos) ser quem ele é, provavelmente nos tornaremos niilistas/hedonistas em direção a uma vida vazia e sem significado algum; se deixarmos o Superego (instância psíquica responsável pelas regras morais e sociais) ser quem ele é, provavelmente acabaremos frígidos, histéricos e invejosos. Há de se achar um equilíbrio entre estes dois polos. O Ego que se vire para harmonizar estas feras.

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