UMA CRÔNICA “IMBROCHÁVEL”!

Agora, em épocas de eleições, em tempos onde os ânimos estão exaltados entre esquerda e direita, lembro-me da minha militância antipolítica, lá pelos idos de 2016. Espere, minto! Eu era um militante antipolítico, e não antipolítica. Aliás, ainda há resquícios em mim desta ojeriza a políticos. Sempre os vi como demagogos prontos para roubar o dinheiro de quem trabalha de verdade. Há uma verdade nisso, é inegável, pois são pagos com impostos, e o imposto é o roubo legalizado. Podemos tolerá-lo e até pagá-lo, mas nunca respeitá-lo.

Este ódio a políticos sempre esteve encrostado na minha alma. Desde minha infância, quando candidatos a vereadores apareciam lá em casa para pedir votos. Era sempre a mesma cara lavada, o sorrisinho amarelo e uma promessa de asfaltar a nossa rua, a qual fora asfaltada agora, nos últimos cinco anos. Eu, criança, já me atentava que aqueles homens cheios de discursos prontos e embebidos de poses não passavam de charlatões loucos por poder, loucos por um carguinho público do qual pudessem usufruir durante quatro anos, recebendo um alto salário e propinas de amigos da corte. É óbvio que o Guilherme criança não conseguia exprimir com essas palavras o que enxergava em sua frente, mas aquela criança magrela e cabeçuda, apesar de não conseguir explicar com a linguagem suas percepções, sabia que havia algo estranho naqueles homens de pose: eles eram de mentira.

Tive esta mesma percepção quando, certa vez, minha mãe começou a se envolver com umas práticas esotéricas, cujo líder era um tal de Sai Baba. O problema não era o Sai Baba, mas charlatões que se aproveitavam disso. Um deles tentou fazer um ritual espiritual lá em casa. O homem era grande, com excesso de tecido adiposo e usava óculos à la Jeffrey Dahmer. Tinha tudo para ser um abusador. Talvez não fosse um abusador de pessoas, mas, de carteiras, com certeza ele era. Lembro-me de ficarmos uma hora no escuro enquanto ele proferia palavras “sagradas” buscando “canalizar os chacras”, etc., etc. Eu pensava: “Que coisa chata!” Final da história: após enganar famílias, tirar o dinheiro delas, o discípulo de Sai Baba — ou melhor, o discípulo de Ali Babá e os Quarenta Ladrões — fugiu e nunca mais deu as caras na cidade.

Você, leitor, já deve conhecer o João de Deus, né? Antes de todos tomarem conhecimento de suas atrocidades, lembro-me de vê-lo, pela primeira vez, dando entrevista no Caldeirão do Huck. Não sei o ano, mas sei que todos o idolatravam com muita euforia. Assistindo à entrevista, de súbito, concluo: “Tem algo nesse João de Deus que não me desce. O cara é um charlatão! Como as pessoas não percebem isso? Olhem a cara deste sujeito!” Minha namorada, à época, indignadíssima, me respondeu: “Ai, amor, você não pode julgar as pessoas só pela cara. Isso é preconceito.” Preconceito uma ova! Está tudo na cara. Os olhos são as janelas da alma. E eu sempre fui bom em ler rostos. Eu, se fosse agiota ou banqueiro, emprestaria dinheiro só pela cara do sujeito. Não é à toa que hoje sou terapeuta.

Quando entrei na faculdade, fiz amizade com uma garota evangélica. Eu era louco para agarrá-la. Por este fato, me submeti a ir em alguns cultos com ela — o que um homem não faz por causa de uma mulher, não é mesmo?! Havia um momento que o pessoal levantava e começava a fazer movimentos estranhos e a falar línguas não-sei-da-onde. Alguns se atiravam no chão, como se tivessem tendo ataques convulsivos. Era uma histeria coletiva justificada pela encarnação do Espírito Santo! Havia algo de muita teatralidade em tudo aquilo. Não estou dizendo que toda aquela gente berrando se tratava apenas de um teatro, mas grande parte sim. Acabou que no fim, não senti o fogo do Espírito Santo e muito menos o fogo daquela garota. Entretanto, descobri algo sobre mim: se um dia eu tiver uma religião, será silenciosa.

Quando me converti ao catolicismo, ratifiquei o que descobrira tempos atrás. Nada melhor do que ir à missa, sentar-se quietinho no banco, ajoelhar-se quando preciso, levantar-se quando necessário, refletir sobre a palavra e comungar no final. E tudo isso em silêncio! Pois, como dizia São Josemaria Escrivá, o silêncio é o porteiro da vida interior. E eu sei que dentro da igreja católica existem grupos, principalmente de jovens, que professam sua fé fazendo mais barulho. Tudo bem. Não sou um cagador de regras para dizer que isso está errado. Quem sou eu na fila do pão? Apenas estou dizendo que essa não é a minha praia. Pode ser mal de melancólicos, que já nascem com cinquenta anos. Hoje tenho trinta, mas comportamento de noventa. Enfim, preciso confessar: meu problema são os jovens! Pronto! Assumo aqui o meu preconceito. Tanto é, que as piores missas — Deus que me perdoe por julgar uma missa — são aquelas onde os jovens vêm de algum retiro e então ficam duas horas contando suas experiências espirituais para os fiéis. É um saco! Mas a pior parte são as músicas das quais eles compõem como tema do retiro: melodia do NX Zero com letras vazias de motivação, como se um coaching fã da banda Restart a tivesse composto.

Mas eis o que eu queria dizer. Fiz toda esta introdução para chegar em Lula e Bolsonaro. Você, leitor, a esta altura, já deve saber para quem vai meu voto. Ora, qual dos dois angaria mais jovens retardados ou velhos que parecem mais adolescentes mimados do que de fato adultos maduros? Lula! O Nove Dedos tem uma capacidade avassaladora de reunir tudo o que não presta: maconheiros vagabundos, presidiários, abortistas, satanistas, feministas, desarmamentistas, ateístas militantes, jornalistas do mainstream, funkeiros, comunistas, artistas medíocres, ressentidos, servidores públicos que não gostam de trabalhar, etc., etc. Os únicos eleitores do Lula, os quais eu perdoo, são os pobres do nordeste e uma meia dúzia de parentes — não quero que o Natal em família acabe. E note que eu falei apenas dos eleitores, nem cheguei no candidato.

Provavelmente serei cancelado por esta crônica. Paciência. Leitor, lembra o que eu disse sobre ser bom em ler as caras dos sujeitos? O Lula nunca me desceu! Nem nos “anos de ouro” da era PT. Se eu fosse agiota ou banqueiro e aparecesse o Lula me pedindo dinheiro, só pela cara, responderia um tonitruante “não, você tem cara de ladrão”. Pare pra pensar: o Lula está com quase oitenta anos! Uma hora dessas era para o Nove Dedos estar em Maldivas com sua esposa, desfrutando de tudo o que o capitalismo é capaz de prover, quieto, sem ter de aturar Gleisi Hoffmann em seu ouvido ou qualquer outro petista insuportável. Espere! Me enganei. Na verdade, era para o Lula estar preso, mas deixemos este detalhe de lado. É só um detalhe. Porém, já que saiu da prisão, por que diabos este velho não foi viver sua velhice longe de toda essa loucura? Ou o Lula é um santo preocupadíssimo com a salvação do povo brasileiro ou é um ditador ávido por poder. Fico com a segunda opção.

Mas e o Bolsonaro? Escrevi, no início desta crônica, sobre minha ojeriza à classe política pelo fato de todos eles me parecerem demagogos e, por consequência, mentirosos. Muitos criticam o Bolsonaro sobre a maneira “sem filtro” pela qual ele se comunica, que isso não é jeito de um presidente se portar, se comunicar, etc., etc. Entretanto, sou obrigado a mostrar o óbvio: Bolsonaro se elegeu em 2018 justamente pela maneira com que ele se comunica com o povo. Pela primeira vez na história do Brasil temos um presidente que é de verdade, que tem horror à pose. Só por este fato, já ganhou o meu voto. Ah, e também por ser “imbrochável”!

A sua vida não anda porque você tem medo de ser julgado.

A sua vida não anda porque você tem medo de ser julgado. Admita! Você está sempre a pensar no que os outros pensarão de você. E, para “suprir” as expectativas destes outros, você faz o quê? Pose! Você vive de pose.

Notícia ruim: a pose é uma mentira, logo, você é uma mentira.

Mas este fato não é o pior. O pior é saber que há dentro de você um potencial inativo, esperando para ser despertado. A pose, o medo de ser julgado, faz este potencial ficar adormecido até à sua morte.

Ou seja, ao viver de pose, você está de fato jogando a sua vida no lixo.

Carl Jung dizia que o tolo é o precursor do salvador. Peguemos o maior de todos: Jesus Cristo. Quantos não o chamaram de tolo quando ele começou a pregar a palavra de Deus para os que estavam à sua volta? Mas Cristo continuou! Sua Verdade passou a incomodar aqueles que viviam de poses. Resultado: Cristo foi crucificado, mas redimiu os nossos pecados e se tornou o salvador da humanidade. Foi de tolo a salvador.

Você não precisa salvar a humanidade — nem é bom que tenha esta pretensão. Entretanto, você pode e deve salvar a sua circunstância. E, para fazer isso, você terá de fazer o papel de tolo.

Quando comecei a publicar meus textos, meus livros, meus vídeos, etc., etc., o que eu ouvi de fofoquinhas e “críticas construtivas” de gente que nunca construiu nada, não foi brincadeira. A coisa se intensificou quando passei a atender no consultório.

Por que isso acontece? Porque você resolveu parar de viver de pose. Você resolveu fazer o que deve ser feito. Este ato te deixa em evidência diante daquele mar de poses. E você será tolo! Mas está tudo bem ser tolo. Melhor ser um tolo verdadeiro do que um “posudo” mentiroso.

Esta evidência provoca inveja, ressentimento e amargura nos corações mesquinhos dos que vivem na pose. Foda-se! Continue!

Eis que ao passar por isso, a sua vida começa a acontecer! O tolo, que é um aprendiz, agora passa a se aproximar do salvador, que é um mestre. É claro que a distância ainda é monumental, porém, já está mais perto do que antes.

As maiores coisas que faremos na vida, as faremos com um coração que pulsa, não com uma mente insossa que pensa em demasia no que os outros pensarão de nós.

O AMOR DOCE DE MINHA MÃE

Estes dias, numa sessão de terapia, emocionei-me ao relatar para a paciente em minha frente o momento que cortei o cordão umbilical com minha progenitora. Engana-se quem pensa que o cordão umbilical é cortado logo após o parto. Continuamos naquele enlace de sobrevivência com nossa mãe por mais alguns anos. Ora, ela nos dá de mamar, nos enche de afeto, nos acalenta de amor. Minha mãe fez tudo isso e mais um pouco. O problema começa na adolescência. Deus poderia ter cortado esta fase da vida. Poderíamos ir de bebês — amáveis, fofinhos, bonitinhos — à adultos maduros, sem passar pela fase mais chata de todo o ser humano. Nelson dizia que um homem de dezoito anos não sabe sequer dar “bom dia” para uma mulher. Vou mais longe. Um garoto na adolescência não sabe é nada, nem mesmo enxergar o amor vivo de sua mãe. Por isso, Nelson aconselhava os jovens: “Envelheçam! Envelheçam rapidamente!”

Eu fui um bom filho “aborrecente”, mas poderia ter sido melhor. Minha mãe, a dona Ivete, sempre fez o possível e o impossível por mim, mas, enquanto morava com ela, não enxergava este amor sendo esfregado na minha cara dia após dia. Vez ou outra, estava eu em meu quarto no meio da tarde, eis que minha mãe me agracia com três barras de chocolate, assim, do nada, sem eu merecer bulhufas. O amor dela é bem doce. Se não fosse a minha consciência de melancólico, aos vinte anos eu seria um diabético por excesso de amor materno. Ou, ainda, eu poderia facilmente ter me tornado um obeso aos vinte anos. Entretanto, minha genética me agraciou, à época, com um metabolismo acelerado. Ia de três a quatro vezes por dia no banheiro — morram de inveja. Então eu comia, comia e comia, mas não engordava um quilo sequer. Era seco, virado em cabeça. Meus amigos tinham receio de me convidar para ir às suas casas. Não que eu não fosse um cara legal, eu era um ótimo amigo, mas comia feito um dinossauro. A única pessoa capaz de alimentar seu dinossaurinho de um metro e noventa e dois, era a minha amada mãe.

E isso ela fazia! Lá em casa, em se tratando de comida, sempre tivemos fartura. Minha mãe sempre disse uma frase que ressoa até hoje nos meus ouvidos: “Pra comer não precisa economizar!” Não adiantou muito, pois, por muito tempo, eu economizei, fui avarento, etc., etc. Já confessei minha época de mão-de-vaca em outras crônicas. O que quero deixar escancarado aqui é o amor imenso de minha mãe por mim. Lembro-me de que todas as vezes das quais eu precisava levantar às 5h30 para ir ao colégio — pois era em outra cidade —, minha mãe acordava antes, fazia o meu café e ainda tinha o trabalho de me acordar. Com os meus dezessete anos, ao começar a trabalhar numa fábrica de sapatos, a mesma coisa: ela levantava antes, fazia o meu café e ainda deixava o meu lanche pronto. Os meus colegas de trabalho não entendiam como eu, todos os dias, levava de três a quatro torradas pra comer no segundo café da manhã. “Minha mãe!” eu respondia. “Sua mãe te ama muito.”

E se você, leitor, acha que este esmero é só para com a gastronomia do lar, engana-se. A casa estava sempre limpa, perfumada, organizada. Ao deitar, à noite, em meu travesseiro e sentir aquele aroma de amaciante Downy, subitamente enternecia-me de amor. Era o amor de minha mãe posto em cheiro. Talvez, à época, eu não notasse estes atos, pois eu sempre tive isso. Passei a perceber nas primeiras vezes que fui morar sozinho. Espere! Minto. A primeira vez que percebi todo este amor foi justamente no dia no qual precisei cortar o cordão umbilical de vez, ou seja, no dia da minha mudança para Foz do Iguaçu. Até aquela manhã de janeiro de 2011, a minha ficha ainda não havia caído. Após colocar minhas malas no carro do meu irmão, vi minha mãezinha ali, na porta de casa, já chorando. Fui até ela e a abracei. Neste exato momento caiu a minha ficha. “Cacete! Estou indo embora. Estou indo para outro Estado. Ficarei a mil quilômetros daqui. Verei minha mãe no máximo uma vez por ano.” Desabei. Eu e minha mãe choramos juntos. Ali foi o corte do cordão umbilical.

Nos primeiros quilômetros da viagem, olhava para aqueles campos verdejantes, para as “florestas” de pinus e viajava em pensamentos. Estava tentando administrar a tristeza e a saudade. Eu era um virgem! Não no sentido sexual, mas no sentido de desbravar outros lugares. Eu, um bicho do mato, que acabara de sair de uma cidadezinha pacata, fria, de 30 mil habitantes, onde eu morava com minha mãe, que fazia tudo por mim, onde eu tinha todos os meus amigos, estava me mudando para uma cidade de fronteira, com 250 mil habitantes, quente como o inferno, sem amigo nenhum, para morar com meu irmão. Inclusive, ao chegarmos em Foz do Iguaçu, o termômetro do carro bateu a marca de quarenta graus. Não acreditei! Pensei: “Deve estar errado essa temperatura.” Ao sair do carro, concluí: “Acho que vou voltar pra serra gaúcha!”

Não voltei! Encarei o caos. E foi a melhor coisa que eu poderia fazer. Quanto mais o tempo passava, mais eu percebia o amor de minha mãe. Perceba o paradoxo: precisei estar longe dela para conseguir contemplar aquele amor latente e tão próximo. Nunca esqueço quando passei a morar sozinho num apartamentinho de três cômodos: ao deitar na cama para dormir, os travesseiros e os lençóis não tinham cheiro de nada. Eu os lavava, mas não fediam e nem cheiravam. “Como a minha mãe fazia aquilo com os jogos de lençóis lá de casa?” Na parte gastronômica já era humilhação. Nunca fiz algo tão saboroso como a comida de minha mãe. E quando, raramente, eu ficava doente, deixava a doença progredir até às últimas consequências para então comprar remédios ou ir ao médico. Se minha mãe estivesse comigo, isso nunca aconteceria.

Dizem que os filhos, ou se apegam mais ao pai ou mais à mãe, ou seja, têm um preferido. Quando eu morava com meus pais, eu tinha: o meu pai. Ora, isso era óbvio! O meu pai ficou com a parte boa da criação. Quem fez o trabalho pesado fora minha mãe. Minha mãe que me surrava quando eu passava dos limites, minha mãe que colocara freios na minha rebeldia de aborrecente, minha mãe que estava comigo em todos os momentos, inclusive os ruins. O meu pai era caminhoneiro, então, toda vez que ele chegava em casa era uma alegria imensa, pois estávamos morrendo de saudade. E meu pai é um sanguíneo puríssimo. Onde chega, a tristeza não dá as caras. Acho que era por isso que eu tinha o meu preferido. O amor de meu pai sempre foi escancarado, barulhento, como quem berra: “Tá vendo?! Eu te amo!”

Hoje não tenho preferido. À medida que fui amadurecendo, o amor doce de minha mãe foi sendo percebido por este homem que vos escreve semanalmente. Refletia sobre isso nesta semana: apesar de doce, o amor dela é silencioso, ainda mais se comparado ao amor de meu pai, cujo caráter é expansivo, extrovertido, falante, beirando ao caos. Minha mãe foi a responsável por colocar ordem neste caos. Se não fosse por minha mãe, não sei o que seria de meu pai. Aliás, não sei o que seria da nossa família, pois ela é a base, ela é o reduto de amor que aguarda seus três homens — meu pai, eu e meu irmão — com a casa limpa, comida na mesa, fogo no fogão e um coração monumental capaz de tudo para o bem dos seus. E mais: está sempre linda! Minha mãe é de uma beleza vexatória, a qual meu pai, toda vez que conversamos, reforça: “Quando vi a Alemoa — é assim que meu pai chama minha mãe —, me apaixonei na hora!” Mal sabia ele que não se tratava apenas de um rostinho bonito.

POR QUE PROSTITUTAS NÃO BEIJAM NA BOCA?

Na última crônica, apesar de eu ter escrito palavras a dar com pau, percebi que não foram suficientes. A iniciei com uma indagação cuja resposta quero refletir agora. Ora, por que prostitutas não beijam na boca? Por que introduzir uma língua em uma boca é mais íntimo do que introduzir você-sabe-o-que no lugar que você-sabe-onde? A palavra central que me vem à mente é intimidade. Já disse aqui, e não foram poucas vezes, que a intimidade é o seu relicário. E ambos os atos são íntimos. Mas perceba, leitor, o que fizemos na modernidade: subvertemos a intimidade. A jogamos para escanteio, pois o que vale é nos “libertarmos” das amarras opressoras, patriarcais, religiosas, etc., etc. E engana-se quem pense que o beijo sobreviveu a esta subversão da intimidade. Convido você, leitor, a ir numa balada. Provavelmente você irá se deparar com junções de bocas, línguas e salivas entre estranhos. Pelo menos, as prostitutas, ainda mantêm o beijo em seu devido lugar, no baú de relicários.

Mas eis o que eu queria dizer. Observava, estes dias, uma moça e um menino sentados em frente a uma sorveteria. Enquanto tomavam seus sorvetes, riam um para o outro. Talvez fosse um primeiro encontro. E eu rezei para que fosse. Ali, percebi o óbvio: nós arruinamos tanto a intimidade que hoje, levar uma moça para tomar um sorvete é mais íntimo do que penetrá-la em meio às decorações baratas de um motel de beira de estrada. Aposto que você levou mais moças para o seu quarto sujo do que para tomar sorvete. Não vou parar por aqui: um menear de mãos se tornou mais íntimo do que o sexo. Nelson, numa crônica, escreveu que após sua primeira experiência sexual, que fora com uma prostituta, começou a morrer. Eis o que começou a morrer: a intimidade.

Toda vez que entregamos nossa intimidade de bandeja para saciarmos nossas vontades mais baixas, passamos a morrer, lentamente. Todos que já se depararam com pornografia pesada, irão concordar comigo de que aquelas pessoas assassinaram tanto suas intimidades, que se tornaram zumbis. Muitos ali estão mais mortos do que vivos. Há aquele olhar vazio — o qual citei na última crônica —, miserável, sem vida! É escancarado, é vulgar, é a libertação cuja modernidade ansiava. Está aí! Tomem! A garota de programa que transou com aquele desgraçado da última crônica, era um zumbi. Este homem, se continuar neste caminho de assassinar intimidades, se tornará um zumbi. O que é um zumbi: é um escravo de suas vontades mais baixas.

Ao assassinarmos a intimidade, pouco a pouco, vamos morrendo. Lembro-me de minha adolescência. Meninas que entregavam suas intimidades de bandeja para qualquer desgraçado. Seus apelidos eram famosos entre os homens. Apelidos estes que explicitavam suas habilidades sexuais, os quais não citarei aqui para preservá-las. Há alguns anos, fiquei sabendo, por conhecidos, que uma destas meninas tornou-se garota de programa e estava viciada em cocaína e sabe-se lá mais o quê! O que de fato aconteceu é que pouco a pouco ela foi se assassinando. Uma homicida de si mesma. Eis que, simbolicamente ela morre, mas volta à vida como um morto-vivo, um zumbi. Ela se encara no espelho e se odeia. É como não ter nada do que se orgulhar em si mesma. Próximo passo: continuar se assassinando. Quase como uma pulsão de morte, segundo Freud.

O sofrimento inevitável advém do fato de que na sua essência, ela não é um zumbi. Ela foi feita para subir, não para descer. E toda vez que descemos ao invés de subirmos, caímos em sofrimento absoluto. Assim como Nelson, também comecei a morrer após a primeira experiência sexual, que também fora com uma prostituta — assunto para outra crônica. Assassinei, por muito tempo, minha intimidade. Uma das piores épocas da minha vida se deu quando entreguei-me de vez à canalhice. Eu namorava e traía. Não uma, não duas, mas várias vezes. O destino inevitável daquele namoro que já havia perdido o significado há tempos era acabar. E acabou. Minha vida não melhorou depois disso. Pelo contrário. Ia de paroxismo em paroxismo, buscando saciar minha canalhice. Por um momento, tornei-me um zumbi. Marcava encontros durante o dia para à noite realizá-los. Minha vida se tornou aquela coisa prática e insossa: trabalhava pra ganhar salário, comia para não morrer de fome, transava para saciar meu egoísmo. O meu apartamento era o exoesqueleto de um niilista: sujo, bagunçado e sem vida. Lembro-me de que até parei de escrever e de tocar, atividades das quais sempre trouxeram sentido para o meu agnosticismo preto e branco.

Hoje, quando olho para estes tempos sombrios, os quais eu tinha o desejo vil de tornar-me livre para saciar as vontades mais baixas da minha alma, agradeço a Deus por ter encontrado o que de fato é a liberdade. Ora, o que há de liberdade em um homem barbado que não consegue ficar uma semana sem se masturbar para um vídeo pornô? Porque este é um dos erros mais monumentais da nossa modernidade: se livrar das amarras patriarcais, opressoras e religiosas… para se tornar escravo de si mesmo. Genial! A liberdade verdadeira é aquela na qual eu tomo consciência de que o ser humano não tem instinto. O meu gato, o Adão, tem instinto. O bichinho não tem escolha. Ele só age. É só impulso! Nunca chegarei em casa e irei me deparar com o Adão chorando porque percebeu que vive o dia inteiro comendo, dormindo, mijando e cagando, ou seja, chorando por ter uma vida medíocre. Entretanto, experimente você viver a vida do Adão. Em poucos meses, talvez em algumas semanas, uma angústia acometerá sua alma. E por quê? Porque você tem escolha! Você é livre!

Volto-me à questão: por que prostitutas não beijam na boca? Tem alguma coisa na cara! Sim. A nossa cara diz tudo. Já disse aqui: eu, se fosse agiota, emprestaria dinheiro só pela cara do sujeito. O beijo é cara com cara, nariz com nariz, olhos com olhos, lábios com lábios, línguas com línguas, intimidade com intimidade. Tudo está na cara! A diferença do sexo com amor para o sexo sem amor, é que neste não há cara, não há a concessão sequer de um selinho, quiçá então de um beijo molhado. Também não há um mísero olhar de amor e encantamento pelo outro, é como se fossem apenas animais no cio cumprindo seu papel biológico. Enquanto que naquele — no sexo com amor — há o beijo apaixonado, o olhar penetrante, a voz dos amantes, o cheiro de sexo e, claro, a intimidade entre duas pessoas que estão dispostas a morrerem uma pela outra.

Aprendi o que é sexo de verdade ao manter a castidade. Vê se pode uma coisa dessas?! Eu, que já fui um onanista de mão cheia, um moleque que passava tardes inteiras em sites pornográficos, um canalha mau-caráter que aprontava loucuras sexuais a torto e a direito, etc., e agora estou aqui, na castidade, ou melhor, tentando mantê-la. O mais cômico desta história, não é o fato de um tarado tentar ser casto, mas sim, este mesmo tarado afirmar que nada é tão prazeroso do que o sexo na castidade. Explico: após o meu casamento, prometi manter-me casto. O que isso significa na prática? Guardar-me apenas para a minha esposa, ou seja, sem pornografia, sem masturbação e sem pensamentos lascivos com outras moças. Não é fácil, querido leitor, mas vale a pena. Vale a pena porque neste processo eu descobri o ouro: uma intimidade completa, e não aos pedaços.

Toda vez que você trai, assiste pornografia, vive a pensar em outras, mas então volta pra casa para fazer amor com sua mulher, aquela pela qual você jurou viver e morrer, você volta desintegrado, aos pedaços, sendo que você poderia estar inteiro para ela. De qualquer forma, quero deixar escancarada a diferença do verdadeiro amor contra aquele sexo sem intimidade alguma. É abissal. É um abismo de centímetros, pois a distância é apenas entre uma boca e outra. Enfim, Olavo tinha razão: o verdadeiro amor é tão grande e tão intenso que perto dele o sexo é apenas uma coceirinha.

SEXO SEM AMOR

Você, leitor, já se perguntou por que prostitutas não beijam na boca? Comecei bem a crônica de hoje! Pergunto isso, pois alguém, estes dias, mandou um áudio num destes grupos de WhatsApp onde só têm homens casados, e, no áudio, um velho reclamava pelo fato de pagar quinhentos reais para sair com uma garota de programa e a bendita não lhe dava a concessão de um mísero selinho, quiçá um beijo de língua, daqueles severamente molhados. Dizia ele, indignadíssimo: “Eu estava fazendo amor com uma boneca inflável. Era como se ela dissesse: ‘Termina logo, por favor! Eu só queria o seu dinheiro.’ Joguei quinhentos reais no lixo.” Ouvindo este áudio, foi possível enxergar alguns óbvios ululantes, os quais quero expor nesta crônica.

Este velho, provavelmente, é um solitário e está em um inferno particular com medo de não ser amado por ninguém. Talvez muitas coisas estavam dando errado em sua vida. Foi então que ele decidiu buscar o amor — grande parte dos homens que procuram prostitutas, querem ser amados. A fuga do sofrimento inevitável tende a nos levar para os prazeres imediatos. Cansado de pornografia, descobriu o Fatal Model, uma empresa cuja missão é dignificar a prostituição — é verdade, entrem no site e vejam —, ou seja, não tem problema nenhum em você ser garota de programa, muito pelo contrário, pode até ser honroso. E eu fico a pensar: o que os pais destas meninas pensariam ao ver suas filhas no Fatal Model? Cacete! Ninguém mais pensa nos pais.

Não queria dar uma de tiozão moralista, mas percebo que esta relativização moral vai nos destruindo aos poucos. Começa com as dancinhas sensuais no TikTok. Eis que um tarado oferece dinheiro para uma garota de menor enviar um vídeo só para ele. A menina aceita e pensa: “Opa! É fácil ganhar dinheiro.” Aos poucos essa menina descobre outras garotas que estão mais “avançadas” em todo este esquema. E mais: descobre que muitos pagariam um valor altíssimo para ter o seu corpo por uma hora. A maioria, na verdade, está procurando intimidade. Como eu disse, querem ser amados desesperadamente.

Mas eis o que eu queria dizer. Este desgraçado marca o programa no meio da tarde, onde ninguém desconfiaria, nem sua esposa. Ele chega até o local e manda uma mensagem para a garota: “Cheguei.” Desce do carro e a avista na porta da casa com uma face de poucos amigos. Ela nem o cumprimenta e já diz: “Por aqui!” Era como se ele fosse apenas mais um numa fila de desgraçados em busca da graça. O que é verdade! Mas ele não queria ser apenas mais um. Ele queria ser especial na vida daquela mulher. Enquanto a segue até o quarto, ele percebe uma casa sem vida, mal cuidada, largada às traças e aos pecados. Ora, ninguém queria estar ali. O ambiente mostrava aquilo que habitava dentro do coração daquelas mulheres: miséria. Eram tão pobres que só tinham dinheiro.

Ao chegarem no quarto, a moça, de súbito, pergunta: “Vai pagar como?” Assim que recebe o pagamento, vai até um criado-mudo e pega uma camisinha. Enquanto isso, aquele desgraçado vai tirando a roupa, já triste por estar diante de uma miserável, assim como ele. Ao sentar-se na cama, vem a segunda pergunta: “Quer me pegar de quatro?” Ele nega. Queria fazer amor olhando pra ela. A mulher fecha ainda mais a cara. No desespero de tentar ganhar alguma intimidade, pergunta de onde ela é. A moça franze o cenho, mas responde sua pergunta. Ele continua: “Tem família lá?” Então ela não aguenta: “Você veio aqui para meter ou para me entrevistar?” Por alguns segundos, este desgraçado pensa em ir embora, mas seu desejo urra dentro de sua alma.

Enquanto a penetra, tenta beijá-la. Ela vira a cara! Para fazê-lo chegar ao clímax mais rápido, passa a gemer e a encenar como as garotas dos filmes pornográficos. Ela sabe que aquele desgraçado assiste muita pornografia. E acerta em cheio! Em menos de cinco minutos, junto com o gozo, vem o arrependimento, a tristeza e a sensação de estar ainda mais sozinho, ainda mais longe do amor. A mulher levanta, pega o celular e responde o próximo desgraçado (cliente). Ele tira a camisinha e pergunta onde pode descartá-la. A garota de programa aponta para o banheiro. No lixo do banheiro há aquele mar de camisinhas usadas até a borda. Enquanto aquele homem se veste, ouve outras mulheres gemendo nos quartos ao lado. Seu olhar está morto, vazio. Ao calçar os sapatos, nem se despede. Simplesmente sai porta afora. Ao entrar no carro, escora sua testa no volante e pensa: “Por que eu fiz isso?” Numa mistura de tristeza e ressentimento, pega o celular e manda um áudio para um “amigo”, desabafando sobre o ocorrido. O “amigo”, tão desgraçado quanto ele, compartilha sua confissão com outras pessoas. Até chegar neste grupo do qual participo.

Os homens do grupo riam daquilo. Eu senti uma tristeza profunda por aquele desgraçado. Acho que nunca se viveu uma época de homens tão imaturos e pobres, mas não pobres de dinheiro, pobres de espírito. Se amizade é amar as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas, quanto mais você se eleva em direção a algo mais alto e valoroso, mais “amigos” vão ficando para trás. Porque é isso o que 90% dos homens estão afundados: mediocridade mundana. Isso resulta em homens incapazes de honrar suas palavras ou, por outra, incapazes de serem confiáveis. E veja, meu leitor, não estou dando uma de homem super elevado moralmente e intelectualmente, que possui horror à ignorância da massa. Deus me livre! Inclusive, tenho um sogro que conta as piadas mais ignorantes possíveis, das quais eu morro de rir. Nós falamos bobagens a dar com pau. O fato aqui é: ele é um homem do qual eu posso confiar. É um homem amável, honroso e que cumpre com a sua palavra. Resumindo: é um homem que eu gostaria de estar ao lado num campo de batalha. Melhor ainda: imagine que o mundo estivesse acabando, como na cena final do filme Não Olhe para Cima, quem você gostaria que estivesse naquela mesa com você? Aqui nós dividimos os amigos do peito daqueles que simplesmente temos uma mera afeição.

Me surgiu, assim, de súbito, uma epifania. Tenho pouquíssimos amigos! Pouquíssimos mesmo. E pensando cá com meus botões, isto se deve ao resultado da minha busca à santidade. Mas quem sou eu na fila do pão perto de um santo? Quase um nada. Mas mesmo sendo o cocô do cavalo do bandido, já é possível enxergar os contrastes monumentais entre mim e muitos dos que ficaram para trás. E mais uma vez: não me entendam mal. Não estou dizendo que estes homens que ficaram para trás são meus inimigos. Pelo contrário. Gosto deles. Tenho afeição por eles. Mas é isso, apenas uma afeição. Não os levaria juntos para uma batalha.

Mas eis o que eu queria dizer. Atendo, no consultório, duas garotas de programa. Ambas possuem passados conturbadíssimos com suas famílias. Eis uma das causas que nos leva para caminhos sombrios: uma família sem amor. Por isso, enfatizo de maneira obsessiva para os pais que me leem: “Pequem pelo excesso de amor, e nunca pela falta dele.” Ao ver essas duas garotas, uma de dezoito e a outra de vinte e dois, implorando ajuda para ordenarem as suas vidas caóticas, confesso que sinto uma mistura de desesperança e esperança. Desesperança pelo fato de me deparar com duas meninas tão jovens me contando detalhes vis de suas circunstâncias. Ora, garotas de programa se deparam com todo o tipo de homem. Desde aqueles que estão buscando amor de uma forma desesperada, até aqueles que já se perderam tanto na perversão que acabam por se tornarem maus.

Desgraçados que pedem para elas, no ato sexual, imitarem crianças e os chamarem de “pai” ou “tio”! Imagine, leitor, o que essas garotas passam?! O que as motiva a continuar? — você deve estar se perguntando. Dinheiro! Esta é a resposta. Elas aturam tudo isso por dinheiro. Onde elas iriam ganhar trezentos reais por quinze ou vinte minutos? Os anúncios dizem uma hora, entretanto, o homem, após o gozo, sente repulsa de si mesmo e anseia por ir embora imediatamente. Raros são os que ficam uma hora. E, quando ficam, elas odeiam. Inclusive, elas têm táticas para fazê-los chegar ao clímax o mais rápido possível, como imitar atrizes pornográficas ou fazer posições específicas cujos homens se deliciam.


Quando compreendi o que era a prostituição, a dúvida crudelíssima que me assombrava era o fato de como elas faziam para aturar, sem intimidade alguma, todos os tipos de homem. Uma de minhas pacientes disse que, no ato, prefere posições nas quais ela não tenha de olhar para o homem. Ela prefere olhar para uma parede vazia do que para aquele desgraçado que pagou para tê-la. E, enquanto encara a parede, pensa somente no dinheiro. É assim que elas os toleram: desumanizando-os. O problema é que neste processo de desumanização, ambos — contratante e contratada —, são desumanizados. Isso significa que todos se distanciam cada vez mais do amor. Por exemplo: o que vocês acham que é uma casa de swing? Vos digo: é um zoológico. Ou, melhor ainda: um canil: ali, são todos cachorros no cio buscando satisfazer suas vontades mais baixas sem pudor algum.

Meu papel aqui não é político e nem religioso, ou seja, dizer se deve ser proibido ou liberado, ou dizer que todos estão condenados ao inferno — quem sou eu para apontar dedos? Meu papel aqui é mostrar o que muitas vezes a maioria não enxerga: é o óbvio ululante! E que óbvio seria este? É impossível separar o sexo do amor sem deixar feridas expostas. Nelson dizia que a nossa tragédia começa quando separamos o sexo do amor. Vejam as doenças da carne e da alma, do câncer no seio às angústias sem consolo. Os nossos males têm quase sempre esta origem fatal: o sexo sem amor.

Disse que sentia um misto de desesperança e esperança. Sou otimista. A esperança está ganhando. Quando eu tenho a possibilidade de mostrar para estas meninas a vida que vale a pena, me encho de esperança. Porque talvez elas nunca tiveram um mísero contato com o outro lado, com as coisas do alto. Para elas, o sucesso sempre foi o dinheiro no bolso, status, bens materiais e tudo que perece, apodrece e se esvai. Vivendo essa vida, as feridas vão sendo abertas e um vazio monumental toma conta de suas almas. Elas começam a ter sintomas: angústia, ansiedade, tristeza profunda, depressão. Sintomas estes que elas tentam minimizar com prazeres imediatos. Não é à toa que o mercado de prostituição dorme de conchinha com o mercado de drogas.

Na última sessão com uma das garotas, eis o tesouro: ao final, ela sorrindo e chorando ao mesmo tempo, me disse “Agora eu tenho esperança numa vida que vale a pena.”

EU SEI QUEBRAR PESCOÇO!

Na minha infância, sempre fui um cagão contumaz. Desde cumprimentar os transeuntes até arriscar um beijo “despretensioso” nos lábios de Luísa — esta crônica está no Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho. Mas não era só isso! Eu tinha um medo absurdo de apanhar. Pouquíssimas foram as vezes que ouvi a frase espectral que ressoava nos corredores de todos os colégios do Brasil: “Te pego na saída!” O “pegar”, aqui, não vinha de uma moça que ansiava por beijar-me os lábios molhados e virgens, mas de um marmanjo cheio de ódio no coração, cuja masculinidade se provava batendo em meninos mais novos. Raramente ouvi tal frase, pois raramente arriscava algo. Eu era o homem do canto, ou seja, não estava no fundão da sala fazendo bagunça e nem com os nerds que sentavam-se na primeira fileira, os quais todos odiavam. Eu gostava dos cantos, das paredes, onde eu não chamasse a atenção. Eis um problema fundamental: eu sempre fui o mais alto da turma. Além disso, eu era virado em cabeça. Tinha cabeça para dar e vender. Daí vem meus primeiros apelidos de infância. Não havia como não chamar a atenção.

Eu estava sempre cuidando para não pisar nos calos de ninguém, pois, como eu disse, meu medo era de apanhar, ser assassinado ou, como diziam algumas mães neuróticas da minha infância, de alguma seita satânica me sequestrar com o objetivo de usar o meu corpinho para rituais de magia negra. O meu objetivo era não feder e nem cheirar, mas acabava sempre fedendo. Por mais que eu fosse um cagão na maior parte do tempo, vez ou outra eu corria riscos, mas, como um bom melancólico, eram riscos calculados. Lembro-me de que muitas das surras das quais presenciei, eram por causa de garotas. Por isso mesmo, na adolescência, sempre tomei cuidado ao me relacionar com as escassas garotas que ousavam me dar uma moralzinha. E hoje, meu querido leitor, quero lhe contar um episódio que escapei da morte, escapei de um lutador de Kung Fu que, segundo ele, sabia quebrar pescoço.

Lá estava eu, numa balada, ao som de MC Leozinho, bebendo whiskey com Coca-Cola. Eu precisava me entorpecer para que aquela mistura de escuridão, música ruim, playboys de saveiro e mulheres de boné, ficasse divertida. Já falei aqui que balada é a dança do acasalamento moderno, né? Mas eis o que eu queria dizer. Lá pelas tantas, enquanto tocava ao fundo “ela só pensa em beijar… beijar, beijar, beijar… vem comigo dançar… dançar, dançar, dançar”, eis que uma garota me puxa e diz no meu ouvido: “Minha amiga quer ficar contigo!” Aquilo, num primeiro momento, soou como um milagre. Segundos depois a minha razão destruiu o meu milagre: “Ela deve ser feia pra cacete! É óbvio!” E mais uma vez a razão deu conta de se corrigir: “Mas eu sou feio pra cacete também! Dane-se!” E lá fui eu em direção à desesperada que almejava ficar comigo. Assim que a avistei em meio àquela combinação de escuridão, luzes fluorescentes piscantes e gente que não acabava mais, concluí: “É um milagre!” A garota era linda. Era pequenina, de cabelos escuros e cacheados, olhos azulíssimos, mas não eram de cigana oblíqua e dissimulada, e sim de uma predadora reta e objetiva.

Não perdi tempo. Antes que ela pudesse dizer “oi”, a agarrei. Enquanto a beijava, pensava: “Já posso morrer.” Ora, eu estava diante de um milagre. Mas mal sabia eu que este pensamento, dali a alguns minutos, poderia ter se tornado parte da realidade. Explico: após beijá-la por alguns minutos, percebi que meu whisky com coca havia acabado. Resolvi buscar mais. No caminho, me atentei a alguém que parecia me seguir. Peguei meu whiskey e voltei para a morena. Na volta, a mesma coisa. Desconfiado, olhei para trás e vi uma criatura estranha me seguindo. Cheguei na morena e relatei o ocorrido. Ela passou a mão na testa e resmungou algo inaudível. Ali eu confirmei: “Tem coisa aí!” Ela simplesmente disse: “Eu só ficava com ele, mas não o quero mais na minha vida. Ele é maluco!” Congelei. Por alguns segundos vi a morte. Só Deus sabe o que um homem ressentido por um amor não correspondido é capaz de fazer. Muitos já mataram e morreram por uma mulher. Até o homem mais santo e correto é capaz de se tornar um homicida sanguinário ao ter o coração estraçalhado por uma semideusa. Li muito Nelson Rodrigues. Sei do que estou falando.

Covarde que eu era, me afastei da morena dizendo: “Já volto!” Assim que comecei a caminhar senti uma cutucada no meu ombro. Continuei sem olhar pra trás. Mais uma vez a cutucada, mas agora com uma ordem: “Ei, preciso falar contigo!” Ao virar, deparei-me com um homem estranho, daqueles que se vestem de preto, da cabeça aos pés, usam aquelas calças com correntes, camisetas de bandas de Black Metal, tênis All Star e possuem aqueles olhos cujo olhar é possível concluir o óbvio: “Este homem está prestes a cometer um massacre em alguma escola.”

Leitor, pense no ódio deste rapaz. Ele foi capaz de pagar para entrar numa balada. É a mesma coisa que Beethoven pagar para ir a um baile funk. É claro que aquele homem do subsolo não estava bem. Sua ficante o descartou e o infeliz resolveu ir atrás dela. Ele, que já vivia uma vida na solidão, se sentiu ainda mais solitário. Eu o conhecia de vista. Sabia que era um dos melhores lutadores de Kung Fu da cidade, pois na época, após desistir da capoeira, entrei para o Kung Fu e o avistei, algumas vezes, no lago São Bernardo, praticando a arte com alguns amigos tão estranhos quanto ele. Então, ao me virar e tomar consciência de quem era, aceitei a realidade: “Me ferrei!” Ele foi logo dizendo, com as mãos nos bolsos: “Aquela garota é minha. A gente está passando por um momento complicado, mas não vou admitir que nenhum homem a deflore.” Eu comprimi os lábios e disse: “Deve ser triste, né?!” Ele franziu o cenho, como se não entendesse a minha resposta. Em seguida, ainda com as mãos nos bolsos — as mãos nos bolsos me intrigaram —, com um olhar repleto de ressentimento, me tacou na cara sua proposta fulminante, como se fosse um chefe da Yakusa!

“Vou te dar três opções! Primeira: olhar pra ela e fingir que não a vê; segunda: hospital; terceira: cemitério.” E concluiu com a frase espectral: “E eu sei quebrar pescoço!” Fiquei em silêncio por alguns segundos, olhando para o chão. A minha resposta veio com uma pergunta e um tom de admiração teatral: “Quem é teu mestre?” No Kung Fu existe a figura do mestre, que nada mais é do que o professor. Ele ficou desconcertado, pois nunca esperaria uma resposta destas. Imagine aí, leitor. Alguém vem até você espumando de raiva e ressentimento, com o desejo sombrio de destruí-lo, mas então você simplesmente, em vez de fugir ou partir para a agressão — que seria o esperado —, oferece um abraço. Quando o garoto respondeu quem era o seu mestre, até seu semblante mudou. Ele me enxergou como alguém mais “humano”, ou seja, alguém mais próximo. Pronto! Ali eu percebi que tinha ganhado ele. Passamos a conversar sobre Kung Fu. E eu sempre enaltecendo sua qualidade monumental de saber quebrar pescoços alheios por aí. Aquele garoto só queria atenção. Bem, se ele sabia quebrar pescoços, eu sabia quebrar raiva e ressentimento. E, pensando cá com meus botões, não é à toa que hoje sou terapeuta. Naquela época eu já mostrava os sinais.

Acho que este talento vem de família. Tenho um primo que certa vez, ao sairmos numa noite para beber em frente a um posto de gasolina, conseguiu fazer um marginal que esfaqueava pessoas alheias por aí, chorar. Fascinante! É verdade: este homem tinha este histórico de esfaquear pessoas na cidade. Eu vi esta cena: um Caim chegando cheio de ódio em direção a nós; e por que o ódio? Em resumo: porque nascemos em famílias amorosas, e ele não. Sua vontade era destruir isso, como descrevi numa crônica antiga, intitulada Morte à Burguesia. E pasmem: após algumas horas, ele foi embora abraçando todos nós. Milagre! O paroxismo desta história foi quando vi este Caim, que em vez de destruir seus irmãos, acabou chorando e se desculpando com todos que estavam ali, mas principalmente com o meu primo, que o abraçava enquanto ele chorava.

Agora estou aqui pensando numa moral da história e, o que vem à minha consciência é o que você, meu leitor, já está cansado de saber: só o amor vai nos salvar. Estes homens só queriam amor, ansiavam por amor. É claro que muitos se afundam tanto em ódio e ressentimento que, muitas vezes, passa a ser quase impossível resgatá-los. Eu disse “quase”, mas não é impossível. Ora, para Deus nada é impossível. No fim, eu e o garoto que sabia quebrar pescoço combinamos até de treinar juntos. Quem saiu perdendo, aquela noite, foi a morena. Ora, também não vou ficar dando chances para o azar.

“BOM DIA, DONA LOURDES”

Na semana passada, disse que uma das coisas que sentia falta do meu antigo trabalho, era do Naldo, o canalha honesto. Hoje, ao ir à santa missa e me deparar com um mar de cabelos brancos e grisalhos, me atentei à outra saudade: dona Lourdes. Como eu ia caminhando para o trabalho, passava todos os dias em frente à sua casa. E lá estava ela, com esmero, a varrer a calçada. Ora, o que você espera de alguém que já passou dos sessenta e cinco anos? É varrer a calçada pela manhã, tomar um chimarrão sentada na varanda, fazer fofoca com as vizinhas, ir à missa e cumprimentar estranhos que passam na sua rua. E nos cinco anos que passei a pé em frente à sua casa, ela sempre me abria um sorriso de orelha a orelha, abanava com sua mãozinha fofa e enchia a boca pra dizer: “Bom dia, vizinho!” Aquilo alegrava-me de imediato. Eu respondia à altura e ela ficava toda faceira. E, pelo que percebi, dona Lourdes mora sozinha. Talvez o marido já tenha falecido e os filhos certamente foram fazer suas vidas em outro lugar.

Uma de minhas maiores alegrias deste ano, fora certo dia no qual eu e a Adeline resolvemos ir à missa aqui da comunidade. Após a liturgia, adivinha quem eu encontrei na saída da igreja? Dona Lourdes! Assim que me enxergou, seus olhos brilharam. Fui até ela e dei-lhe um abraço afetuoso. Tadinha. A fiz sumir no meu abraço. Ela é pequenina, como quase todos os velhinhos e velhinhas. Dizem por aí que à medida que vamos envelhecendo, vamos diminuindo. E eu sou um homenzarrão de 1,92 metros. Já disse aqui que sou obsessivo por abraços. Eu poderia ficar o dia inteiro abraçando gente, principalmente os velhinhos. Assim que me abraçou, olhou para minha esposa e confessou sua alegria monumental: “Quando esse rapaz bonitão passa lá na frente de casa e me dá ‘bom dia’, eu ganho a semana.” Mal sabe ela que quem ganha a semana sou eu.

Um “bom dia” com um sorriso pode fazer maravilhas na nossa vida. E não nos atentamos a isso, não nos atentamos às coisas simples da vida. E é justamente nelas que se encontra a vida que vale a pena. À medida que vamos vivendo, nos tornamos reféns de nossas rotinas maçantes e automáticas. Perdemos o contato com a humanidade. Nos afundamos no banco de um carro, na tela de um celular, atrás de um computador e pronto: trocamos nosso coração por uma bateria de 12 volts e nosso cérebro por um HD de um TB. Eu, Robô! Já assistiram ao filme? Eu não assisti, mas me veio, de súbito, à memória. Porque me parece que este excesso de informação e de tecnologia nos desumanizou de alguma forma, pois passamos a nos distanciar da vida real. Nos distanciamos das donas Lourdes, das crianças do bairro, dos bichos de estimação dos vizinhos, das árvores e flores que jazem ali, na sua rua, as quais você nunca mais contemplou; nos distanciamos da nossa própria família, perdemos os momentos mais significativos de amor: um sorriso de seu filho por uma descoberta boba da realidade; uma fala de amor da sua esposa pra você no meio do café da manhã; sua mãe lhe contando, por telefone, como ela está feliz por ter conseguido ir no médico. Enfim, os pequenos milagres de cada dia.

O ser humano, para os árabes, significa “aquele que esquece”. Esquece do principal. Estou aqui para lembrá-los e também para que eu não me esqueça. Hoje, tudo induz à loucura, à exasperação, aos estímulos e, consequentemente, aos prazeres imediatos. Nos fechamos para o mundo à nossa volta e encontramos refúgio no mundo abstrato dos nossos pensamentos, pois dá uma falsa sensação de segurança. As pessoas vão se tornando bichos do mato, ressentidas, fracas, vingativas, mesquinhas e soberbas. Incapazes de cumprimentar uma dona Lourdes com um sorriso no rosto, incapazes de passar por um ser humano, encarar-lhe a face e dar-lhe a concessão de um “bom dia”.

Lembro-me sempre quando eu apresentava a integração para os novos colaboradores na antiga empresa na qual eu trabalhava. Vez ou outra, algum participante, incomodado com minha fala sobre a importância de cumprimentar as pessoas, dizia: “Mas às vezes a pessoa é mais fechada. É o jeito dela ser assim!” Eu respondia: “Jeito de merda! Mude!” Eu posso falar isso com propriedade. Sou um melancólico! Meu padrão é a introspecção. Isto não me impede de tratar um ser humano como ele deve ser tratado. Nunca esqueço-me de meu pai, certa vez, ainda quando eu era uma criança fechada e introspectiva. Ao chegarmos em um lugar apinhado de gente, recolhia-me. Se cumprimentasse alguém, olhava pra baixo. Ao perceber isso, meu pai, com todo o seu amor, me colocou no meu lugar de ser humano, não de bicho: “Filho, você nunca cumprimenta as pessoas olhando pra baixo. Olhe nos olhos e sorria. E o aperto de mão deve ser firme!” Isso nunca mais saiu da minha consciência.

Como eu falei, as pessoas, ao se distanciarem da humanidade, tornam-se bichos do mato cuja única reação é fugir ou lutar. Recebo, no consultório, semanalmente, pessoas fechadas para o outro, ou seja, pessoas fechadas para o amor. O meu trabalho, ali, é mostrar-lhes a vida que vale a pena. Quantos dão a volta ao mundo tentando encontrar esta vida, porém, não percebem, que a vida que vale a pena estava ali, sendo esfregada em suas caras, dia após dia, na própria rua de suas casas, ao se depararem com o sorriso da dona Lourdes.

Eis o que queria dizer. Neste último domingo, eu e a Adeline trabalhamos como voluntários no almoço da comunidade São Cristóvão. Em meio àquela correria para servir as mesas, de súbito, um senhor de idade me para no meio do salão. Eu já o conhecia: é o pai de meu catequista. Ele me cumprimentou, me abraçou e pousou sua mão enrugada — eu amo as mãos dos velhinhos — em meu ombro enquanto me enchia de elogios. Dizia ele que acorda às cinco da manhã, faz seu chimarrão, acompanha meus storys, lê minhas crônicas e admira muito o meu trabalho. Finalizou dizendo: “Nunca pare de fazer isso!” Eu derreti de imediato. Se eu pudesse, ficaria toda aquela tarde de domingo tomando chimarrão com o senhor Ivo — acho que posso citar seu nome aqui. Da última vez que citei nomes reais em uma crônica na qual falava sobre amor, quase fui processado.

Às vezes subestimamos o simples. Dona Lourdes ganha a semana com um “bom dia”; o mesmo acontece comigo; meu conteúdo motivou o senhor Ivo a me abraçar; ao receber um áudio de minha mãe no WhatsApp, felicíssima com meu último podcast, me encho de ternura; ao falar com meu pai e ouvi-lo fazer sempre as mesmas piadas, rio como uma criança, e ele também; ao deitar à noite, de conchinha, com minha esposa, percebo o que é intimidade; ao ir à santa missa e ver o padre Renato cumprimentando os fieis com um enorme sorriso no rosto enquanto segue em direção ao altar, me encho de esperança.

É simples, a gente que complica tudo. No fim, estamos todos em busca do amor. Estamos todos em busca de um mísero afeto, pois a solidão é terrível para qualquer alma humana. Até aqueles que insistem em se fechar, na realidade, estão clamando por afeto e por amor. Enquanto pulsamos, necessitamos dos abraços e dos sorrisos alheios. Necessitamos das donas Lourdes, pela manhã, varrendo suas calçadas e cumprimentando os vizinhos com um sorriso enorme no rosto.

A MEDIDA DE AMAR É AMAR SEM MEDIDA

Confesso, leitor, que muitas vezes, sento-me aqui, nesta poltrona, e não sei bulhufas do que escrever. Tenho algumas ideias incompletas que vagueiam pelo limbo obscuro da minha inteligência limitadíssima, mas são só frases soltas. Eis que de uma frase solta, eis que de uma mísera palavra, ocorre-me uma lembrança, que faz a minha imaginação trabalhar e minha criatividade aflorar! De súbito, sai a crônica! Acabei de lembrar-me de algo que anda permeando os meus pensamentos nos últimos dias: os casais se perdem nas pequenas coisas. Esta conclusão é fruto de minha experiência pessoal e dos atendimentos no consultório.

Nós somos mesquinhos. Esta é a verdade! A nossa luta principal é contra nós mesmos, pois temos a mania de olhar apenas para o nosso umbigo, como se fôssemos os seres mais especiais do universo. Como dizia Nelson: “O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota.” O véio Olavo, pelo qual tenho muito apreço e carinho, disse, certa vez, em uma de suas aulas no seu Curso Online de Filosofia, uma das frases que se tornou espectral em minha vida: “Você estará curado quando esquecer de si mesmo.” Dane-se você! Pois assim nos abrimos para a possibilidade do amor. Justamente nesta semana, atendia um casal no consultório. Esta experiência de atender casais é interessante pois me possibilita enxergar-me nos meus relacionamentos. Enquanto discutiam sobre quem fazia mais atividades dentro de casa, eis que pergunto: “O que é o amor pra vocês?” A esposa, de pronto, respondeu: “Sacrifício!”

Ela está certíssima! E por que, na prática, isso não acontece com a maioria de nós? A gente faz uma revolução porque o cônjuge não lavou a louça, ou porque ele esqueceu de tirar os sapatos ao entrar em casa, ou porque ela não fez o almoço, ou porque ela não quer sexo num determinado dia. Enfim, pormenores que tornam-se problemas monumentais para um casal que ainda não entendeu o que de fato é amar o outro. Já disse aqui: são essas briguinhas cotidianas que destroem os relacionamentos, que nos fazem deixar de admirar o outro, que nos fecham cada vez mais para o amor; as grandes discussões até ajudam, pois tendem a terminar com o casal fazendo amor em cima da máquina de lavar.

Estamos aprisionados lembrando apenas de nós mesmos. Ora, se amor é sacrifício, eu esqueço de mim para me doar para o outro. Isto é mortalmente sério, pois tal sacrifício é levado às últimas consequências, ou seja, à morte. Santo Tomás nos lembra que o amor é o desejo de eternidade do ser amado. Isso significa que você, quando ama, é capaz de sacrificar a sua vida para que a do outro continue a existir. Mas percebam nossa mesquinharia: não somos capazes de sacrificar nem nas coisas mais banais, como ajudar o cônjuge a carregar as compras do mercado. Nós preferimos ficar no sofá, na preguiça. Ou ainda: quando percebemos que o outro deixou de fazer algo que ansiávamos que ele fizesse. A nossa atitude impensada é sempre a mesma: xingá-lo, humilhá-lo por não ter feito algo que você, na sua soberba, queria que ele fizesse. Me diga, leitor, como diabos iremos sacrificar a vida por aqueles que prometemos amar, se somos tão mesquinhos e abjetos?

Isto é fruto do nosso umbigo. Ah, sim, aquele nosso umbigo fedido que insistimos em nos fixar. O resultado disso é que ficamos cegos para o mundo à nossa volta. José Saramago dizia que temos de sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós. Sair de nós é esquecermos de nós. É pararmos de olhar e medir o mundo apenas com o nosso umbigo egoísta. É isso o que faz o casal se fechar para o amor, pois ambos preferem sempre ter a razão do que a paz, preferem sempre “ganhar” a discussão do que amar o outro e ceder quando preciso. É como aquele avarento que, ao ver um mendigo pedindo esmola na rua, o julga de imediato: “Ah, não ajudo esse mendigo porque ele vai gastar com cachaça!” Não, meu caro. Você não ajuda pois é um mesquinho, mão-de-vaca, soberbo e avarento. Você está sempre calculando os atos de amor, como um matemático que calcula uma equação de segundo grau. Lhe digo, assim, na cara: “Você é um bosta!”

Medir os atos de amor, nada mais é, do que insegurança! Sim. Lembro-me de um leitor, certa vez, ficar irritadíssimo comigo quando falei que aquele que perdoa verdadeiramente uma traição é digno e forte. Ele não entendeu! Para ele, perdoar uma traição é ser trouxa, é ser fraco, é ser o cocô do cavalo do bandido. Mas é claro: para quem nunca saiu de si mesmo, é impossível entender o que de fato é amar alguém. E, se eu não saio de mim, eu nunca estarei disposto a me sacrificar por ninguém, ou seja, eu me fecho para o amor. Então, o que acontece no cotidiano insuportável, é: temos um casal inseguro, onde cada um está olhando apenas para seu umbigo. Eles até falam, vez ou outra, “Eu te amo”, eles até fazem atos quase caridosos um pelo outro, porém, isso não é o suficiente. Escrevi “quase”, pois na caridade de verdade não há régua, porque a medida de amar é amar sem medida.

Eu, quando criança, era um avarentozinho de primeira categoria. Quando meus amigos iam lá em casa, ao pegar a Coca-Cola na geladeira, eu colocava os copos um encostado no outro, de maneira que eu pudesse medir com precisão a quantidade igualitária de refrigerante para cada um. Eu ia derramando o refrigerante, um pouco em cada copo, até chegar na medida exata. Eu não suportava alguém beber a mais do que eu. Percebam o tamanho da minha avareza! Eu não estava disposto a sacrificar nada, por ninguém, pois pensava apenas na minha sede, mas não só isso! Eu era inseguro e não queria sofrer nenhuma “injustiça”. Algumas pessoas fazem isso com o amor. Mas é ainda pior. Ora, eu era uma criança. Agora imaginem um adulto agir assim! Têm milhões deles por aí medindo seus atos de amor como eu, na infância, medindo a quantidade de refrigerante em cada copo. Espero que você que está lendo esta crônica, não seja um deles.

O DESPERTAR DE UM CANALHA

Se tem algo que sentirei falta do meu antigo emprego, é do Naldo, cujo apelido se tornou espectral em minhas crônicas: Naldo, o Canalha Honesto. “Se é honesto, não é canalha! Se é canalha, não é honesto!” Pensaria, de maneira leviana, o leitor. Ora, o Naldo, na verdade, é um ex-canalha honesto. Hoje o homem é casado e tem filhos. “Guilherme, agora foste longe demais. Não existe ex-canalha!” Eu sou um ex-canalha! Pelo menos, tento ser. Aqui entra um ponto importante: o canalha precisa aprender a ser canalha no relacionamento com sua mulher. Espere! Esta frase ficou ruim. Ele precisa colocar sua canalhice a serviço de sua mulher. É isso! Então, se antes ele era um canalha com todas, agora ele é o canalha de uma, apenas uma. É, talvez não exista ex-canalha, o que fazemos é limitar nossa canalhice para quem juramos amar até à morte.

Estes dias, uma meretriz incauta, atirou-me assim, na cara: “Eu só gosto dos canalhas!” Agora me diga uma novidade. Lembro-me da adolescência, na qual eu era um fracasso monumental com as mulheres. Ora, eu era o homem “legalzão”, fruto da minha insegurança excessiva comigo mesmo. Você sabe bem o perfil. É o cara que é capaz de fazer tudo por uma mulher, menos ser um canalha, menos lhe atirar um beijo na fuça, menos falar o que deveria falar: “Escuta aqui, moça! ‘Amigo’ é uma ova! Eu quero te encher de beijo, da cabeça aos pés!” Em vez disso, lá estava eu a escutar suas angústias sobre os babacas da escola que as deixavam na mão, que as traíam, que as beijavam e, no dia seguinte, estavam lambendo outras moças.

Agora, refletindo, o homem se faz canalha quando passa a confiar no próprio taco. Os garotos populares, pelo menos a maior parte deles, inexoravelmente, se tornam canalhas. Eles são validados pelas meninas desde o ventre: a começar por sua mãe, depois as tias, depois as coleguinhas. Eu fui validado pelos meus pais, entretanto, após a minha mãe dizer que eu era lindo, ao chegar na escola e conviver com a crueldade feminina, as benditas não me davam a concessão de um mísero elogio, mas pelo contrário, eram caras de nojo e desacatos estéticos. Eu, como um legítimo melancólico, ao olhar-me no espelho, dava razão para as adolescentes crudelíssimas da escola, e não para a minha mãe. Resultado: um cara legalzão e inseguro pra cacete, que pensava demais e fazia de menos!

Hoje, ao receber homens legalzões no consultório, percebe-se o óbvio ululante: faltou-lhes algo em seu desenvolvimento masculino: o desabrochar de suas canalhices. Ela não desabrochou em seus corações inseguros e invalidados pelo mundo. Ficou quietinha, escondida. O homem se torna um adulto castrado, com um sentimento de incapacidade e inação. Talvez, minhas leitoras estejam espumando pela boca ao ler tamanha absurdidade: “Como assim o homem precisa despertar seu lado canalha? Enlouqueceu?” Calma, minhas queridas dominadoras. Tudo será explicado. Volto-me à meretriz que atirou-me na cara seu desejo verdadeiro: “Eu só gosto dos canalhas!” Por quê? Isto é óbvio. O canalha tem uma característica que molha calcinhas desde o paleolítico: atitude! Mas não é aquela atitude acanhada, insegura, como quem está fazendo algo de muito errado, como quem olha para o chão, com os ombros caídos e peito para dentro. É uma atitude de quem levanta a cabeça, de quem olha pra frente, enche o peito de ar e diz, repleto de virilidade: “Pode confiar no meu taco!”

O canalha corre riscos. O canalha arrisca falar algo para uma mulher. Arrisca um beijo. Arrisca um convite para dançar. Arrisca subir em um palco. Arrisca montar uma banda. Arrisca escrever um livro. Arrisca mostrar a cara. Enquanto o anti-canalha — o legalzão —, não arrisca bulhufas. Pensa demais e age de menos. Está sempre no mundo abstrato de seus pensamentos, analisando o que os outros irão pensar dele. Esta é a fórmula perfeita para a construção do anti-homem, um homem que deseja a todo tempo ser limpinho, reto e puro. Tatuem esta frase em suas tetas, quer dizer, em suas testas: o homem precisa se sujar. Agora, os religiosos ficarão irascíveis comigo. Entretanto, alguém precisa falar sobre o óbvio ululante! Ao se sujar, descobrimos as nossas forças. Descobrimos do que somos capazes. Descobrimos, inclusive, a nossa capacidade para o mal.

Lembro-me de quando a canalhice despertou em mim. Até aquele momento, me sentia castrado, inferior, num relacionamento limpinho — pelo menos da minha parte. A minha canalhice fora despertada quando tomei um chifre. Explico em detalhes toda esta história no Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho. Eu perdoei e jurei na véspera: “Chega de me rebaixar!” Não me orgulho das minhas atitudes depois disso, pois passei a trair de maneira contumaz. A traição passou a dar prazer. Enquanto estava com as amantes, meu ego se elevava às alturas. Cada vez que eu traía e me safava, mais nas alturas o meu ego ficava. Eu estava afundado na sujeira. Eis que me afoguei e tornei-me um canalha completo. Mas eu não era um canalha honesto, eu era um canalha clássico, como o Palhares, personagem das crônicas de Nelson, que não poupava nem as cunhadas e mentia para todos à sua volta, inclusive pra si mesmo.

Fui de um extremo ao outro. Do homem legalzão ao homem canalhão! Foi um erro crasso. O homem precisa se sujar, mas não necessita afundar-se na lama como eu afundei, pois isso me fez ser um mau-caráter durante um tempo da minha vida. Me afundei tanto, que passei a perder a esperança em algo bom. Ora, minha existência estava repleta de mentiras e prazeres imediatos. A parte boa de toda esta sujeira, foi ter descoberto minhas forças e fraquezas. Hoje eu sei do que sou capaz, tanto para o bem, quanto para o mal. Hoje tenho em mim o canalha, mas também o homem legalzão. Enfim, hoje sei quem sou. E esta descoberta só foi possível, pelo menos na minha circunstância, ao me sujar. Do contrário, eu seria eternamente o anti-homem, um eunuco invalidado pelo mundo e, principalmente, por mim. Eu estaria atrás de validação externa, mentindo por aí para que todos me aceitassem.

Então, meu querido leitor, se for para despertar o canalha dentro de você, faça como o Naldo, desperte o canalha honesto. O Naldo não era o canalha que prometia mundos e fundos, que mentia descaradamente apenas para saciar seus desejos mais atávicos, que traía suas namoradas. O homem nunca traiu. Não, senhor! O Naldo era de uma sinceridade lancinante, muitas vezes dolorida. Ele chegava para a meretriz e dizia, assim, de súbito: “É só por hoje! Vou te dar carinho, vou te tratar bem, mas amanhã eu vou embora e é provável que eu não volte.” É ou não é um canalha honesto? Aposto que você, leitora, chegou a se arrepiar com tamanha sinceridade e canalhice.

Talvez, muitas leitoras estejam achando há tempos que sou um tarado. Então hoje chegou a hora de lhes dizer a verdade. Sim, eu sou! Mas lembro-lhes de uma frase espectral de Nelson Rodrigues: “Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.” Ou seja, todos nascem com o gene da taradeza. Melhor ainda: todos nascem com o gene da canalhice. Não é bonito falar isso, mas eis a verdade. E sejamos sinceros: já pensou você casar com um homem limpinho e puro, daqueles que sequer está disposto a lhe dar umas palmadas? Seria um porre! Seu casamento não duraria até a página três.

DIANTE DA MORTE, ABRACE!

Minha vó materna faleceu. Eu preciso escrever sobre isso. Eu preciso deixar marcado em algum lugar os acontecimentos destes últimos dias. Coisa de escritor. Ora, se não houvesse esta vontade obsessiva de relatar as marcas do tempo por meio das palavras, que tipo de escritor seria eu? Eis me aqui, sentado na poltrona do meu escritório, pondo ordem na casa interior. Minha esposa, neste momento, me julgaria: “E a casa ‘exterior’ deve estar uma bagunça, né, seu safado?” Errada a bendita não está, mas continuemos.

No sábado passado, após um dia cheio de atendimentos e discussões sobre uma crônica polêmica, sento-me no sofá, à noitinha. Espere! Minto! Sento-me não, deito-me. Estava podre, fatigado, meio morto-vivo. Só queria ficar ali, atirado, assistindo televisão sem ter de raciocinar bulhufas. Resolvo ligar para minha mãe, que já atende chorando e me atira nos ouvidos sua angústia: “Filho, o médico disse que temos de escolher se deixamos a mãe com os aparelhos ou desligamos. Ela vai embora de qualquer jeito. Olha o que a gente precisa fazer: escolher o melhor jeito de nossa mãe partir.” E chorava. As únicas palavras que consegui dizer, foram: “Força, mãe! Estou contigo. A família inteira está junto nessa.” Ao desligar o telefone, sentei-me e comuniquei a Adeline do ocorrido. Uma hora depois meu irmão me liga. “A vó faleceu. Eu vou pra São Chico. Quer ir junto?” Confesso que neste momento fiquei pensativo. Respondi que falaria com a Adeline e que daria a resposta em seguida. Ao desligar a ligação fiz uma oração pela minha vó e fiquei ali, reflexivo.

Mais uma vez me deparei com minha mesquinharia e meu egoísmo. Pensei em não ir. Pensei no meu cansaço. Daqui lá, dá uma média de 900 quilômetros. Eu já estava exausto e ainda teria que virar a noite para chegar no domingo, um pouco antes do enterro, às 15h. Além disso, ficaria uma semana longe da minha mulher, pois na segunda-feira, a loira mais bela iria para o Uruguai a trabalho. Neste momento, minha mulher me abraçou e disse: “Amor, vai lá abraçar sua mãe. Ela precisa de ti.” Pronto! Esta fala bastou para levantar-me do sofá e arrumar minha mala. “Abraçar os meus familiares. Eu preciso fazer isso. Dane-se o meu cansaço!”

É claro que a viagem foi cansativa. Quando meu irmão estava quase dormindo no volante, eu pegava o carro. E assim a gente foi até São Francisco de Paula. Chegamos no velório às 13h30. Se tivéssemos pegado um engarrafamento ou se tivesse furado um pneu, não chagaríamos a tempo nem para o enterro. Deus foi bom conosco. Aliás, já disse aqui que sou um cara de sorte? Tenho tanta sorte que fui a pouquíssimos velórios na minha vida, sinal de que perdi poucas pessoas próximas a mim. E já tenho trinta anos. Por este fato, não sou muito experiente com a morte. De cabeça, lembro-me do velório da minha tia, que falecera de câncer; de um colega da faculdade, que fora assassinado; e de um pai de um amigo, que, se não me engano, morrera de câncer também. A minha vó, segundo o atestado de óbito, falecera de insuficiência respiratória, causada por diversas outras coisas, as quais não sei explicar.

Enquanto estávamos no velório, meu pai me descreveu como foi ver a vó partir. Estavam todos no quarto: filhos, genros e noras. Ela foi apagando aos poucos. Os olhos foram se fechando devagar. A respiração fora lentando até parar. A família inteira rezava. Ela morreu dignamente, sem dor, sendo amada até o seu último suspiro. Mas mais do que isso. Ela foi amada também após o seu último suspiro terreno, e será amada até existirem pessoas que lembrem de seu legado. Por isso que digo e repito: o amor continua além da vida e além da morte. Enquanto houver pessoas dispostas a expressar o legado da Jovelina Müller, ela não morrerá. Estará para sempre em nossos corações.

No velório, abracei todos que pude. Mais uma de minhas obsessões: o abraço. Eu poderia passar o dia inteiro abraçando gente. Mas não o abraço acanhado e reticente, como quem é inseguro e tem medo de expor o coração para o outro. Digo o abraço forte, daqueles que enlaçamos o outro, como se disséssemos: “Vem cá e sinta o meu coração junto ao teu!” Estes dias pensava sobre o significado de um abraço. Ao abraçar alguém, você se expõe. Mas mais do que isso. Você expõe o seu coração ao outro. Você se desarma. Você se abre. O outro se desarma e se abre. Então vocês se juntam: coração com coração. Aqui está a possibilidade de amar e ser amado: quando expomos nossos corações ao risco. Há uma união, uma troca de calor, uma união de forças e fraquezas, virtudes e misérias.

Fiz esta ode ao abraço para dizer que diante da morte, muitas vezes, nos faltam palavras para acalentar a dor do ente querido. Eis o paroxismo monumental desta crônica: o abraço. Como disse, eu sou meio virgem ao lidar com a morte. Lembro-me de dizer para a minha mãe: “A gente fica sem saber o que falar para um filho que acabara de perder a mãe.” Ela simplesmente disse: “Filho, não precisa dizer nada. Só abraçar!” Ela está certíssima. Hoje, o pesar que sinto no atendimento online, é justamente não poder abraçar meus pacientes. Quem sabe um dia eu consiga. De qualquer forma, sintam-se abraçados por mim: pacientes, leitores, amigos e qualquer um que estiver lendo esta crônica. Como disse: sou um obsessivo por abraço.

Ainda no velório, após abraçar todos que pude, fiquei a observar minha vovozinha ali, já sem vida, no caixão. Chorei. Fiz algumas orações e lembrei-me dela com vitalidade. Toda vez que a via, pedia sua bênção. Ela pegava na nossa mão e respondia: “Bença, meu filho.” E ela tinha as mãos mais maciais do mundo. A mão dela é algo que não sai das minhas lembranças mais afetuosas. Era uma mão gordinha, fofa, com algumas manchas devido à idade, mas que acalentavam, enterneciam. Um pouco antes de fecharem o caixão, me aproximei, peguei em sua mão, a beijei na testa e pedi a Deus que a recebesse com alegria no céu, pois lá é o lugar que a Jovelina Müller merece descansar em sua eternidade.

Ao ver os filhos se despedindo dela, foi impossível não pensar de que um dia serei eu despedindo-me de minha mãe, beijando sua testa enregelada e acariciando suas mãos tão semelhantes com as de minha vó. Acho que nunca na vida abracei tanto minha progenitora. E ela fica pequenina perto de mim. Parece que quanto mais o tempo passa, eu fico maior e ela menor. O mesmo acontece com meu pai. Só por eu ter a possibilidade de abraçá-los, já valeu a pena todo o sacrifício. E isso é fascinante: quanto mais o tempo passa, mais eu me atento para as coisas que realmente importam na vida. A morte de um ente amado é um excelente momento para enxergar estes pormenores monumentais que fazem um momento valer uma vida inteira. Ora, diante da morte, a qual ninguém escapará, se olharmos atentamente, intuiremos que a nossa melhor possibilidade é o amor. Pois o amor constrange toda a soberba, toda a mesquinharia da nossa alma e nos traz esperança. Ao ver minha mãe aos prantos se despedindo de minha vó, há ali esperança. Cacete! Tem alguém beijando a testa de outro alguém que está sem vida. Reparem no ato. É um ato de amor profundo. E onde existe amor, existe esperança.

No momento do enterro, não teve choros copiosos e nem desesperos histéricos. Minha vó foi colocada numa gaveta. Assim que o coveiro — é óbvio que o senhor que fechou a gaveta com tijolos e cimento não era um coveiro, mas não sei o nome de sua função específica, talvez era um pedreiro — finalizou o seu trabalho, alguns familiares ficaram por ali, conversando a esmo. Estava um frio de renguear cusco — pra você, leitor, que não é gaúcho, “frio de renguear cusco” significa que está tão frio a ponto de fazer até os cachorros tremerem. Me ler também é cultura. Mas eis o que eu queria dizer. Ficamos por ali conversando e rindo. Sim! Ríamos diante da morte. O pessoal começou a lembrar das boas histórias sobre a minha vó. Além disso, velório e enterro são ótimos momentos para reunir os parentes. Tanto é verdade que conheci a irmã de minha vó e suas filhas. As abracei e descobri que todas acompanhavam o meu trabalho na internet. A vida sempre arranja um jeito de nos surpreender.

Após o enterro, fomos para o melhor lugar do mundo: a casa dos meus pais. Eu estava varado de fome, assim como o resto do pessoal. Ao chegar à casa, tomei um banho quente, vesti uma calça de moletom, coloquei a meia por cima da barra da calça, calcei uma pantufa do meu pai, vesti um casaco de lã e sentei-me ao lado do fogão a lenha, exatamente como eu fazia na minha infância e adolescência. Eis que o café da tarde estava servido. Todos nos sentamos em volta da mesa e eu pude reviver a melhor lembrança da minha infância: café da tarde em família. Observava cada um com suas idiossincrasias: meu pai, como sempre, café preto com muito açúcar — dane-se a saúde; minha mãe, como sempre, mais quietinha e servindo a todos com esmero; meu irmão, como sempre, contando piadas e tirando sarro de mim por estar comendo a terceira torrada; o Guardião, o cachorro da família, como sempre, deitado na área de serviço esperando um carinho ou um lanchinho; e eu, como sempre, contemplando tudo isso e já pensando na próxima crônica. Quero deixar cravado na alma do meu leitor de que é essa a vida que vale a pena: uma vida na qual eu enxergue estes milagres cotidianos e os deleite verdadeiramente, pois o nosso futuro é uma cova ou uma gaveta.

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