TÔ SÓ PELA PRÓXIMA MISSA DE DOMINGO!

Comecei 2021 indo na primeira missa do ano. E fazia tempos que não pisava dentro de uma igreja. Eu usava a desculpa que o meu Deus era pessoal, eu não precisava visitar Sua casa, eu era Sua casa celestial, então bastava eu rezar um Pai Nosso antes de dormir e pronto, dívida paga com o sagrado. E, para ser sincero, raramente eu rezava. Sim, eu sou o legítimo católico não-praticante, ou seja, não sou nada. Por que diabos você diz ser católico se não pratica sua fé? E eu sempre fui este católico não-praticante. Desisti da catequese, não fiz a Sagrada Comunhão, nunca tomei a hóstia, nunca me confessei para um padre. Pelo menos fui batizado. Já é alguma coisa, eu acho.

Ali pelos meus vinte e um anos tornei-me ateu. Era fácil: “Eu vivo em um mundo sem sentido, repleto de sofrimento e maldade, e ainda vou morrer no final. Que tipo de Deus faria um mundo assim? Ou é um Deus mau, ou Deus não existe!” Fiquei com a segunda opção. E como eu me achava inteligente por ser ateu! Me achava o diferentão da galera. Lembro-me de ler Richard Dawkins, Sam Harris, Carl Sagan, Charles Darwin. Depois disso, quem iria me segurar? Tornei-me o ateu militante. Gozava em debates onde ateus massacravam cristãos com seus argumentos cientificistas irrefutáveis. Ficava a pensar, dentro de minha arrogância de jovem que acha que sabe tudo: “Imagine viver se reprimindo por causa de um Deus que não existe?” Esta ideia, vez ou outra, passava pela minha cabeça.

Não me entendam mal. Eu não era o sujeito que chegava na cara de um cristão e o chamava de “burro”. Eu nunca fui esse cara. Porém, por dentro, este pensamento pairava sobre minha consciência. O máximo que cheguei a fazer nesta época, foi entrar em um debate sobre o aborto, no qual, obviamente, defendi o aborto em qualquer fase da gestação, pois, na minha visão cientificista, colocar uma criança no mundo para passar fome, era pior do que lhe tirar a vida; ter um filho deficiente, era pior do que lhe tirar a vida; a mulher ter uma criança cujo nascimento fosse lhe causar mal-estar, era pior do que ceifar a vida do bebê. Lembrar disso me causa estranheza e pudor, graças a Deus.

Este pensamento de que “nada importa, somos todos um acidente da matéria”, me fez cair em hedonismo e niilismo, ou seja, nada tem sentido, preciso sentir prazer o máximo que eu puder. Na época traí minha namorada inúmeras vezes. Aquele namoro perdera o significado. Meu ideal de fidelidade fora destruído, assim como outros valores. Minha vida era uma bagunça. Morava em um apartamento, onde raramente eu o limpava. Escrevia pouco, lia pouco e estudava pouco. Passei a preencher meu vazio com pecados. E, de todos eles, a luxúria era o meu vício. Marcava encontros durante o dia para realizá-los à noite. Vez ou outra, eu precisava caminhar quilômetros para satisfazer o meu desejo. E eu caminhava, pois não tinha carro. Ao voltar para casa, sentia-me vazio, sentia-me em uma vida insignificante. Eu tinha consciência que estava me afundando, e pasmem! No outro dia eu fazia tudo novamente. Em meu livro, Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho, explico em detalhes toda esta fase sombria da minha vida.

Resumindo: saí deste buraco. A vida me sorriu, ou eu sorri para ela, não sei dizer, só sei que foi uma troca mútua. Consegui sair daquele lugar sombrio e pude recomeçar a minha vida, pude ressignificá-la em outra cidade, com novas rotinas, novas pessoas, novas atitudes. Aquela fase de ateuzinho de internet havia passado, graças a Deus! Dizia-me que era um agnóstico: “Sei lá se Deus existe, é impossível provar, então ficarei aqui em cima do muro.” Nesta época eu comecei a ler de maneira obsessiva autores como Nelson Rodrigues, Santo Agostinho, Luiz Felipe Pondé e Dostoiévski. A visão destes autores diante do cristianismo, me enterneceu, principalmente a de Nelson e a de Dostoiévski.


A virada de agnóstico para um cristão aconteceu em uma terça-feira à noite. Juro! Estava finalizando uma biografia de Nelson Rodrigues. Aquela leitura confessional fez-me sentir coisas que eu nunca havia sentido antes. Eu só pude atribuir este sentimento a Deus. Eu senti Deus! Eu senti algo transcendente. E a cada frase lida era um soco na alma. Era como se o Nelson estivesse ali comigo, do meu lado; e através disto tudo, pairava um sentimento inexplicável, forte e insano. Não é demagogia, aconteceu, eu senti tudo, e foi uma das sensações mais profundas que tive na vida. “Ah, Guilherme, mas por que o Deus cristão?” Talvez porque o cristianismo tem, pelo menos, dois mil anos de existência no currículo. Talvez porque as pessoas mais admiráveis que conheci e que sigo atualmente, possuem uma relação direta com o cristianismo, talvez porque o cristianismo formou a cultura ocidental e nos deu um norte. Acho que é por isso.

Outro momento que marcou-me o espírito, foi quando eu e minha mulher fomos ao cemitério visitar o pai dela. O cemitério estava vazio, éramos apenas eu e ela andando entre os milhares de túmulos. Não há como não sentir a limitação da existência, não há como sair daquele lugar sem refletir sobre vida, morte e transcendência. Esta experiência gerou-me uma das melhores coisas que já escrevi na vida: Deus Visita Apenas Cemitérios Vazios. Quando puder, leia.

No fim de 2019, eu e minha mulher se juntamos com as famílias do bairro para a Novena de Natal. Eu nunca tinha participado de algo assim antes. Eu não conhecia quase ninguém que estava ali. A maioria das famílias eram de casais velhinhos, daqueles que fazem bodas de ouro. Rezávamos, refletíamos sobre algumas passagens da Bíblia, cantávamos e trocávamos experiências de vida. Aquilo me gerou um sentimento de união e paz de espírito. Era como se a esperança na humanidade renascesse dentro de mim. Mas o que marcou-me foram os casais de velhinhos, unidos, rezando. Eles olhavam para mim e para a Adeline com brilho nos olhos, como se estivessem se enxergando em nós, na juventude, quando se conheceram. Eram todos educadíssimos e com um bom senso de humor.

Eis o que eu queria dizer: comecei 2021 me propondo ir à missa todo o domingo. Já fui nas duas que aconteceram este ano. Ao adentrar na igreja, é impossível não admirar-se com a casa de Deus. Só de contemplá-la, você se sente bem. Há uma crônica em que Nelson escreve: “Dentro da igreja, mesmo a tosse, mesmo o pigarro, eram diferentes. O sujeito que ia à missa entrava em relação direta, fulminante, com o Sobrenatural. Até o mau-caráter prostrava-se em adoração.” É isso: nos prostramos em adoração a algo maior.

Em minha ingenuidade, achei que chegaria lá e a igreja estaria vazia. “Ora, quem vai à missa ainda?” Ledo engano. Estava abarrotada de gente, gente de todas as cores, classes e até credos diferentes. Enfim, tive o mesmo sentimento da Novena de Natal: união e paz de espírito. É isso! O cristianismo une as pessoas. O nazismo também unia pessoas, o comunismo une pessoas até hoje, entretanto, o cristianismo as une e as coloca na busca do maior bem possível. Vez ou outra eu escrevo por aqui que temos de mirar neste “maior bem possível”. O cristianismo é um ótimo alvo: dois mil anos no currículo, lembram? Que alvo seria melhor que este? Há uma entrevista com Jordan Peterson, onde o entrevistador lhe faz a pergunta monumental: “— Você acredita em Deus?” E ele responde, lacônico: “— Eu ajo como se Deus existisse.” Isso martelou na minha cabeça. Ora, o que Peterson de fato quis dizer com sua resposta objetiva, foi algo como: você não precisa acreditar em Deus para seguir os valores cristãos. Há mais conhecimento humano na Bíblia do que em qualquer outro livro. Dois mil anos, lembram?

Deixe-me voltar à missa. Descobri que não sei bulhufas sobre a prática da igreja, sobre a prática de uma missa. Momentos onde todas as pessoas precisavam repetir aquelas frases prontas após a fala do padre, eu boiava; nas belas canções tocadas, eu boiava; perguntava-me o que diabos significa “Hosana nas alturas”, “Kyrie eleison” ou se o Cordeiro de Deus é Jesus Cristo. Enquanto eu estava lá, de joelhos sobre o estrado de madeira, com a cabeça baixa, passou todo este filme pela minha consciência. Eis o milagre: mesmo eu me dedicando tanto ao ateísmo, lendo os autores, entendendo os argumentos, vencendo debates; mesmo eu me dedicando ao agnosticismo, acreditando que o muro era o melhor lugar para se ficar; mesmo diante de tudo isso, o cristianismo me resgatou, mesmo eu tendo lutado contra ele durante anos, ele me resgatou. Por que eu não daria uma chance? Por que não me dedicar a ele como me dediquei a milhares de coisas fúteis e mesquinhas em minha vida?

Tô só pela próxima missa de domingo.

É UM MILAGRE! É AMOR!

Todo final de ano me encho de esperanças. É como se eu pudesse pegar os erros da véspera e não repeti-los no ano seguinte. É como se eu pudesse pegar projetos engavetados e colocá-los em prática no ano seguinte. As ideias surgem como um turbilhão. Sento-me em frente ao computador e as coloco em uma planilha. O mesmo acontece com os objetivos e as metas. Sejamos sinceros: é uma chance de recomeçar, reavaliar a rota, redirecionar a bussola para novos horizontes. Você, leitor, também tem esta sensação?

Além do mais, as pessoas à nossa volta se apresentam mais solícitas, empáticas, amorosas. Até o mais carrasco e prepotente de seu meio, ao passar por você, lhe cumprimenta, lhe deseja feliz Natal e um próspero Ano Novo. E como é bom sentir todo este clima harmonioso entre as pessoas. Isso é um milagre! Eu vejo como um. Há uma história famosa sobre a Primeira Guerra Mundial: no dia de Natal de 1914, o exército alemão e o exército britânico, em vez de guerrearem até a morte, ofereceram uma trégua. Os soldados de ambas as nações, em um clima de alegria e descontração, passaram a andar desarmados pelo fronte de batalha, e pasmem: alguns se reuniram para trocar alimentos, charutos e boas histórias. Você vai me dizer que isso não se trata de um milagre? É um milagre escancarado.

Em meio a um conflito que resultou em milhões de mortes, duas nações inimigas preferem unir-se em vez de matar-se. “Ah, Guilherme, mas isso foi só na noite de Natal.” Foi, mas imagine-se você, na trincheira, cercado pelo caos, talvez já sem esperança, acabara de perder amigos no campo de batalha. Eis que, ao longe, você ouve um instrumento de sopro, em seguida percebe-se as vozes, em coro, do exército inimigo. Eles cantam uma música de Natal. Em seguida, seu pelotão passa a acompanhar a música e a cantar junto. Os homens de ambas as nações saem das trincheiras, desarmados, caminham até o meio da zona de guerra, cumprimentam-se e decidem que naquela noite de Natal, não haverá mortes. Milagre!

Partindo da premissa que 90% da história humana foi feita por meio da violência, da guerra, da malevolência, do ódio, ver algo assim, é um milagre. As pessoas, vez ou outra, surgem com aquelas perguntas bobas: “— Nossa, como existe tanta violência no mundo?” A pergunta que deveríamos fazer é esta: “Como existe paz e harmonia no mundo?” Isso é um mistério. Este é o milagre que as pessoas, por viverem em tempos “confortáveis”, não se dão conta.

Eis o que eu queria dizer. Após sair da casa de meus pais e ir morar em outro estado, vejo eles, normalmente, uma vez por ano. E adivinhe em que época? Natal e Ano Novo. A família reúne-se novamente e eu tenho a possibilidade de matar fisicamente a minha saudade. Há algo mais enobrecedor para a alma humana do que abraçar um ente querido? Quando falo que a vida vale a pena apesar de todo o sofrimento inevitável, é isso. São estes segundos que você fica dentro de um abraço com uma pessoa que ama; é perceber que, apesar de todos os defeitos que você e eles tenham, o amor supera tudo.

É engraçadíssimo olhar meu pai e minha mãe: são dois opostos. Meu pai é um sanguíneo puro. Externaliza tudo que sente, é expansivo, ama estar em companhia de outras pessoas, é demasiadamente carinhoso, brincalhão, e, amiúde, transforma um ambiente triste e apático em algo alegre e festivo — às vezes, festivo até demais. Já a minha mãe é melancólica. Externaliza poucas coisas que sente, é introspectiva, ama estar com sua própria companhia ou, se tiver alguém ao redor, que seja da família, caso contrário, se emburrece fácil; seu carinho é medido, é calculado; ela acalma o ambiente, ela coloca limite no fogaréu do meu pai.

Ver estes opostos de temperamentos novamente em minha frente é estar diante do amor. E por quê? Porque só o amor dá conta de juntar dois opostos. Às vezes pego os dois em algumas discussões acaloradas e penso: “Como eles estão juntos até hoje?” Eu tento racionalizar como eles resolvem suas divergências e, simplesmente, não consigo. Não há lógica. Meu pai quer acender o fogo e minha mãe quer apagá-lo. Estão juntos por um milagre, estão juntos por amor, estão juntos porque resolveram construir uma família, custe o que custar.

É como os dois exércitos inimigos que citei logo acima: apesar de se matarem nos dias anteriores e nos dias posteriores ao Natal de 1914, naquele 25 de dezembro, resolveram unir-se e comemorar. A única diferença entre esta história e a de meus pais, é que meus pais se aturam há quase trinta anos, enquanto os alemães e os ingleses tiveram que se aturar apenas um dia. Será que um casamento pode ser pior que uma guerra entre nações?

Se minha mãe ler isso, ela me mata. Por isso, deixe-me retratar-me: não é bem assim. “Aturar” foi uma palavra pesada. É como se o outro fosse um peso morto a ser carregado pelo cônjuge até o fim dos dias. Não! Dentro de todas estas turbulências que uma relação amorosa traz, há o carinho, há uma admiração sincera pelo outro, há uma gratidão, há intimidade. As coisas boas superam as ruins. E, pensando bem, graças a Deus que os dois são opostos, quem iria apagar o fogo do meu pai se não fosse a minha mãe? Melhor ainda: quem iria derreter o coração de gelo de minha mãe se não fosse o calor de meu pai? Foram feitos um para o outro. Não há como discordar. Isso é um milagre! Isso é amor!

2020 foi o melhor ano da minha vida

2020 foi o melhor ano da minha vida. Nunca amadureci tanto como em 2020. Nunca escrevi tanto como em 2020. Nunca estudei e li tanto como em 2020. Lembro-me de seu início, lá em janeiro, quando me propus a levar meus projetos adiante. À época, parecia algo tão distante e difícil de cumprir e até de definir o que eu, de fato, estava fazendo. Gravar vídeos toda semana, escrever e estudar todos os dias, postar semanalmente, cuidar mais da alimentação, do corpo e etc. Mas veja só, agora eu olho para tudo que foi construído neste um ano e percebo que fiz coisas pra cacete! Falhei em algumas tarefas, é verdade, mas continuei fazendo, pois o que vale na vida é a constância.

Esta é a palavra: constância. Vez ou outra, quando algo desmorona, bate aquela vontade de desistir, mas então você se dá conta que é possível reconstruir o que desmoronou, ou, talvez, começar outra construção. Isso é alento de vida: saber que amanhã eu posso recomeçar. Melhor ainda: saber que agora eu posso recomeçar. O amanhã talvez não chegue, mas agora eu estou aqui, vivo, pulsando.

Dias atrás, uma seguidora perguntou-me qual era o meu desejo para 2021. Eu respondi “Saúde”. E por quê? Porque se minha carcaça puder levantar-se da cama, eu dou um jeito de construir e reconstruir qualquer coisa que me propuser a fazer de coração.

E você, me diga aí nos comentários o que deseja para este ano de 2021:

A VIDA É UM SOPRO

a vida é um sopro
quando nos damos conta, passou
de repente aqui estou, com quase trinta
até os dezoito parecia tudo tão sublime
parecíamos todos imortais
nada poderia nos parar, nem mesmo o relógio
tínhamos todo o tempo do mundo
agora é tudo tão volátil, tão fugaz, tão efêmero
as relações, as pessoas, os objetos
é como se a cada ano, a realidade batesse com mais força
a morte, que antes parecia ser algo tão distante
agora passa a ficar mais próxima da consciência
as dúvidas filosóficas sobre a vida:
sucesso, felicidade, auto realização
o que é tudo isso?
será que estou no caminho certo?
será que estou onde era para eu estar?
o que fiz com minha existência?
o que vou deixar para meus sucessores?
ainda não os tenho, já deveria tê-los?
que mar é este que quanto mais navego
mais perdido fico?
alguém será capaz de explicar isso?
Deus? Deus deve ter coisas mais importantes para se preocupar
e pensando bem, essa é a beleza da vida:
o mistério, a dúvida
qual a graça da certeza?
quem levantaria da cama com todas as certezas do mundo?
o mistério deste mar é o que nos faz navegar neste oceano chamado vida
mas lembro-lhes novamente: esta viagem é um sopro
às vezes me pego pensando em como era sublime
quando eu chegava da escola ao entardecer,
e lá estava meu pai, minha mãe e meu irmão a me esperar
com a mesa farta para tomarmos café
a luz do fim da tarde adentrava pela pequena janela da porta e nos iluminava
por um momento parecíamos todos imortais


Feliz Ano Novo, e obrigado por continuarem por aqui.

QUAL É O SEU PORQUÊ?

Estava pensando cá com meus botões em como eu despertei para a vida nestes últimos anos. E entenda o “despertar” como um chamado de você para você mesmo: “— É isso, pare de se amedrontar e encare a vida! Está na hora. Ninguém lhe deve nada. Ninguém vai lhe pegar pela mãozinha e carregá-lo até o sucesso, até um local seguro.” Aliás, o que é sucesso? Uma palavra criada para fazer todos corrermos feito loucos atrás de conquistas que outros mandaram você buscar? É uma reflexão válida. E segurança? Quanto mais nos afundamos em segurança e estabilidade, mais adormecidos ficamos. E gente adormecida não se expande e muito menos descobre suas potencialidades e suas vocações. Veja você, leitor, o cômico disso tudo: a vocação tende a se mostrar apenas à luz da insegurança, da instabilidade, do incômodo.

O que seria de Pelé se ficasse em casa com vergonha de jogar contra os colegas da escola? O que seria de Johnny Cash se rejeitasse a ideia de subir em um palco por puro medo e insegurança? O que seria de Nelson Rodrigues, um de nossos gênios, se parasse de escrever com a primeira crítica “construtiva” que recebera sobre uma de suas crônicas? Imagine você, leitor, o quanto perderíamos de talento, de arte, de exemplos. É um custo inimaginável para a civilização. Talvez tenham surgido outros Pelés, outros Nelsons, mas decidiram ficar na estabilidade, no local seguro, ou, talvez, pelas tragicidades da vida, acidentaram-se, morreram. É impossível saber. O que dá para concluir, sem perigo de errar, é que existiram e existem estes homens no refúgio de suas alcovas.

Obviamente usei exemplos de verdadeiros gênios. 99% da população não se trata de gênios, se trata de pessoas normais, assim como eu e você. Mas isso não importa, pois há um potencial em cada um de nós. Há uma vocação a ser descoberta em nosso íntimo, em nossa circunstância. E quando você a descobre, você entra em sincronia com o universo — os antigos gregos falavam algo assim. Não quero aqui romantizar ingenuamente a ideia de vocação, como se ela estivesse à sua espera, e que basta você encontrá-la para ter uma vida plena. Não! Deus me livre de tamanha ingenuidade. Muito pelo contrário, há um caminho ardiloso e denso a ser enfrentado, um caminho chamado “vida”. Perceba, caro leitor, que não basta apenas encontrar sua vocação. Isto é o mínimo! Após encontrá-la, é preciso dedicar horas e mais horas para aperfeiçoa-la, ou, quem sabe, uma vida inteira. E é justamente isso que irá fazer a diferença: o esforço, o treino, o trabalho.

Não há caminho fácil. Não existem atalhos. O que há é um ser humano de carne e osso diante de um mundo repleto de sofrimento e malevolência, onde sua única possibilidade de existência é enfrentar toda esta sombra. Eis o motivo de fortalecermos nossa estrutura, nosso intelecto, nosso corpo, nossos relacionamentos e, principalmente, dedicarmo-nos à nossa vocação. Entenda, meu caro leitor: quem tem um “porquê”, enfrenta qualquer “como”. E é aqui onde quero chegar. Qual é o seu porquê? Pelo que você levanta todos os dias? Há algum propósito aí dentro? Há algo que pulsa, que transcende esta mera carcaça a qual você, eu e todos nós estamos presos?

Dias atrás, finalizei a obra Arquipélago Gulag, do russo Alexander Soljenítsin. Para resumir: se trata de um relato do próprio Alexander, que fora condenado a oito anos em um campo de trabalho forçado, na antiga União Soviética, ou seja, ele foi condenado à escravidão pelo próprio país. Você deve estar pensando aí com seus botões, que Alexander, no mínimo, roubou ou matou alguém. Não! Ele fora condenado por cometer um ato “antirrevolucionário”. Em outras palavras: ele apenas enviou uma carta para um amigo fazendo algumas críticas a Stalin. Pronto! Bastou para tornar-se inimigo da nação. Alexander livrou-se de ser fuzilado, diferentemente de outros milhares de seus compatriotas, porém, agora teria de encarar todo o horror e a malevolência do comunismo soviético na pele. Trabalhar dezesseis ou mais horas por dia, comida escassa, milhares de prisioneiros, temperatura chegando a quarenta graus negativos no inverno, torturas, inanição, estupros, assassinatos, mortes… Este, de maneira resumidíssima, era o Arquipélago Gulag!

Como sobreviver a isso tudo? Tendo um porquê! Este porquê era uma centelha do divino dentro da alma de Alexander. Quase como uma faísca procurando o que queimar para não deixá-lo na completa escuridão. Em meio a todo o caos do arquipélago, Alexander arrumava um jeito de introjetar vida para dentro de sua carcaça cadavérica. Ele escrevia em segredo. Decorava suas histórias e poemas, e então livrava-se dos manuscritos, pois se fosse pego, poderia ter sua pena aumentada, a vida ceifada ou sabe lá Deus o que mais poderiam fazer com ele.

Além de fazer sua vocação — escrever — em um local inóspito, há outro fator fundamental que o fez continuar achando coisas para queimar: se redimir com sua própria consciência, pois antes do arquipélago, Alexander apoiava o regime comunista. Ao sentir na pele toda malevolência da foice e do martelo, sentiu-se culpado. Este ímpeto de externalizar o que de fato era o regime comunista o acompanhou por toda sua pena, o fazendo levantar todos os dias e prometer a si mesmo: “algo deve ser feito contra isso”. Anos depois ele escreveu um dos maiores clássicos do século XX: Arquipélago Gulag. Um livro que todo professor de história deveria ler antes de sair falando bobagens para os jovens, ao defender com afinco a URSS.

Repare que é impossível fazer do mundo um lugar melhor sem antes melhorar a si mesmo. Este é o cerne de toda a discussão deste texto. Desconfie principalmente de jovens revolucionários, que bramam por aí em salvar o mundo, mas que não respeitam seus pais, não lavam a louça da janta e não arrumam seus quartos. É mais fácil “salvar” a humanidade do que fazer algo de concreto em sua circunstância, pois “salvar” a humanidade não demanda responsabilidade alguma; é vago, vazio, sem substância. Serve apenas para inflar o ego destes sujeitos. E eles crescem com estas ideias bonitinhas e “corretas” na cabeça. A paranoia dessa gente chega em seu ápice ao entrarem na universidade, onde conhecem outros jovens egocêntricos e professores descolados, e todos possuem a mesma mentalidade de “salvadores da humanidade” apenas por lerem alguns livros difíceis e escreverem artigos de como o mundo deveria funcionar partindo de suas visões teóricas “corretíssimas”.

Ao pegarem o diploma, ou melhor, o atestado de semideuses, agora eles fazem parte da elite intelectual. Perceba que até o momento, este indivíduo nunca sequer olhou para dentro de si e identificou sua maldade inata, seus anseios sombrios, sua condição mesquinha de existência. Não! O problema sempre são os outros; o inferno sempre são os outros; o mal sempre está no lado de fora. Com isso, há a perda do contato com a humanidade, há a perda do contato com a vida prática e um afundamento em si mesmo. Veja o paradoxo: por mais que este sujeito esteja voltado para si mesmo, este voltar-se a si é mais como uma forma cega de venerar-se, e não de atentar-se aos seus defeitos. Isso resultará em uma personalidade imatura, incompleta, inacabada.

Então repito: é impossível fazer do mundo um lugar melhor sem antes melhorar a si mesmo. O que acontece de fato é: você se fortalece como indivíduo, arruma sua casa, aperfeiçoa seu intelecto, introjeta valores, vive a vida prática buscando o maior bem possível, aprende com os fracassos, evolui sua personalidade, toma consciência de sua maldade, amadurece, encontra sua vocação, encontra um porquê em estar vivo e trabalha arduamente em cima disto. As coisas ao seu redor melhoram. A convivência na sua casa, na empresa, com seus amigos, ou seja, sua circunstância melhora e todos que estão à sua volta também.

Eis o ouro: achar a sua vocação e um porquê em estar vivo é apenas o começo.

NADA NOS HUMILHA MAIS DO QUE O DESEJO

Você, leitor, já parou para pensar que nada nos humilha mais do que o desejo? Imagine um homem barbado, sentado em frente ao computador, nu. Literalmente com o pau na mão, se acariciando para um monitor LCD. Após o clímax, de imediato, o miserável fecha as quinze abas que havia aberto com a intenção de realizar seu desejo. Em seguida, o pudor lhe permeia os sentidos. E então vem a única constatação possível: “Nada nos humilha mais do que o desejo.” Não é preciso ficar apenas no onanismo. Quantas vezes, você, homem, fez o diabo para satisfazer seu desejo da carne, correu riscos, modificou rotinas, traiu valores, tudo isso apenas para dar vazão à sua concupiscência? Diversas vezes, não é mesmo?! Logo após o gozo sem intimidade, vem à sua consciência a mesma constatação: “Nada nos humilha mais do que o desejo.”

Hoje quero falar sobre sexo e sobre o desejo que nos invade desde a mais tenra idade. Nelson Rodrigues dizia que quando entra o sexo, o amor começa a morrer. Lendo rapidamente, poderíamos imaginar que não passa de uma bobagem, dita por alguém que talvez nunca sentira os prazeres baratos da carne, e, consequentemente, nunca se maravilhou com tamanho prazer que uma relação casual pode proporcionar. É só mais um tiozão reprimido cagando regras e frases de efeitos por aí. Me pergunto: será? Quanto mais leio Nelson, e quanto mais ganho experiência de vida, ou seja, quanto mais percebo a minha natureza, sinto que o nosso Anjo Pornográfico (apelido de Nelson), acertara em cheio.

A discussão aqui é sobre o sexo sem amor. Pois acredito que é isso que o Nelson quis dizer com sua frase. O sexo sem amor, o sexo sem intimidade, o sexo usado apenas para satisfazer um desejo efêmero que lhe invade as entranhas. Ele pode ser maravilhoso, sejamos sinceros — eis o problema. Imagine um homem a encarar uma moça dentro do metrô. A moça aceita a encarada e revida. Ao saírem da estação, ambos seguem para um banheiro sujo e trepam ali mesmo. A moça poderá sentir-se uma vagabunda, e o homem, um canalha completo. E talvez, justamente por causa desta sujeira moral, de ir contra as regras, de correr o risco, de perverter a normalidade, há de ser maravilhoso. E muitos se perdem nesta decida para a sujeira.

É inegável que o sexo e o desejo carregam esta sujeira. Ora, uma relação sexual é uma troca de fluídos entre dois corpos em estado de excitação. E mais: eles lhe tiram da civilidade. Por um momento você estava sentado em um banco, no vagão do metrô, pensando nos relatórios que terá de entregar no dia. Em outro momento você está em um banheiro sujo com uma desconhecida nesta troca de fluídos, e, obviamente, neste instante de prazer, ambos passam a ficar vulneráveis, ambos colocam tudo a perder por causa do desejo.

Em Galveston, livro de Nic Pizzolatto, há uma cena onde Roy, o protagonista da trama, passa a encarar as coxas de uma mulher. E Roy narra: “Não conseguia parar de olhar para as pernas e as coxas dela. O desejo sempre me pareceu vagamente humilhante.” Ora, e por que humilhante? Homens possuem a capacidade de transformarem-se em feras indômitas quando estão tomados pelo desejo. É como se aquela excitação sexual os transformasse em escravos da vontade. Após o gozo, normalmente, este homem é liberto de sua escravidão. Seu superego volta a funcionar. Porém, muitas vezes, ao voltar para o controle de si mesmo, vem a culpa, vem a constatação triunfal: “Nada nos humilha mais do que o desejo.” Quantos casamentos não foram para o espaço por causa disso? Quantas famílias não foram destroçadas por isso? Quantos valores não foram quebrados por isso? O sexo nunca fez santos ou homens de caráter, apenas pulhas e canalhas.

Repito: quando entra o sexo, o amor começa a morrer. E alguém poderá indagar: “— Mas em uma relação onde há amor, não pode haver sexo?” Nada é tão literal assim. Em uma relação amorosa, o desejo não lhe humilha, não lhe torna um escravo. Em uma relação amorosa, o casal se sente confortável no silêncio, tanto dos corpos, quanto da língua. Você e sua mulher deitam na cama, um abraça o outro e vocês dormem até o outro dia. E isso é maravilhoso. Silêncio de corpos e de língua. Eis a intimidade.

Schopenhauer, para estragar o meu parágrafo poético, dirá apenas que este silêncio ocorrera devido à dominância, ou seja, “Esta fêmea já é minha, logo, o desejo esvaiu-se de meu corpo e passou a dispersar-se novamente por outras fêmeas. Não há um porquê em esforçar-se neste relacionamento.” Errado não está, partindo de uma visão puramente objetiva. Para Schop, o desejo do homem é disperso, ou seja, nós desejamos milhares de mulheres a todo tempo, entretanto, quando nos apaixonamos por uma delas, este desejo que era disperso, agora passa a focar somente nesta mulher. Por isso que o início de qualquer relacionamento é puro desejo. Porém — sempre há um “porém” —, com o tempo, este desejo volta ao seu estado padrão: a dispersão. Aqui é onde costumam acontecer as traições, pois o homem rende-se para o desejo, para o sexo, e então torna-se um canalha, torna-se um escravo da vontade.

Mas calma lá, a vida é trágica, mas nem tanto. O homem não precisa render-se à dispersão de seu desejo. Podemos concordar com isso? E, justamente, ao não se render, ao lutar contra essa vontade que lhe invade as entranhas, eis aí o seu caráter, eis aí um mísero de suas virtudes. E Schopenhauer que vá catar coquinho com essa objetividade insossa. Mal sabe ele como é bom dormir de conchinha quando se ama uma mulher. E digo mais: só há conchinha quando há intimidade. E intimidade é algo a ser conquistada. É impossível dormir ao lado de uma mulher quando não há intimidade, imagine então de conchinha. Diferentemente do sexo, que pode ocorrer com estranhos, em qualquer lugar, em qualquer tempo. É fácil, é efêmero, é fugaz, é humilhante.

UMA BOA RELAÇÃO AMOROSA É COMO UMA DANÇA

Me perguntaram, tempos atrás, o que eu considerava uma “boa relação amorosa”. Digo-lhe, leitor, que vejo uma boa relação amorosa como uma dança, onde o homem toma coragem e tira a mulher para dançar. E é ele quem deve conduzir a moça pelo salão. A mulher, envolvida nos braços de seu galanteador, deixa-se ser conduzida ao ritmo da música. Ela sente-se amada e protegida, pois o homem a segura firme e a encara no fundo dos olhos. Ela confia no homem que está em sua frente, e isso basta. Ele sente-se útil e responsável por sua amada, e esta é sua única possibilidade de existência: a responsabilidade.

Perceba que a mulher deixou-se ser conduzida quando o homem tomou a iniciativa de chamá-la para dançar, ou seja, só há uma relação amorosa de fato, quando ambos reconhecem o seu papel. Se os dois tentarem conduzir, não há dança; se nenhum dos dois tomar a frente para conduzir, não há dança; se a mulher for a responsável por conduzir, o homem sente-se um completo e perfeito inútil. Então repito: a única possibilidade que nos sobra é o homem conduzir, e a mulher ser conduzida.

Na última vez que escrevi sobre isso, chamaram-me de machista. “Ora, como assim você está dizendo que há papeis definidos de homens e de mulheres? Isso não existe mais, agora ambos podem conduzir ou fazer o que quiserem dentro da relação.” Perceba, leitor, que falar o óbvio causa espanto. Digo e reafirmo: os maiores problemas nos relacionamentos atuais, é que ninguém sabe o seu papel, e quando ambos estão perdidos na relação, não há segurança, não há um chão sólido no qual é possível firmar-se, não há um vínculo forte entre o casal, não há confiança e os dois se afogam na liquidez do mundo moderno, ou, para continuar em minha analogia, o casal se perde no ritmo da dança, pisam nos pés um do outro e passam a discutir no meio do salão.

Alguns poderiam pensar que isso é uma ideia deveras romântica de um bom relacionamento, ou seja, é tudo uma utopia. Mas digo-lhe, leitor, com altivez: é óbvio que é uma ideia romântica. Para que diabos eu escreveria, gravaria vídeos, me dedicaria a falar sobre comportamentos humanos, sobre relacionamentos, sobre paixões, sobre amor se não fosse para romantizá-los? Imagine: “— Então, pessoal, o amor não existe, é apenas uma palavra criada pelos homens como diversas outras, não há nada além de desejos sexuais que invadem nossos corpos, casamento é uma ilusão criada pelo patriarcado para oprimir mulheres, e o que nos resta é ‘aproveitar’ o presente e sair por aí como um cachorro atrás de cadelas no cio, mas, claro, sem se descuidar, né pessoal. Usem camisinha e respeitem seus parceiros.”

Nem se toda esta baboseira abjeta fosse verdade em sua totalidade, eu a engoliria. A ciência, talvez, irá concordar com tais afirmações, pois a ciência é isso, ela mostra o que as coisas são em sua materialidade insossa. É uma percepção de mundo objetiva e lógica. Porém, essa percepção de mundo não motiva nenhum zé ruela a fazer nada. Há algo a mais. Há a percepção subjetiva de mundo, ou seja, você não é só um amontoado de pele, órgãos e ossos que mija, caga e trepa por aí. Há uma personalidade interessantíssima aí dentro, há sentimentos a serem explorados, há histórias que lhe inspiram, há motivações inexplicáveis, há crenças, há fé, há atos gloriosos, há irracionalidade, há todo um universo singular e cheio de pulsão e vitalidade. É disso que estou falando. É por causa deste universo misterioso que você levanta todos os dias.

A morte de um pai para a ciência é um atestado de óbito, informando a causa de sua morte e etc., mas, para um filho que sentiu o amor do pai, ou melhor, de seu herói, durante cinquenta anos, é um emaranhado de sentimentos e subjetividades avassaladoras. Há algo a mais que nos move pelo universo, como se fosse uma centelha da força de Deus. É nisso que acredito, é no mistério que me invade toda vez que penso sobre a existência.

Uma visão estritamente lógica, científica e objetiva sobre tudo lhe empobrece a alma, é como se pegássemos a vida e todos os seus mistérios e jogássemos no lixo, e, a partir disso, as coisas só serão válidas se houver um respaldo lógico e científico. Não! Deus me livre tornar-me um idiota da objetividade, como falava Nelson. Estes dias assistia um sujeito, cheio de pose e palavras dificílimas, defender o aborto de um ser humano, amparado apenas por questões lógicas e científicas: “O corpo é da mulher, logo, ela faz o que quiser” ou “Até três meses o feto não sente dor, não tem ‘lógica’ alguém ainda ser contra o aborto” Cacete! Que ideia absurda pensar em um ser humano apenas como um amontoado de pele e ossos, algo a ser descartado como se fosse um brinquedo estragado.

Isso me lembra os regimes ditatoriais mais perversos que existiram — e alguns ainda existem —, comunismo, nazismo, fascismo, que tinham em sua essência esta lógica científica e racional, apenas. Para eles, o ser humano não passa de um cálculo para uma equação. “Cem milhões foram assassinados por ditadores comunistas? Ora, era um teste, né pessoal. Vamos continuar tentando, vai que uma hora a gente acerta, né? Nem que para isso morram mais cem milhões, pois o que vale é atingirmos o nosso objetivo: o progresso.” Entenda, meu querido leitor, que homens como Stalin, Hitler, Lênin, Mao, desumanizaram-se. Eles perderam o contato com a visão subjetiva de mundo, logo, perderam o contato com a humanidade. A partir disso, se precisar fuzilar, torturar, assassinar, para que o mundo se adeque à visão deles, eles o farão, e pior, sem sentir culpa alguma, pois estão respaldados pela ciência e por suas ideologias. Estes homens, com certeza, foram os maiores idiotas da objetividade que a humanidade já viu.

Fui longe, eu sei, mas eis o que eu queria dizer e reafirmar: um bom relacionamento amoroso é como uma dança, e uma dança é puro romantismo — nem todas, nem todas, ainda mais em nossa modernidade. Lembro-me na puberdade, ao ir em algumas festas. Olhava todo aquele pessoal dançando, enquanto eu ficava ali, parado, explodindo por dentro e sereno por fora. Vez ou outra, ao procurar no salão, achava uma moça solitária. Pensava: “É a minha chance!” Todavia, eu não sabia dançar. “E agora?” E a moça estava sedenta por uma dança, então dançava sozinha. Há algo mais humilhante para a alma masculina do que uma mulher dançando sozinha por falta de homens? E não me entendam mal, pois a falta de homens não se tratava de uma questão numérica. Só havia homens naqueles bailões, porém, poucos dançavam, e destes, pouquíssimos tinham coragem de tirar as mulheres para dançar.

Tratei imediatamente de aprender a dançar — pelo menos para dar aquela enganada. Tomei vergonha na cara e pedi para a minha mãe me ensinar o básico. Lembro-me até hoje eu e ela na cozinha: “Dois pra lá, dois pra cá. Ou, dependendo, dois pra lá, um pra cá. Agora é só seguir o ritmo da música.” Ensaiamos alguns ritmos e pronto. Quando percebi, sabia dançar. Obviamente não era um pé de valsa, mas agora, ao ver uma mulher dançando sozinha, eu poderia tirá-la para dançar em vez de ficar sendo humilhado pelo meu próprio ego. Você, leitor, já tirou uma mulher para dançar? Lembra-se das primeiras vezes? Você a encara de longe. Neste momento há um embate: “Vou ou não vou?” Então você toma a decisão de ir. E aquela caminhada até ela parece demorar uma eternidade. Enquanto caminha, a dúvida lhe percorre a alma: “Será que ela vai aceitar?” A tensão e o medo tomam conta de seu corpo, mas, mesmo assim, você vai. Esta, sem dúvida, é uma das primeiras vezes que você demonstra ter coragem na vida. Então você chega, pergunta e ela aceita. É ou não é para aplaudir de pé, igreja?

Após esta primeira tensão, vem a segunda: não pisar nos pés dela enquanto a conduz pelo salão. Você a agarra firme pela cintura, e este ato é alento para a alma masculina, como quem diz: “Você se entregou a mim ao aceitar dançar comigo, e agora irei lhe guiar, irei lhe proteger, irei lhe proporcionar um ótimo momento.” Depois de umas duas músicas dançadas com sucesso, você fica mais confiante, e a moça confia mais em você. Agora vocês conversam um no ouvidinho do outro. Ela sorri. Você sorri. Eis o início de milhares de relacionamentos, ou, talvez, de uma noite bem vivida.

Toda esta cena que relatei fora romantizada. Eu vivi tudo isso, eu senti tudo isso. O romantismo é o que nos resta, meus caros, é o que nos resta. Se não for para romantizar a minha vida, para que diabos hei de levantar da cama todos os dias? É melhor nem levantar. Não sejamos mais um bando de gente apática e vazia que se afogou na liquidez do mundo moderno e na lógica do mundo objetivo.

SOMOS UM ROMANCE AMBULANTE

Há algo mais extraordinário do que pessoas comuns, vivendo suas vidas comuns e contando suas histórias comuns? Todos nós somos um romance ambulante de, pelo menos, mil páginas — e mil páginas é um baita calhamaço. Mil páginas lidas, relidas e entendidas na sua profundida, podem lhe ocupar a alma por anos, ou, quem sabe, por uma vida inteira.

Pensava sobre isso esses dias enquanto almoçava com um colega de trabalho, sobre as raridades que existem nos universos singulares das pessoas comuns. Aliás, qualquer escritor que se preze, necessita enxergar além do novo e da novidade e passar a enxergar o óbvio ululante. A vida é extraordinária e fascinante. E ela acontece nos detalhes. Repito: nos detalhes. Lembro-me de minha infância, ao voltar da escola, no fim da tarde. Chegava em casa e a mesa já estava posta. Meu pai, minha mãe e meu irmão já estavam a me esperar para então tomarmos aquele café em família. O sol do fim de tarde adentrava pela módica janela da porta da sala e nos iluminava. Por um momento parecíamos todos imortais. É disso que lembro: dos raios de sol iluminando as pessoas que mais amo, das gargalhadas em família e do gosto forte do café. Detalhes.

E até hoje são os detalhes, são os pormenores que me enchem a alma de espanto e admiração. Quando perdermos a capacidade de admirar, de se espantar, de romantizar, voltaremos a andar de quatro. Hoje está difícil alguém se espantar com a novidade, com o grandioso, o monumental, quiçá então espantar-se com os detalhes, com o ínfimo, com o óbvio. Dias atrás, recebi uma mensagem de um leitor dizendo-me que não enxergava valor no romantismo, na entrega da aliança, em datas comemorativas e etc. Ora, perguntei a ele se já estava relinchando por aí e comendo pasto.

Nossa vida há de ser romântica. E digo mais: ela precisa ser romantizada. É a nossa única possibilidade de uma existência menos miserável. Do contrário, eu caio no materialismo insosso e apático do mundo moderno, onde homens e mulheres andam por aí relinchando e mugindo numa existência nula e abjeta.

E perceba, leitor, o que falei no início desta crônica: somos um romance ambulante. Este é o arquétipo da vida humana. Você nasce numa circunstância específica, só sua. Só sabe babar e chorar no colo de sua mãe. É cheio de defeitos a serem trabalhados. Há toda uma história singular para ser desvendada. Você cresce e então decide enfrentar a existência de olhos abertos, de costas eretas, mirando no maior bem possível. Ao longo do caminho, se depara com os vilões mais vis que pode encontrar. E você os enfrenta, perde algumas batalhas, ganha outras, aprende com os erros. Com isso tudo, você descobre qual é a sua vocação, qual é a razão de sua existência, entende que tudo se trata de ordem e caos.

No meio de sua jornada surge uma princesa, pela qual você se apaixona instantaneamente. Com o tempo, sente o que é amar e ser amado. Vocês dois se casam. Os filhos vêm em seguida, e você os ama incondicionalmente, você os protege do mal, lhes mostra o caminho, sente o amor deles por ti. À medida que a idade chega, as doenças e a fadiga aumentam. Você ainda é repleto de defeitos, mas um velho cheio de defeitos é infinitamente mais sábio do que um jovem cheio de defeitos. Você passa sua sabedoria para aqueles que ama. Logo depois você é acometido por uma morbidade. Fica de cama, vai para o hospital. Percebe que está chegando ao fim de sua jornada. Sua esposa, seus filhos e seus netos lhe fazem visitas, como se tivessem se despedindo. Lhe enchem de amor e afeição até o momento de sua morte.

Eis a jornada do herói, eis uma vida romântica, eis uma vida com significado. A arte imita a vida.

CABEÇA PARA DAR E VENDER

A minha cabeça era grande, gigantesca, monumental. Sim, a crônica desta semana é para falar de minha aparência deplorável. Os que me conhecem há tempos se oporão: “Era? Não! Ainda é!” Hoje ela ainda é grande, admito, porém, o contraste com o restante do meu corpo passou a ser menor. Ora, agora eu tenho 108 quilos — os mais engraçadinhos dirão que 100 é de cabeça. Não, senhores! Atualmente, tudo em mim é grande — pensem o que quiserem. Criei barriga e até alguns músculos nos últimos tempos, o que ajudou consideravelmente na diminuição deste contraste “corpo x cabeça”.

Mas na minha infância e adolescência eu pesava no máximo 70 quilos, era um dos mais altos da turma, e a cabeça era do mesmo tamanho. Meu Deus, não havia como não ser alvo de chacota dos amigos. Era impossível! Qualquer um que me olhasse, pensaria: “Este cabeçudo tem que ser zoado! Olha para esse cara!” Depois criaram uma palavra chique para a zoeira na infância, o famoso bullying. Eu sou fruto do bullying, e digo mais, eu sou a origem do bullying. O termo existe por minha causa. Você, leitor, não sabia disso? As professoras devem ter pensado: “Tadinho do cabeçudo, não tem um dia que os amigos não zombam de sua aparência física desagradável, temos de criar um termo bonitinho para essa situação, e precisa ser um termo em inglês, pois está na moda.” Eis a origem do bullying.

Confesso que eu também não me ajudava. Lembro-me de uma época em que fiz a burrada de deixar o cabelo crescer. Ora, eu começara a andar de skate e a ouvir bandas mais pesadas, e todo skatista rockeiro é estiloso. É um estilo do horror, eu sei, mas não deixa de ser um estilo. O problema fundamental aqui é: se minha cabeça já era grande o suficiente com um cabelo curto, imagine esta mesma cabeça com um cabelo comprido. E veja bem: meu cabelo é crespo, muito crespo. Então ele crescia para cima, aumentando ainda mais o comprimento da minha cabeça. Nesta época ganhei o apelido de “Cachopa Mestre”. No dia a dia, para simplificar, chamavam-me: “Ô Cachopa” ou “Ô Cachopudo”.

O pior é que meu pai incentivava-me a deixar o cabelo crescer, ele me achava o moleque mais lindo do mundo. Em momentos da vida dos quais sentia-me triste por ser eu, ele motivava-me: “— Filho, tu é lindão. Quem não queria ter tua altura? E esses cabelos? É estiloso. Eu sempre quis ter um cabelo assim. Tu chega em um lugar e todos te olham!” Ele estava certo, todos me olhavam, mas pelos motivos errados — ou certos —, pois eu era quase um animal exótico, e entenda o “exótico” aqui como um eufemismo para “feio para um caralho!” Por isso, sempre digo: opinião dos pais não conta, pois eles te amam incondicionalmente. É óbvio que o filho sempre será belíssimo diante do amor que eles sentem por ti. O problema passa a ser o mundo. Você sai de casa e as pessoas “normais”, que não lhe amam como seus pais, lhe atiram na cara suas crudelíssimas opiniões.

Então eu fiquei meses com aquela cachopa, talvez tenha ficado um ano ou mais. E eu tinha a mania obsessiva de a todo momento ficar arrumando os meus cabelos, como se fosse mudar alguma coisa, como se magicamente eu fosse ficar mais bonito e mais apresentável para as meninas, pois nesta idade, beijar alguma garota era um dos meus maiores objetivos de vida. Já contei aqui como foi o meu primeiro beijo. A cachopa veio logo depois disso. Então, se o interesse das mulheres por mim já era ínfimo antes da cachopa, com a cachopa, não havia interesse algum, era nulo, beirando o negativo. “O quê? Ficar com aquele garoto ali? Ui, não!”

Eis que me enfureci. Cortei a cachopa! Lembro-me de chegar à sala de aula e minhas colegas arregalarem os olhos. Era possível ler seus pensamentos: “Nossa, ficou muito melhor!” E algumas me falaram isso. Entenda, leitor, que eu não fiquei bonito, longe disso. Fiquei menos feio. Mas já era alguma coisa. A partir deste dia, jurei nunca mais deixar o cabelo crescer. Foi como se eu tirasse um peso de minhas costas, ou melhor, de minha cabeça. O apelido “cachopa” não morreu, continuou intacto, espectral. E, obviamente, vieram outros ao longo de todos estes anos: “Cabeçudo”, “Capitão Planeta”, “Cara de Cavalo”, ou em inglês “Horse Face”, “Caixa D’água” e etc. Alguns tentavam motivar-me: “— Guigo, sua cabeça não é grande, o mundo que é pequeno”.

Se eu fosse me irritar com isso, não teria amigos nem no passado e nem no presente, eu seria excluído dos meios sociais, eu, certamente, seria “o chato que não aguenta piadas”, eu seria aquele garoto que ninguém convidaria para o futebol ou para os churrascos, pois se ofende com tudo, e gente que se ofende com tudo, não dá para confiar. Sabe aquele moleque que passa a chorar pois o mundo não é como ela quer? Sabe aquele seu amigo que era sempre o chorão da turma, que ninguém poderia brincar, pois ele sempre sentia-se ofendido e então começava a chorar? Não, eu não fui esse cara. No início eu ficava colérico, tinha vontade de bater em todo mundo, xingava de volta, desfazia amizade e etc., porém, em pouco tempo, percebi que quanto mais eu lutava contra este fato irretocável — o fato de minha cabeça chamar a atenção —, mais eu me excluía, mais eu me levava a sério, e mais eu me afundava em meu narcisismo.

Lembro-me de quando comecei a trabalhar em meu primeiro emprego: numa fábrica de sapatos. Eram cinco homens ao redor de uma máquina que resinava tecidos. Na primeira semana, recebi meu apelido: “Monstro” Ora, eu tinha quase dois metros de altura, era magro como um fumador de craque, e ainda era meio desengonçado. Admirei-me de não ter recebido nenhum apelido devido à circunferência da minha cabeça. Eu aceitei o “Monstro” de bom grado. Pegou! E mais, todos ali tinham apelidos: Terrorista, Gaúchão, Chiquinho, Macabro, Zé Colmeia e etc. Qualquer novato que chegasse, apelidávamos de imediato. Era um teste. E digo com sinceridade: todos os novatos que se ofendiam ou iam chorar para o supervisor por causa de um apelido ou por uma brincadeira parecida, não duravam. Não era legal estar com eles. Não era alguém confiável para ficar naquele meio, pois eram ressentidos e vingativos. E isto é perceptível desde a escola. Os homens criam um código de conduta entre eles. Pode parecer cruel e maldoso, muitas vezes, mas quando você aprende a lidar com isso, há grandes possibilidades de você tornar-se um adulto melhor, um homem melhor. Se você não der conta de um apelido, de uma brincadeira, de uma chacota, você vai dar conta do quê?

Meus melhores amigos são assim: aceitam a chacota e fazem a chacota. Na última vez que um amigo de infância me viu, de súbito, afirmou: “— Mas tua cabeça cresceu, hein!” Eu respondi: “Tem uma outra cabeça que cresceu mais. Quer ver?” Rimos e nos abraçamos.

BALADA NÃO É UM BOM LUGAR PARA SE ESTAR

Que semana, meus queridos, que semana. Hoje quero refletir sobre o caso mais aclamado do momento, o de Mari Ferrer, sim. Não sou desses de entrar em polêmicas, e nem quero. Aliás, nem vou me ater às especificidades deste caso, apenas relatarei as reflexões que fiz a partir dele. Não serei mais um juiz da internet a sair acusando alguém disso ou daquilo, como se tivesse uma certeza enviada por Deus. A única conclusão plausível e irretocável que me vem à mente é: balada não é um bom lugar para se estar. Música altíssima, ambiente escuro, e drogas para dar e vender. Porém, se fossem apenas estes três elementos, não haveria problemas. Eis o quarto elemento desta mistura do horror: nós! Sim, uma multidão de homens e mulheres.

Alguém já se perguntou o porquê uma balada precisa destes três elementos essenciais? Pensei nisso esta semana. Ora, o pessoal não vai na balada rezar uma missa. Eu já escrevi que balada é a dança do acasalamento moderno. Não é preciso ser um gênio para enxergar o óbvio. Os homens, quando bebem, sentem-se, normalmente, mais confiantes e desinibidos. E pasmem: mais tarados. Deixe-me corrigir: somos tarados com álcool ou sem álcool. O que o álcool faz é libertar a canalhice masculina, ou seja, agora o homem colocará sua canalhice para fora. As mulheres, quando bebem, tendem a ficar mais soltas, alguns diriam, mais “fáceis”. E é verdade! Mulheres fáceis, homens tarados. Juntou a fome com a vontade de comer. Viu? A dança do acasalamento moderno.

Certa vez fui a uma cervejada. Você, leitor, sabe o que é uma cervejada? Explico. Você paga uma vez e bebe até morrer. O famoso open bar. Normalmente começa cedo, ali pelas quatro da tarde. E segue noite adentro. O ambiente tende a ser um espaço aberto, com piscina, com áreas diversas e etc. Fui em duas na minha vida. Na última, beijei, pelo que me lembro, umas sete bocas estranhas. E digo estranhas, pois não criei um pingo de intimidade com aquelas mulheres. Para mim, elas eram apenas bocas. Simplesmente eu estava bêbado, tarado e com “coragem”. De súbito, uma moça atravessava a minha frente, nos olhávamos e nos beijávamos, assim, sem mais nem menos. Após o beijo sem intimidade, ela seguia o seu caminho a uma outra boca, e eu também. À medida que escurecia, a concupiscência aumentava. De novo: não é preciso ser um gênio para enxergar o óbvio. No escuro, com uma música prestes a estourar os tímpanos, com o álcool em grande quantidade no sangue, eis o que sobra: instinto, ou, segundo a psicanálise, sexualidade e agressividade.

Alguns casais transavam ali mesmo, atrás de algum banheiro químico, atrás de alguma moita ou atrás de algum carro, no estacionamento. Outros ficavam mais agressivos. Arrumavam briga com o primeiro que pisasse em seu pé — principalmente entre os homens. Alguns não aguentavam o tranco e passavam a vomitar onde estivessem. Não é raro pisar em algum vômito, garrafa quebrada, copo quebrado ou qualquer outro item destes quando se está numa balada. Outros cambaleavam para lá e para cá, a esmo, sem saberem sequer onde estavam. Triste. Se balada como um todo já é ruim, imagine o seu final. É degradante! É desesperador! É como se o homem — espécie —regredisse e passasse a andar de quatro novamente, enquanto berra: UGA! UGA!

Repito: balada não é um bom lugar para se estar, muito menos um bom lugar para se entorpecer e perder completamente os sentidos. Não é à toa que grande parte das pessoas que são abusadas sexualmente, estão sob efeito de drogas. O mesmo acontece com os agressores. Pessoas boas são capazes de coisas ruins quando estão sob o efeito de drogas. Ora, não sejamos hipócritas. Todos já fomos adolescentes, já bebemos até perder a consciência, já fizemos coisas maldosas ou fomos vítimas de coisas maldosas — e nem me refiro aqui a atos sexuais, mas a atos violentos, como quebrar coisas alheias, arrumar confusão e etc. Qual o homem que nunca saiu bêbado de uma balada juntamente com uma mulher bêbada? Vocês entram no carro, o homem dirige até um motel ou até a casa dele, vocês transam e adormecem. No outro dia, ao olhar para o lado, ambos se arrependem do que fizeram. E agora?

Imagine ainda que essa mulher não lembre de nada referente à noite anterior, ou seja, ela não lembra se consentiu aquele ato sexual. “Estupro? Abuso sexual? Acidente? Perversão? Crime?” O que ela faz? Bem, ela pode perguntar para o cara: “— Então, eu aceitei transar com você ontem?” E ele pode responder: “Sim! Em nenhum momento você mandou eu parar.” Ou ele pode responder: “Também não lembro direito.” Ou ainda: “Você até pediu para pararmos, mas eu insisti e você cedeu!” Ou ele pode ser um estuprador de fato e mentir! E agora, o que fazemos com isso? E ainda podemos inverter, ou seja, o homem não lembra bulhufas e resolve perguntar para a mulher.

Quantas relações sexuais daquela cervejada que fui, foram consentidas racionalmente? Talvez, nenhuma. Talvez todos tenham se sentido sujos e pulhas no dia seguinte. O cômico do nosso mundo moderno é que as pessoas querem apenas o bônus, ou seja, querem sair para a noitada, desbravar seus desejos, usar todo o tipo de droga, realizar suas fantasias sexuais e ainda se sentirem plenas, seguras e felizes. No mundo utópico, perfeito, ético, realmente, deveríamos ter apenas o bônus. Eis o problema monumental: não vivemos neste mundo. Vivemos em um mundo onde há o ônus em tudo que fazemos. E este ônus, muitas vezes, carrega o sofrimento e a maldade humana.

Quando um pai, consciente da podridão do ser humano, vê sua filha lindíssima, prestes a sair para uma balada, de imediato a recomenda: “— Não beba nada no copo dos outros. Não beba até perder a consciência. Não vá ficar com vários homens. Tome cuidado, minha filha, por favor.” E ela, cheia de si, responde ao velho: “— Sai fora, pai. Esse pensamento é machista. A gente é livre para fazer o que quiser.” Exatamente. Todos somos livres para fazermos o que quisermos, inclusive aqueles com más intenções. E há muitos por aí. O pai desta moça sabe que o mundo é um lugar perigoso e cheio de maldade. Aliás, o problema não é o mundo, é o ser humano.

Como dizia Nelson em uma de suas crônicas: “O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo.” A balada desumaniza o ser humano, e mais: ali, tudo é feito com a intenção de desumanizar o homem e transformá-lo em um animal. Exagero? Pessimismo? Talvez eu esteja apenas enxergando o lado ruim de uma balada. Mas e o lado bom? A diversão, a pegação e as histórias hilárias para contar? Isso é bom, não é? Diga-me você. O que quero deixar claro aqui é: balada não é lugar de dar chance para o azar.

Eu já dei, não na balada, mas na vida. Explico. Lembro-me de certa vez, eu voltando da faculdade a pé, à noite. A rua era de uma escuridão assombrosa. Próximo dali, havia um beco ainda mais assombroso, apelidado, carinhosamente de “beco da droga”. O que se faz quando se está em um lugar como este? Ora, passos rápidos, sem olhar muito para os lados e atenção redobrada. Mas eis o que o idiota resolve fazer: tirei o celular do bolso e resolvi ligar para a minha mãe. Enquanto falava com ela, um moleque cadavérico atravessou a rua em direção a mim. Ao se aproximar, sacou um canivete e me encarou com aqueles olhos esbugalhados: “— Passa o celular!” Graças a Deus, consegui encerrar a ligação com a minha mãe antes da ameaça do moleque, caso contrário, ela teria tido um treco do outro lado da linha.

Dei uma baita chance para o azar, mas, por sorte, ainda paguei um preço baixo. Celular eu compro outro. Eu, obviamente, fui vítima de um criminoso. Quanto a isso, não há discussão. Mas perceba que eu me coloquei numa situação vulnerável que poderia ter sido evitada, ou seja, eu dei chance para o azar. No mundo utópico, eu poderia tirar meu celular do bolso dentro do beco da droga e nada me aconteceria. Mas será que em um mundo utópico existiria o beco da droga? Sei lá. O que eu sei e reafirmo aqui é: o ser humano se falsifica. Um homem bom na véspera, pode ser um homem mau no dia seguinte.

E antes que eu me esqueça: balada não é um bom lugar para se estar, mas, se você estiver, não dê chance para o azar.

%d blogueiros gostam disto: