Meu Terceiro Livro: Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho

Sim, meus queridos, o meu terceiro livro está pronto!

Para quem chegou assim, de supetão, deixe-me dar-lhe um resumo do que é o Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho:

NINGUÉM DEVERIA ENVELHECER SOZINHO é uma obra confessional. Todas as crônicas, os artigos, os poemas, os contos e as palavras que estão neste livro são uma tentativa quase desesperada contra a solidão de afeto amoroso.

Sim! Sou um romântico ridículo, e ratifico: o ridículo é uma de minhas dimensões mais válidas. Acredito no amor eterno. Acredito no amor que vai além da vida e além da morte. Deus me livre ser um niilista do afeto, aquele que desacredita tanto no amor, que passa a ver os atos românticos como algo inútil e sem sentido. O destino para o niilista do afeto, inexoravelmente, será envelhecer sozinho neste mundo líquido, em uma realidade onde nada dura, pois tudo passa a perder o significado.

E quando as coisas perdem o significado, a sua vida perde o sentido. Por isso eu digo de maneira obsessiva quando escrevo sobre relacionamento: o romantismo dá significado para a relação e também para a sua vida. Eu sempre lembrarei do momento no qual pedi minha mulher em namoro e entreguei-lhe a aliança. Melhor ainda: o momento em que a pedi em casamento. Aquilo foi sublime. Aquilo irá tocar as nossas almas até o fim de nossos dias. Tornou-se um marco monumental em nossa relação.

Digo-lhe, leitor, com sinceridade: em vinte e nove anos de existência — o que pode ser pouquíssimo comparado a homens e mulheres que caminham sobre a terra há mais de meio século —, fiz uma descoberta monumental: só o amor importa! Dar e receber amor, eis o que nos humaniza, eis o que faz a vida valer a pena, eis o que vai nos salvar. Todo o resto é resto.

Sou ou não sou um romântico ridículo? Bem, este é o livro: a história de um homem miserável que afundou-se na luxúria e tornou-se, por um tempo, um niilista do afeto. Entretanto, deu a volta por cima e, aos poucos, fez sua descoberta monumental sobre amor e intimidade.

Esta obra foi a melhor coisa que já fiz na vida.

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CATÓLICO NÃO-PRATICANTE

Perguntaram-me, lá no Instagram, como voltei para a igreja. Achei uma questão adequada para escrever uma crônica. Já escrevi outras crônicas tratando do tema. É impossível falar sobre si mesmo sem trazer suas crenças ou descrenças. E esta é uma questão que, por muitas vezes, me pego pensando. Por este fato, não é possível uma resposta única e direta, como se alguém me perguntasse a minha altura e eu respondesse: “Ora, tenho 1,92 metros.” Ponto. Nem mais, nem menos. Sempre que o tema traz algo que não está visível no mundo material — diferente da minha altura —, nos deparamos com o mistério. E ouso dizer que o mistério é maravilhoso. Deus é um mistério. Por isso, quero aprofundar-me! Desejo, assim como você que me lê, entender alguns dos motivos pelos quais voltei para a igreja, voltei para o catolicismo.

Certa feita, numa outra crônica, contei sobre a minha época de ateu militante, da qual o pouparei no dia de hoje. Mas saiba, leitor, que nasci numa família “católica não-praticante”, tornei-me ateu, fui para o agnosticismo e então voltei para a graça. Em resumo, este foi o meu caminho. Hoje, quero partir do momento em que eu estava com um pé no agnosticismo e o outro voltado para Deus. Acabara de conhecer minha noiva, lá no final de 2018. E não se engane! O fato de eu não ter religião à época, não significava que eu comia criancinhas no café da manhã. Eu sempre fui bem intencionado. Espere. Minto. Nem sempre, nem sempre. Mas, na maior parte das vezes, sim. E isto é óbvio, pois nasci numa família católica, numa cidade de influência católica, num país de bases cristãs.

Até o ateuzinho mais militante, deveria agradecer a Deus, à noite, antes de dormir, por ter nascido numa sociedade cristã, pois, como nos lembra Dostoiévski: “Se Deus não existe, tudo é permitido.” E, um dos maiores assassinatos que cometemos na humanidade, foi matar Deus, lá pelo século XIX, para acreditar em nós mesmos. O resultado a gente viu anos depois, com aqueles anti-homens que se achavam deuses da humanidade: Lênin, Stalin, Mao Tsé Tung, Hitler e companhia. Naquele momento, tudo era permitido, até nos desumanizar. Entretanto, para a nossa salvação, Deus não morreu. Aliás, ele nunca morre. Graças a Deus!

Mas eis o que eu queria dizer. Iniciei meu namoro em junho de 2019. Lembro-me de quando conheci a família dela. Encantei-me! Me receberam, literalmente, de braços abertos. E, até hoje, toda vez que nos abraçamos, sinto-me acalentado de amor. Trago esta história, pois ao final de 2019, minha sogra convidou eu e a Adeline para participarmos da Novena de Natal. Neste momento, eu já olhava com outros olhos para a igreja, mas ainda era o “católico não-praticante”, ou seja, quando me perguntavam sobre a minha crença, respondia, de maneira um tanto insegura: “Católico não-praticante”. Sejamos sinceros, se você não pratica a sua religião, você não é daquela religião. Se você se diz um “católico não-praticante”, você não é católico. Seria a mesma coisa que alguém lhe perguntar se você é fiel, mas sua resposta, não seria “sim” ou não”, seria algo como: “Sou fiel, mas não praticante. Uma vez por semana vou ao puteiro. Ninguém é de ferro, né?”

Eu tinha aquele pensamento que permeia a cabeça de muita gente que tem preguiça da religião, de ir à igreja, de seguir os dogmas: “Minha fé é pessoal! O que adianta ir na igreja, sair de lá e falar mal dos outros?” Hoje eu entendo: pensava assim, pois era um imaturo espiritual e um preguiçoso de uma figa. A Novena de Natal fez-me enxergar a doutrina com outros olhos. Ora, eu estava diante de famílias reunidas com um único objetivo: celebrar a chegada do menino Jesus. Mas era muito mais do que isso, pelo menos para mim. Eram pessoas diferentes reunidas para algo bom. Atentei-me também para as famílias, para os casais de meio século, que construíram seu amor sobre a rocha católica. Um destes casais fixou os olhos em mim e na Adeline. Olhos rútilos, cheios de esperança. A mulher do casal, que era uma velhinha simpaticíssima, caminhou até nós, segurou as nossas mãos e disse: “Como é bom tê-los aqui!”

Com esta experiência, percebi o óbvio ululante: o ser humano precisa se curvar para algo maior. Qualquer um que não se curva para nada, se torna abjeto. Por isso, lhe digo, meu leitor, toda devoção é linda. Foi isso que me encantou: a devoção daquelas famílias à igreja católica. E me encantou, pois eu era abjeto. Até aquele momento, eu nunca tinha me curvado de fato para Deus. Eu me curvava para as coisas do mundo, mas não para Deus. Confesso-lhe, leitor, que se a Novena de Natal, lá naquela época, dependesse de mim, não existiria Novena. Confesso-lhe, leitor, que eu achava perda de tempo ir à Missa, rezar o terço, ir ao cemitério ou qualquer outra atividade cuja origem fosse a doutrina católica. Eu preferia ficar em casa batendo uma para um monitor LCD.

As virtudes das famílias do bairro da minha sogra fizeram-me enxergar as minhas sujeiras. Eu era mesquinho, soberbo, vaidoso e luxurioso. Entretanto, naquele momento, fui humilde em reconhecer a grandeza daquela gente e daqueles ritos. Pensei: “Eu preciso conhecer a doutrina!” Em 2020, atentei-me para outro óbvio ululante. Grande parte das pessoas que eu seguia, admirava e ousava imitar, tinham como alicerce a religião católica. Isso os dava força, clareza e, claro, um norte. Eles não eram os tais “católicos não-praticantes”, que andam por aí mais desorientados e perdidos do que os defensores da linguagem neutra. Não! Eles praticavam! E, por isso mesmo, tinham uma personalidade forte, a qual, ao conhecermos, nos admiramos e nos obrigamos a imitá-las.

Qualquer pessoa, diante de alguém virtuoso, enxerga a própria sujeira, pois a virtude evidencia os seus vícios, evidencia as suas falhas. Aqui, ou você se curva diante da virtude e do virtuoso ou você se enche de inveja e deixa que o ressentimento o consuma, assim como consumiu Caim, que acabou por assassinar seu irmão, Abel. Me curvei mais uma vez! No início de 2021, voltei para a igreja! Desculpe. Minto! Passei a crônica inteira com este discurso de “voltar para a igreja”. Como voltar para igreja se eu nunca fui de frequentá-la? Eu nunca havia frequentado a igreja na minha vida, a não ser em alguns momentos esporádicos que os “católicos não-praticantes” se obrigam a ir na casa de Deus, como em casamentos, batizados e etc. Retifico: no início deste ano, comecei a frequentar a Missa. Em seguida, pedi a mão da minha mulher em casamento e iniciei a catequese para adultos.

Na primeira sessão de terapia — sim, para mim, ouvir o catequista falar sobre a igreja, é terapêutico —, entendi porque passei todo este tempo longe da graça: não há como você amar o que você não conhece. E, sejamos sinceros, os católicos não-praticantes não conhecem a igreja, a doutrina e o seu Deus. Falo por mim. Eu não conhecia Deus. Eu não conhecia a doutrina. Eu não tinha me atentado para os valores monumentais dos sacramentos da igreja. Enfim, eu não conhecia bulhufas de tudo aquilo. Hoje, conheço um pouco, mas este pouco já foi responsável por encher a minha vida de sentido. Porque é isso o que acontece quando passamos a conhecer as coisas que nos cercam. O anti-homem que habita em você, perde força. A verdade não é mais relativa. Existem coisas melhores que outras. Há uma distinção entre vícios e virtudes, entre bem e mal. Não somos obrigados a morrer numa caverna escura da ignorância e da desesperança, pois há um caminho de luz, da verdade e da vida.

AS TRÊS FRAQUEZAS DO HOMEM

Eu não me canso de ouvir o Naldo, o Canalha Honesto. Você, leitor, aposto que também não. O homem já se tornou espectral em minhas crônicas e em minhas lembranças. Hoje trago mais uma de suas teorias. Minto! Teoria é coisa de intelectual que vive a vida em sua alcova se masturbando e lendo autores dificílimos, para então formular suas hipóteses inteligentíssimas — perdoe-me pelo excesso de superlativos. Não! O Naldo é diferenciado. É um homem da prática. A alcova, para ele, é a treva. Ele anseia pela realidade, pelo contato com o outro, ou melhor, com a outra. Mas eis que o Canalha Honesto me vem com mais uma de suas sabedorias monumentais: as três fraquezas do homem.

Antes, preciso explicar como chegamos no assunto: falávamos sobre homens que forçam aquelas poses de machões, de pegadores, de “machos alfas”. Você sabe bem o estereótipo no qual estou me atendo aqui. São aqueles homens que engrossam até a voz para falar; são obsessivos por academia e pelo corpo; são preocupados em demasia em como o mundo os enxerga; não possuem muito senso de humor, pois precisam manter a pose de malvadões. Enfim, é como se estivessem mascarando alguma fraqueza. Este é o ponto do Naldo! Eles de fato estão mascarando algo. E, como a sabedoria vem de um canalha, e ainda honesto, precisamos estar dispostos a ouvi-la.

A primeira fraqueza trata-se do tamanho do membro do homem. Leia-se: falo — como dizia Freud. Não entendeu? Trata-se do tamanho da giromba do homem. A frase “tamanho é documento” é mal explicada, segundo o Canalha Honesto, pois a lógica não é quanto maior, melhor, a lógica, aqui, é de que uma giromba pequena e minúscula, complica a situação diante da mulher. Usei a expressão “complica a situação” pois não quero vulgarizar esta crônica com pormenores sórdidos. Lembro-me de ainda adolescente, ouvir sempre a mesma história, na televisão, no rádio, de educadores: “tamanho não é documento!” E então, ao crescer e passar a dialogar com mulheres, percebi o óbvio ululante: mulheres são cruéis com homens de giromba pequena. Talvez entre aqui, todo aquele sentimento de castração, do qual Freud falava tanto. Ora, a menina, quando criança, ao perceber que o menino tem algo no meio das pernas e ela não tem, sente uma falta, sente-se, de fato, castrada. Talvez venha daí essa crueldade ao lidar com homens de peru minúsculo. Como se dissesse, em forma de vingança: “Bem feito, eu não tenho e você também não! Vou espalhar pra todas minhas amigas.”

Fiquei sabendo de não uma, mas algumas histórias de mulheres que largaram homens por conta do tamanho pequeno de suas girombas. Elas mesmas me contaram isso. Não foram amigas de suas amigas. Uma me disse assim: “O cara era forte e bonito. Fomos para o motel e, ao tirar a cueca dele, era do tamanho do meu dedinho. Me decepcionei. Inventei que estava passando mal e precisava ir embora.” É inegável que o homem que tem o peru do tamanho de um dedinho tem parte de sua masculinidade ceifada. Certa vez, recebi um e-mail de um homem que dizia ter um pênis de oito centímetros quando ereto. Ele não sabia como lidar com isso, pois todas as mulheres o largavam por este fato. A única coisa que consegui dizer-lhe, foi: “Cara, você terá de aprender a fazer piada com isso, caso contrário, você vai se afundar cada vez mais numa tristeza e numa solidão indizível.” A solidão do homem que tem pênis pequeno é um bom título para um livro de autoajuda. Fica a dica.

Agora imaginei um homem entrando numa livraria. Mesmo que gostasse do livro e percebesse que o livro seria para ele, dificilmente compraria, assim, na cara dura. “Todo mundo vai saber que tenho um pênis pequeno.” É como ir na farmácia e comprar KY, aquele lubrificante à base de água. A mulher do caixa vai te olhar e você, com sua masculinidade frágil, logo vai achar que a moça irá lhe julgar como sendo um homossexual: “Ah, vai dar bastante hoje, hein, ô machão!” E você pensa em responder o pensamento da moça: “Moça, isso aqui é para usar com a minha mulher! Daqui de trás só sai, não entra nada.”

Mas deixe-me voltar ao assunto. O que há de se fazer com o homem que nasce com um pênis minúsculo? Não existe silicone, como existe para as mulheres que nascem sem peito algum. Se não me engano, até tem uma cirurgia de aumento peniano, mas não é simples, e, às vezes, não vale todo o esforço para ganhar apenas dois centímetros a mais. Então, meu querido homem de peru pequeno, aprenda a rir disso, se torne o melhor que puder em outras coisas. Ora, você tem língua e dedos para quê? Aprenda a fazer um linguado como ninguém. “Guilherme, o que é linguado?” Se você está me perguntando isso, não era para estar lendo as coisas que escrevo, pois trata-se de alguém inocente, e meu desejo é que sua inocência seja preservada, e não maculada.

E mais: apesar de você ter um dedinho aí no meio das pernas, a personalidade humana vai mais além. Não se limite apenas à questão sexual, apenas ao falo. Isso não é tudo. Há todo um emaranhado de nuances nas quais você pode se diferenciar e tornar-se alguém que não seja somente o “cara de pinto pequeno”. Eis o porquê alguns homens se tornam obsessivos em musculação, corpo, alimentação e etc., os quais citei no início desta crônica. E antes que eu me esqueça: não vá sair acusando todos os musculosos que você vê por aí de “pinto pequeno”. Comportamento humano não é matemática. São tantas variáveis que estão em jogo que você não pode chegar na sua academia, amanhã, e sair apontando o dedo para os marombeiros e julgando seus órgãos genitais, pois você irá apanhar feito cachorro.

A segunda fraqueza do homem que o Canalha Honesto traz, seria a famosa “duas pedaladas, escapou a correia” ou o miojo, “três minutos e está pronto”. São os homens que encerram a partida antes mesmo de começar. Bem, chega de metáforas! É o cara que sofre de ejaculação precoce. Todo homem aqui já encerrou a partida antes do jogo começar, ainda mais quando se está há tempos sem jogar e a vontade é tamanha, que o jogador se lesiona no aquecimento. Isso normalmente acontece com jogadores novos. Os experientes lidam melhor com a ansiedade, por isso, dificilmente, deixam a mulher na mão. Ah, e que situação constrangedora! A mulher está lá, pegando fogo, subindo pelas paredes, enlouquecendo de tesão, parecendo o chuveiro aqui de casa, pingando sem parar, e então, o homem incauto, na primeira pedalada, deixa escapar a correia e só escuta um “Ah, não acredito”, da mulher que está deitada em sua cama. Isso o destrói por dentro.

Como eu disse: todo homem já passou por um momento assim, mas o problema não é este, o problema é quando ele sempre deixa escapar a correia. Isso passa a deixá-lo cada vez mais ansioso, pois o desgraçado não consegue parar de pensar no fato de que não pode errar na próxima vez. Esta ansiedade e esta cobrança excessiva o levam ao nervosismo, ou seja, ele passa a tornar-se uma bomba de tensão prestes a explodir. Toda tensão busca uma via para ser descarregada. E, no caso deste homem desesperado, a via encontrada é pelo gozo: eis a ejaculação precoce.

Esta bomba de tensão pode resultar na terceira fraqueza do homem: disfunção erétil, a famosa brochada. O ciclo tende a ser o mesmo: brochou uma vez, sentiu-se destruído por dentro, passa a pensar que não pode brochar na próxima, isso aumenta sua ansiedade e sua tensão, e então, ao estar com a morena em sua frente, o desgraçado pensa em tudo e esquece do principal: da morena. E aí, meu querido leitor, a giromba não sobe nem a pau. O homem entra num ciclo do horror por causa de seu histórico ruim, o que o faz colocar um peso enorme na próxima vez em que encontrar a morena. “Não posso brochar, não posso brochar, não posso brochar!” E brocha! Na melhor das hipóteses, tem aqueles que não brocham no início, mas no meio. Não conseguem manter-se eretos numa relação inteira, o famoso “meia-bomba”.

Enfim, analisando as três fraquezas do homem, percebo que duas delas são intensificadas pela modernidade líquida, que faz o sujeito matar a própria intimidade para buscar o prazer a todo custo. Eis o problema fundamental do nosso tempo: quando tudo está à mostra, o desejo não dá as caras. Então, o que temos em demasia é um marketing abjeto sobre sexo. Tudo é sexo! Tudo é sexualizado. E, quando o sexo não é o contraste, mas é o padrão, ele se torna mecânico e insosso. Aposto que a maioria das mulheres que estão lendo isso aqui e que praticam sexo casual, nunca gozaram ou raramente chegam lá. Aposto que grande parte dos homens que estão lendo isso aqui e que estão nessa vida vazia de “caçar mulheres”, sofrem ou já sofreram, pelo menos, duas fraquezas das quais citei anteriormente.

É insano pensar em ficar nu na frente de alguém que não lhe conhece nem a casca, quiçá as entranhas. E nesta relação vulgar, por mais que eu tenha falado das três fraquezas do homem, quem se ferra mais, é a mulher, pois o desejo do homem é vulgar. Não é à toa que é ele quem sofre de ejaculação precoce, e não a mulher. A mulher é o contrário: normalmente ela precisa de intimidade para gozar. Entretanto, nas redes sociais, na frente dos amigos, homens e mulheres se colocam como aqueles que transam em quantidades absurdas de vezes e de horas; que possuem vários parceiros; que fazem todas as posições do Kama Sutra e etc., etc. Vos digo: isso é mentira! É mais provável que sofram de ejaculação precoce e brochem, no caso dos homens, e que sejam frígidas e infelizes, no caso das mulheres. Leitor, tome nota: a intimidade é o seu relicário.

OS CANALHAS DESCONSTRUÍDOS

Ainda quando pequeno, na época em que eu era virado em cabeça, pois meu corpo era só coro e osso, lembro-me de uma certa conversa entre adultos sobre uma praia de nudismo. Ora, eu sequer sabia o significado da palavra “nudismo”, mas já roubava as Playboys do meu irmão para venerar as musas que ali estavam. Eu não havia nem descoberto o ato do onanismo ainda, porém, já percebia que aquelas mulheres nuas, com poses sensualíssimas, faziam algo em mim, crescer. Então, toda manhã, quando meu irmão saía de casa, lá ia eu, como um gatuno — sabendo que estava prestes a fazer algo errado —, no seu esconderijo de Playboys. Algumas vezes ficava horas folheando as páginas e venerando aquelas semideusas. Aquelas mulheres, para mim, eram impossíveis. Eu tinha consciência da minha pequeneza, não apenas de tamanho, ou seja, eu uma criança e elas adultas, mas de beleza. O máximo que eu poderia fazer era venerá-las, como um súdito diante de suas rainhas. Eu sabia o meu lugar no universo.

Cometer este crime, não era fácil. Minha mãe estava sempre por perto, mas eu era esperto. Não lembro de ter sido pego no ato. Pensando bem, acho que nunca fui pego em flagrante, entretanto, vez ou outra, minha mãe achava algumas provas do crime. Lembro de uma delas: “É, Guilherme, a gente precisa conversar sobre isso aqui!” Frase dita por minha mãe, após averiguar o videocassete lá de casa e perceber que havia uma fita, intitulada “Louco por Bundas”. Pensei em jogar a culpa no meu pai. Ora, a fita era dele. Minha mãe sabia disso! E, por isso mesmo, não dava tempo nem de jogar a culpa nele e minha mãe já o chamava: “Lé (Apelido do meu pai), olha isso aqui! A gente vai conversar sobre isso!” E meu pai, todo desconfortável, encarava-me e dizia: “Filho, isso aqui não é pra criança.” A julgar pela cara da minha mãe, aquilo não era nem para um adulto, muito menos para o meu pai. É, meu querido leitor, a taradeza já vem de fábrica.

Mas eis o que eu queria dizer. Ouvi uns adultos conversando e rindo copiosamente sobre uma praia de nudismo. Até que um dia, eu e meus primos, brincando de alguma coisa da qual não lembro, quando um deles puxa o assunto sobre a tal praia: “É uma praia onde todo mundo anda pelado. Crianças, velhos, adultos. Todos! Só se entra pelado!” Neste momento eu entendi o que significava a palavra “nudismo”. E passei a tecer fantasias sobre esta praia. Imaginei-me chegando na frente de todos, completamente nu. Envergonhei-me. “Nunca pisaria num lugar assim.” De súbito, pensei: “Como aguentar passar na frente de mulheres nuas e permanecer indiferente? Algo em mim, inexoravelmente, vai crescer! Se com as revistas do meu irmão, já cresce, imagina uma semideusa em minha frente, a qual eu posso tocá-la! Eu teria de ficar o tempo inteiro no mar, gelando as partes baixas.” Claro que eu não pensava desta forma eloquente e formal. Eu era uma criança, mas o sentido do pensamento era o mesmo.

Escrevi esta lembrança com o intuito de chegar no óbvio ululante: tarado é toda pessoa normal pega em flagrante. Ou seja, todos somos tarados. Desde a infância, até a velhice. O que fazemos, é reprimir nossa taradeza. Graças a Deus! Mas eis que estes dias, ao passar alguns stories lá no Instagram, de repente me aparecem aqueles stories patrocinados. Era uma moça bonita no meio da natureza, seminua, tatuada, cabelos cor de ouro, estilo hippie. Havia um texto abaixo de sua foto: “Venha ser feliz! Descubra a verdadeira felicidade!” Fiquei em dúvida se o objeto da felicidade seria ela. Entrei no perfil. Ela queria passar a sensação de good vibes. Explico: desprendimento do corpo, amor incondicional à natureza — fotos abraçando árvores —, liberdade de mentes e de corpos, acampamentos com hippies descolados, fotos fumando um baseado e outras, obviamente, mostrando seu nu artístico em posições de oração para algum Deus também descolado.

Confesso que eu sou tão filho da mãe, pois meu primeiro pensamento ao ver aquele povo seminu dançando e se abraçando, foi: “precisa de tudo isso agora pra entrar numa suruba?” Juro! Eu sei, não me orgulho disso. E, assim como na infância, imaginei-me no meio daqueles hippies evoluídos. Todos pelados a roçarem seus corpos uns nos outros. Não daria certo. Não para este tarado que vos escreve. Pois como na praia de nudismo, coisas em mim cresceriam de imediato, e não estou falando da espiritualidade. Esta experiência mental fez-me questionar algo: por que é preciso ficar pelado para alcançar a espiritualidade? Não pode ser com roupas? Tudo bem. Talvez eu que seja um caretão e não consiga enxergar a magia por detrás do nu. A única coisa que consegui ver, foram as nádegas e os seios daquelas mulheres cujas bocas evocavam algum tipo de reza. Qual homem se importa com reza quando tem diante de si mulheres peladas?

Se a Santa Missa Católica fosse celebrada com todos os presentes nus, o cristianismo teria acabado no primeiro século. Indignei-me! “Mas será que eu sou tão retrógrado assim que não consigo me concentrar em outra coisa a não ser nos nus?” Fui ver os comentários das publicações. Centenas de homens e mais homens elogiando aqueles rituais. Não vi um comentário machista, do tipo “Gostosas!” ou “Delícias!”. Nada! Deparei-me com: “Como faço para conhecer este grupo maravilhoso?”, “Parabéns pela iniciativa. Muito legal!”, “Incrível! Espero um dia poder participar.” Estes homens não me enganam. São como aqueles caras que entram no bate-papo do UOL com o nickname “Homem Romântico”. Todo mundo sabe o que ele está procurando. Pelo menos o “Paulao25cm” é sincero na sua busca.

Estes dias, um homem enviou-me uma mensagem pelo Instagram. Queria fazer uma live sobre masculinidade. Ao analisar o perfil do sujeito, entendi a masculinidade da qual ele falava: o homem desconstruído, a masculinidade consciente e etc., etc. Meus detectores de “assuntos chatos para um cacete” foram ativados. Vi que o sujeito já fizera outras lives e decidi ver do que se tratavam: terapia tântrica; terapias alternativas; tamanho de pênis; autoaceitação e toda gama de assuntos que pega bem falar hoje em dia. Mas até aí eu ainda cogitava a hipótese de fazer a live. Eis que começo a assistir um vídeo dele com um destes terapeutas tântricos descolados. No paroxismo da fala do terapeuta, ele diz que é “super normal” a massagem tântrica nos órgãos genitais do paciente. Tudo isso tem uma função terapêutica de elevar o homem e a mulher a um estado espiritual, e pode ser feita em grupo. A partir daí eu passei a rir. Ora, o problema não é a massagem com “final feliz”, o problema é achar que um bando de gente numa sala se masturbando é algo que eleva o ser humano a outro patamar de existência.

Ah, não me venham com essa patifaria! Isso aí é desculpa pra comer gente sem sentir culpa e ainda ter o ego elevado, como se tivessem fazendo algo enobrecedor para a humanidade. Não, não! Isso aí, os nossos ancestrais, há 200 mil anos, faziam. É esse pessoal aí que acha que ir no bar da dona Rute é a mesmíssima coisa que ir numa casa de swing; é essa gente descolada que acha “super normal” o tal do relacionamento aberto, com a desculpa: “isso é o verdadeiro amor, quando você entende que o outro é livre para fazer o que quiser”; enfim, não se fazem mais canalhas honestos como antigamente. Agora, o que temos, são os canalhas desconstruídos, aqueles que acreditam que suas canalhices salvarão a humanidade. Vos digo: desde quando eu tinha oito anos, eu já sabia que a minha canalhice e minha tareza inata, não salvariam nem a mim e muito menos os outros à minha volta, por isso, nunca pisei numa praia de nudismo.

O HOMEM DO CANTO

Estes dias, enquanto estava numa sessão com um paciente, de súbito, emocionei-me. Enchi os olhos de lágrimas ao deparar-me com um ser humano que tentava falar suas angústias e as frases saíam pela metade. O raciocínio era cortado, tolhido, ceifado. Era nítido o turbilhão de sentimentos que estavam dentro daquela alma ansiosa, que mexia a cadeira e a cabeça para lá e para cá de maneira repetitiva e obsessiva. Era o seu corpo urrando: “Eu preciso desabafar, mas não consigo!” Nós podemos até mentir com as palavras, mas, com o corpo, dificilmente.

Emocionei-me porque sou humano e consigo perceber a dor lancinante de não conseguir se desarmar. E não é só isso, mas o “como” se desarmar. Os pensamentos — e os sentimentos —, na cabeça de alguém que não os libera com uma certa frequência, tende a ser confuso, ambíguo, antagônicos, enfim, são caóticos e tendem a levar qualquer um à angústia e à ansiedade. Quando digo aqui, de maneira repetitiva, que a escrita me salvou, não é uma simples metonímia, é uma verdade ululante sobre a minha vida.

Ora, sempre fui o homem do canto — não do verbo cantar. Aliás, bem que eu poderia ter sido um bom cantor, se não fosse por um detalhe quase insignificante: a voz. Mas deixe-me voltar aos outros cantos. Os centros das salas deixavam-me desconcertado, incomodado e tenso. O meu negócio era não chamar a atenção. O lugar perfeito era a minha alcova, leia-se: meu quarto. Nas conversas, eu era um túmulo. O máximo que saía de mim, era uma risadinha com o canto dos lábios. E tomar à frente em algumas situações? Deus que me livre! Nunca! Melhor ficar no meu canto. Na escola, quando a professora proferia o substantivo “Guilherme” em alto e bom tom, meu coração disparava, as mãos suavam e a respiração ofegava. O raciocínio se perdia devido ao pouco oxigênio no cérebro, e era como se o Guilherme se transformasse em algo que não era ele.

Alguém poderá objetar: “Antissocial!” Antissocial uma ova! Eu sempre quis falar. Eu sempre quis tomar à frente. Eu sempre ansiei por falar para as multidões. Eu sempre quis participar das discussões e do meio social. O que me impedia, no fundo, era o pensamento mesquinho e ridículo do “o que os outros vão pensar de mim?”. Leitor, tome nota: a timidez, nada mais é, do que achar-se especial em demasia. E, por achar-se a última bolacha do pacote, você se cobra com a régua da perfeição; você precisa da aprovação dos transeuntes; você precisa superar as expectativas de todos os presentes. Mas, como diz meu pai: “Nem Jesus, que era o homem perfeito, agradou todo mundo. E ainda pregaram o magrão na cruz!” “Magrão” é o apelido carinhoso que meu pai usa para se remeter ao Messias.

Por isso eu invejo descaradamente aquele sujeito cujo pensamento sai por sua boca sem floreios, sem divagações, sem a dúvida crudelíssima que invade os corações dos melancólicos: “Mas o que os outros irão pensar de mim?” Melancólicos, uni-vos! Os coléricos só pegam os melhores cargos nas empresas, as melhores mulheres na balada, as melhores oportunidades na vida, por berrarem ao colocarem seus ovos. Mas digo-lhes, melancólicos, nossos ovos são melhores que os deles — por sermos mais profundos —, mas precisamos berrar e mostrar os nossos ovos. Talvez tenha ficado estranho esta analogia com ovos. Paciência. Você nunca ouviu falar na história da galinha e do pato? Outro dia eu conto. Além do mais, podemos nos unir aos fleumáticos, que também são oprimidos pelos coléricos. Também podemos trazer os sanguíneos para o nosso lado. Nos tornaremos imbatíveis. Espero que o meu leitor tenha se atentado para a ironia deste parágrafo. Trata-se de uma anedota, mas nem tanto, nem tanto.

Falaremos sobre os quatro temperamentos em outras crônicas. Eis o que eu queria dizer. Agora o leitor já percebeu o porquê a escrita me salvou e ainda me salva. O que o homem do canto poderia fazer para colocar para fora seu caos interno cujos pensamentos são carregados de sentimentos? Escrever, escrever e escrever. Era o que me restava. Hoje, quando me deparo com pessoas, principalmente jovens, que têm esta dificuldade de se expressar, me enxergo neles. Por isso emocionei-me com o meu paciente que tentava desabafar pela fala, mas não conseguia. Era paralisado por uma resistência imposta pela sua própria psique. Sua própria psique não lhe dava a concessão de um mísero alívio, de uma mísera lágrima, de uma mísera frase. São em casos como este que tento oferecer outras formas para o paciente se expressar, como a escrita, por exemplo. Peço que escreva uma autobiografia, separando sua vida em marcos fundamentais e, que descreva, em cada marco, momentos dos quais acredita que formaram sua personalidade.

Funciona. Para os homens do canto é uma possibilidade de organizar o caos interno e passarem a entender por que diabos chegaram aonde chegaram; é uma possibilidade de saírem da caverna, aquela mesma caverna que Platão nos falava séculos antes de Cristo. Ora, nascemos presos no fundo de uma caverna escura, na qual tem uma fogueira que projeta uma luz nas paredes e então se inicia aquele efeito de luz e sombra. Isso é uma projeção (manipulação) da realidade, mas não é a realidade de fato. Isso é uma pseudoverdade, mas não é a verdade. Na época de Platão, os manipuladores eram os sofistas. Hoje, são os ideólogos que tornam a realidade confusa e relativa, desorientando boa parte das pessoas, que acabam numa vida sem sentido e sem esperança. E, enquanto ficarmos dentro desta caverna, seremos manipulados e sofreremos com as neuroses.

A nossa redenção se inicia quando percebemos que há de fato uma salvação, há de fato uma verdade, há de fato algo imutável e perene que podemos nos agarrar para todo o sempre. Entretanto, a subida do subsolo da caverna até sua superfície é dolorosa e cheia de obstáculos. Mas eis que você, de maneira voluntária, resolve enfrentar esta subida. Aqui é o início da terapia! Aqui é onde os homens dos cantos e das cavernas, de maneira consciente, anseiam pela luz do sol, anseiam pela vida real, anseiam, no caso dos homens dos cantos, pelos centros das salas, e perseguem com afinco estes anseios.

Nós precisamos nos atentar que somos bichos intermediários, ou seja, estamos entre a glória de Deus e entre a crueldade dos animais. Estamos no meio. Aqui, temos duas possibilidades: subir ou descer. Descer significa almejar pelo fundo obscuro da caverna; significa jogarmos fora a nossa possibilidade de escolha; significa nos rendermos às nossas paixões e nos tornarmos escravos dela; significa nos tornarmos, de fato, bichos. Mas também podemos subir. Eis a nossa salvação. Subir significa ascendermos a um patamar de humanidade; significa nos ajoelharmos diante de uma dimensão superior da alma; significa a busca pela verdade e pelas virtudes; significa nos tornarmos mais próximos de Deus. Enfim, é isso o que resta, não somente para os homens dos cantos e das cavernas, mas para todos aqueles que possuem um coração que pulsa.

O CASAL DE MEIO SÉCULO

Como chegar nas bodas de ouro? Cinquenta anos ao lado de alguém; alguém que lhe conhece desde a casca até as entranhas. Confesso a você, leitor, que quando me deparo com um homem e uma mulher cujo tempo de convivência ultrapassa o meio século, encanto-me. Ora, estou diante de um milagre! E ratifico: quanto mais avançamos na modernidade líquida — onde nada é feito para durar, nem mesmo o amor —, maior é este encantamento quando nos deparamos em nosso dia a dia com este milagre monumental: o casal de meio século.

Conversava com minha noiva, neste final de semana, sobre as nossas bodas de ouro. Será eu um ingênuo ao fazer planos tão distantes do presente? Para chegarmos às bodas de ouro, precisamos viver até os nossos oitenta anos. Ano que vem casaremos, ano que vem eu faço trinta anos. Trinta mais cinquenta, se não me falha a lógica, o resultado é oitenta. Ano que vem será 2022. Acrescentando mais cinquenta anos, nossas bodas de ouro acontecerão lá em 2072. Imagine, leitor, como estaremos em 2072. Talvez estaremos ainda mais afogados em toda esta liquidez. Relacionamento aberto será a regra, não a exceção. Qualquer um que ousar casar será defenestrado; sofrerá bullying; será visto como um retrógrado, inimigo da modernidade. As crianças serão feitas em laboratórios; seremos movidos a remédios cujo efeito será a “felicidade”. Enfim, este cenário catastrófico não foi criado por mim. Leiam Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

Eis o que eu queria dizer. Como chegar nas bodas de ouro? Eu e minha noiva, neste final de semana, participamos do Curso de Noivos, requisito básico para todos aqueles casais católicos que pretendem alcançar o sacramento do matrimônio. E é óbvio que as pessoas que ministraram o curso, não poderiam ser defensores do relacionamento aberto. Não orna! — como dizem os paranaenses. É como se um Judeu tatuasse em seu peito a suástica em homenagem ao nazismo. Então, cada um que se dispusera a falar para nós, jovens casais, no mínimo, conquistara as bodas de prata. Com exceção do padre. Aliás, mentira! O padre casou-se com a igreja.

À força de repetição, falavam-nos sobre a importância de se construir o relacionamento sobre a rocha, e não sobre a areia. Este é o segredo dos casais de meio século. Eles constroem seus edifícios de amor sobre a rocha. “Tá, Guilherme, mas que rocha é essa?” Eu poderia responder: o amor! Mas vai além disso. Há algo que representa de maneira perfeita e personificada este amor: Jesus Cristo. Sim! Esta é a rocha sobre a qual devemos iniciar a construção. E, pensando bem, nunca conheci um mísero casal de meio século que não fosse, no mínimo, cristão.

Talvez você indague: “Mas por que Jesus? Por que o catolicismo?” Como disse anteriormente, o matrimônio se trata de um sacramento. Isto, pra quem é católico, possui um valor que vai além da mera troca de alianças e uma mudança de status perante à sociedade. Todo sacramento é uma maneira de elevar o seu Ser para perto dos céus. Ao inserir a aliança no dedo de sua mulher, você jura, diante de Deus, que será até à morte. Vou ainda mais longe, pois, como dizia Nelson Rodrigues, o amor continua além da vida e além da morte, ou seja, é para a eternidade. Você olha para a sua mulher no altar e promete que fará de tudo para que ela chegue aos céus. Após o matrimônio, dois se tornam um: a mesma carne, o mesmo sangue. Não há volta. Não há troca. Não há devolução.

Chego a ficar arrepiado ao dar-me conta do significado monumental que há no matrimônio. Por isso que o amor é para os corajosos. Qualquer um que entender verdadeiramente o valor deste sacramento será um bom par. Entretanto, conforme citei no primeiro parágrafo desta crônica, estamos na modernidade líquida, onde você tenta agarrar o amor, mas ele escorre entre seus dedos. Nada dura, nada é feito para durar. Cada um prefere se amar, cada um prefere se bastar. E, deste modo, não há possibilidade alguma de chegar sequer às bodas de bronze — existe isso? Todavia, por vivermos na cultura do espetáculo, os poucos que casam, ao realizar o matrimônio, não se dão conta do que de fato estão fazendo. Casam para aparecer. Casam para agradar os pais. Casam porque é socialmente aceito. Casam por vaidade. Casam para mostrar a todos o quanto se “amam”.

E então, após três meses, um ano ou cinco anos, separam-se. Algo que era para ser até à morte, não dura uma década. Ora, mas é claro: pois apesar de casarem pela igreja, seus corações não estavam no sagrado, mas no profano. Isso significa que em vez deles construírem uma relação sobre a rocha, eles a constroem sobre a areia. O destino inevitável deste relacionamento será a cova. E grande parte dos homens e mulheres que me procuram para ajudar-lhes em seus anseios amorosos, “construíram” seus relacionamentos sobre a areia. São aqueles relacionamentos que não acontecera sequer um pedido de namoro ou casamento, o casal simplesmente se acostumou com a companhia um do outro e assim foram deixando as coisas acontecerem. Não há visão de futuro; não há consciência de seus papeis dentro da relação; não há conhecimento do que de fato significa um casamento; enfim, o que sobra são duas pessoas desorientadas morando sob um mesmo teto, que passam a desacreditar nos casais de meio século.

Mas agora chega de moralismos por aqui. Não sou santo e talvez nunca serei. Sou um pecador da pior espécie buscando uma vida de virtudes. E acredito, que até os casais de meio século, têm lá seus pecados. E como não teriam? Houve um momento no curso de noivos, no qual assustei-me. Adivinha qual? Sim. Ao falarem sobre a relação sexual dentro de um casamento. Ao descobrir que o onanismo é proibido, entristeci-me. Proibir a pornografia, eu entendo, aquilo destrói homens e mulheres incautos, mas proibir a masturbação? Isso aí já é sacanagem! Mas as proibições pioram. É proibido tocar nos órgãos genitais do parceiro, tanto com a boca, quanto com as mãos, se a finalização deste ato resultar em lençóis e bocas melecadas. A finalização precisa sempre ser dentro da caverna. Ah, mais um detalhe importante: só podemos usar uma caverna. Aquela outra que você, homem, está pensando, aquela que você anseia há tempos, aquela que sua mulher lhe prometera para a lua de mel, é proibido entrar.

Espero que você, leitor tarado, entenda minhas explicações didáticas. Mas as proibições não são de todas ruins. É proibido greve de sexo! Sim, homem que me lê. Quando sua mulher quiser lhe punir com greve de sexo, lembre-a que é pecado. E, antes que eu me esqueça, o sexo, no casamento, deve ser um ato de amor. Isso significa que não pode haver violência, não pode haver sufocamentos, tapas, puxões de cabelo e etc. Isso também me frustrou um pouco. Ora, nem sempre estamos para o amor, às vezes a situação concupiscente demanda uma certa dose de selvageria. Ou será que sou eu que afundei-me por tanto tempo na luxúria, que agora adquiri a capacidade do sexo sem amor? Pode ser, pode ser.

Sexo sem amor você faz com qualquer uma por aí, menos com sua esposa. Com a esposa deve ser amor puro. Eis o problema fundamental: às vezes a esposa gosta de apanhar. E agora? Será que ela também viveu por muito tempo na luxúria? Há um personagem num conto de Nelson que dizia: “Quando amo, não desejo. Até hoje, não dei um beijo na boca da pequena.” Ele não entendia que alguém pudesse desejar o ser amado. Pensava, por outras palavras: “Todo desejo é vil. Desejo qualquer vagabunda, menos a minha noiva.” Há uma verdade nestas palavras, assim como quase toda literatura de Nelson, mas deixemos para outra crônica.

Pergunto-me ainda sobre os casais de meio século: como chegaram lá? Sabemos que eles estão sobre a rocha, e sabemos também que não são santos. Agora atentei-me a algo: a igreja nos dá um modelo ideal de vida a dois. É claro que, por sermos pecadores, não alcançamos este ideal, mas também não o perdemos de vista. Este é o ponto nevrálgico desta crônica: apesar de sermos uns desgraçados, é importante não perdermos este ideal de nosso horizonte de consciência, pois isso faz com que não desacreditemos no amor, não desacreditemos um no outro, por mais pecadores que possamos ser. Nenhum casal de meio século vivera cinquenta anos num mar de rosas, sem xingamentos, sem brigas, sem adentrarem em outras cavernas. Gostei do termo “cavernas”.

HOMEM CHORA, SIM, MAS…

Desde que conheci minha noiva, vez ou outra, ela vem com a máxima: “Amor, você não chora? Nunca te vi chorar!” Realmente, é raro eu chorar, assim como a maior parte dos homens. Já ela, não pode assistir a um filme mais dramático que, em minutos, está aos prantos. Acabei de lembrar-me de minha mãe. Também é uma chorona de coração gigante. Uma de minhas memórias mais antigas da infância, trata-se de eu e minha mãe no sofá da sala assistindo ao Rei Leão, o melhor filme/desenho da história. Acho que o assisti mais de cem vezes naquela época, e, em todas elas, no momento em que Mufasa era assassinado pelo seu irmão, o Scar, e então Simba chorava a morte do pai, minha mãe chorava junto. Entenda, caro leitor, é normal chorarmos nesta parte. E isso vale para qualquer ser humano cujo coração ainda pulsa. Se você, ao assistir esta cena, não derramar uma mísera lágrima de misericórdia, está diagnosticado: psicopata. Porém, minha mãe chorou da primeira à centésima vez.

Minha mãe chorava assistindo Caldeirão do Huck. Aposto que a sua mãe, leitor, também. Enfim, grande parte das mulheres com as quais troquei intimidades, eram choronas de mão cheia. Algumas mais, outras menos, mas todas derramavam seu pranto em maior quantidade do que os homens que as rodeavam. Isso é evidente: consigo contar nos dedos as vezes em que vi meu pai chorando. E vos digo: não foi uma sensação boa vê-lo em lágrimas — e aqui, falo das lágrimas causadas por tristezas, e não por alegrias. Sabe por quê? Porque ele é a força da casa. Ele é a fortaleza personificada. Ver um pai chorando é diferente de ver uma mãe chorando. Quando a mãe, a mulher, o feminino, chora, o pai, o homem, o masculino, segura as pontas, como se dissesse: “Estou aqui de peito aberto para acolhê-la. Aqui, você mulher, está segura para chorar, desabafar, desabar.” Quando o homem chora, a mulher pode acolhê-lo, entretanto, agora entra o ponto nevrálgico desta crônica: ele não pode chorar mais que ela.

Alguns poderiam dizer que é um absurdo eu escrever algo assim em pleno 2021, onde tudo está tão desconstruído, principalmente a masculinidade. Mas experimenta aí, você homem, chorar mais que sua mulher; experimenta ser mais “sensível” que ela; experimenta se acovardar para resolver problemas fundamentais. Ela te larga assim que possível, e com razão, pois não há fortaleza, não há força, não há segurança em você. Por isso, meu querido leitor, se atente à realidade. O que eu quero dizer com isso? A realidade já está posta. O que fazemos é compreendê-la. Não adianta grupos políticos ou movimentos ideológicos inventarem uma realidade para que ela se encaixe em seu discurso politicamente correto. Lembre-se: a realidade já está posta. Ao ir contra ela, você se desorienta, perde o norte, pois, no fim das contas, não é a realidade que estamos desconstruindo, é a nossa personalidade, que, de tanto desconstruir, acabamos em ruínas.

De vez em quando eu tenho a oportunidade de trocar ideias com alguns adolescentes. Eu chego na sala, sento-me e peço para que cada um deles venha até à frente e se apresente. Pergunto seus nomes, seus objetivos de vida e o que fazem no tempo livre. Grande parte tem um objetivo concreto, seja fazer uma faculdade, entrar numa determinada empresa ou adquirir um bem material de valor elevado, porém, normalmente eles utilizam o tempo livre de maneira contrária aos seus objetivos de vida. Isso é o que eu já esperava. O que eu não esperava era o fato de eu começar a falar, e estes jovens, principalmente os meninos, fecharem a boca e ficarem me encarando, de olhos rútilos, cheios de vida. Ora, o que eu falo? Apresento-me e em seguida pergunto-lhes: “O que é a vida pra vocês?” Após o silêncio, respondo: “A vida é sofrimento.” A partir disso, apresento todo o argumento em torno desta afirmação que você, meu leitor, já está cansado de saber.

Mas a parte que sinto aqueles garotos vidrados na minha fala, é quando digo que a nossa única alternativa é a responsabilidade, é o caminho das virtudes, é o enfrentamento de todo este sofrimento. Eu aponto o dedo para eles e digo de maneira efusiva e enérgica: “Vocês estão aqui para carregarem fardos! E isso os torna úteis, isso os torna fortes, isso lhes dá um norte. Do contrário, vocês viverão uma vida sem sentido, desorientados, perdidos, sentindo-se inúteis, se entregando para todos os prazeres imediatos, e, acabando, inevitavelmente, no ressentimento. Pois não há nada pior do que olhar para a sua vida e perceber que você a jogou fora.”

Alguns deles sempre vêm falar comigo após a apresentação. É nítido: eles estão clamando por um norte, estão clamando por responsabilidade, clamando por um ideal virtuoso no qual possam seguir e se inspirar e que esteja em de acordo com suas naturezas masculinas. E o que tudo isso tem a ver com a discussão do “homem chora, sim!”? É o que estes jovens ouvem e veem por aí. Claro que usei o “homem chora, sim” para facilitar o entendimento, mas há todo um discurso voltado para a desconstrução da masculinidade, e isso, meu querido leitor, está destruindo os homens, pois eles não sabem mais os seus papeis na realidade: seja numa amizade, seja num relacionamento amoroso, seja na vida como um todo. Não é à toa que a maior causa de relacionamentos fracassados é pelo fato de homens e mulheres não saberem mais quais são os seus papeis dentro do relacionamento.

O que me deixa indignadíssimo, são os próprios psicólogos — que deveriam orientar estes homens — os desorientando ainda mais ao propor esta “desconstrução da masculinidade” e transformando suas personalidades em ruínas. E antes que alguém venha me dizer o quanto o choro é importante para descarregar emoções, eu digo: homens, chorem, mas não chorem por tudo. Lembrem-se: primeiro a responsabilidade, depois o choro; primeiro carregue o seu fardo, depois você chora; primeiro é a sua mulher, depois você.

Meses atrás, minha avó por parte de pai, falecera. Quando ouvi a notícia, numa sexta-feira à noite, obviamente fui acometido por uma tristeza profunda, mas sem choro. Minha mãe, no telefone, chorava enquanto eu a acalentava. Após falar com ela, minha noiva me abraçou e ficamos ali, sentados no sofá refletindo sobre a vida e sobre a morte. Liguei para o meu pai e trocamos memórias boas sobre minha vó. Me mantive calmo. No sábado pela manhã, como de costume, acordei primeiro que minha noiva. Fui até meu escritório e iniciei um texto sobre minha vó. Rebusquei belas memórias da Dona Nair. Enquanto as escrevia, chorava que nem criança. A cada frase escrita, obrigava-me a enxugar as lágrimas. Quando minha mulher acordou, percebeu meus olhos inchados de chorar. A abracei e disse: “Viu como eu choro também?!” Esta foi a última vez que chorei.

Não lembro de meus pais me falarem, na infância, que “homem não chora”, mas não precisava. Só de conviver com eles, eu percebi o óbvio: homem chora, sim, mas nunca por qualquer coisa como uma histérica; homem chora, sim, mas, de preferência, escondido, com o psicólogo ou com pessoas de sua confiança; homem chora, sim, mas pelo que realmente importa; homem chora, sim, mas após fazer o que deve ser feito. Enfim, homem chora e deve chorar, mas atente-se sempre que o excesso de sentimentalismo é uma doença, principalmente nos homens.

A INTIMIDADE É O SEU RELICÁRIO

Há tempos teço minhas objeções sobre um de nossos maiores relicários: a intimidade. Acredito, quase que de maneira obsessiva, que um dos maiores erros que cometemos na vida, é entregar a nossa intimidade para qualquer transeunte, alguém que não lhe conhece nem a casca, quiçá as entranhas. Sempre que o sujeito entrega sua intimidade assim, de bandeja, se torna abjeto.

Lembro-me da minha solteirice. Queria desbravar meus desejos. Ora, eu era um homem livre. Sim, livre para me tornar escravo das minhas vontades. Marcava encontros casuais durante o dia para à noite realizá-los. Como não tinha carro e evitava pegar ônibus, caminhava quilômetros por causa da luxúria. Ao chegar em frente à casa de uma mulher estranha, enviava a mensagem fatal: “Tô aqui!” De repente, aquela mulher estranha aparecia na porta, e ainda continuava estranha. Eu adentrava.

Íamos direto para o quarto. Ao passar pela sala, observava os quadros na parede e os porta-retratos em cima da estante. Nas fotos, essa mulher estranha estava com sua família, também estranha. A casa era um pouco bagunçada. Eis que vejo a foto de um adolescente. “É meu filho. Tive que tirar ele de casa no dia de hoje. Sabe como é, né? Ele não gosta que eu traga homens aqui!” É claro que ele não gosta. Aliás, você tirou seu filho de casa, alguém que lhe é íntimo, para trazer um homem estranho, que, na melhor das hipóteses, após o gozo sem intimidade, lhe dará um selinho e partirá para nunca mais voltar.

Como essa mulher deixou-me entrar assim, na sua intimidade? Eu sequer a levei para jantar! Eu sequer perguntei sobre os seus sonhos. Eu sequer lhe dei a concessão de um mísero ato de carinho. Nada! Ela, para mim, era um perfeito objeto para saciar o meu vício. E, após saciá-lo, ia direto para o chuveiro limpar a sujeira. Mas só um banho não bastava para limpar-se de algo tão sujo. A sujeira era mais profunda. Era na alma, tanto na minha, quanto na dela. Éramos dois imundos que entregaram suas intimidades de bandeja, que despiram-se um para outro sem amor, sem conquista, sem carinho. Éramos dois canalhas.

Ela queria que eu ficasse, e eu ansiava por sair daquele lugar. Ora, aquela intimidade foi me dada de forma errada. Eu não merecia o nu daquela mulher; eu não merecia tomar banho naquele chuveiro, com o sabonete dela; eu não merecia deitar naquela cama e sujar aquele lençol; eu não merecia ouvir sobre seu filho; eu não merecia nada daquela intimidade, pois não fiz nada para conquistá-la. Mas ela insistia que eu ficasse, insistia que eu dormisse ali, junto dela. Ela clamava por carinho e por intimidade. Entretanto, a minha oferta não daria conta de sua demanda. A minha oferta era a luxúria, mas a pobre mulher demandava carinho.

Ao voltar para casa, era possível pegar com as mãos o sentimento ruim que acometia-me, como quem diz: “Mais uma mácula na sua alma e na dela, mais duas almas machucadas.” A cada passo em direção à minha casa, a desesperança ganhava força. “Mas desesperança no quê?” Na vida, em mim, no ser humano, em Deus. Hoje, atento aos movimentos da alma, eu entendo o porquê tamanha desesperança: toda vez que eu despia-me sem ter conquistado a intimidade daquela mulher cujo corpo nu estava em minha frente, me desvalorizava, assim como ela. Esta desvalorização, inexoravelmente, suja a nossa alma. Perdemos o nosso valor verdadeiro. E qual valor seria este? A intimidade.

Aqui entra a desesperança. Ora, o que resta para uma alma que jogou seu valor verdadeiro no lixo? O prazer imediato, pois nada mais tem sentido e você só existe para sentir o máximo de prazer possível; o ressentimento contra a humanidade, pois tudo perde o valor, inclusive as pessoas, e é assim que você as trata; o cinismo, pois você passa achar-se melhor do que os outros por tornar-se um canalha e um malandro, enquanto o resto é “careta”, daqueles que ainda acreditam no amor; e, por fim, a soberba, o fazendo não enxergar a própria maldade e os próprios defeitos.

É o ciclo do horror! Não cheguei neste extremo, mas sei que poderia ter chegado se tivesse continuado naquela vida de sexo casual, matando a verdadeira intimidade, tanto a minha quanto daquelas mulheres. Meu querido leitor, minha querida leitora, eu entendo que o sexo casual tornou-se banal, tornou-se um simples “bom dia” para muitos, todavia, algumas coisas são eternas: despir-se para um estranho ou para uma estranha sempre deixará marcas na sua alma.

Quantas e quantas vezes, nos grupos de WhatsApp, alguém enviava um vídeo íntimo de alguma garota conhecida na cidade? Diversas. Aquilo me deixava triste. E se fosse minha filha? E se fosse minha irmã? Por isso, nunca os passava para ninguém. Imagine a dor desta moça ao ter sua nudez, que é algo sagrada, exposta desta maneira vil? “Ah, Guilherme, mas quem mandou ela mostrar o rosto e enviar para o fulano?” Este é o nosso problema. Nós temos a oportunidade de combater o mal com uma simples atitude, mas fazemos o contrário, nós o perpetuamos, nós o fortalecemos. Nós vamos lá e fazemos a fofoca, repassamos o vídeo íntimo, rimos da desgraça da pobre moça. Somos uns desgraçados.

Para essas moças, ainda havia o pudor latente. Mas há um momento no qual qualquer um que ousar seguir nesta vida de assassinar intimidades, passa. É quando a intimidade é tão destroçada a ponto deste ser humano perder todo e qualquer mísero pudor. Recordo-me, certa vez, de ver uma lista de atrizes pornôs lá no início de suas carreiras: estavam vivas, com olhos rútilos, cheias de élan vital, cheias de esperanças e possibilidades. Ao seguir para a outra página, deparei-me com estas mesmas atrizes — algumas já tinham cometido suicídio — no fim de suas curtíssimas carreiras: eram todas iguais devido ao excesso de harmonizações faciais; pareciam bonecas bizarras; olhos fundos e mortos; rostos sem expressões; enfim, parecia não haver mais almas naqueles seres humanos, pois não havia mais intimidade, não havia mais relicário. Foram assassinados das formas mais brutais e abjetas possíveis, formas estas que ousamos nos aventurar.

Este não é um bom caminho.

DO PÓ VIESTES, AO PÓ VOLTARÁS

Há tempos escrevi uma crônica sobre uma ida no cemitério com minha mulher. Aliás, fora uma das melhores crônicas que já escrevi. Hoje, volto-me ao cemitério e, graças a Deus, vivo. Um dia irei ao cemitério para não voltar, mas espero que tal dia demore a chegar. Ora, tenho apenas 29 anos, ainda não casei, ainda não tenho filhos e, muito menos, netos. Os mais antigos diziam que precisamos fazer três coisas essenciais antes de batermos as botas: gerar filhos, para que você passe o seu gene adiante; plantar uma árvore, para fincar o seu legado na terra; e escrever um livro, para deixar a sua marca na história.

Bem, ainda não tenho filhos — e não está sendo por falta de tentativas; nunca plantei uma árvore sequer, no máximo cuido de uma mudinha lá de casa, dando-lhe água toda manhã; o que me salva, neste momento, são os livros. Escrevi três. Imagino meus bisnetos os lendo e constatando, lívidos de raiva: “É sério que nosso bisavô tinha este pensamento retrógrado e patriarcal? Ui, que nojo!” E então, meu neto, pai deles, diria: “Meus filhes, entendam que eram outros tempos. O vovô era um homem inteligente para a sua época.” E meus bisnetos revolucionários responderiam: “Desculpa, papai, mas elu não era inteligente com um pensamento destes.” Será eu um ingênuo em pensar que terei bisnetos?

Mas eis o que eu queria dizer. Há tanto a se fazer antes de me colocarem em um caixão rumo à eternidade. E ontem, quando fui ao cemitério com minha mulher e minha cunhada para limparmos o túmulo do pai delas, observei atentamente os mortos — não, eu não vejo gente morta. Na verdade, eu olhava para aqueles milhares de túmulos e imaginava aquelas pessoas em vida, cada uma com sua narrativa, cada uma com suas idiossincrasias. Mas a parte triste não era imaginar-lhes em vida, era deparar-me com túmulos de jovens. Ah, isso é de cortar o coração. Eu olhava na lápide e lá estava a foto de um jovem, reluzente de vida, mas, a um metro e meio abaixo de mim, restavam apenas seus ossos. Eis a única certeza da vida: a morte, os ossos e o túmulo.

Deus sabe o que faz. Entretanto, o que eu sei e senti ao atentar-me para aqueles jovens enterrados, foi um sentimento de “não era para acontecer”. É como se o filme acabasse no meio. Sabe quando você está em casa, assistindo, empolgadíssimo, a um filme e, no paroxismo da história, falta luz? Então… ora, cadê o final? O herói ainda estava no meio do caminho, no meio da jornada. Há tantas coisas que precisam ser esclarecidas. Mas acontece que não há final, apesar do nosso desejo profundo de que precisa haver um final. Para os cristãos, a vida não acaba aqui, talvez para o seu corpo físico, mas não para o seu espírito. O seu espírito irá para a eternidade. É isto o que acalenta os corações dos entes que ficam. “Do pó viestes, ao pó voltarás.”

Mas, como eu ia dizendo, fomos ao cemitério para limparmos o túmulo do meu sogro. De súbito, observei um girassol em cima daquela pedra de mármore. Eu que passei as duas últimas semanas, repetindo, feito um obsessivo, a frase do Italo Marsili: “Seja este girassol que brota, nesta rua de desatenção, desta vida vulgarmente cotidiana.” Minha cunhada que havia colocado o girassol na última vez que visitara o pai, porém, para mim, aquilo já era um milagre. Como dizia Nelson: “Deus está nas coincidências.”

Continuamos a limpeza. Ao esfregar o pano contra aquele túmulo feito de mármore, me veio aos pensamentos um ensinamento no qual aprendi na catequese: a importância da pedra. Por que os túmulos e os altares das igrejas são feitos de pedras? Porque a pedra representa algo que dura, algo que não se decompõe com as intempéries, com as marcas do tempo. Podem passar milhares de anos e lá estará o túmulo e o altar, incólumes, salvos, inatingíveis. Eles se eternizarão na história de maneira bruta, física, existente, muito mais que um livro, o qual se degrada facilmente; muito mais que uma árvore, cujas raízes se desprendem da terra ao lutar contra uma tempestade; muito mais que um ser humano, oh, tão frágil humano, que é decomposto por vermes em sete dias após o óbito, restando-lhe apenas os ossos, dentes, unhas e uns escassos fios de cabelo.

Bem, não somos feitos de pedra. O que nos resta diante de toda nossa fragilidade material? A vida espiritual. Estes dias ouvi uma frase que marcou-me nas entranhas: “Quem não tem planos para a outra vida, já está morto.” Pois é óbvio: a vida é um sopro, você é frágil, você quebra, você fica doente, você vai perecer e apodrecer. A nossa esperança, como citei anteriormente, é a vida espiritual. E esta vida espiritual começa aqui, nesta existência vulgarmente cotidiana. O “ter planos” para a outra vida, ou seja, para a vida eterna, significa agir agora diante do sofrimento e da malevolência do mundo. E este “agir” deve estar direcionado ao bem, à verdade e ao amor.

Depois que compreendi estes tesouros, minha vida encheu-se de significado e sentido. Ontem, ao irmos na missa, observava cada rito, cada passagem, cada movimento, cada objeto, cada fala, cada palavra, os cantos, as leituras, a eucaristia, as orações, as intenções. Enfim, observava tudo de maneira atenta e abnegada, com olhos rútilos de admiração, pois agora entendo o significado da maior parte destes atos. Eis o ouro: quanto mais conheço, mais amo; quanto mais significado, mais sentido. Nunca esquecerei de uma frase do meu catequista, na primeira aula da catequese: “Vocês estão aqui para conhecer a Deus, pois não há como amar algo que não conhecemos.”

O PERFIL DO HOMEM CORNO

Estes dias pensava sobre o adultério. Ora, qualquer um que passe por esta existência fugaz, recebe algumas certezas de Deus, cujas marcas ficam cravadas na alma logo após o nascimento. A morte é uma delas. A outra é o chifre. Talvez você esteja pensando: “Se eu tomei, não fiquei sabendo.” Então, provavelmente, você tomou. E tá tudo bem. É como eu disse, ser traído é uma certeza. Diga-me, leitor, se não é um alívio saber que você não é o único a ser traído neste mundo?

Não há como falar de traição sem trazer um dos personagens mais canalhas das minhas crônicas: Naldo, o canalha honesto. “Se é honesto, não é canalha, se é canalha não é honesto” talvez você pense. Engano seu, leitor, engano seu. Naldo é o canalha honesto pelo simples fato de dizer às moças, suas verdadeiras intenções antes do prazer. Ele possui a capacidade de chegar em uma boa samaritana, encarar-lhe no fundo dos olhos e proferir: “A gente vai dançar. Eu vou te tratar bem. Vou te tratar com carinho, mas é só por hoje. Amanhã eu vou embora sem compromisso algum. Ok?” Diferente dos canalhas que prometem mundos e fundos para moças ingênuas, apenas para descarregarem suas tensões sexuais e então nunca mais aparecerem. E ainda saem contando vantagem para todos os amigos. Ah, mais uma qualidade do canalha honesto: come quieto. E, como ele sempre me fala: “Quem come quieto come duas vezes.”

Eis o que eu queria dizer. Naldo e eu estávamos a conversar sobre traição. Antes de chegarmos neste assunto, o canalha me contou uma história de seu paroxismo na canalhice. Lá nos idos de sua solteirice, o sujeito me alugou uma quitinete do lado de um dos salões de festas mais badalado da cidade. Se você tem um pingo de canalhice nas entranhas, já se atentou no que estou prestes a contar. Nesta época, os quatro dias de carnaval, foram feitos neste salão. O canalha honesto fora nos quatro. Mas ele não era bobo. Adentrava na festa, bebia pouco e ficava de olho no banheiro feminino. Quando a fila estava enorme, o bendito chegava na última da fileira e lhe fazia uma proposta irrecusável: “Eu moro aqui do lado. Se quiser, pode usar o meu banheiro.” É ou não é um canalha? Disse que nunca pegou tanta mulher como neste carnaval. Elas iam até sua quitinete, usavam seu banheiro, se apiedavam com a sua boa vontade e lhe retribuíam com favores sexuais. Logo depois, mais leve, ele estava de volta na festa a encarar a fila do banheiro feminino.

Ainda não era isso o que eu queria dizer. Ah, sim, lembrei. Sobre o adultério. Naldo me chegou com a máxima: “Há um perfil do corno! Eu conheço um cara e, após cinco minutos de conversa, já consigo saber: perfil de corno.” Não quis que o Naldo me analisasse — vai que eu tenha o tal perfil —, mas o instiguei a falar mais sobre o tal perfil do corno. E lembre-se, leitor, corno todo mundo já foi, ou, se não foi, será. O problema do homem com o perfil do corno, é o seu destino: será chifrado por todas. Nem uma, nem duas vezes, mas qualquer relacionamento que este miserável entrar, corno ele será. Até rimou.

O primeiro item do perfil do corno, trata-se do homem demasiadamente bonzinho. Sim! O faz-tudo pela mulher. O homem que é mandando, pisoteado e humilhado dentro de casa, e não é capaz de levantar sequer a voz, mas pelo contrário, abaixa a cabeça e continua a obedecer, como um cachorrinho de madame cuja coleira tem até nome. Um homem que não é capaz de levantar a voz com sua mulher quando é preciso, pode agora mesmo começar a andar de quatro. A coisa fica ainda mais grave quando a mulher o humilha na frente dos outros. Normalmente, quando se chegou nesta situação deprimente, o homem já está sendo traído. A mulher o olha com ódio e desprezo. Talvez tenham filhos e ela pense nas crianças; talvez há muitas coisas em jogo, o que dificulta o término. Então, o que sobra para esta esposa adúltera é ódio, ressentimento e degradar o marido para o amante.

O segundo item do perfil, é o que não faz nada pela mulher. Não compra um presente, não dá um carinho, não levanta nem do sofá para ajudá-la a pegar as compras do mercado, mas pelo contrário, o futuro corno fica deitado jogando videogame ou assistindo ao seriado Friends. Além disso é um reclamão que não resolve problemas, foge de suas responsabilidades e transa mais com sua mão do que com sua esposa. Não há possibilidades deste miserável não se tornar um corno de primeira categoria, daqueles que, no seu velório, hão de dizer: “Será que existe um paraíso para os bois?”

E há, ainda, segundo o nosso canalha honesto, um terceiro item para completar o perfil do corno: aquele que casa com a mulher mais desejada da cidade. Estamos falando aqui de uma mulher à la Monica Bellucci, ou seja, aquela que passa e os homens simplesmente pensam: “O que eu preciso fazer para ter essa mulher?” Há alguns que sequer seguram este desejo no pensamento. Seus Superegos vão para o escambau! O que sobra é instinto e, sem pensar bulhufas, fazem a proposta indecente para a dama: “O que eu preciso fazer para te ter?” Uma mulher dessas não consegue levar o lixo na calçada sem que receba uma cantada. Eis o que o canalha honesto me diz: “Uma mulher deste calibre ninguém come sozinho! Ela é desejada por todos os homens que a conheceram, que a conhecem e os que ainda hão de conhecê-la!” E eu retruco: “Mas e se ela tiver bons valores e princípios?” Ao que ele responde: “Cara, você é inocente, né? Imagina receber todos os olhares te desejando… por mais valores e princípios que você possa ter, uma hora você cede.”

Eu e o canalha honesto estamos pensando em escrever um livro sobre a personalidade do homem corno. Exatamente como Sigmund Freud fez com Josef Breuer, ao escreverem sobre histeria. Já pensou eu e o canalha honesto nos tornarmos referências nas maiores faculdades de psicologia do país, com a nossa teoria sobre a personalidade do homem corno? Não é de se duvidar, já que o curso de psicologia anda ensinando tantas bobagens para os alunos.

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