“QUANTO MAIS VOCÊ CHORAR, MAIS EU VOU TE FERRAR!”

Há tempos parei de escrever sobre política, políticos, Estado, autoridade compulsória, impostos e tudo que envolve este circo do horror. Isso estava destruindo minha alma, pois é isso o que a política faz: desumaniza quem se mete com ela. Entretanto, vez ou outra, eu entendo de onde vinha a minha ira, a minha cólera, o meu ódio sincero contra todo este sistema injusto e autoritário travestido de “boas intenções”.

Ontem, por volta do meio dia, meu pai enviou dois áudios no grupo da família, no WhatsApp. Ao ouvir estes áudios e deparar-me com meu pai chorando ao tentar explicar o que acabara de acontecer, reacendeu em mim todo aquele sentimento de cólera diante da injustiça, mas agora era ainda mais forte, pois a injustiça fora feita diretamente contra a minha família, contra o meu pai. E ouvi-lo chorar por ter sua carreta apreendida pela Polícia Rodoviária Federal, foi o estopim. Eu não lembro de ouvir meu pai chorar daquele jeito desesperado. Nem quando ele sofrera três acidentes gravíssimos em sua vida de caminhoneiro ele chorara assim.

Eu entendo de onde vinha aquele choro sincero. Vinha do fato de ter sido humilhado por uma autoridade federal, e, como era uma autoridade federal, não há conversa, não há meio termo, não há bom senso, o que houve de fato foi: “— Quanto mais você chorar, mais eu vou te ferrar!” Era isso o que a autoridade federal disse para o meu pai, que estava ajoelhado implorando para que não apreendesse sua carreta, pois este é o ganha-pão da minha família. E você, leitor, deve estar pensando: “O que tinha de tão errado com a carreta de seu pai. Ele estava carregando drogas?”

Não. O guarda federal simplesmente confiscou a carreta por causa de um pneu ruim e uma solda no para-choque. Sim! “Ah, Guilherme, mas é a lei!” Foi exatamente isso o que o guarda disse para o meu pai quando ele, imediatamente se propôs a trocar o pneu ali, na frente dele: “— Não tem conversa. É a lei. Vou chamar o guincho pra levar sua carreta para o pátio da polícia.” E meu pai, desesperado, implorou: “Seu guarda, eu posso levar a carreta até o pátio. Não precisa de guincho.” Mas a autoridade que seguia leis não quis saber: “— Não tem conversa. Vou chamar o guincho!” Adivinha só?! O guincho fez trezentos quilômetros para chegar até a carreta para então levá-la para o pátio da polícia. E sabe quem vai pagar mais de três mil reais em guincho? Meu pai. Sabe quem vai pagar a estadia no pátio da polícia? Meu pai. Sabe quem vai pagar o salário deste guarda no fim do mês? Meu pai.

“— Quanto mais você chorar, mais eu vou te ferrar!” Essa frase ecoará na minha consciência por muito tempo, pois alguém que diz algo desta torpeza para um ser humano que está ajoelhado em lágrimas, perdera a humanidade. É o seguidor de leis do Estado. Se está na lei, está certo. Se está na lei, é preciso fazer cumprir, a qualquer custo. Sabe o que estava na lei? O holocausto. O comunismo. O paredão de fuzilamento.

“— Ah, Guilherme, você está exagerando.” Será? Veja essa pandemia. As pessoas estão clamando por uma ditadura, estão clamando por controle, estão clamando para que a elite estatal resolva tudo, nem que seja na base da violência contra a população. Não é raro encontrarmos vídeos, onde fiscais do Estado apreendem o único meio de sustento de um trabalhador, pois este “criminoso” ousou sair de casa em pleno lockdow para sustentar sua família. E sabe o que mais dói? O salário de todo funcionalismo público, está garantido no final do mês, e adivinha quem paga? Este mesmo trabalhador que é impossibilitado de trabalhar. Isso é de uma injustiça monumental que não cabe no peito.

Ao ver os comentários em vídeos como esse, é possível se deparar com coisas assim: “Quem mandou não cumprir as leis?”, “Lei é para ser cumprida! Bem feito!”, “Tem que prender também quem anda sem máscara na rua!” Todos estes acéfalos seguidores de leis são capazes de dizer a maldita frase no conforto de suas casas: “— Quanto mais você chorar, mais eu vou te ferrar!” Pois para eles, um pedaço de papel escrito por um político, é mais importante do que o bom senso, é mais importante do que o amor. Como dizia Nelson: “Só o homem pode deixar de ser homem e desumanizar-se.” E digo para você, leitor: a desumanização começa quando você se acovarda diante da existência, como uma criança que tem medo do escuro e precisa dormir com os pais. Porém, diferentemente de uma criança que tem medo do escuro, o covarde tem medo da vida, inveja quem a enfrenta, e, por isso mesmo, entrega sua humanidade e sua liberdade para o papai estatal.

Às vezes dá vontade de simplesmente desistir.

Eu passei boa parte da minha vida sem acreditar em mim.

Eu passei boa parte da minha vida sem acreditar em mim. Desde pequeno, quando eu estava entre amigos, entre meus parentes, eu tinha um pudor covarde de dar a minha opinião, de mostrar as minhas ideias, de expor o que eu pensava ao mundo. Eu sempre fui o menino quieto, que preferia ficar isolado em meu quarto do que na sala com as visitas; eu sempre preferia os cantos ao invés do meio.

Refletindo sobre isso, você, leitor, talvez pense que tive uma criação rude, ríspida, cheia de limites e castigos. Não, muito pelo contrário. Tive uma criação relativamente livre. Ok, vez ou outra eu levava uma surra de minha mãe, mas, boa parte das vezes, eu merecia. Acho que fui desacreditando e mim à medida que me expunha ao mundo. Eu era o “mongolão” da turma por ser alto no meio de um bando de jovens “normais”, e eu queria ser normal. Por este motivo, fui me curvado, ficando corcunda, com os ombros pra dentro. A minha voz, que com onze anos já era grave, sempre fora motivo de chacota quando eu abria a boca; e, para piorar, eu tinha os dentes tortos. Eu evitava falar, falava só o necessário, e, quando falava, era pra dentro. Assim como sorrir. Eu reprimia o riso por causa da vergonha que eu sentia dos meus dentes. O fracasso com as mulheres seria inevitável. E foi!

Talvez foram por estes detalhes que passei boa parte da vida sem acreditar em mim. E veja, não estou aqui me vitimizando e culpando o mundo pelo meu fracasso. Consigo ver até o lado bom de tudo isso: pelo fato de evitar me expor ao mundo, eu precisei me expor de outras formas. Passei a escrever o que sentia e o que pensava. Por isso que enfatizo: a escrita me salvou. Mas não foi só a escrita. Ler, gravar vídeos, criar conteúdo. Tudo isso me salvou, pois a partir de então eu me abri para a vida, me desarmei de mim mesmo e passei a construir algo sólido.

Meus queridos, hoje é um dia especial, e não é por causa do meu aniversário, hoje é um dia especial na minha vida pois estou de fato colocando em prática o maior projeto que já idealizei: o Querido Sobrevivente. O Querido Sobrevivente é um projeto baseado na minha Teoria dos Pilares, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância, e uma vida com substância nada mais é do que uma vida com significado.

Para isso, criei a Confraria dos Sobreviventes, uma área de conteúdos exclusivos para assinantes. Assista ao vídeo abaixo para conhecê-la:

Se interessou? Acesse o link, selecione o seu plano e seja bem-vindo à Confraria:

https://queridosobrevivente.kpages.online/confrariadossobreviventes

FÉRIAS SÃO PARA DESCANSAR, MENOS PARA A MINHA NOIVA

Eu e minha mulher, agora noiva, saímos de férias. Fomos para Porto Seguro, na Bahia. Uma semana antes, estávamos um pouco receosos sobre a viagem. “Quem em sã consciência vai viajar em plena pandemia de COVID-19? E se tudo fechar enquanto estivermos lá? E se os voos forem cancelados? Será que vamos para outro destino?” Lembro-me que ela me olhou com aqueles olhos esperançosos e disse: “— Amor, não importa para aonde vamos, não importa se tivermos que ir para outro lugar ou ficar aqui, o que importa é que estaremos juntos. A gente faz as nossas férias.” Como não pedir uma mulher destas em casamento, hein?!

Eis uma das primeiras reflexões que fiz nas férias: não é possível um negócio de milhares de toneladas voar! Não me venham com explicações científicas. Sim, estou falando de um avião monumental, feito de ferro, alumínio, metais pesados. Voei pouco em minha vida, mas desde o primeiro voo, pergunto-me como aquele negócio sai do chão e alcança os céus. Todas as vezes que o avião tremulava, eu virava-me para minha mulher e sussurrava: “— Tá errado! Isso aqui não era para estar voando.” O que me admirava eram as pessoas, calmas, serenas, como se aquilo fosse comum. Ok, é comum, mas não está certo. Cadê as velhinhas rezando o Pai Nosso com o terço nas mãos enquanto o avião passava por uma turbulência? Não escutei um mísero “Ai meu Deus!”, de ninguém, nada. Minha vontade era levantar, ir no corredor e perguntar-lhes: “Viu, pessoal, isso aqui não é Uber, não, a gente está a doze mil metros do chão, em um troço de ferro que pesa toneladas, e vocês estão calmos, tranquilos, sorrindo? Vocês ainda têm coração?”

Mas o avião não caiu. Milagre. Sabe o que também achei um milagre? O aeroporto, principalmente o Viracopos, de Campinas. Enorme, magistral. Fiquei estagnado, olhando toda aquela complexidade funcionando em minha frente. Aviões decolando, aviões pousando; carrinhos no pátio para lá e para cá; trabalhadores com aqueles coletes coloridos fazendo sinais uns para os outros; caminhões enchendo os tanques dos aviões. E lá dentro não era diferente: horários de voos, telas para tudo que é lado, embarque, desembarque, avisos a cada cinco minutos, lojas, praça de alimentação, diversos funcionários, esteiras, elevadores, centro de comando. Meu Deus! E tudo funcionando. Você, leitor, talvez esteja me achando um legítimo colono, do interior, que se espanta com um simples aeroporto. Você está errado. Desculpe, mas você está errado. Eu me espanto com a docilidade de um “bom dia” de uma vizinha amargurada, quiçá então de um aeroporto milagroso.

Lá em Porto Seguro, ficamos em três pousadas diferentes. Uma na própria cidade de Porto Seguro, a outra em Arraial D’ajuda e a última em Trancoso. Descobri, lá na adolescência, que não sou muito adepto a seres humanos em demasia, amontoados, eis o lado bom de se viajar numa pandemia: a maior parte dos locais estavam lotados de beleza e vazios de gente. Bingo! Acertamos as férias. Espere. Minto! Minha mulher acertou. Nunca que um homem, ao marcar suas férias em família, iria para três pousadas diferentes. Não, senhor. É mais provável que ele fosse para aqueles resorts, com all inclusive, e ficasse dez dias ali, na piscina, bebendo, comendo e conversando com os garçons. A gente é tão simples que chega a doer na alma feminina tamanha simplicidade.

Estes dias conversava com meu sogro, que me dizia: “— Olha, eu tenho horror a ficar conhecendo lugares e pontos turísticos nas férias. Férias é para descansar. Depois que tive meus filhos, a gente só ia para resorts com tudo incluso. Eu já caminhei muito nessa minha vida por causa da minha ex-mulher.” Eu ouvi aquilo e agora eu entendo o sofrimento dele. Após estes oito dias na Bahia, voltei mulato e com pernas fortíssimas, torneadas. Sim, meu leitor, caminhamos trocentos quilômetros a pé, sob um sol escaldante. Subíamos morro, descíamos morro, areia, mar, estrada de terra, asfalto e etc. Falei para a minha mulher que ela deveria escrever-se para uma maratona. A loira tem fôlego de sobra. E não teve um dia de descanso.

E, para melhorar, íamos para a praia, nos aprochegávamos em algum quiosque — de preferência os mais baratos —, enchíamos o rabo de areia, éramos importunados a cada dois minutos por algum vendedor ambulante, e pagávamos dez reais numa longneck. Diz pra mim: não era melhor ficar nas pousadas? Que, diga-se de passagem, eram maravilhosas, principalmente a Jakuara, lá em Arraial D’ajuda. Vista maravilhosa, piscina maravilhosa, café maravilhoso, chalé maravilhoso. Mas, minha doce e ainda, naquele momento, namorada, queria porque queria conhecer tudo e mais um pouco.

Você, leitor, deve me achar um sovina, mão-de-vaca e espírito de porco, não é mesmo? Exagerei um pouco no relato, mas nem tanto, nem tanto. Vou provar que sou um cara legal. E por quê? Ora, esta viagem ficará marcada para sempre em nossos corações, pois foi lá em Arraial D’ajuda, no dia 11 de março de 2021, na pousada Jakuara, ali pelas 17 horas, diante de uma das vistas mais belas que já tive o prazer de desfrutar, que pedi a mão da minha mulher em casamento. Ah, este momento superou qualquer caminhada de quilômetros, qualquer longneck de dez reais na beira da praia, qualquer infortúnio que já vivemos. Lembro-me de nós naquela noite, deitados, nus, de conchinha. Eu a abracei e disse: “— Eu poderia morrer agora que já teria valido a pena.” Pode parecer clichê, mas foi uma das coisas mais verdadeiras e sinceras que eu disse e senti nesta existência. A gente transbordava amor. E é isso o que a parte transcendental do amor faz: completa aquele vazio que você sente em boa parte da vida.

Aqui vai uma dica para casais que estão em crise: viajem, durmam fora de casa, nem que seja num hotelzinho de beira de estrada. Nós não estávamos em crise, mas, se estivéssemos, a viagem a curaria de imediato. E por quê? Não sei vocês, mas quando viajo, o meu desejo sexual atinge os céus, igualzinho aos aviões que expliquei anteriormente. Sim! Isso acontece porque você quebra a rotina ao meio — e o desejo, normalmente, tem ojeriza à rotina. “— Ai, Guilherme, você acha que só sexo resolve crises?” Acho! A mulher se sente desejada, protegida, e o homem se sente um garanhão e um protetor viril de sua fêmea. Pronto. Não é à toa que as mulheres voltam grávidas destas viagens. Olha, se minha mulher não estiver grávida neste exato momento, já afirmo que não foi por falta de tentativa. Eu tentei.

Após uma semana indo e voltando da praia, há um momento em que você simplesmente enjoa de sol, mar, areia, protetor solar e corpos quase nus. Ou será que sou só eu? Dá vontade de voltar pra casa, pois, como diz minha mãe — a melancólica da família —: “É bom sair de casa, mas melhor ainda é voltar.” E lá fomos eu e minha noiva fazer nossas malas para voltarmos à vida normal. Pegamos táxi, atravessamos uma balsa, chegamos no aeroporto, pegamos um avião para Salvador, outro para Campinas, lá em Campinas dormimos em um hotel dentro do aeroporto para pegarmos o próximo voo pela manhã em direção a Foz do Iguaçu. No outro dia, antes das onze, já estávamos em Foz. Minha cunhada queridíssima foi buscar-nos no aeroporto, então andamos mais 65 quilômetros até Medianeira. Enfim, em casa. Ao abrir a porta de nossa morada, adivinha quem veio nos receber? Ele, o nosso gato preto da sorte, o Adão. Esmagamos o pobre felino na tentativa de matar a saudade. Ele sobreviveu e passa bem.

Eu não sou especial

“Eu não sou especial.” Tendo a repetir isso todos os dias como um mantra para mim mesmo. O terno é pura estética, talvez eu fique mais “apresentável”, mas não me torna especial, porque aqui dentro, eu sei que sou só um cara falho que erro mais do que acerto, que perco mais do que ganho. Eu sei! É claríssimo tudo isso. E o que eu faço diante deste cenário? Ora, como sei que não sou especial, eu continuo. É o que me resta: não ficar parado diante do meu fracasso.


E por que deste meu ato de repudiar o delírio narcísico do “eu sou especial”, do “só eu me basto”, do “eu não preciso mudar por causa de ninguém”? A resposta já está na pergunta. É um delírio. Qualquer um que caia nesta narrativa, torna-se fraco, pois está “construindo” uma personalidade de plástico, que irá ceder, que irá desistir, que irá desesperar-se ante qualquer adversidade da vida. E quanto mais a pessoa insiste nesta ideia de achar-se especial, de amar-se acima de tudo, mais ela tende a terminar na solidão, lambendo suas próprias feridas. E, sinceramente, eu não desejo isso para ninguém.


O amor-próprio é vendido como uma fórmula mágica aqui na internet, onde basta eu me amar e pronto! “Agora minha vida vai melhorar.” Não existe amor próprio em uma alma inerte e apática que se acha especial no universo. Por isso enfatizo há tempos por aqui: o amor-próprio deve ser construído em si mesmo. É esforço diário. Você não é especial, você não nasceu pronto, você deve ser construído dia após dia. Acreditar nesse discurso vazio do “Eu não preciso mudar para agradar ninguém, pois eu me amo muito” serve apenas para encher o seu ego, serve apenas para você usar como desculpas para continuar sendo insuportável e preguiçoso, serve apenas para mascarar seus erros e suas inseguranças.


Se você se acha especial, duvido que tenha lido este texto até o final. Mas, para você que chegou até aqui e não se acha especial, obrigado.

MORTE À BURGUESIA!

Na minha infância e adolescência, sempre tive um medo absurdo de apanhar. Sempre evitava ao máximo o conflito para que isso não acontecesse. Não lembro de ouvir a frase espectral que ressoava a dar com pau entre os corredores escolares: “Te pego na saída!” Nem de meninos querendo bater-me e muito menos de meninas querendo beijar-me. Paciência, não é mesmo?! Pergunto-me de onde vinha meu medo irascível e acredito que já tenho a resposta. Quando você tem seus treze ou quatorze anos, o que mais acontece entre amigos são histórias inventadas: “Fulano apanhou até morrer!”, “Fiquei sabendo que sequestraram meu vizinho para um ritual de magia negra.”, “Tem um cara querendo te quebrar a cara!”.

Todas estas histórias, ou, pelo menos, noventa por cento delas, eram fantasias tiradas de mentes lúdicas. O que havia de verdadeiro nesta época era a amizade. Ah, isso era tão verdadeiro quanto o ar que respiramos. Mas eis o que eu queria dizer. Eu era o menino pacífico que evitava o conflito, porém — sempre há um “porém” —, há pessoas no mundo que buscam o conflito, o caos, a briga, a todo o momento. E jovens, normalmente, estão com os hormônios pingando entre seus poros. Nos jogos escolares, os hormônios masculinos faziam a festa, ainda mais pelo fato de que as competições eram entre todas as escolas da cidade. A minha escola era pública, mas era considerada por todas as outras como uma escola de playboy, de riquinhos, de mauricinhos e patricinhas. E, normalmente, ganhávamos todos os campeonatos, principalmente de futebol.

Mas não era bom ganhar. Ganhava-se com peso na consciência, pois a chance de apanhar, que já era alta por sermos uma “escola de playboys”, duplicava. Outra frase espectral que ouvíamos ano após ano em todos os jogos escolares: “No final do jogo a gente vai quebrar vocês todos a pau!” Nunca me esquecerei de um jogo contra a escola mais casca grossa da cidade. Eles tinham um jogador chamado Dinael. Era famoso naquele nosso universo adolescente por dar surras homéricas em moleques da nossa idade. Alguns comentavam que o tal Dinael já era traficante e que usava drogas pesadíssimas. O Dinael era mulato, encorpado e, obviamente, mais velho, pois era repetente. Ninguém era louco o suficiente de se meter com ele.

O jogo manteve-se no zero a zero até os noventa minutos. Eis que no último minuto de jogo, Dinael recebe a bola e vem em direção a mim. Eu era zagueiro. No ápice da euforia, nem pensei. Fiz o meu papel. Cheguei firme no cara mais perigoso da minha adolescência. Roubei a bola do Dinael e então nosso time conseguiu um contra-ataque. Antes da bola chegar em nosso atacante, Dinael virou-se para mim com uma das faces mais ressentidas e odiosas que pude presenciar durante toda a minha pouca existência. Ele franziu o cenho, apertou os lábios e então berrou: “— Tu não escapa, grandão! Vou te arrebentar!” Caguei-me por dentro. Por fora, tentei manter-me sereno. O outro zagueiro do meu time veio até mim e disse: “Tá fodido, hein?!” Para piorar a minha situação, graças a este contra-ataque fizemos o gol da vitória.

Comemorei com dor. Você, leitor, já passou por isso? Eu estava ferrado. Ganhamos, mas, como disse anteriormente, ganhava-se com peso na consciência. Demorei a sair de campo. Meu objetivo era deixar os ânimos arrefecerem para então podermos ir embora. No fim, acabou que ninguém bateu em ninguém, ninguém apanhou de ninguém. E este era o padrão, graças a Deus. Na verdade, na maioria das vezes, os homens fazem de tudo para evitar um confronto físico. A ameaça, penso eu, acontece justamente para não se chegar ao soco na cara. E tem mais: quando acontecia de alguém apanhar, quem apanhava, era pego desprevenido, era pego pelas costas. E por quê? Porque não há contato olho no olho. É mais fácil ser cruel quando você desumaniza seu oponente. E encará-lo olho no olho, humaniza. O olhar humaniza. A face amedrontada e temerária humaniza. Deixá-lo falar, humaniza. Por isso que normalmente todos ficavam só na ameaça.

O ser humano se torna realmente vil, quando ao olhar no olho de seu adversário, quando ouvir suas desculpas, não surge um pingo de piedade, não surge um pingo de compaixão. Muito pelo contrário, ao vê-lo neste estado fragilizado, isto excita ainda mais sua maldade. Talvez o tal Dinael, naquela época, ainda não era um sujeito completamente vil, caso contrário, teria quebrado a minha cara sem dó nem piedade. Mas não creio que seu futuro melhorou. Não sei se está vivo. Não sei se construiu uma vida valorosa. Espero que eu esteja errado.

Mas eis o que eu realmente queria dizer. Meu medo não era só de apanhar, mas de ser roubado. Na minha cidade tinha aqueles marginaizinhos que cometiam pequenos furtos, pequenos roubos. E como se tratava de uma cidade pequena, sabíamos quem eram os moleques. Certo domingo, ruas vazias, no crepúsculo, enquanto voltava para casa, sozinho, avistei à frente dois moleques no outro lado da rua. Eles estavam de costas para mim. Atentei-me de imediato: perigo! Só pelo jeito malandro de andar, com toda aquela roupagem larga, bonés de aba reta, cochichando um com outro. Não tinha como sair nada bom daqueles dois. “Ah, Guilherme, isso é preconceito!” Continue lendo a crônica, por favor.

Percebi que eles diminuíram as passadas. Andavam devagar. Neste momento, caguei-me novamente, como no jogo contra o Dinael. Fui acompanhando o passo lento deles. Na verdade, o passo era a única coisa lenta em mim, por dentro, o coração estava prestes a sair pela boca. É como se eu soubesse que a qualquer momento eles viriam em minha direção. Ora, meu preconceito acertou em cheio. Eles viraram-se de imediato e logo atravessaram a rua. “— E por que você não correu?” Se eu corresse eles me pegariam, e a surra poderia ser certa. Um deles foi logo dizendo: “— Ô, ô, ô, pera aí, fica parado aí, playboy.” Eu fiquei. Pensei: “Perdi. Me ferrei!” Cada um veio de um lado. O que eles não sabiam, é que eu era um pé rapado. Nem carteira eu tinha na época. A única coisa que estava em meu bolso era a chave de casa.

Mas você acha que esses marginaizinhos perderiam a viagem? O mais velho deles, inclusive era o que ainda tinha coração, percebeu que eu usava um brinco. Ele me disse algo como: “— Brinco maneiro, me passa aí!” Eu demorei a reagir. Foi neste momento que o outro, o mais novo, ameaçou-me: “— Passa o brinco senão a gente vai te rasgar a orelha.” E falava isso encarando meus olhos medrosos. Esse cara já não tinha muita humanidade sobrando. O que um ser humano normal faria numa situação destas? Entregaria o brinco sem dizer um pio. O que eu fiz? Notei que o mais velho usava um brinco também. Minha reação foi automática: “— Teu brinco é bem melhor que esse meu. O meu é de latão, infecciona a orelha. Se tu quiser trocar, eu aceito.” Estou escrevendo esta cena e rindo da minha cara de pau. “Poxa vida, como assim os caras foram te assaltar e você propôs uma troca?!” E este moleque pensou por alguns instantes. Ele ainda era humano. Enquanto o outro não parava de ameaçar-me.

Salvei o meu brinco de prata. Vitória. Entretanto, foi como eu disse: eles não perderiam a viagem. O mais novo olhou para a minha mão e viu um anel. Perdi! O mais novo não tinha coração. Ameaçou socar-me a face se eu não entregasse. Entreguei, e os dois foram embora rindo da minha cara de pavor. O anel custou-me cinco reais. Não era nada. O que doeu-me de verdade, na alma, foi a humilhação. Ah, essa doeu. Senti-me indefeso, inseguro, injustiçado. Aquilo acontecera na minha rua. O que mais eu poderia esperar? Eu teria que passar todos os dias por aquele local e lembrar-me daquela humilhação.

Com o tempo, transformei esta história em algo cômico, em algo que eu conto para os outros e todos rimos. E pensando sobre tudo que escrevi hoje, sobre o Dinael e seu ódio aos “playboys”, sobre ser assaltado por dois marginaizinhos, percebi algo: estes meninos eram um bando de ressentidos. Todos eles. Quando fui roubado, pelos dois malandros que usavam roupas de marca, não importava o que eles fossem roubar, o que alimentava aqueles ressentidos de uma figa era ver alguém que veio de uma família boa, que estudava, que talvez tivesse um futuro melhor, humilhado. Como se dissessem: “Viu, seu playboy, não adianta nascer numa boa família, não adianta estudar em uma boa escola, não adianta ser educado, não adianta se esforçar, não adianta ser bom aluno, não adianta ter valores, pois você sempre será humilhado por nós, que não temos uma família boa, não queremos estudar, não queremos ser bons alunos, não temos valores, não queremos trabalhar. Entendeu? A gente sempre vai ganhar de você, playboy!”

Era isso o que todos eles queriam: nos humilhar. Isso se trata do ressentimento sendo colocado para fora. Esses meninos tinham inveja, rancor e amargura dentro de suas almas. “Ah, Guilherme, mas você foi privilegiado em relação a eles. Então é justificável que eles sejam ressentidos.” Entre os meus amigos, se tratando de bens materiais, eu sempre fui o menos privilegiado. Eu nunca fui o playboyzinho que usava roupas de marcas e esbanjava sua riqueza por aí, porque eu nunca tive isso. Eu poderia olhá-los com ódio e pensar: “É injusto eu não ter nem metade do que a maioria deles têm.” No momento que você justifica o ressentimento — como muitos intelectuais, psicólogos, jornalistas e políticos “pau-moles” fazem por aí — você justifica o mal, você justifica a atitude vil de um moleque matar a queima roupa um “playboy” por causa de um celular, você justifica assassinatos em massa, como na antiga União Soviética, onde a luta de classes assassinou mais de vinte milhões de pessoas. “— Morte à burguesia!” Berravam os comunistas. Sim, a “burguesia” foi fuzilada por um bando de ressentidos.

Quem é a burguesia? Quem define o que é a burguesia? Meus amigos eram burgueses em relação a mim? Eu era um burguês em relação ao Dinael? O Dinael era um burguês em relação a uma criança africana prestes a morrer de inanição? Um branco sempre é privilegiado em relação a um negro? Um homossexual branco sempre é privilegiado em relação a uma mulher negra? Uma mulher é mais privilegiada em relação a uma mulher trans? Que privilégios são esses? Materiais? Sociais? Físicos? Quem é o inimigo comum? Homens héteros e brancos? Quem são os “vilões” que devem ser fuzilados dentre todas estas “classes”? Quem é o mais malévolo desta história? Quem deve ser o mais odiado dentre todas estas “classes”?

Se tem algo que aprendi nas minhas andanças, foi perceber que grande parte da maldade humana é motivada pelo ressentimento. O mundo é feito de gente, não de classes. Quando classificamos um indivíduo dentro de uma classe, fica mais fácil odiá-lo, fica mais fácil destruí-lo. Agora ele faz parte da massa, agora ele é multidão, agora ele perdeu sua humanidade: MORTE À BURGUESIA!

Quando você tem algo a dizer, o silêncio é uma mentira

Eis uma das maneiras mais comuns de se chegar ao ressentimento: se calando diante da tirania. Tirania nada mais é do que uma relação humana de injustiça, ou seja, quando uma das partes é opressora e a outra é a oprimida.

E todos nós iremos passar por isso na vida. Tanto no papel do opressor, quanto no papel de oprimido. Pense em um relacionamento amoroso, quando a mulher trata o marido como se ele fosse um nada, e este marido aceita este papel; pense numa relação de chefe e subordinado, onde o chefe humilha e denigre seu liderado, e este liderado aceita este papel. Nestes casos, o silêncio do oprimido passa a ser uma mentira. Mas o silêncio é apenas o início de algo maligno que passa a se formar dentro do oprimido: o ressentimento.

E por quê? Como o oprimido não tem a coragem de enfrentar a tirania, ele passa a criar fantasias destrutivas contra o seu “algoz”. Sim, o chefe passa a ser visto como a pior pessoa da face da Terra. É um monstro, é alguém que deve ser exterminado. E o oprimido guarda este rancor, este ódio, este ressentimento. Isto tende a não acabar bem. No melhor dos casos, o oprimido passa a ser um fofoqueiro, um reclamão e um invejoso contumaz. No pior dos casos, este oprimido se rebela de maneira violenta contra o seu “algoz”, chegando muitas vezes a agredi-lo fisicamente em um momento de fúria e cólera, ou ainda, esta violência é descarregada em um terceiro:

Quando sai uma notícia daquelas onde um homem, numa briga de trânsito, mata seu semelhante, isso foi o estopim, isso foi a bomba de ódio, rancor e ressentimento explodindo. As pessoas se tornam malévolas quando se afundam em ressentimento. Abel que o diga.

Sentimentos são carregados de energia, eis o perigo de guardar o ódio dentro de você durante muito tempo. Então, por mais que você se silencie por fora, por dentro há um emaranhado de sentimentos em erupção. Por isso a importância de se impor, de não se calar diante da injustiça. Quando você se impõe, você não se torna ressentido, você se torna alguém mais forte. E a única forma de uma relação funcionar, é quando ambos são fortes, é quando ambos estão dispostos a negociar. Caso contrário, a única relação que prevalecerá será de opressor e oprimido.

Agir com o coração

Hoje cedo, enquanto tomava café, sentia-me mal, sentia-me em profunda angústia. Encarava aquela xícara de café preto e pensava o quanto eu sou um desgraçado. Tenho tudo e não tenho nada, sou tudo e não sou nada, tudo ao mesmo tempo. Este paradoxo me deixa, muitas vezes, perdido internamente. Eis a consciência me dizendo: “Você está num dia sombrio.” Lá fora, o majestoso sol brilhava e aquele céu monumental cintilava um azul claríssimo. Enquanto aqui dentro estava uma penumbra completa.

Eu penso demasiadamente, em tudo. Por isso sou um desgraçado! Meu mal, em grande parte, é o excesso de consciência. A maioria das coisas grandiosas que fiz na vida, tive que lutar contra a consciência, contra a minha racionalidade mesquinha calculando cada milímetro da minha realidade. Não é possível construir uma vida com substância deste jeito. Não é possível construir nada usando apenas a razão. E então, o que me resta? Agir com o coração. Esta foi uma das maiores descobertas que fiz nos últimos tempos.

Resolvi desabafar estes devaneios com minha mulher. Ela virou-se e disse: “— Amor, a vida é sofrimento. Vamos trabalhar que já está na hora!” Pensei comigo: “Essa é pra casar!” Nós rimos, e, por incrível que pareça, eu me senti melhor. E por quê? Ora, a razão me atira na cara que a vida é sofrimento, me atira na alma os dias sombrios. A única forma de encará-los frente a frente, é agir com o coração, e agir com o coração significa se impor diante de uma consciência que diz muitas vezes para recuar.

EU TRAÍ A MIM MESMO

Você já foi traído? Eis uma das certezas da vida. Dizem, pelo menos. Nunca esqueço da minha vez. Primeiro namoro. Eu era um jovem ridículo — e qual jovem não é ridículo? —, apático muitas vezes, não tinha tomada de decisão para praticamente nada. Enfim, era um pau mandado. A namorada fazia o que queria. Eu fazia de tudo para não desagradá-la. Achava que assim ela se encantaria cada vez mais. Triste engano. E, normalmente, todo homem aprende isso na dor. Aliás, grande parte das coisas que aprendemos na vida, é pela dor.

Eu era um rapaz puro; a primeira namorada me corrompeu a alma. Ok, talvez eu esteja exagerando em minha pureza, mas eu sequer cogitava a hipótese de traí-la. Para mim, o namoro deveria ser algo imaculado, caso contrário, não havia jeito de continuar. Eis que fui pego de surpresa. Uma facada nas costas. Sim! Eu não esperava o chifre. Estávamos em uma véspera de ano novo, lá na minha cidade natal, com toda a minha família reunida: pais, irmão, tios, tias, primos, avós. Eu e ela estávamos radiantes, nos amando, felizes. A minha certeza que ela era a mulher certa para casar e ter filhos aumentara de imediato após apresentá-la às minhas origens.

Minutos antes da meia noite, sentamos lá fora, numa escada. Estávamos só nós, abraçados, apaixonados. Começamos a ver algumas fotos no celular dela — maldita hora que inventaram o celular. Eram pastas e mais pastas com fotos atuais, antigas e velhíssimas. Eu fui clicando naquele mundaréu de pastas recheadas de imagens e vídeos. Havia umas fotos de uns ex ficantes. Até aí, tudo bem. Eu era legal, lembra? Não iniciaria uma discussão por isso. Mas eis que surge a primeira foto que acelerou meu coração. Era ela, nua, sem mostrar o rosto. “— O que é isso?” Perguntei, tentando conter a emoção. Ela se calou. Fui passando as fotos. Em todas as fotos ela estava exatamente como veio ao mundo: nua. Havia um vídeo também: ela dançando sensualmente para a câmera. Acabara a sua farsa!

Ela passou a chorar; com o choro veio a confissão humilhante: ela mandou aquelas fotos e aquele vídeo para um homem de outro estado, um cara que ela havia ficado há tempos, mas que nunca o esquecera. O filho da mãe ainda era casado. Para tentar diminuir sua culpa, disse que já fazia meses que havia enviado os arquivos para ele. Para mim, essa informação não importava. Ela me traiu, ela oferecera sua intimidade para outro homem. Ela preferia outro homem. Minha alma fora devastada de imediato. A dor era excruciante. Eu não queria acreditar que aquilo era verdade. Ela jurava: “— Me perdoa! Isso já faz meses. Eu te amo!”. Neste exato momento aconteceu a explosão de fogos. Ano novo, lembra? A família inteira abrindo champanhe, se abraçando, comemorando o novo ano, todos com sorrisos largos. Enquanto eu não conseguia raciocinar sequer minha próxima atitude, meu próximo passo. Eu estava naufragado diante de toda a minha família.

Meu desejo era sair dali e colocar pra fora toda a raiva, toda a ira que estava dentro de mim. Apontar o dedo na cara dela e gritar a plenos pulmões, e mostrar o tamanho da ferida que ela abrira em meu peito. Queria que ela sentisse a minha dor. Não fiz isso naquele momento. Entretanto, não consegui disfarçar minha tristeza. Minha mãe, de súbito, percebeu meu estado de angústia, veio até mim e perguntou o que houve. Falei que precisava ir embora. Tadinha de minha mãe. Tomou um susto ao ver sua nora aos prantos e eu em pedaços. Não entendeu bulhufas do que estava acontecendo entre a gente, mas compreendeu a nossa dor. Tratou de chamar meu pai para irmos embora. Consegui acabar com o final de ano da minha família. Na época eu não me atentei a isso, pois estava preocupado com a minha dor. Eu só queria sair daquele amontoado de gente. Eu queria ficar sozinho para expressar a minha dor sem ser julgado.

Na volta para a casa de meus pais, abrimos o jogo. Ela falou para eles a sacanagem que fez comigo. Meu pai não queria mais vê-la. Tomou minhas dores. Minha mãe foi mais compreensiva com toda a situação. A namorada se desculpava sem parar. Ao chegarmos em casa, eu queria apenas apagar, dormir, esquecer a dor. Eu não queria encarar aquilo, eu queria fugir de todo aquele clima abjeto que se formara. Foi isso que tentei fazer, mas não obtive sucesso. Dormimos no mesmo quarto. Ela tentava me abraçar, fazer carinho, demonstrar amor, e tudo que me passava pela cabeça, naquele momento, era: “Como que ela teve a coragem de fazer isso comigo? O que vai acontecer a partir de agora? Quem é este cara?” Deitei-me de costas para ela. De sua boca trêmula, saía, de minuto em minuto, sussurros de “desculpa”. E por mais que eu estivesse a odiando, no fundo eu ainda conseguia sentir pena. A culpa que ela estava sentindo era sincera — talvez uma das únicas coisas sinceras que aconteceu em nosso relacionamento —, as desculpas que não paravam de sair de sua boca, eram sinceras. Ela estava arrependida. Com este misto de sentimentos acometendo-me as entranhas, afundava-me em angústia. Esta, sem sombra de dúvidas, talvez foi a pior noite da minha vida.

Para piorar toda a situação, no outro dia, pegaríamos a estrada para voltarmos a Foz do Iguaçu. Eram mil quilômetros dentro de um carro com ela, meu irmão e minha cunhada. Dezesseis horas dentro de um carro remoendo toda esta situação. E foi exatamente isso que aconteceu. Despedi-me de meus pais com lágrimas nos olhos. Sentia-me inseguro. Não sabia o que fazer diante de todo este caos. Entramos no carro e fomos daqui até lá imersos no mesmo clima triste e caótico. Seus pedidos de desculpa eram constantes. E dentro de um carro com meu irmão e minha cunhada, obriguei-me a conter meus sentimentos, minha ira, minha vontade de jogar tudo para o alto e gritar feito um louco. Conter sentimentos desta magnitude é a fórmula perfeita para o sujeito adentrar de cabeça nos maiores sofrimentos que o habitam. Lembro-me de olhar amiúde para a minha aliança de namoro e em seguida ser devastado por um sentimento de inferioridade ao perceber que ela preferia outro homem. Em minha cabeça, a todo momento, vinha a dúvida lancinante: “Será eu capaz de perdoá-la?”

Se aquela noite fora a pior da minha vida, esta, com certeza, fora a pior viagem que fiz. Enfim, para o alívio geral de nós quatro, chegamos. Fomos levá-la em casa — nesta época eu morava com meu irmão. Ao pararmos o carro em frente à casa dela, sua mãe a esperava no portão. Ela desceu e foi chorar nos braços de sua progenitora, a única que poderia acalentar sua alma naquele momento. Meu irmão também desceu, pois foi abrir o porta-malas para ela pegar suas coisas. Enquanto isso eu sofria calado dentro do carro, encarando a aliança. Eis que de súbito, sem pensar, abro a porta do carro, caminho até ela, paro em sua frente, a fito nos olhos, retiro a aliança de meu dedo e lhe ofereço, como quem diz: “— Adeus. Está tudo acabado!”

Ela se ajoelhou naquela calçada suja de barro e abraçou minhas pernas. Soluçava de tanto chorar. Pedia o meu perdão, implorava o meu perdão, faria de tudo pelo meu perdão. Eu não conseguia reagir a nada, só queria sair dali. A mãe dela precisou agarrá-la e arrancá-la de meus pés. Virei as costas e entrei no carro. A aliança havia ficado comigo. Fiquei dois dias sem falar um mísero “oi” para ela. Nestes dois dias, as coisas se acalmaram. Consegui tomar fôlego e enxergar a situação de outra perspectiva. Lembro-me de falar com meu irmão e dizer: “— Vou perdoá-la, vou continuar o namoro.” Ele me apoiou. Talvez você, leitor, me chame de imbecil por ter tomado tal caminho, mas eu nunca havia visto aquela mulher descer do salto daquela maneira. Ela jogou todo o seu ego fora e, talvez, pela primeira vez em sua vida, ela foi verdadeiramente sincera com ela e comigo. Uma mudança radical acontecera conosco após essa descida para o caos. Eu compreendi isso de imediato logo que a turbulência passou.

Eu nunca mais seria o mesmo homem subserviente e demasiadamente abnegado às suas vontades. Ela nunca mais seria a mesma mulher egocêntrica e mesquinha que vivia olhando apenas para o seu próprio umbigo. Nosso relacionamento melhorou. Fomos muito felizes por algum tempo. Porém — sempre há um “porém” —, ao deparar-me com a oportunidade de traí-la, eu traí. Para amenizar a culpa desta primeira traição — sim, vieram outras depois —, eu racionalizava comigo: “Ela já me traiu uma vez! Eu posso traí-la uma vez também.” Senti tanta culpa após gozar com a outra, que obriguei-me a ligar para o meu pai, às seis da manhã, para desabafar e relatar tudo que acontecera naquela madrugada de pecado.

A culpa não foi o suficiente. Quando tive a oportunidade novamente, a traí de novo, e de novo, e de novo. Trair passou a dar prazer. Eu mentia e me safava. Notei que eu era um bom mentiroso, percebi que as amantes se excitavam com este meu “eu” cafajeste. Eu me tornara um completo canalha, e isso deixou uma marca eterna em minha alma. Eis o relato de uma traição que transformou ambos em traidores e ambos em traídos. Enfim, eu traí a mim mesmo.

EIS O MEU INÍCIO NA ESCRITA

Vez ou outra alguém me indaga sobre como a literatura e a escrita entraram em minha vida. Normalmente as pessoas já supõem que nasci numa casa recheada de livros e autores clássicos, que desde pequenino eu fora influenciado pelo meus pais a ler e a escrever diariamente, que aos dez anos eu já havia lido Dom Casmurro, A Moreninha, A Divina Comédia, Hamlet, Grande Sertão: Veredas e etc. Outros me perguntam: “— Guilherme, essa influência pra música e pra escrita é de família?”

Veja você, leitor, o cômico desta história: lá em casa havia pouquíssimos livros, e destes poucos, se li um inteiro, foi muito. Meus pais também não liam. Meu pai diz que leu apenas dois livros na vida: Ali Babá e os Quarenta Ladrões e Robinson Crusoé — se duvidar, ele não leu nem os meus livros, e eu entendo, ele tem mais o que fazer da vida. Minha mãe lia, lá de vez em quando, Paulo Coelho. Tenho lembranças dela ao lado do fogão à lenha, lendo O Alquimista. “Ah, Guilherme, mas então eles devem tocar instrumentos, trabalhar com arte ou coisa parecida…” Não. Eles apenas consumiam arte. “— Então a influência veio dos tios, do avô…” Também não, ou, pelo menos, não que eu saiba.

Lembro-me que desde pequeno, a minha paixão era a criação. Eu desejava criar algo. Esta vontade sempre esteve aqui dentro, pulsando. Minha mãe comprava para mim aqueles soldadinhos de plástico, e eu ficava horas e horas me divertindo com aquilo. Criava personagens, cidades, vilões e heróis. Eu era uma criança calma por fora, mas hiperativa por dentro. Quando viajava com meu pai — meu pai é caminhoneiro —, escorava-me em seu banco, e ele ficava horas me contando em detalhes sobre sua vida, sobre sua infância numa cidade do interior, sobre sua adolescência repleta de “namoradas” e amigos, sobre o seu amor pela minha mãe, sobre sua vida na estrada. E falava tudo isso enquanto dirigia madrugada adentro. Aquilo era alento de vida para uma criança que estava descobrindo o mundo.

Eis o que eu queria dizer. A vontade de ser músico veio muito antes do que a vontade de ser um escritor. Eu ainda não tinha nem dez anos e já trancava-me no quarto para fazer meus shows. Sim! Para mim era um ritual diário: à noite eu adentrava no quarto, “roubava” algum disco do meu irmão, e o colocava para tocar. Eu era a banda inteira: vocalista, baixista, baterista, guitarrista solo e guitarrista base, e, às vezes, até o pianista. Ah, e como isso me dava vitalidade! Eu saía ainda mais vivo daquele quarto. A capacidade imaginativa é tudo para uma criança, e, por que não, para um adulto?!

Mas eu não sabia tocar bulhufas. Eis que o meu primo, o Marcel, resolveu começar a fazer aulas de violão. E o Marcel era o meu vizinho. Sempre nos demos muito bem. Ele também tem esse lado mais calmo por fora e hiperativo por dentro. Acredito que somos dois melancólicos. Algum tempo depois, após ver ele tocando diversas músicas das quais eu gostava, eu também comecei a fazer aulas de violão. Eu precisava aprender a tocar! Fiz seis meses de aula. Após aprender quatro acordes, compunha minha primeira canção. É o que eu disse: eu era um tarado pela criação. Eu e o Marcel nos reuníamos lá no meu módico quarto e ficávamos horas tocando, compondo e se divertindo. Essa é uma das melhores lembranças da minha infância e pré-adolescência.

Algumas vezes, de madrugada, eu pegava o violão, um caderninho velho, uma caneta, e ia para o banheiro compor. Sentava-me no vaso e começava a cantoria. E por que o banheiro? Por causa da acústica; e como era de madrugada, eu não queria acordar minha mãe. Vez ou outra ela me pegava no flagra: “— Meu filho, você de novo tocando aqui no banheiro?!” Não preciso explicar que o “tocando” era o violão, né? Eu devo ter escrito pelo menos umas seis músicas no banheiro. Aquilo era paixão: levantar em uma madrugada fria da serra gaúcha, pegar o violão e ir em direção a um banheiro úmido e frio… a lógica não explica. Era preferível mil vezes estar debaixo das cobertas e deitado sobre aquele travesseiro com cheiro de amaciante. Nada supera estes cheiros característicos da infância, principalmente o cheiro de amaciante das cobertas e dos travesseiros. Aquilo só poderia ser obra da minha mãe. Depois, ao morar sozinho, nunca mais senti tal aroma sobre os meus travesseiros.

Deixe-me voltar à trama. Até aí eu nunca havia lido um clássico sequer. Talvez um livro ou outro, mas só. A escrita, até então, era apenas estrofes de músicas. Ah, e como era bom o sentimento de finalizar uma composição. Até hoje, ao finalizar uma crônica, um poema, um livro, sinto uma plenitude indescritível. É como se eu estivesse com o coração no lugar certo. “É isso que nasci para fazer e é justamente isso que estou fazendo.”

Eis que então, após o colegial, estreei a minha Carteira de Trabalho. Acabara a brincadeira. Agora era preciso trabalhar, pagar contas, virar adulto. E lá fui eu para o meu primeiro emprego: operador de máquina numa fábrica de sapatos. Trabalhava com quatro homens diretamente. Ali eu passei a virar gente. Um destes homens tinha a alcunha de Terrorista. Imagino eu que este apelido modesto deveria ser pelo fato de sua barba volumosa e de sua falta de cabelo. Além do mais, como lidávamos com resinas tóxicas, tínhamos que usar aquelas máscaras à lá Chernobyl. O Márcio realmente parecia um terrorista.

Um dia descobrimos algo em comum: O Senhor dos Anéis. Eu era apaixonado pelos filmes e ele pelos livros. Então o Terrorista ousou dizer que O Senhor dos Anéis era apenas uma história que acontecera dentro da Terra Média. Ele disse que eu precisava ler a Bíblia daquele mundo: O Silmarillion. O homem conseguiu me despertar tamanha curiosidade, que resolvi pegar emprestado com ele a tal “Bíblia de Tolkien”. Eu a li, mas entendia pouquíssimas coisas daquele universo. E perceba o milagre: mesmo eu não entendendo bulhufas, mesmo eu precisando reler diversas páginas para tirar algo valoroso, tomei consciência de algo que mudaria a minha vida para sempre: “Quer dizer que eu posso ser o Deus de um mundo? Quer dizer que eu posso criar um universo, com seus personagens, com seus conflitos, com os heróis, com as princesas e com os vilões? E tudo isso vai sair da minha cabeça?” Lembro deste momento como se fosse hoje. O sentimento de liberdade que experimentei foi algo indescritível.

Comecei a imaginar uma história — como já era de costume —, alusiva à obra O Senhor dos Anéis. Era um dia frio, havia uma cerração baixa e densa lá fora. Eu vestia uma blusa grossa e uma calça de moletom. E, como de costume, eu colocava a meia por cima da barra da calça. Esta é uma imagem espectral da minha infância e adolescência: eu com as meias por cima da barra da calça, usando uma pantufa velha e sentando ao lado do fogão à lenha, enquanto minha mãe tomava um chimarrão. Nada poderia ser tão aconchegante quanto este momento e esta lembrança. O calor do fogo, o amor de minha mãe e uma módica casa feita de madeira por dentro e tijolo por fora.

Peguei um caderno que havia usado na escola, sentei-me na cadeira ao lado do fogão, e passei a escrever o que estava implorando para sair. Eu escrevi, naquela tarde fria, umas seis folhas frente e verso. Assim que parei de escrever, tentei desenhar um mapa daquele mundo que eu começara a criar. Eis o milagre: aquela leitura despretensiosa fez-me acordar para a escrita, fez-me tentar escrever meu primeiro romance sem nunca ter escrito sequer um conto. Serei grato ao Marcio até o fim dos meus dias.

Lembro-me de nós dois, após o almoço, sentados sobre rolos de tecidos, lendo em voz alta O Velho e o Mar, de Hemingway. Líamos um para o outro para praticar a dicção e a leitura. Eu peguei gosto pela coisa. Ele me emprestou mais alguns livros, era uma literatura mais elaborada e robusta. Tratei de os ler. Este foi o meu início na vida intelectual: enquanto trabalhávamos operando uma máquina, no chão de fábrica, arrumávamos tempo para filosofar sobre a vida e ainda ler alguns livros. Grande Marcio! Eu nunca havia conhecido alguém que me apresentara de maneira tão verdadeira o universo da literatura, da escrita e da filosofia.

O Marcio me chamava de Gigante por causa de minha altura, mas veja você, leitor, a ironia do destino: quem era o gigante, no fim das contas, era o Marcio, pelo fato do tamanho de seu coração e de sua paciência para com um jovem de dezoito anos, que não sabia bulhufas sobre a própria vida. Espero que todos encontrem um Marcio em suas jornadas. Eis o meu início na escrita: uma tentativa fracassada de um romance escrito à mão, motivada pela leitura de um livro que entendi pouquíssimas páginas, livro este indicado por um homem de coração gigante e com cara de terrorista. A vida, como já falei por aqui, é um sopro, mas é um sopro cômico.

COMO O HOMEM DIFERENCIA A MULHER PARA SE PERDER UMA NOITE E A MULHER PARA SE GANHAR A ETERNIDADE?

Esta semana alguém perguntou-me, lá no Instagram, como o homem diferencia a mulher para se perder uma noite e a mulher para se ganhar a eternidade. Perceba que a seguidora não é boba. Ela sabe que isso existe no mercado dos afetos. Ela sabe que os homens possuem em seus contatos aquelas onde eles apenas ligam para descarregar sua tensão sexual — pesado? Sim. Eis o mundo líquido — e aquelas moças em que eles, não todos, almejam um relacionamento sério, um relacionamento íntimo. Todas as pessoas que dizem que isso não existe, estão mentindo para si mesmas. Homens e mulheres fazem estes juízos de valores quando se encontram por aí.

Antes de entrar na questão do “como o homem faz esta escolha de mulheres”, me obrigo a falar sobre o desejo insaciável, sobre a busca pelos prazeres baratos que acometem ambos os sexos. É inegável que o desejo carrega algo ruim, algo maldoso, pois o sujeito que se deixa levar por suas vontades sem freio algum, torna-se egoísta, malandro, canalha, e tende a terminar no fundo do poço lambendo suas próprias feridas. Ser mau dá prazer! Guarde esta frase e lembre-se dela toda vez que estiver diante da maldade humana, inclusive a maldade que habita em você. Se apoderar sobre os outros, dá prazer; trair dá prazer; mentir e se safar dá prazer; ser um canalha dá prazer; matar o inimigo dá prazer. Ninguém torna-se mau por acidente, como quem diz: “— Eu estava aqui, pensando, e, de súbito, tornei-me um sujeito vil!”

Nelson Rodrigues dizia que o desejo é vil, além de ser triste. Ele é vil porque nos torna, como citei acima, sujeitos repugnantes; e ele é triste porque, como dizia Schopenhauer, ele nos humilha de duas formas: deixando que nós o realizemos, e não deixando que nós o realizemos. Quando você realiza aquele desejo efêmero, de imediato, surge o vazio. Na crônica da semana passada, relatei a vida amarga que tive ao entregar-me à luxúria. Sentia-me vazio cada vez que realizava aquele desejo e, quando não o realizava, entristecia-me da mesma forma, além, é claro, de ficar ansioso por não conseguir descarregar a tensão sexual.

“— Ora, Guilherme, então o que nos resta?” Mirar mais alto. Agir corretamente buscando alcançar o maior bem possível. Que bem seria esse? Não ceder a todos os seus desejos carnais já é um bom começo. E aqui não importa se você é ateu, cristão, macumbeiro e etc. Qualquer homem que estiver à mercê de suas vontades a todo tempo, se tornará repugnante e abjeto. E, normalmente, um sujeito destes, atrai pessoas como ele: gente que pensa apenas a curto prazo, que prefere sentir aquele prazerzinho barato agora e ignorar suas consequências no outro dia. Resumindo: gente que sacrifica o futuro pelo presente.

“— Mas Guilherme, e o que tudo isso tem a ver com um homem escolher a mulher para se perder uma noite ou a mulher para se ganhar uma eternidade?” Tudo. O que de fato acontece no mercado dos afetos é esta visão de presente e futuro. Quando o homem olha para uma mulher e a deseja, ele pode a desejar por uma noite, ou seja, apenas para descarregar sua tensão sexual, ou desejá-la para entregar sua intimidade, para construir uma relação duradoura. Porém, aqui entra o meu lado Freudiano, e por quê? Porque, a princípio, o homem não é tão racional assim no momento de “escolher”. Normalmente o homem não fica na balada raciocinando a mulher para casar e a mulher para se perder uma noite. Talvez na igreja, mas, na balada, dificilmente.

Veja eu: conheci minha namorada na balada. Digo para vocês, sem sombra de dúvidas, que a minha intenção, naquela noite, era descarregar a tensão sexual, apenas. Eu não olhei para ela e pensei: “Hum, essa é pra ter um relacionamento sério.” Ora, eu sequer a conhecia. Nunca havia conversado com ela. A única informação que ela me passava de imediato, era sua aparência, que, diga-se de passagem, era a mulher mais bela daquele lugar. Isso me encantou, óbvio. Ela também estava bem vestida. Usava uma calça jeans e uma blusa verde. Simples, mas bela. A maioria das garotas daquele lugar pareciam não ter pudor algum. Saias curtas e justíssimas; decotes avassaladores. E veja bem, meu caro leitor, essas moças estavam no lugar certo para se estar com aquelas roupas. E eu também estava, pois o meu objetivo era qual? Perder uma noite com uma delas!

Mas eis que minha futura namorada me cumprimentou. Ela sorriu — e que sorriso era aquele! —, me abraçou e se apresentou. Opa! Já não é só aparência. Me pareceu muito simpática. Tentamos conversar em meio àquele barulho. Difícil. Então mais tarde nos beijamos. Fomos embora juntos naquela noite. Conversamos muito após a balada. E veja só: ela não era só um rostinho bonito. Ela tinha papo e senso de humor, ela ria das minhas piadas, ela fazia piadas. Isso realmente me chamou a atenção. No outro dia, o que eu fiz? A convidei para tomar um tererê em minha casa. Entenda, meu leitor, que não era só pelo sexo, eu me encantei pela personalidade dela. Era bom estar em sua companhia.

Raramente eu enviava mensagens para as mulheres no dia seguinte, pois as usava apenas para satisfazer minha vontade carnal, era apenas o desejo pelo material, pelo corpo, pela casca, pela carne. Só isso. A maior parte das relações entre homens e mulheres, nos dias de hoje, são assim. Vivemos em tempos líquidos. Mulheres belas por fora e feias por dentro; homens fortes por fora e fraquíssimos por dentro. Pois o que vale é ter a aparência mais chamativa, é ter a aparência mais bela, mas repare que ter uma aparência bela está longe de ser belo. O ser envolve mais do que a simples casca que nos envolve. O ser belo é o todo: corpo, mente, espírito e a moral.

Vez ou outra, o sujeito se afunda tanto neste mundo líquido de aparências, que o pobre coitado não consegue mais construir vínculos de valor com ninguém, pois seu pensamento e suas ações estão todas voltadas para os prazeres baratos, para a busca de seus desejos mais imediatos. E qualquer relação humana que se resuma apenas ao material, ou seja, apenas ao ter, quebra, se dilui, escorre entre os sofrimentos inevitáveis da vida. E onde este sujeito egoísta e ressentido vai parar? Na solidão e no vazio. E este nunca é um bom lugar de se estar. Então volto à pergunta da minha seguidora: como o homem diferencia a mulher para se perder uma noite e a mulher para se ganhar várias noites? Em nosso tempo, grande parte dos homens não diferenciam porra nenhuma. O que acontece de fato é: ele busca uma relação material, mas eis que o desgraçado percebe que a pobre mulher possui um ser ali dentro, não é só casca, não é só aparência. E qualquer pessoa que está diante de alguém de verdade, se encanta, se apaixona, se entrega.

Lembro-me de ouvir minha mulher falando, em um de nossos primeiros encontros, sobre seu amor ao seu pai, que falecera; sobre seus sonhos para o futuro; sobre o seu trabalho. Lembro-me de suas ações em nossos primeiros encontros: sempre cordial, carinhosa, solícita, educada. Junte a tudo isso alguém que possui senso de humor. Meu Deus! Há um Ser aí dentro desta personalidade! Há substância! Há alguém disposto a servir! Há alguém de verdade, de carne e osso. Era impossível eu não me apaixonar por essa mulher, impossível!

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