EU SEI QUEBRAR PESCOÇO!

Na minha infância, sempre fui um cagão contumaz. Desde cumprimentar os transeuntes até arriscar um beijo “despretensioso” nos lábios de Luísa — esta crônica está no Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho. Mas não era só isso! Eu tinha um medo absurdo de apanhar. Pouquíssimas foram as vezes que ouvi a frase espectral que ressoava nos corredores de todos os colégios do Brasil: “Te pego na saída!” O “pegar”, aqui, não vinha de uma moça que ansiava por beijar-me os lábios molhados e virgens, mas de um marmanjo cheio de ódio no coração, cuja masculinidade se provava batendo em meninos mais novos. Raramente ouvi tal frase, pois raramente arriscava algo. Eu era o homem do canto, ou seja, não estava no fundão da sala fazendo bagunça e nem com os nerds que sentavam-se na primeira fileira, os quais todos odiavam. Eu gostava dos cantos, das paredes, onde eu não chamasse a atenção. Eis um problema fundamental: eu sempre fui o mais alto da turma. Além disso, eu era virado em cabeça. Tinha cabeça para dar e vender. Daí vem meus primeiros apelidos de infância. Não havia como não chamar a atenção.

Eu estava sempre cuidando para não pisar nos calos de ninguém, pois, como eu disse, meu medo era de apanhar, ser assassinado ou, como diziam algumas mães neuróticas da minha infância, de alguma seita satânica me sequestrar com o objetivo de usar o meu corpinho para rituais de magia negra. O meu objetivo era não feder e nem cheirar, mas acabava sempre fedendo. Por mais que eu fosse um cagão na maior parte do tempo, vez ou outra eu corria riscos, mas, como um bom melancólico, eram riscos calculados. Lembro-me de que muitas das surras das quais presenciei, eram por causa de garotas. Por isso mesmo, na adolescência, sempre tomei cuidado ao me relacionar com as escassas garotas que ousavam me dar uma moralzinha. E hoje, meu querido leitor, quero lhe contar um episódio que escapei da morte, escapei de um lutador de Kung Fu que, segundo ele, sabia quebrar pescoço.

Lá estava eu, numa balada, ao som de MC Leozinho, bebendo whiskey com Coca-Cola. Eu precisava me entorpecer para que aquela mistura de escuridão, música ruim, playboys de saveiro e mulheres de boné, ficasse divertida. Já falei aqui que balada é a dança do acasalamento moderno, né? Mas eis o que eu queria dizer. Lá pelas tantas, enquanto tocava ao fundo “ela só pensa em beijar… beijar, beijar, beijar… vem comigo dançar… dançar, dançar, dançar”, eis que uma garota me puxa e diz no meu ouvido: “Minha amiga quer ficar contigo!” Aquilo, num primeiro momento, soou como um milagre. Segundos depois a minha razão destruiu o meu milagre: “Ela deve ser feia pra cacete! É óbvio!” E mais uma vez a razão deu conta de se corrigir: “Mas eu sou feio pra cacete também! Dane-se!” E lá fui eu em direção à desesperada que almejava ficar comigo. Assim que a avistei em meio àquela combinação de escuridão, luzes fluorescentes piscantes e gente que não acabava mais, concluí: “É um milagre!” A garota era linda. Era pequenina, de cabelos escuros e cacheados, olhos azulíssimos, mas não eram de cigana oblíqua e dissimulada, e sim de uma predadora reta e objetiva.

Não perdi tempo. Antes que ela pudesse dizer “oi”, a agarrei. Enquanto a beijava, pensava: “Já posso morrer.” Ora, eu estava diante de um milagre. Mas mal sabia eu que este pensamento, dali a alguns minutos, poderia ter se tornado parte da realidade. Explico: após beijá-la por alguns minutos, percebi que meu whisky com coca havia acabado. Resolvi buscar mais. No caminho, me atentei a alguém que parecia me seguir. Peguei meu whiskey e voltei para a morena. Na volta, a mesma coisa. Desconfiado, olhei para trás e vi uma criatura estranha me seguindo. Cheguei na morena e relatei o ocorrido. Ela passou a mão na testa e resmungou algo inaudível. Ali eu confirmei: “Tem coisa aí!” Ela simplesmente disse: “Eu só ficava com ele, mas não o quero mais na minha vida. Ele é maluco!” Congelei. Por alguns segundos vi a morte. Só Deus sabe o que um homem ressentido por um amor não correspondido é capaz de fazer. Muitos já mataram e morreram por uma mulher. Até o homem mais santo e correto é capaz de se tornar um homicida sanguinário ao ter o coração estraçalhado por uma semideusa. Li muito Nelson Rodrigues. Sei do que estou falando.

Covarde que eu era, me afastei da morena dizendo: “Já volto!” Assim que comecei a caminhar senti uma cutucada no meu ombro. Continuei sem olhar pra trás. Mais uma vez a cutucada, mas agora com uma ordem: “Ei, preciso falar contigo!” Ao virar, deparei-me com um homem estranho, daqueles que se vestem de preto, da cabeça aos pés, usam aquelas calças com correntes, camisetas de bandas de Black Metal, tênis All Star e possuem aqueles olhos cujo olhar é possível concluir o óbvio: “Este homem está prestes a cometer um massacre em alguma escola.”

Leitor, pense no ódio deste rapaz. Ele foi capaz de pagar para entrar numa balada. É a mesma coisa que Beethoven pagar para ir a um baile funk. É claro que aquele homem do subsolo não estava bem. Sua ficante o descartou e o infeliz resolveu ir atrás dela. Ele, que já vivia uma vida na solidão, se sentiu ainda mais solitário. Eu o conhecia de vista. Sabia que era um dos melhores lutadores de Kung Fu da cidade, pois na época, após desistir da capoeira, entrei para o Kung Fu e o avistei, algumas vezes, no lago São Bernardo, praticando a arte com alguns amigos tão estranhos quanto ele. Então, ao me virar e tomar consciência de quem era, aceitei a realidade: “Me ferrei!” Ele foi logo dizendo, com as mãos nos bolsos: “Aquela garota é minha. A gente está passando por um momento complicado, mas não vou admitir que nenhum homem a deflore.” Eu comprimi os lábios e disse: “Deve ser triste, né?!” Ele franziu o cenho, como se não entendesse a minha resposta. Em seguida, ainda com as mãos nos bolsos — as mãos nos bolsos me intrigaram —, com um olhar repleto de ressentimento, me tacou na cara sua proposta fulminante, como se fosse um chefe da Yakusa!

“Vou te dar três opções! Primeira: olhar pra ela e fingir que não a vê; segunda: hospital; terceira: cemitério.” E concluiu com a frase espectral: “E eu sei quebrar pescoço!” Fiquei em silêncio por alguns segundos, olhando para o chão. A minha resposta veio com uma pergunta e um tom de admiração teatral: “Quem é teu mestre?” No Kung Fu existe a figura do mestre, que nada mais é do que o professor. Ele ficou desconcertado, pois nunca esperaria uma resposta destas. Imagine aí, leitor. Alguém vem até você espumando de raiva e ressentimento, com o desejo sombrio de destruí-lo, mas então você simplesmente, em vez de fugir ou partir para a agressão — que seria o esperado —, oferece um abraço. Quando o garoto respondeu quem era o seu mestre, até seu semblante mudou. Ele me enxergou como alguém mais “humano”, ou seja, alguém mais próximo. Pronto! Ali eu percebi que tinha ganhado ele. Passamos a conversar sobre Kung Fu. E eu sempre enaltecendo sua qualidade monumental de saber quebrar pescoços alheios por aí. Aquele garoto só queria atenção. Bem, se ele sabia quebrar pescoços, eu sabia quebrar raiva e ressentimento. E, pensando cá com meus botões, não é à toa que hoje sou terapeuta. Naquela época eu já mostrava os sinais.

Acho que este talento vem de família. Tenho um primo que certa vez, ao sairmos numa noite para beber em frente a um posto de gasolina, conseguiu fazer um marginal que esfaqueava pessoas alheias por aí, chorar. Fascinante! É verdade: este homem tinha este histórico de esfaquear pessoas na cidade. Eu vi esta cena: um Caim chegando cheio de ódio em direção a nós; e por que o ódio? Em resumo: porque nascemos em famílias amorosas, e ele não. Sua vontade era destruir isso, como descrevi numa crônica antiga, intitulada Morte à Burguesia. E pasmem: após algumas horas, ele foi embora abraçando todos nós. Milagre! O paroxismo desta história foi quando vi este Caim, que em vez de destruir seus irmãos, acabou chorando e se desculpando com todos que estavam ali, mas principalmente com o meu primo, que o abraçava enquanto ele chorava.

Agora estou aqui pensando numa moral da história e, o que vem à minha consciência é o que você, meu leitor, já está cansado de saber: só o amor vai nos salvar. Estes homens só queriam amor, ansiavam por amor. É claro que muitos se afundam tanto em ódio e ressentimento que, muitas vezes, passa a ser quase impossível resgatá-los. Eu disse “quase”, mas não é impossível. Ora, para Deus nada é impossível. No fim, eu e o garoto que sabia quebrar pescoço combinamos até de treinar juntos. Quem saiu perdendo, aquela noite, foi a morena. Ora, também não vou ficar dando chances para o azar.

“BOM DIA, DONA LOURDES”

Na semana passada, disse que uma das coisas que sentia falta do meu antigo trabalho, era do Naldo, o canalha honesto. Hoje, ao ir à santa missa e me deparar com um mar de cabelos brancos e grisalhos, me atentei à outra saudade: dona Lourdes. Como eu ia caminhando para o trabalho, passava todos os dias em frente à sua casa. E lá estava ela, com esmero, a varrer a calçada. Ora, o que você espera de alguém que já passou dos sessenta e cinco anos? É varrer a calçada pela manhã, tomar um chimarrão sentada na varanda, fazer fofoca com as vizinhas, ir à missa e cumprimentar estranhos que passam na sua rua. E nos cinco anos que passei a pé em frente à sua casa, ela sempre me abria um sorriso de orelha a orelha, abanava com sua mãozinha fofa e enchia a boca pra dizer: “Bom dia, vizinho!” Aquilo alegrava-me de imediato. Eu respondia à altura e ela ficava toda faceira. E, pelo que percebi, dona Lourdes mora sozinha. Talvez o marido já tenha falecido e os filhos certamente foram fazer suas vidas em outro lugar.

Uma de minhas maiores alegrias deste ano, fora certo dia no qual eu e a Adeline resolvemos ir à missa aqui da comunidade. Após a liturgia, adivinha quem eu encontrei na saída da igreja? Dona Lourdes! Assim que me enxergou, seus olhos brilharam. Fui até ela e dei-lhe um abraço afetuoso. Tadinha. A fiz sumir no meu abraço. Ela é pequenina, como quase todos os velhinhos e velhinhas. Dizem por aí que à medida que vamos envelhecendo, vamos diminuindo. E eu sou um homenzarrão de 1,92 metros. Já disse aqui que sou obsessivo por abraços. Eu poderia ficar o dia inteiro abraçando gente, principalmente os velhinhos. Assim que me abraçou, olhou para minha esposa e confessou sua alegria monumental: “Quando esse rapaz bonitão passa lá na frente de casa e me dá ‘bom dia’, eu ganho a semana.” Mal sabe ela que quem ganha a semana sou eu.

Um “bom dia” com um sorriso pode fazer maravilhas na nossa vida. E não nos atentamos a isso, não nos atentamos às coisas simples da vida. E é justamente nelas que se encontra a vida que vale a pena. À medida que vamos vivendo, nos tornamos reféns de nossas rotinas maçantes e automáticas. Perdemos o contato com a humanidade. Nos afundamos no banco de um carro, na tela de um celular, atrás de um computador e pronto: trocamos nosso coração por uma bateria de 12 volts e nosso cérebro por um HD de um TB. Eu, Robô! Já assistiram ao filme? Eu não assisti, mas me veio, de súbito, à memória. Porque me parece que este excesso de informação e de tecnologia nos desumanizou de alguma forma, pois passamos a nos distanciar da vida real. Nos distanciamos das donas Lourdes, das crianças do bairro, dos bichos de estimação dos vizinhos, das árvores e flores que jazem ali, na sua rua, as quais você nunca mais contemplou; nos distanciamos da nossa própria família, perdemos os momentos mais significativos de amor: um sorriso de seu filho por uma descoberta boba da realidade; uma fala de amor da sua esposa pra você no meio do café da manhã; sua mãe lhe contando, por telefone, como ela está feliz por ter conseguido ir no médico. Enfim, os pequenos milagres de cada dia.

O ser humano, para os árabes, significa “aquele que esquece”. Esquece do principal. Estou aqui para lembrá-los e também para que eu não me esqueça. Hoje, tudo induz à loucura, à exasperação, aos estímulos e, consequentemente, aos prazeres imediatos. Nos fechamos para o mundo à nossa volta e encontramos refúgio no mundo abstrato dos nossos pensamentos, pois dá uma falsa sensação de segurança. As pessoas vão se tornando bichos do mato, ressentidas, fracas, vingativas, mesquinhas e soberbas. Incapazes de cumprimentar uma dona Lourdes com um sorriso no rosto, incapazes de passar por um ser humano, encarar-lhe a face e dar-lhe a concessão de um “bom dia”.

Lembro-me sempre quando eu apresentava a integração para os novos colaboradores na antiga empresa na qual eu trabalhava. Vez ou outra, algum participante, incomodado com minha fala sobre a importância de cumprimentar as pessoas, dizia: “Mas às vezes a pessoa é mais fechada. É o jeito dela ser assim!” Eu respondia: “Jeito de merda! Mude!” Eu posso falar isso com propriedade. Sou um melancólico! Meu padrão é a introspecção. Isto não me impede de tratar um ser humano como ele deve ser tratado. Nunca esqueço-me de meu pai, certa vez, ainda quando eu era uma criança fechada e introspectiva. Ao chegarmos em um lugar apinhado de gente, recolhia-me. Se cumprimentasse alguém, olhava pra baixo. Ao perceber isso, meu pai, com todo o seu amor, me colocou no meu lugar de ser humano, não de bicho: “Filho, você nunca cumprimenta as pessoas olhando pra baixo. Olhe nos olhos e sorria. E o aperto de mão deve ser firme!” Isso nunca mais saiu da minha consciência.

Como eu falei, as pessoas, ao se distanciarem da humanidade, tornam-se bichos do mato cuja única reação é fugir ou lutar. Recebo, no consultório, semanalmente, pessoas fechadas para o outro, ou seja, pessoas fechadas para o amor. O meu trabalho, ali, é mostrar-lhes a vida que vale a pena. Quantos dão a volta ao mundo tentando encontrar esta vida, porém, não percebem, que a vida que vale a pena estava ali, sendo esfregada em suas caras, dia após dia, na própria rua de suas casas, ao se depararem com o sorriso da dona Lourdes.

Eis o que queria dizer. Neste último domingo, eu e a Adeline trabalhamos como voluntários no almoço da comunidade São Cristóvão. Em meio àquela correria para servir as mesas, de súbito, um senhor de idade me para no meio do salão. Eu já o conhecia: é o pai de meu catequista. Ele me cumprimentou, me abraçou e pousou sua mão enrugada — eu amo as mãos dos velhinhos — em meu ombro enquanto me enchia de elogios. Dizia ele que acorda às cinco da manhã, faz seu chimarrão, acompanha meus storys, lê minhas crônicas e admira muito o meu trabalho. Finalizou dizendo: “Nunca pare de fazer isso!” Eu derreti de imediato. Se eu pudesse, ficaria toda aquela tarde de domingo tomando chimarrão com o senhor Ivo — acho que posso citar seu nome aqui. Da última vez que citei nomes reais em uma crônica na qual falava sobre amor, quase fui processado.

Às vezes subestimamos o simples. Dona Lourdes ganha a semana com um “bom dia”; o mesmo acontece comigo; meu conteúdo motivou o senhor Ivo a me abraçar; ao receber um áudio de minha mãe no WhatsApp, felicíssima com meu último podcast, me encho de ternura; ao falar com meu pai e ouvi-lo fazer sempre as mesmas piadas, rio como uma criança, e ele também; ao deitar à noite, de conchinha, com minha esposa, percebo o que é intimidade; ao ir à santa missa e ver o padre Renato cumprimentando os fieis com um enorme sorriso no rosto enquanto segue em direção ao altar, me encho de esperança.

É simples, a gente que complica tudo. No fim, estamos todos em busca do amor. Estamos todos em busca de um mísero afeto, pois a solidão é terrível para qualquer alma humana. Até aqueles que insistem em se fechar, na realidade, estão clamando por afeto e por amor. Enquanto pulsamos, necessitamos dos abraços e dos sorrisos alheios. Necessitamos das donas Lourdes, pela manhã, varrendo suas calçadas e cumprimentando os vizinhos com um sorriso enorme no rosto.

A MEDIDA DE AMAR É AMAR SEM MEDIDA

Confesso, leitor, que muitas vezes, sento-me aqui, nesta poltrona, e não sei bulhufas do que escrever. Tenho algumas ideias incompletas que vagueiam pelo limbo obscuro da minha inteligência limitadíssima, mas são só frases soltas. Eis que de uma frase solta, eis que de uma mísera palavra, ocorre-me uma lembrança, que faz a minha imaginação trabalhar e minha criatividade aflorar! De súbito, sai a crônica! Acabei de lembrar-me de algo que anda permeando os meus pensamentos nos últimos dias: os casais se perdem nas pequenas coisas. Esta conclusão é fruto de minha experiência pessoal e dos atendimentos no consultório.

Nós somos mesquinhos. Esta é a verdade! A nossa luta principal é contra nós mesmos, pois temos a mania de olhar apenas para o nosso umbigo, como se fôssemos os seres mais especiais do universo. Como dizia Nelson: “O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota.” O véio Olavo, pelo qual tenho muito apreço e carinho, disse, certa vez, em uma de suas aulas no seu Curso Online de Filosofia, uma das frases que se tornou espectral em minha vida: “Você estará curado quando esquecer de si mesmo.” Dane-se você! Pois assim nos abrimos para a possibilidade do amor. Justamente nesta semana, atendia um casal no consultório. Esta experiência de atender casais é interessante pois me possibilita enxergar-me nos meus relacionamentos. Enquanto discutiam sobre quem fazia mais atividades dentro de casa, eis que pergunto: “O que é o amor pra vocês?” A esposa, de pronto, respondeu: “Sacrifício!”

Ela está certíssima! E por que, na prática, isso não acontece com a maioria de nós? A gente faz uma revolução porque o cônjuge não lavou a louça, ou porque ele esqueceu de tirar os sapatos ao entrar em casa, ou porque ela não fez o almoço, ou porque ela não quer sexo num determinado dia. Enfim, pormenores que tornam-se problemas monumentais para um casal que ainda não entendeu o que de fato é amar o outro. Já disse aqui: são essas briguinhas cotidianas que destroem os relacionamentos, que nos fazem deixar de admirar o outro, que nos fecham cada vez mais para o amor; as grandes discussões até ajudam, pois tendem a terminar com o casal fazendo amor em cima da máquina de lavar.

Estamos aprisionados lembrando apenas de nós mesmos. Ora, se amor é sacrifício, eu esqueço de mim para me doar para o outro. Isto é mortalmente sério, pois tal sacrifício é levado às últimas consequências, ou seja, à morte. Santo Tomás nos lembra que o amor é o desejo de eternidade do ser amado. Isso significa que você, quando ama, é capaz de sacrificar a sua vida para que a do outro continue a existir. Mas percebam nossa mesquinharia: não somos capazes de sacrificar nem nas coisas mais banais, como ajudar o cônjuge a carregar as compras do mercado. Nós preferimos ficar no sofá, na preguiça. Ou ainda: quando percebemos que o outro deixou de fazer algo que ansiávamos que ele fizesse. A nossa atitude impensada é sempre a mesma: xingá-lo, humilhá-lo por não ter feito algo que você, na sua soberba, queria que ele fizesse. Me diga, leitor, como diabos iremos sacrificar a vida por aqueles que prometemos amar, se somos tão mesquinhos e abjetos?

Isto é fruto do nosso umbigo. Ah, sim, aquele nosso umbigo fedido que insistimos em nos fixar. O resultado disso é que ficamos cegos para o mundo à nossa volta. José Saramago dizia que temos de sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós. Sair de nós é esquecermos de nós. É pararmos de olhar e medir o mundo apenas com o nosso umbigo egoísta. É isso o que faz o casal se fechar para o amor, pois ambos preferem sempre ter a razão do que a paz, preferem sempre “ganhar” a discussão do que amar o outro e ceder quando preciso. É como aquele avarento que, ao ver um mendigo pedindo esmola na rua, o julga de imediato: “Ah, não ajudo esse mendigo porque ele vai gastar com cachaça!” Não, meu caro. Você não ajuda pois é um mesquinho, mão-de-vaca, soberbo e avarento. Você está sempre calculando os atos de amor, como um matemático que calcula uma equação de segundo grau. Lhe digo, assim, na cara: “Você é um bosta!”

Medir os atos de amor, nada mais é, do que insegurança! Sim. Lembro-me de um leitor, certa vez, ficar irritadíssimo comigo quando falei que aquele que perdoa verdadeiramente uma traição é digno e forte. Ele não entendeu! Para ele, perdoar uma traição é ser trouxa, é ser fraco, é ser o cocô do cavalo do bandido. Mas é claro: para quem nunca saiu de si mesmo, é impossível entender o que de fato é amar alguém. E, se eu não saio de mim, eu nunca estarei disposto a me sacrificar por ninguém, ou seja, eu me fecho para o amor. Então, o que acontece no cotidiano insuportável, é: temos um casal inseguro, onde cada um está olhando apenas para seu umbigo. Eles até falam, vez ou outra, “Eu te amo”, eles até fazem atos quase caridosos um pelo outro, porém, isso não é o suficiente. Escrevi “quase”, pois na caridade de verdade não há régua, porque a medida de amar é amar sem medida.

Eu, quando criança, era um avarentozinho de primeira categoria. Quando meus amigos iam lá em casa, ao pegar a Coca-Cola na geladeira, eu colocava os copos um encostado no outro, de maneira que eu pudesse medir com precisão a quantidade igualitária de refrigerante para cada um. Eu ia derramando o refrigerante, um pouco em cada copo, até chegar na medida exata. Eu não suportava alguém beber a mais do que eu. Percebam o tamanho da minha avareza! Eu não estava disposto a sacrificar nada, por ninguém, pois pensava apenas na minha sede, mas não só isso! Eu era inseguro e não queria sofrer nenhuma “injustiça”. Algumas pessoas fazem isso com o amor. Mas é ainda pior. Ora, eu era uma criança. Agora imaginem um adulto agir assim! Têm milhões deles por aí medindo seus atos de amor como eu, na infância, medindo a quantidade de refrigerante em cada copo. Espero que você que está lendo esta crônica, não seja um deles.

O DESPERTAR DE UM CANALHA

Se tem algo que sentirei falta do meu antigo emprego, é do Naldo, cujo apelido se tornou espectral em minhas crônicas: Naldo, o Canalha Honesto. “Se é honesto, não é canalha! Se é canalha, não é honesto!” Pensaria, de maneira leviana, o leitor. Ora, o Naldo, na verdade, é um ex-canalha honesto. Hoje o homem é casado e tem filhos. “Guilherme, agora foste longe demais. Não existe ex-canalha!” Eu sou um ex-canalha! Pelo menos, tento ser. Aqui entra um ponto importante: o canalha precisa aprender a ser canalha no relacionamento com sua mulher. Espere! Esta frase ficou ruim. Ele precisa colocar sua canalhice a serviço de sua mulher. É isso! Então, se antes ele era um canalha com todas, agora ele é o canalha de uma, apenas uma. É, talvez não exista ex-canalha, o que fazemos é limitar nossa canalhice para quem juramos amar até à morte.

Estes dias, uma meretriz incauta, atirou-me assim, na cara: “Eu só gosto dos canalhas!” Agora me diga uma novidade. Lembro-me da adolescência, na qual eu era um fracasso monumental com as mulheres. Ora, eu era o homem “legalzão”, fruto da minha insegurança excessiva comigo mesmo. Você sabe bem o perfil. É o cara que é capaz de fazer tudo por uma mulher, menos ser um canalha, menos lhe atirar um beijo na fuça, menos falar o que deveria falar: “Escuta aqui, moça! ‘Amigo’ é uma ova! Eu quero te encher de beijo, da cabeça aos pés!” Em vez disso, lá estava eu a escutar suas angústias sobre os babacas da escola que as deixavam na mão, que as traíam, que as beijavam e, no dia seguinte, estavam lambendo outras moças.

Agora, refletindo, o homem se faz canalha quando passa a confiar no próprio taco. Os garotos populares, pelo menos a maior parte deles, inexoravelmente, se tornam canalhas. Eles são validados pelas meninas desde o ventre: a começar por sua mãe, depois as tias, depois as coleguinhas. Eu fui validado pelos meus pais, entretanto, após a minha mãe dizer que eu era lindo, ao chegar na escola e conviver com a crueldade feminina, as benditas não me davam a concessão de um mísero elogio, mas pelo contrário, eram caras de nojo e desacatos estéticos. Eu, como um legítimo melancólico, ao olhar-me no espelho, dava razão para as adolescentes crudelíssimas da escola, e não para a minha mãe. Resultado: um cara legalzão e inseguro pra cacete, que pensava demais e fazia de menos!

Hoje, ao receber homens legalzões no consultório, percebe-se o óbvio ululante: faltou-lhes algo em seu desenvolvimento masculino: o desabrochar de suas canalhices. Ela não desabrochou em seus corações inseguros e invalidados pelo mundo. Ficou quietinha, escondida. O homem se torna um adulto castrado, com um sentimento de incapacidade e inação. Talvez, minhas leitoras estejam espumando pela boca ao ler tamanha absurdidade: “Como assim o homem precisa despertar seu lado canalha? Enlouqueceu?” Calma, minhas queridas dominadoras. Tudo será explicado. Volto-me à meretriz que atirou-me na cara seu desejo verdadeiro: “Eu só gosto dos canalhas!” Por quê? Isto é óbvio. O canalha tem uma característica que molha calcinhas desde o paleolítico: atitude! Mas não é aquela atitude acanhada, insegura, como quem está fazendo algo de muito errado, como quem olha para o chão, com os ombros caídos e peito para dentro. É uma atitude de quem levanta a cabeça, de quem olha pra frente, enche o peito de ar e diz, repleto de virilidade: “Pode confiar no meu taco!”

O canalha corre riscos. O canalha arrisca falar algo para uma mulher. Arrisca um beijo. Arrisca um convite para dançar. Arrisca subir em um palco. Arrisca montar uma banda. Arrisca escrever um livro. Arrisca mostrar a cara. Enquanto o anti-canalha — o legalzão —, não arrisca bulhufas. Pensa demais e age de menos. Está sempre no mundo abstrato de seus pensamentos, analisando o que os outros irão pensar dele. Esta é a fórmula perfeita para a construção do anti-homem, um homem que deseja a todo tempo ser limpinho, reto e puro. Tatuem esta frase em suas tetas, quer dizer, em suas testas: o homem precisa se sujar. Agora, os religiosos ficarão irascíveis comigo. Entretanto, alguém precisa falar sobre o óbvio ululante! Ao se sujar, descobrimos as nossas forças. Descobrimos do que somos capazes. Descobrimos, inclusive, a nossa capacidade para o mal.

Lembro-me de quando a canalhice despertou em mim. Até aquele momento, me sentia castrado, inferior, num relacionamento limpinho — pelo menos da minha parte. A minha canalhice fora despertada quando tomei um chifre. Explico em detalhes toda esta história no Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho. Eu perdoei e jurei na véspera: “Chega de me rebaixar!” Não me orgulho das minhas atitudes depois disso, pois passei a trair de maneira contumaz. A traição passou a dar prazer. Enquanto estava com as amantes, meu ego se elevava às alturas. Cada vez que eu traía e me safava, mais nas alturas o meu ego ficava. Eu estava afundado na sujeira. Eis que me afoguei e tornei-me um canalha completo. Mas eu não era um canalha honesto, eu era um canalha clássico, como o Palhares, personagem das crônicas de Nelson, que não poupava nem as cunhadas e mentia para todos à sua volta, inclusive pra si mesmo.

Fui de um extremo ao outro. Do homem legalzão ao homem canalhão! Foi um erro crasso. O homem precisa se sujar, mas não necessita afundar-se na lama como eu afundei, pois isso me fez ser um mau-caráter durante um tempo da minha vida. Me afundei tanto, que passei a perder a esperança em algo bom. Ora, minha existência estava repleta de mentiras e prazeres imediatos. A parte boa de toda esta sujeira, foi ter descoberto minhas forças e fraquezas. Hoje eu sei do que sou capaz, tanto para o bem, quanto para o mal. Hoje tenho em mim o canalha, mas também o homem legalzão. Enfim, hoje sei quem sou. E esta descoberta só foi possível, pelo menos na minha circunstância, ao me sujar. Do contrário, eu seria eternamente o anti-homem, um eunuco invalidado pelo mundo e, principalmente, por mim. Eu estaria atrás de validação externa, mentindo por aí para que todos me aceitassem.

Então, meu querido leitor, se for para despertar o canalha dentro de você, faça como o Naldo, desperte o canalha honesto. O Naldo não era o canalha que prometia mundos e fundos, que mentia descaradamente apenas para saciar seus desejos mais atávicos, que traía suas namoradas. O homem nunca traiu. Não, senhor! O Naldo era de uma sinceridade lancinante, muitas vezes dolorida. Ele chegava para a meretriz e dizia, assim, de súbito: “É só por hoje! Vou te dar carinho, vou te tratar bem, mas amanhã eu vou embora e é provável que eu não volte.” É ou não é um canalha honesto? Aposto que você, leitora, chegou a se arrepiar com tamanha sinceridade e canalhice.

Talvez, muitas leitoras estejam achando há tempos que sou um tarado. Então hoje chegou a hora de lhes dizer a verdade. Sim, eu sou! Mas lembro-lhes de uma frase espectral de Nelson Rodrigues: “Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.” Ou seja, todos nascem com o gene da taradeza. Melhor ainda: todos nascem com o gene da canalhice. Não é bonito falar isso, mas eis a verdade. E sejamos sinceros: já pensou você casar com um homem limpinho e puro, daqueles que sequer está disposto a lhe dar umas palmadas? Seria um porre! Seu casamento não duraria até a página três.

DIANTE DA MORTE, ABRACE!

Minha vó materna faleceu. Eu preciso escrever sobre isso. Eu preciso deixar marcado em algum lugar os acontecimentos destes últimos dias. Coisa de escritor. Ora, se não houvesse esta vontade obsessiva de relatar as marcas do tempo por meio das palavras, que tipo de escritor seria eu? Eis me aqui, sentado na poltrona do meu escritório, pondo ordem na casa interior. Minha esposa, neste momento, me julgaria: “E a casa ‘exterior’ deve estar uma bagunça, né, seu safado?” Errada a bendita não está, mas continuemos.

No sábado passado, após um dia cheio de atendimentos e discussões sobre uma crônica polêmica, sento-me no sofá, à noitinha. Espere! Minto! Sento-me não, deito-me. Estava podre, fatigado, meio morto-vivo. Só queria ficar ali, atirado, assistindo televisão sem ter de raciocinar bulhufas. Resolvo ligar para minha mãe, que já atende chorando e me atira nos ouvidos sua angústia: “Filho, o médico disse que temos de escolher se deixamos a mãe com os aparelhos ou desligamos. Ela vai embora de qualquer jeito. Olha o que a gente precisa fazer: escolher o melhor jeito de nossa mãe partir.” E chorava. As únicas palavras que consegui dizer, foram: “Força, mãe! Estou contigo. A família inteira está junto nessa.” Ao desligar o telefone, sentei-me e comuniquei a Adeline do ocorrido. Uma hora depois meu irmão me liga. “A vó faleceu. Eu vou pra São Chico. Quer ir junto?” Confesso que neste momento fiquei pensativo. Respondi que falaria com a Adeline e que daria a resposta em seguida. Ao desligar a ligação fiz uma oração pela minha vó e fiquei ali, reflexivo.

Mais uma vez me deparei com minha mesquinharia e meu egoísmo. Pensei em não ir. Pensei no meu cansaço. Daqui lá, dá uma média de 900 quilômetros. Eu já estava exausto e ainda teria que virar a noite para chegar no domingo, um pouco antes do enterro, às 15h. Além disso, ficaria uma semana longe da minha mulher, pois na segunda-feira, a loira mais bela iria para o Uruguai a trabalho. Neste momento, minha mulher me abraçou e disse: “Amor, vai lá abraçar sua mãe. Ela precisa de ti.” Pronto! Esta fala bastou para levantar-me do sofá e arrumar minha mala. “Abraçar os meus familiares. Eu preciso fazer isso. Dane-se o meu cansaço!”

É claro que a viagem foi cansativa. Quando meu irmão estava quase dormindo no volante, eu pegava o carro. E assim a gente foi até São Francisco de Paula. Chegamos no velório às 13h30. Se tivéssemos pegado um engarrafamento ou se tivesse furado um pneu, não chagaríamos a tempo nem para o enterro. Deus foi bom conosco. Aliás, já disse aqui que sou um cara de sorte? Tenho tanta sorte que fui a pouquíssimos velórios na minha vida, sinal de que perdi poucas pessoas próximas a mim. E já tenho trinta anos. Por este fato, não sou muito experiente com a morte. De cabeça, lembro-me do velório da minha tia, que falecera de câncer; de um colega da faculdade, que fora assassinado; e de um pai de um amigo, que, se não me engano, morrera de câncer também. A minha vó, segundo o atestado de óbito, falecera de insuficiência respiratória, causada por diversas outras coisas, as quais não sei explicar.

Enquanto estávamos no velório, meu pai me descreveu como foi ver a vó partir. Estavam todos no quarto: filhos, genros e noras. Ela foi apagando aos poucos. Os olhos foram se fechando devagar. A respiração fora lentando até parar. A família inteira rezava. Ela morreu dignamente, sem dor, sendo amada até o seu último suspiro. Mas mais do que isso. Ela foi amada também após o seu último suspiro terreno, e será amada até existirem pessoas que lembrem de seu legado. Por isso que digo e repito: o amor continua além da vida e além da morte. Enquanto houver pessoas dispostas a expressar o legado da Jovelina Müller, ela não morrerá. Estará para sempre em nossos corações.

No velório, abracei todos que pude. Mais uma de minhas obsessões: o abraço. Eu poderia passar o dia inteiro abraçando gente. Mas não o abraço acanhado e reticente, como quem é inseguro e tem medo de expor o coração para o outro. Digo o abraço forte, daqueles que enlaçamos o outro, como se disséssemos: “Vem cá e sinta o meu coração junto ao teu!” Estes dias pensava sobre o significado de um abraço. Ao abraçar alguém, você se expõe. Mas mais do que isso. Você expõe o seu coração ao outro. Você se desarma. Você se abre. O outro se desarma e se abre. Então vocês se juntam: coração com coração. Aqui está a possibilidade de amar e ser amado: quando expomos nossos corações ao risco. Há uma união, uma troca de calor, uma união de forças e fraquezas, virtudes e misérias.

Fiz esta ode ao abraço para dizer que diante da morte, muitas vezes, nos faltam palavras para acalentar a dor do ente querido. Eis o paroxismo monumental desta crônica: o abraço. Como disse, eu sou meio virgem ao lidar com a morte. Lembro-me de dizer para a minha mãe: “A gente fica sem saber o que falar para um filho que acabara de perder a mãe.” Ela simplesmente disse: “Filho, não precisa dizer nada. Só abraçar!” Ela está certíssima. Hoje, o pesar que sinto no atendimento online, é justamente não poder abraçar meus pacientes. Quem sabe um dia eu consiga. De qualquer forma, sintam-se abraçados por mim: pacientes, leitores, amigos e qualquer um que estiver lendo esta crônica. Como disse: sou um obsessivo por abraço.

Ainda no velório, após abraçar todos que pude, fiquei a observar minha vovozinha ali, já sem vida, no caixão. Chorei. Fiz algumas orações e lembrei-me dela com vitalidade. Toda vez que a via, pedia sua bênção. Ela pegava na nossa mão e respondia: “Bença, meu filho.” E ela tinha as mãos mais maciais do mundo. A mão dela é algo que não sai das minhas lembranças mais afetuosas. Era uma mão gordinha, fofa, com algumas manchas devido à idade, mas que acalentavam, enterneciam. Um pouco antes de fecharem o caixão, me aproximei, peguei em sua mão, a beijei na testa e pedi a Deus que a recebesse com alegria no céu, pois lá é o lugar que a Jovelina Müller merece descansar em sua eternidade.

Ao ver os filhos se despedindo dela, foi impossível não pensar de que um dia serei eu despedindo-me de minha mãe, beijando sua testa enregelada e acariciando suas mãos tão semelhantes com as de minha vó. Acho que nunca na vida abracei tanto minha progenitora. E ela fica pequenina perto de mim. Parece que quanto mais o tempo passa, eu fico maior e ela menor. O mesmo acontece com meu pai. Só por eu ter a possibilidade de abraçá-los, já valeu a pena todo o sacrifício. E isso é fascinante: quanto mais o tempo passa, mais eu me atento para as coisas que realmente importam na vida. A morte de um ente amado é um excelente momento para enxergar estes pormenores monumentais que fazem um momento valer uma vida inteira. Ora, diante da morte, a qual ninguém escapará, se olharmos atentamente, intuiremos que a nossa melhor possibilidade é o amor. Pois o amor constrange toda a soberba, toda a mesquinharia da nossa alma e nos traz esperança. Ao ver minha mãe aos prantos se despedindo de minha vó, há ali esperança. Cacete! Tem alguém beijando a testa de outro alguém que está sem vida. Reparem no ato. É um ato de amor profundo. E onde existe amor, existe esperança.

No momento do enterro, não teve choros copiosos e nem desesperos histéricos. Minha vó foi colocada numa gaveta. Assim que o coveiro — é óbvio que o senhor que fechou a gaveta com tijolos e cimento não era um coveiro, mas não sei o nome de sua função específica, talvez era um pedreiro — finalizou o seu trabalho, alguns familiares ficaram por ali, conversando a esmo. Estava um frio de renguear cusco — pra você, leitor, que não é gaúcho, “frio de renguear cusco” significa que está tão frio a ponto de fazer até os cachorros tremerem. Me ler também é cultura. Mas eis o que eu queria dizer. Ficamos por ali conversando e rindo. Sim! Ríamos diante da morte. O pessoal começou a lembrar das boas histórias sobre a minha vó. Além disso, velório e enterro são ótimos momentos para reunir os parentes. Tanto é verdade que conheci a irmã de minha vó e suas filhas. As abracei e descobri que todas acompanhavam o meu trabalho na internet. A vida sempre arranja um jeito de nos surpreender.

Após o enterro, fomos para o melhor lugar do mundo: a casa dos meus pais. Eu estava varado de fome, assim como o resto do pessoal. Ao chegar à casa, tomei um banho quente, vesti uma calça de moletom, coloquei a meia por cima da barra da calça, calcei uma pantufa do meu pai, vesti um casaco de lã e sentei-me ao lado do fogão a lenha, exatamente como eu fazia na minha infância e adolescência. Eis que o café da tarde estava servido. Todos nos sentamos em volta da mesa e eu pude reviver a melhor lembrança da minha infância: café da tarde em família. Observava cada um com suas idiossincrasias: meu pai, como sempre, café preto com muito açúcar — dane-se a saúde; minha mãe, como sempre, mais quietinha e servindo a todos com esmero; meu irmão, como sempre, contando piadas e tirando sarro de mim por estar comendo a terceira torrada; o Guardião, o cachorro da família, como sempre, deitado na área de serviço esperando um carinho ou um lanchinho; e eu, como sempre, contemplando tudo isso e já pensando na próxima crônica. Quero deixar cravado na alma do meu leitor de que é essa a vida que vale a pena: uma vida na qual eu enxergue estes milagres cotidianos e os deleite verdadeiramente, pois o nosso futuro é uma cova ou uma gaveta.

ELA É MUITO MELHOR DO QUE EU

Pensava, na véspera, sobre o fato inexorável e ululante de que tornei-me um homem melhor graças à minha mulher, a Adeline. É inegável! E veja você, leitor, o contraste monumental que há entre o Guilherme de 2018 e o Guilherme de 2022. Se colocasse, em um ringue, estes dois Guilhermes para se pegarem no soco, o de 2022 liquidaria o de 2018. Espere, minto. “Liquidaria” ficou leve. Melhor: mastigaria o Guilherme de 2018. Não sobraria nada daquele homem inseguro, fraco e vaidoso. Seria como colocar um pitbull contra um poodle de madame. Por isso digo e repito: nenhum homem se torna forte sozinho. Eis uma verdade que compreendi ao longo dos últimos anos. E não entenda o “tornar-se forte” meramente como uma questão física, mas, principalmente, como uma questão moral.

A Adeline sempre fora melhor do que eu. Admito! Lá em 2018, quando a conheci, eu já tinha uma boa bagagem intelectual. Tinha lido diversos autores de peso, como Santo Agostinho e G. K. Chesterton. Eu era um homem letrado, como se dizia na época dos meus pais, mas, na vida prática, eu era um bosta. Hoje, ao refletir sobre isso, concluo que conhecimento pelo conhecimento não vale de nada. É até pior, pois faz com que a pessoa se julgue superior, inclusive moralmente. É como aqueles cristãos que vão à igreja para poderem julgar os que não vão. Ou ainda, como aqueles homens e mulheres que se afundam na palavra sagrada, se afundam em livros dificílimos, mas esquecem de olhar para os seres humanos de carne e osso que estão ao redor.

Eu era um mesquinho e um vaidoso. Não abria a mão para nada, quiçá o coração. A Adeline, apesar de nunca ter lido uma linha de Santo Agostinho, apesar de nunca ter estudado um décimo do que já estudei, era muito melhor do que eu. Seu coração já estava escancarado. Ela estava olhando para a realidade, enquanto eu estava imerso dentro do meu ego. A minha cura iniciou-se quando a conheci. Lembro-me de certa noite, quando estávamos lá em casa conversando sobre o que faríamos no carnaval — não éramos nem namorados ainda —, então ela me vem com a proposta fulminante: “Que tal a gente passar uma noite em uma pousada ali na Argentina?” Eu fiquei quieto, pensando no quanto gastaria com hotel, gasolina, pedágio, jantar etc., imerso em minha mesquinharia de garoto inseguro que tem medo de abrir o bolso e, por consequência, o coração. Enquanto eu pensava, ela fazia. Ora, a mulher já estava pesquisando pousadas e me falando preços e detalhes dos quartos. Enfim, respondi: “Quer saber? Vamos!”

Costumo dizer que a cura, na terapia, advém da personalidade do terapeuta. É por isso mesmo que o terapeuta não pode se dar ao luxo de ser terapeuta apenas quando entra em seu consultório. Ele é sempre terapeuta, pois sua maior ferramenta de trabalho é a sua personalidade. A personalidade da Adeline me curou de muitas mesquinharias da minha alma. Ela foi a minha terapeuta. Isso aconteceu porque a admirei desde o início. Outro ponto crucial para que a terapia funcione: a admiração do paciente pelo terapeuta e o coração aberto do terapeuta para acalentar o sofrimento do paciente. Essa admiração é quando o “santo bate”, é quando há conexão entre ambas as partes. Ora, eu poderia ser Freud na sua frente, deter todos os conhecimentos da psicologia etc., etc., porém, se você paciente olhasse para mim e intuísse em seus pensamentos algo como “esse Freud é um bosta!”, de nada adiantaria os meus conhecimentos livrescos.

Ao olhar para aquela mulher, enxerguei as minhas misérias e percebi que precisava abrir o coração para a vida real. Foi isso o que aconteceu! Ela expandiu o meu coração. Lembro-me de nós dois, em nosso primeiro inverno, lá em casa, embaixo das cobertas, assistindo Irmãos à Obra e tomando chá. Dois idosos felizes. Com a Adeline descobri que é possível morar com uma mulher a ainda ser feliz. Antes dela, após ter morado com outras, concluí de maneira ressentida: “Não é possível morar com uma mulher e ser feliz.” Meus relacionamentos sempre chegavam em um ponto no qual a convivência ficava pesada, tensa, laboriosa. A vontade de estar com elas simplesmente esgotava-se na imensidão da rotina e o único argumento que nos segurava era a covardia de terminar. Eis um aprendizado fundamental sobre relacionamento: ele precisa ser leve, pois a vida já é muito pesada.

Meu pai, um eterno apaixonado — não é à toa que o homem é sanguíneo puro —, sempre me disse, desde que me conheço por gente: “Filho, um dia você vai encontrar uma paixão que não vai acabar.” Era nítida a ânsia de meu pai para que eu encontrasse o que ele encontrou. Ora, ele encontrou a minha mãe, a responsável por salvar sua circunstância. Hoje eu entendo o que ele quis dizer. A Adeline é a paixão que não acabou, mas foi mais longe, se transformou em amor. Quanto mais convivo com ela, mais quero conviver. Quanto mais a conheço, mais quero conhecer. É impressionante! Não me enxergo mais sem essa mulher. E, por isso mesmo, envelhecerá comigo, mesmo que ela não queira. Às vezes entendo os obsessivos. O que seria de mim sem minhas obsessões, não é mesmo?!

No dia de lançamento do meu terceiro livro, o Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho, falei, em tom cômico: “Se um dia a Adeline cometer o erro monumental de terminar comigo terei que jogar este livro fora!” Mas é claro! Ela está na capa, no verso, na dedicatória, nos textos, no meio e no fim. De que adiantaria essa obra na minha biografia se a inspiração — que é ela — me mandasse para aquele lugar? Mas ela nunca faria isso… eu acho. Imagino ela rindo ao ler este parágrafo. Eis aí um dos motivos que me fez ficar de quatro por essa mulher: seu maravilhoso senso de humor. Ela ri. Ela conta piada. Ela enxerga a comicidade das coisas. Ela faz com que a vida seja leve. E agora, matutando aqui, eu sei de onde vem a força da personalidade dela: da verdade. Ela é de verdade! Foi isso que me encantou desde a primeira vez que a vi. Ela não era a mulher da pose, ela tem horror à pose. Está aí o motivo pelo qual estamos juntos: a gente é de verdade. Eu posso ser eu e ela pode ser ela. Sem poses! Olha aí mais uma de minhas obsessões: a verdade.

Esta crônica será postada no dia do aniversário da Adeline, dia sete de junho. Já prevejo aquela moça ressentida, com nove gatos em casa, sentada em seu sofá confortabilíssimo, esbravejar para a solidão: “Ai, que brega! Textão romântico para a mulher no dia de aniversário dela. Me poupe!” Primeiro, isso que você acabou de ler não é um simples “textão” de Facebook movido a ressentimento e cheio de erros gramaticais, é uma crônica, e muito bem escrita. Mais respeito, por favor. Segundo, admito! Sou um romântico mesmo. O que seria da vida sem seus romantismos cotidianos? Lhe digo: seria preta e branca, sem brilho e insossa. O que nos resta é o romantismo, pois, para mim, o meu romantismo é a percepção claríssima de que a Adeline é muito melhor do que eu e, justamente por isso, preciso cuidá-la para que se preserve até à eternidade. E, antes que eu me esqueça: feliz aniversário, amor da minha vida.

EU SOU UM BOSTA

Há tempos escrevi uma crônica intitulada Podres de Mimados, na qual eu tirava sarro de um pessoal descolado que ansiava por um mundo que se adequasse a eles, e não eles ao mundo. Gente preocupadíssima com pronome neutro, com gordofobia, veganismo, banheiro trans e otras cositas más. Repare que eu, em relação a estes progressistas, sinto-me viril, forte, impávido colosso, ou, como se diz lá no meu estado, me sinto um galo cinza! Nada comparado ao Seu Zé, o pedreiro da minha sogra que, certa vez, ao ser questionado por ela se gostara de seu bolo de laranja, simplesmente respondeu, após dar uma tragada em seu paieiro: “Não se preocupe, Dona, ‘nóis’ não têm paladar!” Esta frase “nóis não têm paladar” é um tapa, espere, minto! Um tapa não, é um soco na cara das nossas frescuras e mesquinharias contemporâneas. É um soco na cara daquele adulto que, ao ir comer na casa de um amigo, pega seu garfinho e separa as cebolas do risoto. Aliás, você já viu algum pedreiro com intolerância a glúten ou à lactose? Acho que não existe. Eles mandam para dentro o que vier. Não há espaço para frescura e mesquinharia na vida prática.

Mas eis o que eu queria dizer. Neste último fim de semana me senti podre de mimado. Eu e minha esposa fomos convidados, por um casal de amigos que moram em um sítio, para comermos uma macarronada com carne de coelho. O sentimento de humilhação já se iniciou pelo convite. Eu nunca comi carne de coelho. Mas isso não era nada comparado ao que estava por vir. Ao sairmos de casa à noitinha, pegamos a BR-277 e dirigimos alguns poucos quilômetros até chegarmos em uma estrada de chão. O contraste já se inicia aí. O garotinho da cidade é acostumado apenas com asfalto, com pista bem sinalizada e iluminada. Quando entra numa estrada de chão, ainda mais à noite, é como se a modernidade ficasse para trás e ele estivesse dirigindo em um lugar ermo, cujo referencial, na sua cabeça, vem apenas de filmes e séries descoladas da Netflix. Ele nunca viveu isso de verdade! Não é o meu caso. Entretanto, como passamos muito tempo vivendo no conforto das cidades, é possível perceber este contraste.

Chegamos no sítio e a nossa amiga veio nos receber com uma filhinha no colo e a outra no ventre. Esse pessoal do sítio gosta de fazer filhos, apesar de já terem televisão em casa. Assunto para outra crônica. Esqueci de dizer: eu e a Adeline seremos os padrinhos da menininha Cecília, que irá nascer no final deste mês. A vida de adulto é assim: não há mais convites para bacanais homéricos, festas pervertidas ou qualquer outra loucura que um jovem possa pensar. Não, senhores! Agora nos convidam para sermos padrinhos de uma criança, ou para ajudarmos nas celebrações da missa, ou, ainda, para sermos catequistas da nova catequese de noivos. É isso. Estes dias, observava a mesa de um colega de trabalho e então percebi o óbvio ululante: o homem se torna adulto quando leva para o trabalho um porta-retrato com a foto de sua família e o coloca sobre sua mesa. Você leitor, repare que o porta-retrato é o único objeto que enfeita a mesa de trabalho de um homem adulto viril. Diferente da mulher, que enfeita sua mesa com flores e post-its com frasesinhas de amor-próprio.

Mas não era isso o que eu queria dizer. Deixe-me voltar ao sítio. Eu sempre tive afeição pela vida bucólica. Nostalgia da minha infância cujo cenário se deu numa cidade pequena e que, aos finais de semana, íamos para a fazenda da minha vó com os pais, tios e primos. Ao entrarmos na casa, sentei-me no sofá e ficamos papeando a esmo. Eis que o Rodrigo Hilbert sai do banheiro e vem nos cumprimentar — logo, logo, você, meu leitor, entenderá o porquê do “Rodrigo Hilbert”. Rodrigo me cumprimentou e já mostrou a que veio: “Acabei de tomar um banho. Estava construindo um muro aqui atrás de casa.” Primeiro soco no meu ego de garotinho criado em apartamento. Ora, o Rodrigo deve ter uns vinte e seis anos e já constrói muros. Eu mal sei trocar a resistência de um chuveiro. O único muro que construí na minha vida foi jogando Age of Empires. Falei pra mim mesmo: “Eu sou um bosta!” E ele continuou a humilhar-me: “Separei um coelho pra nós. Já carneei, só falta cortá-lo em pedaços. Vou te mostrar!” Rodrigo despedaçava o pobre animal enquanto explicava em detalhes como se carneia um coelho. Ele sequer olhava para o que estava fazendo. Era exímio no que fazia. Se fosse eu, já teria perdido uma mão.

Mas ele não parou por aí. Em seguida, disse que é muito comum comer o coração do coelho logo após matá-lo. Eu, ingênuo, pergunto: “Mata, tira o coração e o coloca direto na churrasqueira?” Ele riu! “Não, ‘homi’. Direto na boca. Come cru! Pensa num negócio bom?!” Mais uma humilhação pra conta. Ao voltarmos para a cozinha, sua mulher ainda me diz que ele construiu boa parte daquela casa. Quanto mais feitos eu ficava sabendo daquele homem, menos homem eu me sentia. Eu não sabia mais o que esperar. Só queria sentar na mesa e jantar quietinho a macarronada com coelho.

Mas Rodrigo era incansável na arte de humilhar-me. De repente pegou um pacote de farinha de trigo, uns ovos e disse que a massa seria caseira. Eu, olhando tudo aquilo, pensava: “Cacete! Eu só sei fazer miojo e olhe lá!” Ao sentarmos para comer, nada do que estava naquela mesa era industrializado ou comprado no mercado. O coelho ele carneou; a massa ele fez; a salada era de sua horta; os ovos eram de sua criação de codornas; o suco de acerola era de um pé atrás de sua casa. Enfim, lembro-me de dizer-lhes: “Se um dia estivermos em um apocalipse zumbi, já sei onde vou buscar refúgio.”

Meses atrás, visitamos uns parentes ricos de minha esposa. Eles têm uma filha. E ai de quem não fizer as vontades da pequena. Ela come quando quer e o que quer, dorme quando quer, e, quando dorme, não pode ter um mísero barulho na casa. Todos os adultos precisam se adequar à criança. A filha do Rodrigo Hilbert é o oposto: ela precisou se adequar à família. Sentou-se à mesa conosco e ficou ali, quietinha, comendo o mesmo que os adultos comiam, sem frescura, sem birra. Além do mais, a menininha tem horário certo para dormir e para acordar. Você, meu leitor, consegue perceber os contrastes?

Pouco depois de jantarmos, Rodrigo Hilbert, que, a essa altura, eu já o chamava de Tarzan, resolveu nos mostrar sua criação de coelhos. Nos levou até um galpão que ele mesmo construiu e nos apresentou sua obra com orgulho. Eram gaiolas de coelho para tudo que é lado. Minha mulher, hipócrita, passava de gaiola em gaiola dizendo: “Ai, que fofinho!” Até que pediu para tirar foto com um daqueles peludos. Enquanto eu tirava uma foto dela com um coelhão de nove quilos em seu colo, tirava sarro: “Já pensou se o coelho soubesse que o primo dele está dentro da sua barriga?” Após o Tarzan Hilbert nos explicar os pormenores de tudo aquilo, voltamos à casa para nos despedirmos. Mas Tarzan Hilbert não poderia deixar-me ir embora sem me humilhar mais um pouco. Disse-nos que já matara duas cascavéis naquela casa. Eu duvidei. “Homi, da última, peguei até o guizo. E só é possível pegar o guizo com ela viva, pois quando ela morre, o guizo se desmancha.” Sim, meu querido leitor, o Tarzan Hilbert pegou uma das cascavéis pela cabeça, com uma perna imobilizou o rabo e com a outra mão arrancou o guizo. Para provar, me mostrou o guizo e as fotos das cobras. Chega! Eu tinha de ir embora.

Enquanto eu dirigia na estrada de chão, eis que olho para a minha mulher e digo: “Eu sou um bosta!” Eu que me achava o cara por escrever textos maravilhosos sobre a natureza humana; eu que me achava a última bolacha do pacote por atender pessoas no consultório; eu que me sentia o homem mais viril do mundo por fazer academia, fumar cachimbo e tomar cerveja amarga. O que é tudo isso perto de alguém que constrói casas, mata cascavéis na unha, carneia qualquer animal em sua frente, produz seu próprio alimento e ainda faz filhos em sua mulher? Acho que toda a civilização das cidades necessita, vez ou outra, ir para o sítio. Não estou brincando. Esse pessoal que tem o ego elevado apenas por obter curtidas numa foto bonitinha no Instagram tem a obrigação de pisar no barro e ser humilhado. Isso forma caráter! Talvez seja justamente isso que falta para essa turma aí que vive a se vitimizar porque a sociedade não os aplaude como eles acham que mereçam. A partir do momento em que a humanidade, sentada em seu sofá confortabilíssimo, conseguiu pedir cinco mil calorias por meio de um smartphone, iniciou-se a nossa queda moral como civilização.

PORQUE ELE VIVE

No sábado à noite, véspera da ressureição de Cristo, tomei a iniciativa de assistir a um filme indicado pelo Italo Marsili, num estudo de caso específico sobre a maldade como possibilidade humana. Talvez você, leitor, sugeriria que eu assistisse A Paixão de Cristo, aquele dirigido pelo Mel Gibson. Este eu assisti semana passada. Após participar da missa de domingo, cheguei em casa ávido para experienciar as últimas horas do nosso salvador. É claro que A Paixão de Cristo é um filme que nos toca profundamente, que nos deixa perplexos com a maldade humana, que nos faz repensar sobre as nossas próprias injustiças. Ora, até Pedro, um dos doze apóstolos, um dos homens mais próximos de Cristo, o negou três vezes depois de o ter jurado fidelidade. E o que dizer de Judas?

Assistir Jesus ser açoitado, cuspido, xingado, humilhado e, por fim, crucificado, dói. Acometeu-me um misto de sentimentos, como a raiva e a tristeza. Entretanto, apesar de assistir a todas essas maldades e injustiças claríssimas, há ali a esperança do bem, como Simão, que ajudou Cristo a carregar a cruz até o monte Calvário. Muitos dirão que Simão fora obrigado pelos romanos a ajudar Cristo. De certa forma, sim. Ele não estava ali de maneira livre e espontânea, mas ao longo do caminho ele assume a sua missão, se compadece daquele homem e o ajuda de fato a chegar no seu destino. Maria Santíssima, que se aproxima de seu filho amado, o qual está em chagas, e então há aquele momento em que seus olhos se cruzam: dois oceanos de amor se juntam. Há um sofrimento monumental, é claro, mas há esperança, como se ao olharem-se, ambos reafirmassem seu amor um pelo outro, como se dissessem: “Eu estou aqui!” E, já na cruz, Cristo ouve Dimas, o ladrão arrependido que reconhece estar diante do salvador: “Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino.” E Jesus responde: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.”

Esperança! Diante de todo este sofrimento há esperança! É isso o que quero deixar vivo na crônica de hoje. A Paixão de Cristo termina com sua ressurreição. O que isso significa? Ele venceu a morte e todo sofrimento que habita neste mundo. Fui dormir, naquela noite de domingo, tranquilíssimo, felicíssimo — desculpe-me pelo excesso de superlativos — e esperançoso. Isso não aconteceu neste último sábado, após ter assistido ao filme A Casa Que Jack Construiu, de Lars von Trier. Há muito tempo que eu não ia dormir tão transtornado quanto neste sábado. Deitei-me na cama e precisei rezar. O mal, na minha vida, está cada vez mais nítido, pois contrasta com o bem cuja fonte abundou-se em meu Ser no último ano, ao voltar para a igreja. Além disso, também percebo o mal em mim e vivencio histórias diariamente no consultório, das quais o mal está, em grande parte das vezes, presente.

Ao falar de Jack, não estou me atendo a uma pessoa apenas com doenças mentais, estou me atendo ao mal como possibilidade humana. Jack é um destes casos: um homem cujo prazer se encontra no mal. Eu sei, nós tentamos nomear esses comportamentos para saber com o que estamos lidando. Alguém desatento jogará a culpa do mal nestes transtornos de personalidade, na compulsão, nos narcisismos, e não em Jack. Vos digo: o mal vem antes e entra no mundo através do pecado original. Jack não só tem consciência de tudo que está fazendo como é justamente isso que o excita. Ele se regozija com o terror, com a tortura, com o sofrimento humano. Santo Tomaz de Aquino dizia que o mal não tem substância, ele é como uma célula cancerígena, que se aproveita de uma célula saudável e passa a corrompê-la. Por isso que o mal termina em si mesmo. Não vinga se não houver o bem, aliás, ele nem existiria se não houvesse o bem, pois é um acidente do Ser, e todo Ser tende ao bem. Não é à toa que as Escrituras dizem que as portas do inferno não prevalecerão, pois o mal não subsiste, oras! E não subsiste porque não tem substância.

Ficou confuso? O mal é como a escuridão, ou seja, é uma falta de luz. O mal nada mais é do que uma carência de bem. A maldade e a perversão sempre estão em algo que tem substância, pois somente as coisas boas têm substância. Jack, no filme, ao cometer todo tipo de maldade, sai ileso. Ninguém o pega! Isso me passou uma desesperança fatal, e foi justamente esta desesperança que me perturbou. Compreendi que o mal vence quando se perde a esperança no bem. Jack é um câncer, pois corrompe a célula saudável. Poderíamos colocar Jack imerso num lugar de beleza, de luz e de bondade. Isso seria um prato cheio para ele! Isso seria a mesma coisa que colocarmos um adicto com problemas de alcoolismo dentro de um caminhão de bebidas. Como o prazer de Jack encontra-se na maldade, destruir a bondade é o que o motiva a viver. Não há salvação para Jack, e é por isso mesmo que seu final é no inferno.

Pouparei você, leitor, dos detalhes sórdidos do filme. Como falei antes, quero deixar viva a esperança, não só no seu coração, mas no meu também. No domingo, pela manhã, acordei cedinho. Tomei aquele banho quente e esperei a Adeline para tomarmos café, pois íamos à missa da ressurreição de Cristo. O leitor desatento pode estar pensando que tenho mais de sessenta anos. Ledo engano. Tenho trinta, mas a alma, para os padrões atuais, é meio idosa. Falava estes dias com minhas esposa que para fechar o pacote da velhice, só falta eu começar a varrer a calçada, pela manhã, e a fofocar com os vizinhos, principalmente com aquela vizinha chamada Gertrudes. Espere, minto. É Dona Gertrudes. O “Dona” já faz parte do nome, pois se tornou um prefixo espectral. Dona Gertrudes, com seus grandes braços e suas grandes panturrilhas, deixa marombeiros de academia no chinelo. Além disso, Dona Gertrudes é ótima cozinheira e ótima fofoqueira. Todos têm uma vizinha assim.

Mas eis o que eu queria dizer. Acordamos cedo e fomos à missa: eu, minha esposa e minha sogra. Ao chegarmos lá, os servidores do altar estavam na entrada, cheios de sorrisos, recebendo os fiéis e dizendo-lhes: “Feliz Páscoa!” O sol da manhã atravessava os vitrais translúcidos e iluminava todo o interior da igreja. Chegamos junto com o Pe. Renato, aquele mesmo que celebrou o meu casamento. Não vou mentir sobre a minha preferência pelos padres da paróquia aqui da cidade. Será pecado ter um padre preferido? Não sei, mas só de ver o Pe. Renato chegando, de súbito, alegrei-me. Assim que sentamos no banco, avistei meu catequista, o homem responsável por falar-me uma frase que mudou-me desde o dia em que a ouvi: “Não tem como você amar o que você não conhece. Como você vai amar a Deus se você não O conhece?” Bem, estava me sentindo em casa.

A missa, para mim, tende a ser um momento de contemplação. Eu fico ali, sentado, ouvindo as leituras, as músicas, o evangelho, a homilia, mas não só isso, observo também as pessoas, ah, sim, as pessoas e seus atos. Vejo os casais de meio século e, inevitavelmente, sinto uma ternura em meu peito. Lá estão aqueles dois velhinhos, meio curvados devido à idade, de mãozinhas dadas, contemplando a Santa Missa de maneira devota e abnegada. Para mim, toda devoção é linda. Só de deparar-me com estas cenas, abre-se em mim um universo de esperança.

Para fechar a missa com chave de ouro, também aconteceu o batizado de um recém-nascido. Eu, na minha ignorância cavalar, nunca havia presenciado um batizado, a não ser o meu, entretanto, não lembro. Alguém aí lembra de seu próprio batizado quando bebê? Enfim, para finalizar o ritual, o Pe. Renato pegou o pequeno bebê e, assim como Rafiki fez com Simba na primeira cena de Rei Leão, apresentou-o ao reino, dizendo: “Eis mais um cristão!” Não lembro se foi exatamente esta a frase, mas o sentido é o mesmo. Todos aplaudiram e logo depois iniciou-se a canção de encerramento da missa: “Porque ele vive, posso crer no amanhã.” Como eu disse, a crônica de hoje é para cravar no meu e no seu peito a esperança. No sábado à noite, lá estava eu, diante de uma narrativa perversa, macabra, escura, maléfica, lúgubre, niilista. No domingo de manhã, lá estava eu diante de Cristo, na casa iluminada de Deus, cheio de esperança e com a certeza de que Ele é o caminho, a verdade e a vida.

SINUCA COM CORDA

Hoje, ao acordar pela manhã, lembrei-me assim, de súbito, de uma expressão da qual faz-me rir desde quando meu primo a apresentou-me: “Sinuca com corda”. Você aí, meu leitor, já identificou do que se trata? Não? Deixe-me explicar-lhe. Na semana do meu casamento, recebemos aqui em casa a família. E sempre quando nos reunimos, a risada é a regra. Eis que meu primo, o Duda, chega pra mim e diz: “Sabia que o Lé (apelido do meu pai) só joga sinuca com corda?” Assim que ouvi a expressão já caí na risada. Se tem algo que amo na sabedoria popular é a capacidade de fazer analogias geniais. Se você ainda não entendeu o que significa jogar sinuca com corda, serei mais literal: é o famoso caso do homem meia-bomba, meia-tora, meio-duro, ou melhor, meio-mole.

E não estou me atendo ao homem como um todo, que é composto por cabeça tronco e membros, mas me atenho ao seu instrumento de fazer amor: o falo! Acho que agora ficou claríssimo. Todo homem e toda mulher que me leem, com certeza já passaram por tal infortúnio de jogarem sinuca com corda. Lá está a mulher, com o desejo pingando entre suas pernas, ansiosa para receber o taco enrijecido, arquejante, robusto, rígido e fatal, mas eis que o taco dá lugar para uma corda flexível, borrachuda e molenga, incapaz de matar a sede voraz de uma mulher sedenta. Vez ou outra o homem finge que está tudo bem e continua ali, a jogar sinuca com corda, pois o que importa — ainda mais em nosso tempo —, é a pose. Ele finge que é um taco e a mulher finge que a bola entrou. Espero que vocês entendam minhas analogias.

Mas eis o que eu queria dizer. O homem leva muito a sério sua masculinidade, e, justamente por isso, a frase “isso nunca aconteceu comigo” é uma das maiores mentiras do sexo masculino, só perde para “vamos lá em casa assistir Netflix” e “vou colocar só a cabecinha”. Lembro-me da primeira vez que joguei sinuca com corda. Aliás, sequer teve jogo. A moça foi embora e eu me senti o homem mais humilhado da humanidade, pois não poderia culpar ninguém a não ser eu mesmo. Passei dias me punindo por isso, refletindo no que ela estaria pensando de mim. Por este fato, em vez de sumir, continuei conversando com ela por mensagens para tentar compensar o meu fracasso na cama. Uma mistura de vaidade e empatia. Vaidade por ansiar que esta moça ficasse com uma imagem minimamente aceitável deste homem que vos escreve semanalmente, e empatia por desejar agradá-la de outra forma que não a sexual. Naquela semana senti-me refém desta mulher. Se ela me pedisse qualquer coisa, eu faria. Nada torna o homem mais inseguro e submisso do que não poder confiar no seu taco.

Combinamos outro encontro. Talvez, algumas mulheres que estão lendo isso, pensem: “como ela aceitou outro encontro?” Ora, eu era um cara legal, tinha um bom papo, e era detentor de um potencial monumental. Naquela noite, enquanto a moça esperava-me no quarto, peguei a garrafa de catuaba do meu pai — que, segundo ele, causava sangramentos no nariz —, a encarei e disse pra mim mesmo: “Hoje o mastro se erguerá!” Em seguida, taquei-lhe um gole daqueles de respeito. Adivinhe o que aconteceu? O mastro se ergueu e quase causou-me de fato um sangramento no nariz. No outro dia, pela manhã, meu desejo mesquinho de adolescente era gritar para o mundo inteiro: “O mastro se ergueu!” Além do mastro, a confiança no meu taco também foi nas alturas. Trauma curado com sucesso!

Hoje, atendendo homens no consultório, principalmente aqueles cujos problemas se baseiam na sinuca com corda ou aqueles que encaçapam a bola oito na primeira tacada, percebo como eles levam a sério estes “pequenos” obstáculos. E eu entendo o porquê! Ora, imagine se eu não tivesse conseguido me redimir lá trás com as minhas “falhas”?! Eu teria um histórico de partidas muito ruim, o qual seria responsável por eu jogar na série D ou E do torneio de sinuca. Este histórico ruim certamente me pressionaria para os próximos jogos. O que significa esta pressão? Ansiedade. E ansiedade significa que seu corpo está em estado de tensão; e tensão é energia; e energia precisa ser descarregada. Aqui, não há dúvida: ou o homem vai encaçapar a bola oito na primeira tacada e encerrar o jogo ou o seu taco amolecerá em cinco segundos, dando lugar a uma corda capenga, a qual não subirá nem com reza brava.

Entretanto, há um fator que piora todo este cenário: quando estes homens se levam muito a sério, quando querem a todo custo impressionar a parceira de jogo para inflarem seus egos frágeis. Homens que me leem, não se levem tão a sério! Riam de seus fracassos, inclusive fracassos sexuais. Sabem por quê? Rir da própria desgraça ajuda a superá-la. Toda vez que enxerguei minhas falhas como uma coisa seríssima e sacral, o que de fato eu estava fazendo era criando um monstro nocivo capaz de me engolir. Ora, se não consigo rir de uma falha, de um problema, estou, naturalmente, dando força para ele enquanto enfraqueço-me na alcova.

O problema de hoje, é que as pessoas não conseguem mais rir nem de piadas, quiçá de um probleminha destes. Tudo se tornou seríssimo e incólume justamente por acharmos que a salvação da nossa vida está numa ideologia, num objeto inanimado, num corpo escultural, enfim, em tudo que perece, apodrece e é instável. Lembro-me da minha adolescência. Eu achava que o sexo salvaria a minha vida. Aliás, antes do sexo, achava que o primeiro beijo salvaria a minha existência pífia. Aquilo, para mim, era o sentido do meu Ser, exatamente por isso era algo seríssimo e intocável, como era também para todos os adolescentes da minha época, os quais transformavam o sexo em algo mecânico e insosso. O que valia era transar com o máximo de mulheres, demorando o maior tempo possível, fazendo o máximo de posições como nos filmes pornográficos.

Acreditar nisso é matar o verdadeiro sexo e clamar que a ansiedade te pegue na próxima esquina! Graças a Deus, me atentei a tempo para o que de fato era o sexo e qual era o seu lugar na minha vida. Aliás, não sei se já disse aqui, mas, se disse, repetirei: toda vez que colocamos o sentido da nossa vida no que é material, perdemos o chão e caímos num abismo onde seu coração ainda bate, entretanto, está morto… morto de tristeza, morto de ansiedade, morto de depressão, morto de obsessão.

Não quero terminar a crônica desta maneira seríssima, pois você, homem que me lê, ainda pode estar angustiado pelo fato de jogar sinuca com corda ou de encaçapar a bola oito na primeira tacada. Acredito que eu tenha sido muito claro em como lidarmos com estes probleminhas que atingem o sexo masculino. Porém, se mesmo assim os sintomas persistirem, ainda há esperança: aprenda a preparar um linguado! Sim! Se você se especializar na arte do linguado, já é meio caminho andado. Até rimou. Acho que vou criar um curso sobre como preparar um linguado de respeito, cujo título da primeira aula será: “Quem tem língua e dedos nunca fica na mão.” Aguardem!

ENCONTRO COM FÁTIMA LTDA.

Certa vez, em uma empresa na qual eu trabalhava, pediram-me para escrever um texto sobre a importância da diversidade nas organizações. O problema de trabalhar para os outros, é que você, mesmo não concordando com bulhufas, tem de fazer o trabalho. E eu entendo o porquê de ser assim. Não sou um mimado que reclama de tudo baseado no que me é simpático ou antipático, no que me dá um prazerzinho ou um desprazer. Eu consigo compreender que as grandes empresas precisam do outdoor, precisam estar alinhadas ao mainstream, precisam tornarem-se um Encontro com Fátima LTDA para não serem canceladas. Entendo tudo isso! Por isso mesmo é eu que preciso me adequar à empresa, não ela aos meus caprichos. Se eu quiser fazer do meu jeito, é preciso pedir as contas.

Eis o que eu queria dizer. Ao abrir a página em branco do Word para escrever sobre diversidade, acometeu-me uma tristeza. Eu iniciava uma frase e apagava em seguida. Iniciava outra frase e apagava em seguida. Confesso que doía escrever algo que nem eu mesmo acreditava ou eu mesmo leria. Fiquei quase uma hora nessas tentativas frustradas. Ali, tatuei algo de vez na consciência que eu já vinha há tempos refletindo: o bom escritor é alguém que é amigo íntimo da verdade, é aquele que coloca no papel as entranhas e as entrega para o leitor degustar. Desde que me atentei a isso, meus escritos têm me agradado mais, pois você que me lê, mesmo que discorde de mim, entende que ali naquelas frases existe um ser humano de carne e osso. Então perceba, caro leitor, que o problema não era escrever sobre diversidade, mas escrever sobre a única diversidade que seria aceita.

Esperto que sou, lembrei em como estes textos não possuem alma, ou seja, não possuem verdade, não possuem personalidade, todos eles são a mesmíssima coisa. Digitei no Google: “Diversidade nas empresas”. Tcharan! Meu texto para ser lido no Encontro com Fátima estava pronto em menos de quinze minutos. O que me preocupa é a verdade! Ora, aqui é preciso se atentar, pois a verdade não vale apenas para a escrita, vale para tudo. Desde um simples texto até o seu modo de agir na vida. Como trabalhei por muito tempo em grandes empresas, percebo que a mentira passa a tomar conta do coração de grande parte das pessoas que ali estão. De tanto fingir poses, dar risadas forçadas para agradar um superior, falar coisas mentirosas das quais você não acredita para adquirir um cargo, aguentar calado humilhações e injustiças, sempre dizer “sim” querendo falar “não”, essas pessoas passam a construir uma história indigna, pois a base desta narrativa é a mentira e a covardia.

Certa vez, li uma frase do Nelson Rodrigues que marcou-me na alma: “O medo do ridículo é o que gera as piores doenças psicológicas.” Pergunto a você, leitor, por que diabos este medo há de gerar doenças psicológicas como ansiedade, depressão, transtorno obsessivo compulsivo, burnout, histeria e etc.? Estou quase certo de que é por causa da mentira. Sim! O medo nos faz mentir, nos faz trair a nossa própria história, nos transforma em seres indignos diante da realidade que nos cerca. Nos tornamos tiranos da nossa própria vida. Por que as pessoas, numa sala de aula, têm vergonha de perguntar? Medo do ridículo. Por que as pessoas têm medo de falar o que acreditam? Medo do ridículo! Por que aceitamos injustiças a dar com pau? Medo do ridículo! O medo do ridículo significa o medo da sua verdade.

Lembro-me de um dia, pela manhã, ao ligar a televisão, me deparei com aquele programa da pose, onde todos que ali estão fingem ser o que eles acreditam que a sociedade espera deles. Sim, estou falando do Encontro com Fátima. Justamente neste dia, um dos convidados era o historiador Leandro Karnal — acho que este careca recusa apresentações. Após toda aquela conversa fiada sobre o problema gravíssimo de pessoas obesas não conseguirem se sentar em uma poltrona de um avião, houve aquele momento no qual os convidados do sofá levantam-se para dançar a música do artista convidado, que era um destes MC’s da moda, que escrevem letras de lacração misturadas com putarias para todas as idades.

Ver o Leandro Karnal, de terno e gravata, todo engomado, todo pomposo, levantar-se e então passar a dançar funk, fora uma das coisas mais constrangedoras que tive o desprazer de assistir. Era nítido que aquele mordomo de filme inglês não queria fazer aquilo e nem sabia como fazê-lo. Seu rebolado desengonçado e seu sorriso amarelo era um pedido de socorro de sua consciência: “Por que diabos estou fazendo isso comigo? Ah, claro, se eu não dançar me chamarão de preconceituoso. Posso ser cancelado! Se eu falar que prefiro ouvir as minhas flatulências do que essa música, serei crucificado!”

Como não ficarmos doentes ao vivermos nossa vida como se estivéssemos vinte e quatro horas num Encontro com Fátima? Eis uma das coisas mais fundamentais que aprendi ao longo destes trinta anos: seja de verdade. Ao ser de verdade, você descobre quem você é. Ao saber quem se é, sabemos nossas intenções com nossos atos. Ao sabermos nossas intenções, ninguém pode nos cancelar. Porque no fim, este é o nosso medo monumental: sermos cancelados. Dou-lhe um exemplo: se eu não soubesse quem sou, eu escreveria para agradar a multidão, eu gravaria vídeos para ser aplaudido pela massa, eu agiria no mundo com o desejo infantil de ser aceito por todos. Isto é um atestado de óbito em vida! Não é à toa que vivemos tempos tão doentes. Ora, a maioria das pessoas são uma mentira ambulante. Não quero que você, meu leitor ou meu paciente, seja mais uma delas.

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