O AMOR DOCE DE MINHA MÃE

Estes dias, numa sessão de terapia, emocionei-me ao relatar para a paciente em minha frente o momento que cortei o cordão umbilical com minha progenitora. Engana-se quem pensa que o cordão umbilical é cortado logo após o parto. Continuamos naquele enlace de sobrevivência com nossa mãe por mais alguns anos. Ora, ela nos dá de mamar, nos enche de afeto, nos acalenta de amor. Minha mãe fez tudo isso e mais um pouco. O problema começa na adolescência. Deus poderia ter cortado esta fase da vida. Poderíamos ir de bebês — amáveis, fofinhos, bonitinhos — à adultos maduros, sem passar pela fase mais chata de todo o ser humano. Nelson dizia que um homem de dezoito anos não sabe sequer dar “bom dia” para uma mulher. Vou mais longe. Um garoto na adolescência não sabe é nada, nem mesmo enxergar o amor vivo de sua mãe. Por isso, Nelson aconselhava os jovens: “Envelheçam! Envelheçam rapidamente!”

Eu fui um bom filho “aborrecente”, mas poderia ter sido melhor. Minha mãe, a dona Ivete, sempre fez o possível e o impossível por mim, mas, enquanto morava com ela, não enxergava este amor sendo esfregado na minha cara dia após dia. Vez ou outra, estava eu em meu quarto no meio da tarde, eis que minha mãe me agracia com três barras de chocolate, assim, do nada, sem eu merecer bulhufas. O amor dela é bem doce. Se não fosse a minha consciência de melancólico, aos vinte anos eu seria um diabético por excesso de amor materno. Ou, ainda, eu poderia facilmente ter me tornado um obeso aos vinte anos. Entretanto, minha genética me agraciou, à época, com um metabolismo acelerado. Ia de três a quatro vezes por dia no banheiro — morram de inveja. Então eu comia, comia e comia, mas não engordava um quilo sequer. Era seco, virado em cabeça. Meus amigos tinham receio de me convidar para ir às suas casas. Não que eu não fosse um cara legal, eu era um ótimo amigo, mas comia feito um dinossauro. A única pessoa capaz de alimentar seu dinossaurinho de um metro e noventa e dois, era a minha amada mãe.

E isso ela fazia! Lá em casa, em se tratando de comida, sempre tivemos fartura. Minha mãe sempre disse uma frase que ressoa até hoje nos meus ouvidos: “Pra comer não precisa economizar!” Não adiantou muito, pois, por muito tempo, eu economizei, fui avarento, etc., etc. Já confessei minha época de mão-de-vaca em outras crônicas. O que quero deixar escancarado aqui é o amor imenso de minha mãe por mim. Lembro-me de que todas as vezes das quais eu precisava levantar às 5h30 para ir ao colégio — pois era em outra cidade —, minha mãe acordava antes, fazia o meu café e ainda tinha o trabalho de me acordar. Com os meus dezessete anos, ao começar a trabalhar numa fábrica de sapatos, a mesma coisa: ela levantava antes, fazia o meu café e ainda deixava o meu lanche pronto. Os meus colegas de trabalho não entendiam como eu, todos os dias, levava de três a quatro torradas pra comer no segundo café da manhã. “Minha mãe!” eu respondia. “Sua mãe te ama muito.”

E se você, leitor, acha que este esmero é só para com a gastronomia do lar, engana-se. A casa estava sempre limpa, perfumada, organizada. Ao deitar, à noite, em meu travesseiro e sentir aquele aroma de amaciante Downy, subitamente enternecia-me de amor. Era o amor de minha mãe posto em cheiro. Talvez, à época, eu não notasse estes atos, pois eu sempre tive isso. Passei a perceber nas primeiras vezes que fui morar sozinho. Espere! Minto. A primeira vez que percebi todo este amor foi justamente no dia no qual precisei cortar o cordão umbilical de vez, ou seja, no dia da minha mudança para Foz do Iguaçu. Até aquela manhã de janeiro de 2011, a minha ficha ainda não havia caído. Após colocar minhas malas no carro do meu irmão, vi minha mãezinha ali, na porta de casa, já chorando. Fui até ela e a abracei. Neste exato momento caiu a minha ficha. “Cacete! Estou indo embora. Estou indo para outro Estado. Ficarei a mil quilômetros daqui. Verei minha mãe no máximo uma vez por ano.” Desabei. Eu e minha mãe choramos juntos. Ali foi o corte do cordão umbilical.

Nos primeiros quilômetros da viagem, olhava para aqueles campos verdejantes, para as “florestas” de pinus e viajava em pensamentos. Estava tentando administrar a tristeza e a saudade. Eu era um virgem! Não no sentido sexual, mas no sentido de desbravar outros lugares. Eu, um bicho do mato, que acabara de sair de uma cidadezinha pacata, fria, de 30 mil habitantes, onde eu morava com minha mãe, que fazia tudo por mim, onde eu tinha todos os meus amigos, estava me mudando para uma cidade de fronteira, com 250 mil habitantes, quente como o inferno, sem amigo nenhum, para morar com meu irmão. Inclusive, ao chegarmos em Foz do Iguaçu, o termômetro do carro bateu a marca de quarenta graus. Não acreditei! Pensei: “Deve estar errado essa temperatura.” Ao sair do carro, concluí: “Acho que vou voltar pra serra gaúcha!”

Não voltei! Encarei o caos. E foi a melhor coisa que eu poderia fazer. Quanto mais o tempo passava, mais eu percebia o amor de minha mãe. Perceba o paradoxo: precisei estar longe dela para conseguir contemplar aquele amor latente e tão próximo. Nunca esqueço quando passei a morar sozinho num apartamentinho de três cômodos: ao deitar na cama para dormir, os travesseiros e os lençóis não tinham cheiro de nada. Eu os lavava, mas não fediam e nem cheiravam. “Como a minha mãe fazia aquilo com os jogos de lençóis lá de casa?” Na parte gastronômica já era humilhação. Nunca fiz algo tão saboroso como a comida de minha mãe. E quando, raramente, eu ficava doente, deixava a doença progredir até às últimas consequências para então comprar remédios ou ir ao médico. Se minha mãe estivesse comigo, isso nunca aconteceria.

Dizem que os filhos, ou se apegam mais ao pai ou mais à mãe, ou seja, têm um preferido. Quando eu morava com meus pais, eu tinha: o meu pai. Ora, isso era óbvio! O meu pai ficou com a parte boa da criação. Quem fez o trabalho pesado fora minha mãe. Minha mãe que me surrava quando eu passava dos limites, minha mãe que colocara freios na minha rebeldia de aborrecente, minha mãe que estava comigo em todos os momentos, inclusive os ruins. O meu pai era caminhoneiro, então, toda vez que ele chegava em casa era uma alegria imensa, pois estávamos morrendo de saudade. E meu pai é um sanguíneo puríssimo. Onde chega, a tristeza não dá as caras. Acho que era por isso que eu tinha o meu preferido. O amor de meu pai sempre foi escancarado, barulhento, como quem berra: “Tá vendo?! Eu te amo!”

Hoje não tenho preferido. À medida que fui amadurecendo, o amor doce de minha mãe foi sendo percebido por este homem que vos escreve semanalmente. Refletia sobre isso nesta semana: apesar de doce, o amor dela é silencioso, ainda mais se comparado ao amor de meu pai, cujo caráter é expansivo, extrovertido, falante, beirando ao caos. Minha mãe foi a responsável por colocar ordem neste caos. Se não fosse por minha mãe, não sei o que seria de meu pai. Aliás, não sei o que seria da nossa família, pois ela é a base, ela é o reduto de amor que aguarda seus três homens — meu pai, eu e meu irmão — com a casa limpa, comida na mesa, fogo no fogão e um coração monumental capaz de tudo para o bem dos seus. E mais: está sempre linda! Minha mãe é de uma beleza vexatória, a qual meu pai, toda vez que conversamos, reforça: “Quando vi a Alemoa — é assim que meu pai chama minha mãe —, me apaixonei na hora!” Mal sabia ele que não se tratava apenas de um rostinho bonito.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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