A MEDIDA DE AMAR É AMAR SEM MEDIDA

Confesso, leitor, que muitas vezes, sento-me aqui, nesta poltrona, e não sei bulhufas do que escrever. Tenho algumas ideias incompletas que vagueiam pelo limbo obscuro da minha inteligência limitadíssima, mas são só frases soltas. Eis que de uma frase solta, eis que de uma mísera palavra, ocorre-me uma lembrança, que faz a minha imaginação trabalhar e minha criatividade aflorar! De súbito, sai a crônica! Acabei de lembrar-me de algo que anda permeando os meus pensamentos nos últimos dias: os casais se perdem nas pequenas coisas. Esta conclusão é fruto de minha experiência pessoal e dos atendimentos no consultório.

Nós somos mesquinhos. Esta é a verdade! A nossa luta principal é contra nós mesmos, pois temos a mania de olhar apenas para o nosso umbigo, como se fôssemos os seres mais especiais do universo. Como dizia Nelson: “O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota.” O véio Olavo, pelo qual tenho muito apreço e carinho, disse, certa vez, em uma de suas aulas no seu Curso Online de Filosofia, uma das frases que se tornou espectral em minha vida: “Você estará curado quando esquecer de si mesmo.” Dane-se você! Pois assim nos abrimos para a possibilidade do amor. Justamente nesta semana, atendia um casal no consultório. Esta experiência de atender casais é interessante pois me possibilita enxergar-me nos meus relacionamentos. Enquanto discutiam sobre quem fazia mais atividades dentro de casa, eis que pergunto: “O que é o amor pra vocês?” A esposa, de pronto, respondeu: “Sacrifício!”

Ela está certíssima! E por que, na prática, isso não acontece com a maioria de nós? A gente faz uma revolução porque o cônjuge não lavou a louça, ou porque ele esqueceu de tirar os sapatos ao entrar em casa, ou porque ela não fez o almoço, ou porque ela não quer sexo num determinado dia. Enfim, pormenores que tornam-se problemas monumentais para um casal que ainda não entendeu o que de fato é amar o outro. Já disse aqui: são essas briguinhas cotidianas que destroem os relacionamentos, que nos fazem deixar de admirar o outro, que nos fecham cada vez mais para o amor; as grandes discussões até ajudam, pois tendem a terminar com o casal fazendo amor em cima da máquina de lavar.

Estamos aprisionados lembrando apenas de nós mesmos. Ora, se amor é sacrifício, eu esqueço de mim para me doar para o outro. Isto é mortalmente sério, pois tal sacrifício é levado às últimas consequências, ou seja, à morte. Santo Tomás nos lembra que o amor é o desejo de eternidade do ser amado. Isso significa que você, quando ama, é capaz de sacrificar a sua vida para que a do outro continue a existir. Mas percebam nossa mesquinharia: não somos capazes de sacrificar nem nas coisas mais banais, como ajudar o cônjuge a carregar as compras do mercado. Nós preferimos ficar no sofá, na preguiça. Ou ainda: quando percebemos que o outro deixou de fazer algo que ansiávamos que ele fizesse. A nossa atitude impensada é sempre a mesma: xingá-lo, humilhá-lo por não ter feito algo que você, na sua soberba, queria que ele fizesse. Me diga, leitor, como diabos iremos sacrificar a vida por aqueles que prometemos amar, se somos tão mesquinhos e abjetos?

Isto é fruto do nosso umbigo. Ah, sim, aquele nosso umbigo fedido que insistimos em nos fixar. O resultado disso é que ficamos cegos para o mundo à nossa volta. José Saramago dizia que temos de sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós. Sair de nós é esquecermos de nós. É pararmos de olhar e medir o mundo apenas com o nosso umbigo egoísta. É isso o que faz o casal se fechar para o amor, pois ambos preferem sempre ter a razão do que a paz, preferem sempre “ganhar” a discussão do que amar o outro e ceder quando preciso. É como aquele avarento que, ao ver um mendigo pedindo esmola na rua, o julga de imediato: “Ah, não ajudo esse mendigo porque ele vai gastar com cachaça!” Não, meu caro. Você não ajuda pois é um mesquinho, mão-de-vaca, soberbo e avarento. Você está sempre calculando os atos de amor, como um matemático que calcula uma equação de segundo grau. Lhe digo, assim, na cara: “Você é um bosta!”

Medir os atos de amor, nada mais é, do que insegurança! Sim. Lembro-me de um leitor, certa vez, ficar irritadíssimo comigo quando falei que aquele que perdoa verdadeiramente uma traição é digno e forte. Ele não entendeu! Para ele, perdoar uma traição é ser trouxa, é ser fraco, é ser o cocô do cavalo do bandido. Mas é claro: para quem nunca saiu de si mesmo, é impossível entender o que de fato é amar alguém. E, se eu não saio de mim, eu nunca estarei disposto a me sacrificar por ninguém, ou seja, eu me fecho para o amor. Então, o que acontece no cotidiano insuportável, é: temos um casal inseguro, onde cada um está olhando apenas para seu umbigo. Eles até falam, vez ou outra, “Eu te amo”, eles até fazem atos quase caridosos um pelo outro, porém, isso não é o suficiente. Escrevi “quase”, pois na caridade de verdade não há régua, porque a medida de amar é amar sem medida.

Eu, quando criança, era um avarentozinho de primeira categoria. Quando meus amigos iam lá em casa, ao pegar a Coca-Cola na geladeira, eu colocava os copos um encostado no outro, de maneira que eu pudesse medir com precisão a quantidade igualitária de refrigerante para cada um. Eu ia derramando o refrigerante, um pouco em cada copo, até chegar na medida exata. Eu não suportava alguém beber a mais do que eu. Percebam o tamanho da minha avareza! Eu não estava disposto a sacrificar nada, por ninguém, pois pensava apenas na minha sede, mas não só isso! Eu era inseguro e não queria sofrer nenhuma “injustiça”. Algumas pessoas fazem isso com o amor. Mas é ainda pior. Ora, eu era uma criança. Agora imaginem um adulto agir assim! Têm milhões deles por aí medindo seus atos de amor como eu, na infância, medindo a quantidade de refrigerante em cada copo. Espero que você que está lendo esta crônica, não seja um deles.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

4 comentários em “A MEDIDA DE AMAR É AMAR SEM MEDIDA

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