ELA É MUITO MELHOR DO QUE EU

Pensava, na véspera, sobre o fato inexorável e ululante de que tornei-me um homem melhor graças à minha mulher, a Adeline. É inegável! E veja você, leitor, o contraste monumental que há entre o Guilherme de 2018 e o Guilherme de 2022. Se colocasse, em um ringue, estes dois Guilhermes para se pegarem no soco, o de 2022 liquidaria o de 2018. Espere, minto. “Liquidaria” ficou leve. Melhor: mastigaria o Guilherme de 2018. Não sobraria nada daquele homem inseguro, fraco e vaidoso. Seria como colocar um pitbull contra um poodle de madame. Por isso digo e repito: nenhum homem se torna forte sozinho. Eis uma verdade que compreendi ao longo dos últimos anos. E não entenda o “tornar-se forte” meramente como uma questão física, mas, principalmente, como uma questão moral.

A Adeline sempre fora melhor do que eu. Admito! Lá em 2018, quando a conheci, eu já tinha uma boa bagagem intelectual. Tinha lido diversos autores de peso, como Santo Agostinho e G. K. Chesterton. Eu era um homem letrado, como se dizia na época dos meus pais, mas, na vida prática, eu era um bosta. Hoje, ao refletir sobre isso, concluo que conhecimento pelo conhecimento não vale de nada. É até pior, pois faz com que a pessoa se julgue superior, inclusive moralmente. É como aqueles cristãos que vão à igreja para poderem julgar os que não vão. Ou ainda, como aqueles homens e mulheres que se afundam na palavra sagrada, se afundam em livros dificílimos, mas esquecem de olhar para os seres humanos de carne e osso que estão ao redor.

Eu era um mesquinho e um vaidoso. Não abria a mão para nada, quiçá o coração. A Adeline, apesar de nunca ter lido uma linha de Santo Agostinho, apesar de nunca ter estudado um décimo do que já estudei, era muito melhor do que eu. Seu coração já estava escancarado. Ela estava olhando para a realidade, enquanto eu estava imerso dentro do meu ego. A minha cura iniciou-se quando a conheci. Lembro-me de certa noite, quando estávamos lá em casa conversando sobre o que faríamos no carnaval — não éramos nem namorados ainda —, então ela me vem com a proposta fulminante: “Que tal a gente passar uma noite em uma pousada ali na Argentina?” Eu fiquei quieto, pensando no quanto gastaria com hotel, gasolina, pedágio, jantar etc., imerso em minha mesquinharia de garoto inseguro que tem medo de abrir o bolso e, por consequência, o coração. Enquanto eu pensava, ela fazia. Ora, a mulher já estava pesquisando pousadas e me falando preços e detalhes dos quartos. Enfim, respondi: “Quer saber? Vamos!”

Costumo dizer que a cura, na terapia, advém da personalidade do terapeuta. É por isso mesmo que o terapeuta não pode se dar ao luxo de ser terapeuta apenas quando entra em seu consultório. Ele é sempre terapeuta, pois sua maior ferramenta de trabalho é a sua personalidade. A personalidade da Adeline me curou de muitas mesquinharias da minha alma. Ela foi a minha terapeuta. Isso aconteceu porque a admirei desde o início. Outro ponto crucial para que a terapia funcione: a admiração do paciente pelo terapeuta e o coração aberto do terapeuta para acalentar o sofrimento do paciente. Essa admiração é quando o “santo bate”, é quando há conexão entre ambas as partes. Ora, eu poderia ser Freud na sua frente, deter todos os conhecimentos da psicologia etc., etc., porém, se você paciente olhasse para mim e intuísse em seus pensamentos algo como “esse Freud é um bosta!”, de nada adiantaria os meus conhecimentos livrescos.

Ao olhar para aquela mulher, enxerguei as minhas misérias e percebi que precisava abrir o coração para a vida real. Foi isso o que aconteceu! Ela expandiu o meu coração. Lembro-me de nós dois, em nosso primeiro inverno, lá em casa, embaixo das cobertas, assistindo Irmãos à Obra e tomando chá. Dois idosos felizes. Com a Adeline descobri que é possível morar com uma mulher a ainda ser feliz. Antes dela, após ter morado com outras, concluí de maneira ressentida: “Não é possível morar com uma mulher e ser feliz.” Meus relacionamentos sempre chegavam em um ponto no qual a convivência ficava pesada, tensa, laboriosa. A vontade de estar com elas simplesmente esgotava-se na imensidão da rotina e o único argumento que nos segurava era a covardia de terminar. Eis um aprendizado fundamental sobre relacionamento: ele precisa ser leve, pois a vida já é muito pesada.

Meu pai, um eterno apaixonado — não é à toa que o homem é sanguíneo puro —, sempre me disse, desde que me conheço por gente: “Filho, um dia você vai encontrar uma paixão que não vai acabar.” Era nítida a ânsia de meu pai para que eu encontrasse o que ele encontrou. Ora, ele encontrou a minha mãe, a responsável por salvar sua circunstância. Hoje eu entendo o que ele quis dizer. A Adeline é a paixão que não acabou, mas foi mais longe, se transformou em amor. Quanto mais convivo com ela, mais quero conviver. Quanto mais a conheço, mais quero conhecer. É impressionante! Não me enxergo mais sem essa mulher. E, por isso mesmo, envelhecerá comigo, mesmo que ela não queira. Às vezes entendo os obsessivos. O que seria de mim sem minhas obsessões, não é mesmo?!

No dia de lançamento do meu terceiro livro, o Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho, falei, em tom cômico: “Se um dia a Adeline cometer o erro monumental de terminar comigo terei que jogar este livro fora!” Mas é claro! Ela está na capa, no verso, na dedicatória, nos textos, no meio e no fim. De que adiantaria essa obra na minha biografia se a inspiração — que é ela — me mandasse para aquele lugar? Mas ela nunca faria isso… eu acho. Imagino ela rindo ao ler este parágrafo. Eis aí um dos motivos que me fez ficar de quatro por essa mulher: seu maravilhoso senso de humor. Ela ri. Ela conta piada. Ela enxerga a comicidade das coisas. Ela faz com que a vida seja leve. E agora, matutando aqui, eu sei de onde vem a força da personalidade dela: da verdade. Ela é de verdade! Foi isso que me encantou desde a primeira vez que a vi. Ela não era a mulher da pose, ela tem horror à pose. Está aí o motivo pelo qual estamos juntos: a gente é de verdade. Eu posso ser eu e ela pode ser ela. Sem poses! Olha aí mais uma de minhas obsessões: a verdade.

Esta crônica será postada no dia do aniversário da Adeline, dia sete de junho. Já prevejo aquela moça ressentida, com nove gatos em casa, sentada em seu sofá confortabilíssimo, esbravejar para a solidão: “Ai, que brega! Textão romântico para a mulher no dia de aniversário dela. Me poupe!” Primeiro, isso que você acabou de ler não é um simples “textão” de Facebook movido a ressentimento e cheio de erros gramaticais, é uma crônica, e muito bem escrita. Mais respeito, por favor. Segundo, admito! Sou um romântico mesmo. O que seria da vida sem seus romantismos cotidianos? Lhe digo: seria preta e branca, sem brilho e insossa. O que nos resta é o romantismo, pois, para mim, o meu romantismo é a percepção claríssima de que a Adeline é muito melhor do que eu e, justamente por isso, preciso cuidá-la para que se preserve até à eternidade. E, antes que eu me esqueça: feliz aniversário, amor da minha vida.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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