O HOMEM DO CANTO

Estes dias, enquanto estava numa sessão com um paciente, de súbito, emocionei-me. Enchi os olhos de lágrimas ao deparar-me com um ser humano que tentava falar suas angústias e as frases saíam pela metade. O raciocínio era cortado, tolhido, ceifado. Era nítido o turbilhão de sentimentos que estavam dentro daquela alma ansiosa, que mexia a cadeira e a cabeça para lá e para cá de maneira repetitiva e obsessiva. Era o seu corpo urrando: “Eu preciso desabafar, mas não consigo!” Nós podemos até mentir com as palavras, mas, com o corpo, dificilmente.

Emocionei-me porque sou humano e consigo perceber a dor lancinante de não conseguir se desarmar. E não é só isso, mas o “como” se desarmar. Os pensamentos — e os sentimentos —, na cabeça de alguém que não os libera com uma certa frequência, tende a ser confuso, ambíguo, antagônicos, enfim, são caóticos e tendem a levar qualquer um à angústia e à ansiedade. Quando digo aqui, de maneira repetitiva, que a escrita me salvou, não é uma simples metonímia, é uma verdade ululante sobre a minha vida.

Ora, sempre fui o homem do canto — não do verbo cantar. Aliás, bem que eu poderia ter sido um bom cantor, se não fosse por um detalhe quase insignificante: a voz. Mas deixe-me voltar aos outros cantos. Os centros das salas deixavam-me desconcertado, incomodado e tenso. O meu negócio era não chamar a atenção. O lugar perfeito era a minha alcova, leia-se: meu quarto. Nas conversas, eu era um túmulo. O máximo que saía de mim, era uma risadinha com o canto dos lábios. E tomar à frente em algumas situações? Deus que me livre! Nunca! Melhor ficar no meu canto. Na escola, quando a professora proferia o substantivo “Guilherme” em alto e bom tom, meu coração disparava, as mãos suavam e a respiração ofegava. O raciocínio se perdia devido ao pouco oxigênio no cérebro, e era como se o Guilherme se transformasse em algo que não era ele.

Alguém poderá objetar: “Antissocial!” Antissocial uma ova! Eu sempre quis falar. Eu sempre quis tomar à frente. Eu sempre ansiei por falar para as multidões. Eu sempre quis participar das discussões e do meio social. O que me impedia, no fundo, era o pensamento mesquinho e ridículo do “o que os outros vão pensar de mim?”. Leitor, tome nota: a timidez, nada mais é, do que achar-se especial em demasia. E, por achar-se a última bolacha do pacote, você se cobra com a régua da perfeição; você precisa da aprovação dos transeuntes; você precisa superar as expectativas de todos os presentes. Mas, como diz meu pai: “Nem Jesus, que era o homem perfeito, agradou todo mundo. E ainda pregaram o magrão na cruz!” “Magrão” é o apelido carinhoso que meu pai usa para se remeter ao Messias.

Por isso eu invejo descaradamente aquele sujeito cujo pensamento sai por sua boca sem floreios, sem divagações, sem a dúvida crudelíssima que invade os corações dos melancólicos: “Mas o que os outros irão pensar de mim?” Melancólicos, uni-vos! Os coléricos só pegam os melhores cargos nas empresas, as melhores mulheres na balada, as melhores oportunidades na vida, por berrarem ao colocarem seus ovos. Mas digo-lhes, melancólicos, nossos ovos são melhores que os deles — por sermos mais profundos —, mas precisamos berrar e mostrar os nossos ovos. Talvez tenha ficado estranho esta analogia com ovos. Paciência. Você nunca ouviu falar na história da galinha e do pato? Outro dia eu conto. Além do mais, podemos nos unir aos fleumáticos, que também são oprimidos pelos coléricos. Também podemos trazer os sanguíneos para o nosso lado. Nos tornaremos imbatíveis. Espero que o meu leitor tenha se atentado para a ironia deste parágrafo. Trata-se de uma anedota, mas nem tanto, nem tanto.

Falaremos sobre os quatro temperamentos em outras crônicas. Eis o que eu queria dizer. Agora o leitor já percebeu o porquê a escrita me salvou e ainda me salva. O que o homem do canto poderia fazer para colocar para fora seu caos interno cujos pensamentos são carregados de sentimentos? Escrever, escrever e escrever. Era o que me restava. Hoje, quando me deparo com pessoas, principalmente jovens, que têm esta dificuldade de se expressar, me enxergo neles. Por isso emocionei-me com o meu paciente que tentava desabafar pela fala, mas não conseguia. Era paralisado por uma resistência imposta pela sua própria psique. Sua própria psique não lhe dava a concessão de um mísero alívio, de uma mísera lágrima, de uma mísera frase. São em casos como este que tento oferecer outras formas para o paciente se expressar, como a escrita, por exemplo. Peço que escreva uma autobiografia, separando sua vida em marcos fundamentais e, que descreva, em cada marco, momentos dos quais acredita que formaram sua personalidade.

Funciona. Para os homens do canto é uma possibilidade de organizar o caos interno e passarem a entender por que diabos chegaram aonde chegaram; é uma possibilidade de saírem da caverna, aquela mesma caverna que Platão nos falava séculos antes de Cristo. Ora, nascemos presos no fundo de uma caverna escura, na qual tem uma fogueira que projeta uma luz nas paredes e então se inicia aquele efeito de luz e sombra. Isso é uma projeção (manipulação) da realidade, mas não é a realidade de fato. Isso é uma pseudoverdade, mas não é a verdade. Na época de Platão, os manipuladores eram os sofistas. Hoje, são os ideólogos que tornam a realidade confusa e relativa, desorientando boa parte das pessoas, que acabam numa vida sem sentido e sem esperança. E, enquanto ficarmos dentro desta caverna, seremos manipulados e sofreremos com as neuroses.

A nossa redenção se inicia quando percebemos que há de fato uma salvação, há de fato uma verdade, há de fato algo imutável e perene que podemos nos agarrar para todo o sempre. Entretanto, a subida do subsolo da caverna até sua superfície é dolorosa e cheia de obstáculos. Mas eis que você, de maneira voluntária, resolve enfrentar esta subida. Aqui é o início da terapia! Aqui é onde os homens dos cantos e das cavernas, de maneira consciente, anseiam pela luz do sol, anseiam pela vida real, anseiam, no caso dos homens dos cantos, pelos centros das salas, e perseguem com afinco estes anseios.

Nós precisamos nos atentar que somos bichos intermediários, ou seja, estamos entre a glória de Deus e entre a crueldade dos animais. Estamos no meio. Aqui, temos duas possibilidades: subir ou descer. Descer significa almejar pelo fundo obscuro da caverna; significa jogarmos fora a nossa possibilidade de escolha; significa nos rendermos às nossas paixões e nos tornarmos escravos dela; significa nos tornarmos, de fato, bichos. Mas também podemos subir. Eis a nossa salvação. Subir significa ascendermos a um patamar de humanidade; significa nos ajoelharmos diante de uma dimensão superior da alma; significa a busca pela verdade e pelas virtudes; significa nos tornarmos mais próximos de Deus. Enfim, é isso o que resta, não somente para os homens dos cantos e das cavernas, mas para todos aqueles que possuem um coração que pulsa.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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