O CASAL DE MEIO SÉCULO

Como chegar nas bodas de ouro? Cinquenta anos ao lado de alguém; alguém que lhe conhece desde a casca até as entranhas. Confesso a você, leitor, que quando me deparo com um homem e uma mulher cujo tempo de convivência ultrapassa o meio século, encanto-me. Ora, estou diante de um milagre! E ratifico: quanto mais avançamos na modernidade líquida — onde nada é feito para durar, nem mesmo o amor —, maior é este encantamento quando nos deparamos em nosso dia a dia com este milagre monumental: o casal de meio século.

Conversava com minha noiva, neste final de semana, sobre as nossas bodas de ouro. Será eu um ingênuo ao fazer planos tão distantes do presente? Para chegarmos às bodas de ouro, precisamos viver até os nossos oitenta anos. Ano que vem casaremos, ano que vem eu faço trinta anos. Trinta mais cinquenta, se não me falha a lógica, o resultado é oitenta. Ano que vem será 2022. Acrescentando mais cinquenta anos, nossas bodas de ouro acontecerão lá em 2072. Imagine, leitor, como estaremos em 2072. Talvez estaremos ainda mais afogados em toda esta liquidez. Relacionamento aberto será a regra, não a exceção. Qualquer um que ousar casar será defenestrado; sofrerá bullying; será visto como um retrógrado, inimigo da modernidade. As crianças serão feitas em laboratórios; seremos movidos a remédios cujo efeito será a “felicidade”. Enfim, este cenário catastrófico não foi criado por mim. Leiam Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

Eis o que eu queria dizer. Como chegar nas bodas de ouro? Eu e minha noiva, neste final de semana, participamos do Curso de Noivos, requisito básico para todos aqueles casais católicos que pretendem alcançar o sacramento do matrimônio. E é óbvio que as pessoas que ministraram o curso, não poderiam ser defensores do relacionamento aberto. Não orna! — como dizem os paranaenses. É como se um Judeu tatuasse em seu peito a suástica em homenagem ao nazismo. Então, cada um que se dispusera a falar para nós, jovens casais, no mínimo, conquistara as bodas de prata. Com exceção do padre. Aliás, mentira! O padre casou-se com a igreja.

À força de repetição, falavam-nos sobre a importância de se construir o relacionamento sobre a rocha, e não sobre a areia. Este é o segredo dos casais de meio século. Eles constroem seus edifícios de amor sobre a rocha. “Tá, Guilherme, mas que rocha é essa?” Eu poderia responder: o amor! Mas vai além disso. Há algo que representa de maneira perfeita e personificada este amor: Jesus Cristo. Sim! Esta é a rocha sobre a qual devemos iniciar a construção. E, pensando bem, nunca conheci um mísero casal de meio século que não fosse, no mínimo, cristão.

Talvez você indague: “Mas por que Jesus? Por que o catolicismo?” Como disse anteriormente, o matrimônio se trata de um sacramento. Isto, pra quem é católico, possui um valor que vai além da mera troca de alianças e uma mudança de status perante à sociedade. Todo sacramento é uma maneira de elevar o seu Ser para perto dos céus. Ao inserir a aliança no dedo de sua mulher, você jura, diante de Deus, que será até à morte. Vou ainda mais longe, pois, como dizia Nelson Rodrigues, o amor continua além da vida e além da morte, ou seja, é para a eternidade. Você olha para a sua mulher no altar e promete que fará de tudo para que ela chegue aos céus. Após o matrimônio, dois se tornam um: a mesma carne, o mesmo sangue. Não há volta. Não há troca. Não há devolução.

Chego a ficar arrepiado ao dar-me conta do significado monumental que há no matrimônio. Por isso que o amor é para os corajosos. Qualquer um que entender verdadeiramente o valor deste sacramento será um bom par. Entretanto, conforme citei no primeiro parágrafo desta crônica, estamos na modernidade líquida, onde você tenta agarrar o amor, mas ele escorre entre seus dedos. Nada dura, nada é feito para durar. Cada um prefere se amar, cada um prefere se bastar. E, deste modo, não há possibilidade alguma de chegar sequer às bodas de bronze — existe isso? Todavia, por vivermos na cultura do espetáculo, os poucos que casam, ao realizar o matrimônio, não se dão conta do que de fato estão fazendo. Casam para aparecer. Casam para agradar os pais. Casam porque é socialmente aceito. Casam por vaidade. Casam para mostrar a todos o quanto se “amam”.

E então, após três meses, um ano ou cinco anos, separam-se. Algo que era para ser até à morte, não dura uma década. Ora, mas é claro: pois apesar de casarem pela igreja, seus corações não estavam no sagrado, mas no profano. Isso significa que em vez deles construírem uma relação sobre a rocha, eles a constroem sobre a areia. O destino inevitável deste relacionamento será a cova. E grande parte dos homens e mulheres que me procuram para ajudar-lhes em seus anseios amorosos, “construíram” seus relacionamentos sobre a areia. São aqueles relacionamentos que não acontecera sequer um pedido de namoro ou casamento, o casal simplesmente se acostumou com a companhia um do outro e assim foram deixando as coisas acontecerem. Não há visão de futuro; não há consciência de seus papeis dentro da relação; não há conhecimento do que de fato significa um casamento; enfim, o que sobra são duas pessoas desorientadas morando sob um mesmo teto, que passam a desacreditar nos casais de meio século.

Mas agora chega de moralismos por aqui. Não sou santo e talvez nunca serei. Sou um pecador da pior espécie buscando uma vida de virtudes. E acredito, que até os casais de meio século, têm lá seus pecados. E como não teriam? Houve um momento no curso de noivos, no qual assustei-me. Adivinha qual? Sim. Ao falarem sobre a relação sexual dentro de um casamento. Ao descobrir que o onanismo é proibido, entristeci-me. Proibir a pornografia, eu entendo, aquilo destrói homens e mulheres incautos, mas proibir a masturbação? Isso aí já é sacanagem! Mas as proibições pioram. É proibido tocar nos órgãos genitais do parceiro, tanto com a boca, quanto com as mãos, se a finalização deste ato resultar em lençóis e bocas melecadas. A finalização precisa sempre ser dentro da caverna. Ah, mais um detalhe importante: só podemos usar uma caverna. Aquela outra que você, homem, está pensando, aquela que você anseia há tempos, aquela que sua mulher lhe prometera para a lua de mel, é proibido entrar.

Espero que você, leitor tarado, entenda minhas explicações didáticas. Mas as proibições não são de todas ruins. É proibido greve de sexo! Sim, homem que me lê. Quando sua mulher quiser lhe punir com greve de sexo, lembre-a que é pecado. E, antes que eu me esqueça, o sexo, no casamento, deve ser um ato de amor. Isso significa que não pode haver violência, não pode haver sufocamentos, tapas, puxões de cabelo e etc. Isso também me frustrou um pouco. Ora, nem sempre estamos para o amor, às vezes a situação concupiscente demanda uma certa dose de selvageria. Ou será que sou eu que afundei-me por tanto tempo na luxúria, que agora adquiri a capacidade do sexo sem amor? Pode ser, pode ser.

Sexo sem amor você faz com qualquer uma por aí, menos com sua esposa. Com a esposa deve ser amor puro. Eis o problema fundamental: às vezes a esposa gosta de apanhar. E agora? Será que ela também viveu por muito tempo na luxúria? Há um personagem num conto de Nelson que dizia: “Quando amo, não desejo. Até hoje, não dei um beijo na boca da pequena.” Ele não entendia que alguém pudesse desejar o ser amado. Pensava, por outras palavras: “Todo desejo é vil. Desejo qualquer vagabunda, menos a minha noiva.” Há uma verdade nestas palavras, assim como quase toda literatura de Nelson, mas deixemos para outra crônica.

Pergunto-me ainda sobre os casais de meio século: como chegaram lá? Sabemos que eles estão sobre a rocha, e sabemos também que não são santos. Agora atentei-me a algo: a igreja nos dá um modelo ideal de vida a dois. É claro que, por sermos pecadores, não alcançamos este ideal, mas também não o perdemos de vista. Este é o ponto nevrálgico desta crônica: apesar de sermos uns desgraçados, é importante não perdermos este ideal de nosso horizonte de consciência, pois isso faz com que não desacreditemos no amor, não desacreditemos um no outro, por mais pecadores que possamos ser. Nenhum casal de meio século vivera cinquenta anos num mar de rosas, sem xingamentos, sem brigas, sem adentrarem em outras cavernas. Gostei do termo “cavernas”.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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