DO PÓ VIESTES, AO PÓ VOLTARÁS

Há tempos escrevi uma crônica sobre uma ida no cemitério com minha mulher. Aliás, fora uma das melhores crônicas que já escrevi. Hoje, volto-me ao cemitério e, graças a Deus, vivo. Um dia irei ao cemitério para não voltar, mas espero que tal dia demore a chegar. Ora, tenho apenas 29 anos, ainda não casei, ainda não tenho filhos e, muito menos, netos. Os mais antigos diziam que precisamos fazer três coisas essenciais antes de batermos as botas: gerar filhos, para que você passe o seu gene adiante; plantar uma árvore, para fincar o seu legado na terra; e escrever um livro, para deixar a sua marca na história.

Bem, ainda não tenho filhos — e não está sendo por falta de tentativas; nunca plantei uma árvore sequer, no máximo cuido de uma mudinha lá de casa, dando-lhe água toda manhã; o que me salva, neste momento, são os livros. Escrevi três. Imagino meus bisnetos os lendo e constatando, lívidos de raiva: “É sério que nosso bisavô tinha este pensamento retrógrado e patriarcal? Ui, que nojo!” E então, meu neto, pai deles, diria: “Meus filhes, entendam que eram outros tempos. O vovô era um homem inteligente para a sua época.” E meus bisnetos revolucionários responderiam: “Desculpa, papai, mas elu não era inteligente com um pensamento destes.” Será eu um ingênuo em pensar que terei bisnetos?

Mas eis o que eu queria dizer. Há tanto a se fazer antes de me colocarem em um caixão rumo à eternidade. E ontem, quando fui ao cemitério com minha mulher e minha cunhada para limparmos o túmulo do pai delas, observei atentamente os mortos — não, eu não vejo gente morta. Na verdade, eu olhava para aqueles milhares de túmulos e imaginava aquelas pessoas em vida, cada uma com sua narrativa, cada uma com suas idiossincrasias. Mas a parte triste não era imaginar-lhes em vida, era deparar-me com túmulos de jovens. Ah, isso é de cortar o coração. Eu olhava na lápide e lá estava a foto de um jovem, reluzente de vida, mas, a um metro e meio abaixo de mim, restavam apenas seus ossos. Eis a única certeza da vida: a morte, os ossos e o túmulo.

Deus sabe o que faz. Entretanto, o que eu sei e senti ao atentar-me para aqueles jovens enterrados, foi um sentimento de “não era para acontecer”. É como se o filme acabasse no meio. Sabe quando você está em casa, assistindo, empolgadíssimo, a um filme e, no paroxismo da história, falta luz? Então… ora, cadê o final? O herói ainda estava no meio do caminho, no meio da jornada. Há tantas coisas que precisam ser esclarecidas. Mas acontece que não há final, apesar do nosso desejo profundo de que precisa haver um final. Para os cristãos, a vida não acaba aqui, talvez para o seu corpo físico, mas não para o seu espírito. O seu espírito irá para a eternidade. É isto o que acalenta os corações dos entes que ficam. “Do pó viestes, ao pó voltarás.”

Mas, como eu ia dizendo, fomos ao cemitério para limparmos o túmulo do meu sogro. De súbito, observei um girassol em cima daquela pedra de mármore. Eu que passei as duas últimas semanas, repetindo, feito um obsessivo, a frase do Italo Marsili: “Seja este girassol que brota, nesta rua de desatenção, desta vida vulgarmente cotidiana.” Minha cunhada que havia colocado o girassol na última vez que visitara o pai, porém, para mim, aquilo já era um milagre. Como dizia Nelson: “Deus está nas coincidências.”

Continuamos a limpeza. Ao esfregar o pano contra aquele túmulo feito de mármore, me veio aos pensamentos um ensinamento no qual aprendi na catequese: a importância da pedra. Por que os túmulos e os altares das igrejas são feitos de pedras? Porque a pedra representa algo que dura, algo que não se decompõe com as intempéries, com as marcas do tempo. Podem passar milhares de anos e lá estará o túmulo e o altar, incólumes, salvos, inatingíveis. Eles se eternizarão na história de maneira bruta, física, existente, muito mais que um livro, o qual se degrada facilmente; muito mais que uma árvore, cujas raízes se desprendem da terra ao lutar contra uma tempestade; muito mais que um ser humano, oh, tão frágil humano, que é decomposto por vermes em sete dias após o óbito, restando-lhe apenas os ossos, dentes, unhas e uns escassos fios de cabelo.

Bem, não somos feitos de pedra. O que nos resta diante de toda nossa fragilidade material? A vida espiritual. Estes dias ouvi uma frase que marcou-me nas entranhas: “Quem não tem planos para a outra vida, já está morto.” Pois é óbvio: a vida é um sopro, você é frágil, você quebra, você fica doente, você vai perecer e apodrecer. A nossa esperança, como citei anteriormente, é a vida espiritual. E esta vida espiritual começa aqui, nesta existência vulgarmente cotidiana. O “ter planos” para a outra vida, ou seja, para a vida eterna, significa agir agora diante do sofrimento e da malevolência do mundo. E este “agir” deve estar direcionado ao bem, à verdade e ao amor.

Depois que compreendi estes tesouros, minha vida encheu-se de significado e sentido. Ontem, ao irmos na missa, observava cada rito, cada passagem, cada movimento, cada objeto, cada fala, cada palavra, os cantos, as leituras, a eucaristia, as orações, as intenções. Enfim, observava tudo de maneira atenta e abnegada, com olhos rútilos de admiração, pois agora entendo o significado da maior parte destes atos. Eis o ouro: quanto mais conheço, mais amo; quanto mais significado, mais sentido. Nunca esquecerei de uma frase do meu catequista, na primeira aula da catequese: “Vocês estão aqui para conhecer a Deus, pois não há como amar algo que não conhecemos.”

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