“NADA É ERRADO SE TE FAZ FELIZ”

Na última crônica, quase fui cancelado por adultos gamers, moleques viciados em pornografia e homens barbados que são fãs da série Friends. Hoje, talvez, eu seja cancelado por fãs de sertanejo universitário, fãs de Bob Marley ou por qualquer um que viva proferindo frases vazias por aí como se fossem as palavras mais profundas que a humanidade já leu ou ouviu. Já adianto: não, não são!

Este meu preconceito justificado vem desde a época da lei do desapego. Querido leitor, você lembra disso? Eu ainda tinha os meus dezesseis ou dezessete anos e já percebia o óbvio. O sertanejo universitário passou a dominar todo o cenário musical com músicas e artistas idênticos. As letras, em sua grande maioria, traziam toda essa roupagem de bebida, sexo, desapego, traição e baladas. Os artistas usavam camisetas xadrezes, calças justíssimas e botinas de fazendeiro. Sem falar que todos tinham o mesmo corte de cabelo. Eis o que eu queria dizer: o óbvio!

E que óbvio seria este? Essa moda do desapego, inevitavelmente, acabaria com pessoas proferindo frases como: “Só eu me basto!”, “Não preciso mudar para agradar ninguém”, “Se faz sentir faz sentido”, “Que a felicidade vire rotina”, “Não é orgulho, é amor próprio”, “Seja o amor da sua vida”, “Amor incondicional só o amor próprio”. Chega, né? O sertanejo universitário, com toda aquela roupagem de desapego, produziu pessoas narcisistas a ponto de dizerem tais frases sem sentirem um mínimo de vergonha alheia, mas pior, elas expressam isso com um orgulho monumental, como se fosse bonito ser feio. Não, não é!

Cito o sertanejo universitário, pois foi quando percebi este movimento narcísico surgir. Óbvio que se algum sociólogo estudar a fundo este movimento do desapego, irá reparar que isso começou na década de sessenta, com a invenção da pílula anticoncepcional — história para outra crônica. Entretanto, para o Guilherme magricelo e cabeçudo, o marco do desapego aconteceu nos idos de 2007. Por aí. Lembro-me de levar o violão para as festinhas dos amigos e ser rechaçado ao tentar tocar Raimundos, Matanza, Mamonas Assassinas, Engenheiros do Hawaii e Legião Urbana. Me obrigavam a tocar sertanejo universitário! E eu tocava, óbvio. O que um jovem de dezesseis anos não faz para beijar um lábio feminino? O triste era tocar aquelas porcarias e acabar a noite sem tocar em nenhuma mulher. Era como se prostituir e não receber nada por isso.

Qualquer homem que toca violão e está lendo esta crônica, sabe o quanto dói escutar e tocar músicas de qualidade para chegar em um churrasco e a galera pedir tche tcherere tche tche, do Gusttavo Lima. Nunca esqueço de certa vez, quando eu e meu primo — este primo toca de Led Zeppelin a Stevie Ray Vaughan com uma técnica invejável; o cara é um músico de mão cheia — estávamos lá em casa num churrasco. Eis que nos pedem para tocarmos alguma coisa. Nos encaramos, lívidos. Já sabíamos o que viria a seguir: teríamos que nos prostituir. Eis que alguém grita: “Toca ‘Fotos’, do Victor e Leo!” Chorei por dentro ao ver o meu primo iniciando tal melodia. “Joguei fora fotos de nós dois…” Escrevo este parágrafo chorando de tanto rir. A lembrança de ver meu primo com todo aquele estilo “rockeiro melancólico” sendo obrigado a tocar Victor e Leo, não tem preço.

Acho que estes eventos me traumatizaram. Por isso a minha birra com o sertanejo universitário e toda essa moda do desapego e amor próprio. Mas calma lá um pouquinho! Não é porque isso tudo é uma birra minha, que não tenha um mísero fundo de verdade. Sejamos sinceros. Há uma verdade e um problema aí! Primeiro o problema: as pessoas começaram a usar essas letras como filosofias de vida. E agora a verdade: a verdade é que todo mundo que vocifera amor próprio pra lá, desapego pra cá e segue esta filosofia de maneira cega, não sabe bulhufas do que está fazendo, e tende a terminar sozinho, lambendo as próprias feridas. Pronto! Falei! Não me cancelem!

Se você ama sertanejo universitário, não se irrite comigo, estou aqui para ajudá-lo. Mas eis o que eu queria dizer. A frase que me motivou a escrever esta crônica não veio do sertanejo universitário — o Gusttavo Lima foi um acidente de percurso. Ela veio de um dos maiores nomes do reggae mundial: Bob Marley. “Nada é errado se te faz feliz.” Eu imagino o Bob, lá na Jamaica, no pôr do sol, na beira da praia, com aquela energia positiva, rodeado de amigos, sentido a brisa lufar sua face, passando um baseado de maconha para o próximo da roda. Eis que o bendito Bob diz a máxima triunfal: “Galera, pega essa: nada é errado se te faz feliz. Uhul!” Os amigos vão à loucura com tamanha genialidade. E a frase se espalha pelo mundo e passa a ser usada como filosofia de vida.

Eu imagino Jack, o Estripador, com aquele sorriso de orelha a orelha, ao estripar suas vítimas, pensando: “É isso! Nada é errado se me faz feliz.” Pesado, né? Vamos trazer para o nosso cotidiano! O político que desvia o dinheiro da saúde para o próprio bolso; o homem que trai a esposa; a garota que vai para balada e se afunda em drogas. O que todos estes casos possuem em comum? Todos eles queriam sentir a felicidade, independente das consequências. “Ora, ser feliz é o sentido da nossa vida, não é?” Pergunto-lhe: o que é a felicidade? Bob Marley e Gusttavo Lima não são os melhores que me vem à mente para responder tal indagação.

Para responder algo filosófico, é preciso de um filósofo. Que tal Aristóteles, um dos maiores de todos os tempos? Aristóteles disse, na sua época, que a finalidade do homem é o sumo bem, ou seja, a felicidade — mas calma, não é a felicidade da qual Bob se refere. A verdadeira felicidade só pode ser alcançada por meio de uma vida virtuosa. E virtude não se compra e não se vende, pois trata-se de um esforço da alma humana em fazer ações virtuosas, tornar isso um hábito e então formar um bom-caráter.

Lhe pergunto, leitor: quem você quer ser? Pelo que você quer ser lembrado? Já imaginou chegar no fim da sua vida e, ao olhar para a sua história, não ter nada pelo que se orgulhar, mas, pelo contrário, percebe que durante toda sua jornada você desapegou-se de todos que lhe queriam o bem, pensou apenas em si mesmo na maior parte das vezes, não se doou por ninguém, traiu pessoas que confiavam em você, viveu uma vida de vícios ao invés de virtudes, enfim, tornou-se um mau-caráter que acreditou numa felicidade vazia e sem sentido.

Fui longe demais, né? Estou me sentindo mal. Vou ouvir um Bob Marley para relaxar.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

2 comentários em ““NADA É ERRADO SE TE FAZ FELIZ”

  1. Gente mau caráter encontra sempre um motivo nos outros para sê-lo. Não fosse o Bob Marley, a desculpa seria a mesma. Há gente que relativisa o mau caratismo: “Dependendo das circunstâncias, qualquer um é capaz de fazer qualquer coisa”. Mais um exemplo da falta de auto-responsabilidade. A culpa é das circunstâncias, entende? Enfim… Todo mau caráter se acha, antes de mais nada, um inocente, uma vítima das pessoas e das circunstâncias. Patético!

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