PLAYSTATION, FRIENDS E O TESÃO DA MULHER

Vendi meu Playstation 4. Sim. Um dos últimos resquícios de infantilidade aqui de casa, se foi. Agora só falta eu. Digo isso, pois todo homem carrega em si alguma infantilidade. É só reparar quando amigos homens se encontram por aí nos botecos, nas farmácias, nas esquinas, nos mercados. As mulheres muitas vezes não entendem de onde saem tantas besteiras e brincadeiras “ridículas” — ridículas segundo elas. É isso, mulheres: há uma parte da alma masculina que é pueril, que deseja ser a criança ridícula da infância.

Escrevo isso e sinto que estou ofendendo alguém cuja idade é trinta anos ou mais, mas que ainda joga videogame. Calma, deixe-me terminar a crônica. Este pensamento de vendê-lo ocorreu-me num sábado qualquer, ao finalizar uma partida de PES (Pro Evolution Soccer) — jogo de futebol —, no meio da tarde, e perceber o óbvio: “Isso aqui é muita perda de tempo.” Eu tenho tantas coisas mais importantes e valorosas para fazer, e vou ficar aqui, sentado mais de uma hora, controlando bonequinhos de mentira? A sensação só não foi tão ruim quanto chegar ao clímax sentado em frente ao computador, com a bermuda nos calcanhares, com a mão direita melada e com dezenas de abas de sites pornográficos abertos.

Todo homem que já passou por tal situação, sabe exatamente do constrangimento que estou falando. Você olha para todas aquelas abas abertas e é acometido por uma desesperança avassaladora. Imediatamente você, considerado um onanista profissional, fecha todas as abas e fica a pensar: “Por que diabos eu fiz isso? Ora, eu tenho mulher, tô com trinta anos, daqui a pouco serei pai, tenho um trabalho onde pessoas dependem de mim… cacete! Sou um adulto, não um adolescente punheteiro!”

Mas deixe-me voltar ao Playstation. Raramente eu jogava e, quando jogava, era no sábado ou no domingo à tarde. Uma hora de jogatina. Eis que aquele pensamento acometeu-me na véspera e pensei em vendê-lo. Além do mais, estou prevendo muitos gastos ali adiante: lançamento do meu novo livro e casamento em fevereiro do ano que vem. Dois mil reais serão bem-vindos, ô se serão! Entretanto, este fora só um pensamento. Eu não havia tomado a decisão definitiva: “Vou vendê-lo!”

Passou-se mais uma semana e resolvi aproveitar que estava sozinho em casa — a mulher havia ido fazer a unha — e jogar mais uma horinha. Me estirei naquele sofá maravilhoso e iniciei a jogatina. Eis que na última partida, a qual eu proferia insultos magistrais para bonequinhos virtuais, minha mulher aparece, quase como um fantasma. Ela me olha estirado no sofá, xingando uma ilusão e diz: “Nossa, amor, videogame é tão infantil, né?” Minha mulher, vez ou outra, é de uma sinceridade insuportável. Mas eu a entendo. Ora, chegar em casa e ver seu futuro marido, um marmanjo de 1,92 metros, de barba na cara, deitado no sofá, gritando com a televisão… não deve dar muito tesão, né?! Depois os caras não entendem por que o sexo diminui na relação. Ou você é adulto ou joga videogame, os dois não dá.

Neste instante tomei a decisão triunfal de vendê-lo. Logo que levantei, o tirei da tomada, o coloquei numa caixa e o anunciei no Facebook. O primeiro comprador tentou me dar um golpe. O restante queria fazer trocas. Me ofereceram até bicicleta ergométrica. Depois de uma semana apareceu alguém querendo de fato comprá-lo. Pesquisei sua vida no Facebook. Vai que é mais um golpe!? Mas neste caso, era impossível ser golpe. A foto do perfil era ele, com a esposa e com o filho pequeno. Se você tem uma foto como essa no perfil, inexoravelmente, você é uma boa pessoa. Fica aí a dica para os golpistas. E tem mais: este pai tinha uma boa cara. Sou bom em identificar índoles pela cara. Aprendi com minha mãe. Eu, se fosse agiota ou banqueiro, emprestaria dinheiro só pela cara do sujeito.

Enfim, vendi o Playstation 4 para um pai de família que iria presentear o filho de cinco anos. Bem, agora o videogame está nas mãos certas, nas mãos de uma criança que não tem uma única responsabilidade na vida. Inclusive, indico a todos os homens adultos que estão lendo esta crônica, a fazerem isso. Vendam seus videogames! Nós, homens, precisamos entender que se masturbar para pornografia e ficar horas jogando videogame, é coisa de adolescente. Isso só não é pior do que um homem adulto que assiste Friends. Esse aí não tem salvação.

Escrevi todos estes parágrafos tristes para chegar no paroxismo desta crônica: o tesão feminino. O tesão do homem é simples, como quase tudo em nós. A mulher, só por existir, já nos incita o desejo. A mulher passa por nós, desejo. A mulher nos dá “bom dia”, desejo. A mulher cruza as pernas, desejo. A mulher entra no mesmo ambiente, desejo. Porém, ai do homem que só existir por aí. Não basta sair troteando para tudo que é lado, dando “bom dia” para a mulherada. O máximo que ela irá pensar, é: “Que simpático.” Mas a simpatia não aflora o tesão da natureza feminina, infelizmente. Ouso declarar que talvez seja até pior. O homem que sorri de maneira contumaz, serve mais para amizade do que para o coito.

Homens do meu Brasil varonil, se vocês forem uns pamonhas nas suas vidas — daqueles que passam o dia inteiro assistindo pornografia, assistindo Friends e jogando videogame —, se vocês não se impõem nem em jogo de truco, se vocês não são destaques nem em concurso de feiura, sinto informar-lhes, mas vocês não excitam nem uma ninfomaníaca. Perceberam o óbvio ululante sobre o desejo feminino: não basta o homem existir! É preciso fazer algo com sua existência. O triste é saber que neste momento há milhares de homens pamonhas lendo livros sobre “Técnicas de como fazer sua parceira gozar em 5 passos”, ou “As 100 posições mais excitantes do Kama Sutra”, achando que assim, se tornarão atraentes para o sexo feminino. Iludidos.

Mulher nenhuma sequer vai tirar a roupa na sua frente, quiçá ir para o coito com um homem que é mais fácil sentir pena do que tesão. Há algo que vem antes disso tudo, e resume-se na sua personalidade. Imaginem a cena: a Anastasia Steele chega para entrevistar o Christian Grey. Ao abrir a porta de seu escritório, lá está o “galã”, estirado em um sofá, jogando videogame e tendo ataques histéricos de raiva porque seu bonequinho virtual perdeu a luta. Cinquenta Tons de Cinza nunca teria existido se Grey fosse este homem.

Então pergunto-lhe, o que faz de Christian Grey ser o Christian Grey? Ora, ele fez algo com sua existência, destacando-se da média. Fisicamente atraente, inteligente, misterioso, imponente, simpático… nem vou falar no quanto de dinheiro ele tem ou se o maldito é bom de cama, deixemos esta discussão para outra crônica. O que importa aqui é que Grey fez algo de valor com sua existência. Não é à toa que a Anastasia se entrega para ele a qualquer hora e lugar. A mulher parece a pia aqui de casa, anda sempre molhada. Ok, nem eu, nem você ou qualquer homem que ler esta crônica chegará perto do Christian Grey. Mas quem disse que você precisa ser ele? Venda seu Playstation, já é um começo.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

7 comentários em “PLAYSTATION, FRIENDS E O TESÃO DA MULHER

  1. Eu concordo integralmente com seu texto, mas…
    1) “quiçá ir para o coito com um homem que é mais fácil sentir pena do que tesão” – Há “homens” que abusam do coitadismo (“eu não sou ninguém sem você”, “se você me deixar, a minha vida acaba”, “sem você, minha vida não faz sentido”) para obter sexo. E há “mulheres” imaturas o suficiente para cair nesse papo. Ou será que há mulheres que sentem tesão em saber que se casaram com uma espécie de “filho”, que mal consegue comer sem a presença da “mãe”? 🤔
    2) As preliminares definitivamente não começam na cama. Elas conduzem até a cama (ou até a escada, até a cozinha, a piscina…).
    3) Venda o PS4 e compre um Xbox Series X. Pagando R$45,00/mês, tenha acesso à mais de 100 jogos. Ou faça melhor. Baixe um programa chamado Rewards Automator e ganhe pontos da Microsoft para troca-los pelo passe (na prática, é o mesmo que jogar sem ter que pagar os R$45,00/mês).
    4) Prefiro FIFA do que PES, mas já pensei diferente no passado.
    5) Gosto muito dos seus insights e do seu blog.
    Abs!

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      1. Ok, ok… Só para você ter ideia, eu jogo FIFA com as mesmas configurações de controle do PES (os botões de chute e cruzamento são invertidos). E o próprio FIFA reconhece isso ao ter a configuração alternativa de controle para o PES. Kkkkkkkkkk
        Abs!

        Curtido por 1 pessoa

  2. HAHAHAHA MUITO BOM! Não sei se o Playstation é a fonte ou 100% dos problemas, provavelmente ser um pamonha é o pior deles, rsrs. Rendeu boas risadas, valeu!

    Curtido por 1 pessoa

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