CHEIRO DE SEXO

Antes de tudo, a minha infância foi cheiro. Sinto que o meu primeiro contato com o mundo, foi pelo olfato. O odor de óleo diesel com tabaco que sentia ao abraçar meu pai, marcou-me na alma, pois isso significava o meu herói de volta para mim. Quando me deitava para dormir naquele frio da serra gaúcha, o cheiro de amaciante dos travesseiros e das cobertas enternecia-me. Era o amor de minha mãe posto em odores. Eu dormia sorrindo, acalentado de amor.

Quando passei a morar sozinho, ao chegar em meu apartamento, após um dia inteiro de trabalho, deitava-me na cama, entretanto, não havia o cheiro de amaciante em meus travesseiros e lençóis. Não havia cheiro algum. Era insosso. Cheirava a nada. Eu ainda estava aprendendo a lavar roupas. E todo jovem, em suas primeiras lavagens, se frustra com o resultado: roupas que nem fedem e nem cheiram.

Toda vez que isso acontecia, admirava cada vez mais a minha mãe e seu esmero com as coisas da casa. “Como ela conseguia deixar tudo tão limpo e agradável?” Parecia tão fácil para ela. Ela fazia tudo aquilo com uma naturalidade invejável. Ela assumiu seu papel de mãe e dona do lar. Bateu no peito, como quem diz: “Deixa para mim!”. Executava tudo com maestria: a limpeza da casa, a educação das crianças, toda a parte gastronômica e, principalmente, o amor incondicional para com seus filhos. Se tem algo pelo qual nunca poderei reclamar, é de uma falta de amor. Como eu fui amado! Aliás, sou até hoje. Esta é a função primordial, fundamental e essencial dos pais: amarem seus filhos.

Mas eis o cheiro que eu queria falar: o cheiro de sexo. Escrevi três parágrafos poéticos e líricos para então acabar em sexo. Mas ainda estou no tema que me propus desde o início: antes de tudo, a minha infância foi cheiro, principalmente, cheiro de sexo. O senti pela primeira vez, quando meu pai pediu-me para levar alguma coisa até o seu quarto. Ao adentrar no ninho de amor de meus pais, senti aquele cheiro forte, o qual, na época, não soube identificar — ainda bem. Ora, meus pais tinham acabado de fazer amor. E o cheiro estava no ar.

Com o tempo, como não sou bobo nem nada, percebi do que se tratava o tal odor. Meu irmão mais velho, quando levava suas namoradas lá em casa, toda vez que saíam do quarto, lá estava o bendito e maldito cheiro de sexo. Então, meu querido leitor, o sexo, para mim, foi cheiro antes de ato. Quando iniciei o ato, buscava o cheiro. E que cheiro maravilhoso! Eis aqui mais uma de minhas obsessões sexuais: o cheiro de sexo. Quem não gosta do cheiro de sexo deve se calar quando o assunto é sexo, pois gostar de tal cheiro é fundamental para compreender sobre o desejo da carne.

Quero ir ainda mais longe com minhas obsessões: nada se compara ao cheiro da fêmea, o cheiro original, que exala daquele lugar feminino de onde o desejo pinga. Carinhosamente, o chamo de cio. Ora, qual homem não enlouquece com tal odor? Aquilo evoca pulsões atávicas no corpo masculino. Você, homem que me lê, lembra-se quando o sentiu pela primeira vez? “Eu nunca mais quero sentir outro perfume.” Este foi o pensamento que me veio de imediato. Digo-lhe para você, leitora: nem o perfume mais caro da Dior supera o aroma do cio da mulher — o cheiro genuíno da fêmea. O que me deixa abismado são homens que preferem cheirar carreira de pó do que você-sabe-o-quê!

Outro fato que me deixa abismado, é este mito de que os homens são apenas visuais quando o assunto é sexo. Eles precisam ver a mulher, precisam acender a luz — por isso que muitos não funcionam com as luzes apagadas. Entretanto, isso não serve para mim. Aliás, ver é o de menos. O tato, o paladar, a audição e, principalmente, o olfato, são deveras mais essenciais do que a visão. Eu poderia ser cego para o sexo, contanto que os outros sentidos estivessem intactos. Contanto que eu pudesse cheirar o sexo, ouvir o sexo, lamber o sexo, tocar no sexo.

Vez ou outra eu vejo a mulherada se preocupando com estrias e celulites, com uns pneuzinhos a mais na barriga, com cravos e espinhas, com seus seios pequenos ou muito grandes, ou caídos. Digo-lhe, minha leitora, com sinceridade: Se o homem gosta de mulher, e gosta com todos os sentidos, não será uma celulite que o fará sentir menos tesão por você! É claro que a beleza física importa, mas tome cuidado ao se apegar apenas a isso. Mulheres que vão apenas por este caminho se tornam neuróticas, histéricas e, normalmente, não conseguem chegar ao clímax, pois sexo, para elas, é só pose.

Em conversas de homens, é muito comum quando algum deles enche o peito para falar: “Sabe a fulana, a mais gostosa da empresa? Peguei, mas o sexo não foi tudo isso. É muita pose e pouco sexo.” Suponho que isso aconteça quando a mulher esquece dos outros sentidos, pois para ela, sexo é apenas aparência, é pose, é visual. Ela esquece de gemer no ouvido do homem, esquece de falar sobre o seu desejo; esquece de tocá-lo, acariciá-lo; esquece de escutá-lo; esquece do que é o sexo de fato.

E o que é o sexo? Uma troca de fluidos entre os amantes. E é desta troca maravilhosa de fluidos que advém o cheiro característico do sexo. Este cheiro bendito e maldito, que fez parte da minha infância, que desde a primeira vez que o senti, gostei; responsável por inúmeras loucuras, loucuras boas, loucuras ruins; foi o meu início, foi o meu meio e será o meu fim. Então repito: o sexo, para mim, foi cheiro antes de ato.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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