O CANALHA DESONESTO

Na última crônica, contei em detalhes o dia em que quase faleci. Isso me fez lembrar de outra vez em que quase bati as botas. Esta história envolve sexo, traição e ciúme possessivo. Se você tem menos de dezoito anos, é melhor parar de ler esta crônica por aqui, caso contrário, não me responsabilizo pela sua saúde mental.

Há uns quatro anos, eu estava em um namoro fadado ao fracasso. E por quê? Os detalhes são muitos — explico os pormenores no Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho —, mas, para resumir, ela era insegura ao extremo, e isso resultava em um ciúme obsessivo. Não havia um dia sem discussões. Eu entrava em casa e pisava em ovos. Houve um tempo em que eu preferia fazer hora extra no trabalho do que voltar para casa. Eis o porquê este namoro estava fadado ao fracasso. E foi o que aconteceu alguns meses depois.

Mas eis o que eu queria dizer. Nesta época, ganhei a oportunidade de ir em uma viagem pela empresa na qual trabalhava. Na verdade, não foi só eu. Se fosse só eu, talvez hoje não estaria escrevendo esta crônica para você, leitor. Meu colega de trabalho na época, o G (O chamarei de G para manter seu anonimato), também foi nesta viagem. E é aqui que as coisas passam a ficar “complicadas”. Explico: há um tempo escrevi uma crônica apresentando o Naldo, o canalha honesto. G também era um canalha, entretanto, não era honesto, era desonesto. Era o canalha legítimo, que mentia para as mulheres para conseguir o que queria. Toda mulher já conheceu um assim.

Eu já sabia de seu histórico, mas, até aí, tudo bem. À medida em que o motorista avançava pela noite, fazendo seu itinerário obrigatório, mais mulheres adentravam naquele ônibus. Elas eram de outras empresas, pois também ganharam a tal viagem. Ao perceber que o ônibus estava repleto de mulheres e de pouquíssimos homens, pensei: “Ferrou! Se minha mulher souber disso, será outra briga daquelas.”

Em pouco tempo, estávamos todos de pé nos conhecendo. G era puro sorriso. Eu o conhecia há tempos. O canalha estava no “modo de caça”. G era tão canalha, que uma vez, enquanto estávamos em um bar, o safado conseguiu trocar mensagens com uma garota que estava sentada atrás de nós, e pegou seu número de telefone. Até aí, tudo bem, né?! Porém, o canalha já estava acompanhado. Sim! A mulher que o estava acompanhando, inocente, não percebeu quando G esticou o braço para pegar o bilhetinho da mesa de trás. É ou não é um canalha legítimo? No outro dia, nos contou o desfecho daquela noite: deixou a “oficial” em casa e terminou a noite com a danada da mesa de trás.

Voltando ao ônibus. Havia uma tal de Renata (nome fictício para manter minha integridade física), que assim como G, era uma canalha. É, meu querido leitor, há canalhas de todos os gêneros. Esta Renata me adicionou no Facebook, e eu fiz a burrada de aceitar. Perceba até aqui a bomba nuclear se formando: namorada possessiva em casa; ônibus cheio de mulheres; eu estava na companhia de G, o canalha; Renata me adiciona no Facebook e eu aceito.

O que falta para tudo isso explodir? Calma, ainda falta muito urânio e plutônio nessa bomba — urânio e plutônio são os principais elementos químicos da bomba nuclear. Viu? Eu também sou cultura.

Enfim, chegamos ao hotel. No outro dia, ainda iríamos nos aventurar em um parque com trilhas, tirolesas, escaladas e etc. Eu e G, obviamente, ficamos no mesmo quarto. Adivinha quem ficou no quarto ao lado? A Renata. Mais uma pitada de urânio na bomba. Entretanto, eu dormi feito um anjo. Acordei no outro dia, revigorado e pronto para escalar montanhas e fazer trilhas. Então G chega até mim e, com um sorriso canalha, diz: “— Tracei a Renata ontem à noite!” Até aí, nenhum problema, apenas mais uma pitada de urânio e plutônio em uma bomba que eu sequer sabia da existência. Ora, G era separado. Ele poderia fazer o que quiser da vida dele. E também, sejamos sinceros: quem aguentaria ser sua esposa? Até tentaram, mas você deve imaginar a dificuldade que era ter de aturá-lo.

O dia neste parque foi maravilhoso. Nada a reclamar e nem a declarar. O problema se inicia na volta para casa. Todos de banho tomado, sentadinhos no ônibus, cada um em seu banco. Eis que meu celular toca. Era minha mulher. Atendo com todo amor do mundo, mas já sou atropelado com a pergunta matadora: “Guilherme, por acaso você pegou essa Renata que está com vocês nessa viagem?” Eu não entendi bulhufas. Falei a verdade. E ela insistia: “Admita! Você está me traindo com ela. Eu sei.” Então minha mulher me liquida de vez: “O marido dela viu que você a aceitou no Face e veio falar comigo. Disse que vai te matar, pois sabe que você traçou a mulher dele.” Pronto: era o que faltava para a bomba nuclear explodir.

Meu mundo caiu, ou melhor, explodiu. Neste exato momento, senti o que é a verdadeira angústia de um homem injustiçado. Ora, como eu poderia provar para a minha mulher, uma possessiva, que eu não havia comido ninguém? E pior: como o marido da tal Renata afirmou que eu havia traçado sua mulher? Pensei comigo: “Um homem traído é capaz de matar. Eu li muito Nelson Rodrigues, e sei disso.” Só pelo fato de o corno ter ido falar com a minha mulher, já mostra tamanha loucura passional. Me afundei na angústia: “Quer dizer, meu colega de trabalho come alguém, eu não como ninguém, e ainda sou eu quem vai levar o tiro. Isso é muito injusto.”

Enquanto toda esta confusão acontecia dentro de minha cabeça, minha mulher me aporrinhava pelo telefone, dizendo que eu estava a traindo e etc. Tudo isso me deixou irritadíssimo. Eu não queria morrer de graça, como se eu fosse o canalha. Já pensava no meu velório: “Por que foi mexer com a mulher dos outros, agora tá aí, crivado de balas… tsc, tsc, tsc.” Fui em direção ao G e entreguei-lhe meu celular: “Diz a verdade para a minha mulher!” O desgraçado não disse a verdade. Mentiu na cara dura. É um canalha, o que eu poderia esperar? Falei para ele: “Cara, eu não vou morrer por tua causa. Admita o que você fez!”

O canalha foi falar com a Renata, para que ela falasse com o marido. Eis que o G chega até mim e diz: “Ela vai trocar uma ideia com ele. Pode ficar tranquilo.” Como confiar em um canalha? Assim que o ônibus parou em um posto de gasolina, fui até ela e disse tudo que havia falado para o G. “Já falei com ele. Meu marido é louco, tem crises de ciúmes.” Pensei comigo: “Deve ser porque você o trai nas viagens da empresa. Só por isso.” A Renata morava em uma cidade que ficava no meio de nosso itinerário. O meu estado de apreensão quando o ônibus parou para deixá-la no ponto, foi algo que senti poucas vezes na vida. Já imaginou se o corno entra armado no ônibus: “Onde está um tal de Guilherme? É um homem alto e de barba!” Não tinha erro.

Para a minha alegria, ele não entrou no ônibus. Que alívio! Agora era só encarar a minha mulher, que, na pior das hipóteses, me faria dormir na sala, mas, pelo menos, não me crivaria de balas. Nos dias seguintes àquele ocorrido, andava ressabiado pelas ruas. Vai que o corno estivesse à minha espera para se vingar, pois um chifre tem a capacidade de fazer até homens covardes tornarem-se assassinos sanguinários. O que sei e posso afirmar com toda essa história, é: não se misture com canalhas desonestos.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

Um comentário em “O CANALHA DESONESTO

  1. É… Parece que essa coisa de gente querendo dar tiro por conta de ser corno é mais comum do que parece. Quando eu descubri que fui, tudo que ficou foi o meu silêncio eterno e mais nada. Bala mesmo só se for de hortelã para beijar alguma nova boca. Perder tempo brigando por vagabunda é que não vou. 😉

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