MEU AMOR PURO PELA AVRIL LAVIGNE

Neste último final de semana, enquanto fumava um cachimbo e bebia uma cerveja, eis que começa a tocar, de maneira aleatória no YouTube, Avril Lavigne. Sim, este é um dos momentos sublimes do fim de semana aqui de casa: fumar um bom cachimbo, beber uma cerveja encorpada e ouvir boa música. Eu sei, você deve estar pensando: “E desde quando Avril Lavigne é ‘boa música’?” Calma, deixe-me explicar. O YouTube a escolheu entre outras milhões de opções. Num momento tocava Johnny Cash, com aquela voz tonitruante e letras profundíssimas; e então os algoritmos do YouTube resolveram me sacanear colocando Avril Lavigne para tocar.

Eis onde quero chegar: estou mentindo para você que me lê. A Avril Lavigne foi um dos meus primeiros amores na vida. Qual o homem heterossexual que nascera nos anos 90 não se apaixonou pela Avril? Todos se apaixonaram! A música aleatória que se iniciou foi I’m With You. Imediatamente fui levado para 2002, quando eu tinha acabado de completar 10 anos de idade. Nesta época eu ainda era puro e inocente. Nem tanto, nem tanto. Mas eu não havia nem descoberto os prazeres do onanismo e sabia pouquíssimo sobre os pecados da carne. O máximo que tinha visto até aquele momento fora uma prima nua, que esquecera de trancar a porta do banheiro; e recordo-me também de ver umas revistas Playboy, que eram do meu irmão, com quase todas as páginas coladas. Você, moleque que nascera nos anos 2000, não deve ter tido a experiência de colar revistas adultas, né? Crônica para outra hora.

Deixe-me voltar à Avril. Conheci ela por causa de um de meus melhores amigos, o Murilo, que era um dos únicos conhecidos que tinha computador e internet em casa no ano de 2002. Lembro-me de um certo dia, ao chegar à casa dele, o menino, já encantado, atirou-me na cara sua empolgação: “Eu preciso te mostrar uma coisa!” Ele havia feito o download de dois clipes da Avril: “Complicated” e “Sk8er Boi”. Assisti primeiro Sk8er Boi e logo descobri o porquê da empolgação do Murilo. Após assistir ao clipe de Complicated, de súbito, decretei: “Eu nunca mais quero parar de escutar e de olhar pra essa garota!” Ficamos uma tarde inteira escutando as duas músicas como se fôssemos dois servos venerando uma deusa da antiguidade.

E você leitor irá indagar: “Mas o que essa Avril tem?” Eu não sei responder. Ok, ela era linda, mas não era só isso. Ela conversava diretamente com jovens entrando na puberdade. Ela passava para nós, pré-adolescentes — vulgos pré-punheteiros —, uma pureza de moça frágil e recatada, mas, ao mesmo tempo, também nos passava a imagem de uma garota rebelde e líder de uma banda de rock. Então juntou a fome com a vontade de comer. Todo jovem daquela época queria ter uma banda de rock e casar com uma garota como a Avril.

A partir daquele dia, ao deitar-me à noite para dormir, tecia minhas fantasias com a rockstar favorita dos pré-adolescentes. Mas não havia nada de sexual, absolutamente nada. Como falei, eu ainda carregava uma pureza infantil. Minhas fantasias se baseavam, na maior parte das vezes, em um ato heroico. Explico: a Avril passava por algum perigo, e lá estava eu, firme e forte para salvá-la. Ela era o meu amor puro, o amor sem desejo sexual algum, era o amor pelo amor. O meu desejo era simplesmente segurar-lhe sua mão, abraçá-la, fazê-la rir, protegê-la de todo o mal. Era puro. Não havia concupiscência.

O próximo passo desta paixão avassaladora foi atormentar meus pais. Eu precisava comprar seu álbum, o Let Go. E custava, na época, uns R$ 30,00. E trinta reais era muito dinheiro. Eis que após muita insistência, consegui o montante. Corri de imediato para a única loja da cidade que vendia CD’s. Comprei o ouro. Voltei para casa felicíssimo. Agora eu poderia ouvir a minha musa inspiradora eternamente. Foi o que fiz. Por dias escutei aquele álbum de cabo a rabo. Decorei todas as faixas, ficava horas vendo as fotos do encarte e tentava traduzir aquelas palavras em inglês. Cheguei a um ponto de me trancar no quarto várias vezes durante a semana, colocar o álbum da Avril e fantasiar que eu era o seu guitarrista. A minha imaginação era fértil, convenhamos.

O amor durou até eu descobrir que me trancar no quarto para ver as mulheres nuas da Playboy, me dava mais prazer carnal do que escutar a Avril. Pronto! O desejo carnal matou meu amor verdadeiro pela Avril. Adeus amor puro. A partir de então, a Avril deixou de ser a minha musa inspiradora e tornou-se apenas uma garota que tocava umas musiquinhas legais, as quais raramente eu escutava.

Entretanto, o fim completo do nosso romance, aconteceu após eu ouvir, de maneira despretensiosa, um de seus álbuns mais recentes. Fiquei decepcionado. Não havia mais pureza naquela menina, assim como não havia mais pureza em mim. Nós dois nos entregamos aos prazeres do mundo e perdemos a capacidade do amor puro. É triste, mas é verdade. Portanto, hoje, ao escutar qualquer música daquele álbum que tanto me marcou, me vem a nostalgia de quando eu ainda era um homem bom que sonhava em amar uma única mulher com aquele amor puro. Eis a verdade: após ter a minha primeira experiência sexual, comecei a morrer. Não é à toa que anos depois tornei-me um canalha completo. O sexo só faz pulhas e canalhas.

Estes dias, mais uma vez, iniciou-se uma música aleatória no YouTube. Não era a Avril, era um clipe da Luísa Sonza. Tive dificuldade de saber se estava no YouTube ou no PornHub. Eu olhei aquilo e permaneci estarrecido. Então minha noiva disse: “Sabe quem é essa? É a Luísa Sonza, a que era casada com o Whindersson!” Eu duvidei. “Não pode ser.” Em seguida ela me mostrou um vídeo da Luísa e do Whindersson lá em 2016, ambos apaixonados numa lancha. Ele: virado em sorriso, cheio de amor, tocando violão; e ela: cheia de vida, com uma pureza de alma, com uma certa timidez, cantava com uma voz doce, uma letra sobre amor. De súbito, acometeu-me uma tristeza.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: