FLORES AMARELAS

Estes dias, ao ir para o trabalho, de súbito, um pensamento surgiu em minha consciência enquanto caminhava. E foi assim, do nada! Ele simplesmente emergiu de algum lugar. Vez ou outra, isso acontece comigo. Estas coisas me intrigam. Por que este pensamento? Por que agora? Lembrei-me da época em que fiz as aulas práticas da autoescola. Espere! Minto. Este pensamento surgiu porque avistei um carro de autoescola — e juro para você leitor, que só agora lembrei do carro da autoescola —, andando daquela forma extremamente cuidadosa e irritante ao dobrar uma esquina sem movimento algum. Paciência.

Se irritar com os aprendizes a motorista é a regra. Mas não é isso o que eu queria dizer. Lembrei-me do meu instrutor na época: um ruivo, estilo irlandês, de quase dois metros de altura, costas largas, cara de cavalo, mãos de raquete. Era um brutamontes. Ele tinha tudo para botar medo em qualquer aluno cagão, mas ele usava óculos. Eis a sua docilidade: os óculos. Os óculos faziam toda a diferença. Já repararam nos maiores vilões da humanidade? Hitler, Lênin, Stalin. Nenhum usava óculos! Se usassem óculos ao invés de bigode, presumo que o mundo não teria cicatrizes tão doloridas e profundas. Cem milhões de mortos, mais ou menos.

Por outro lado, não há muitos heróis de óculos. Você pensou no Super-Homem? Eu também. Mas o Super-Homem só usava óculos quando não estava na sua vida de herói, ou seja, quando ele não era o Super-Homem, apenas um simples repórter de uma redação que precisava se disfarçar. Peter Parker, o Homem-Aranha, a mesma coisa. Na sua vidinha de aluno e jornalista, lá estavam os óculos, mascarando sua agressividade, mascarando sua pose de herói. Os óculos tornam os homens inofensivos. É isso! Cheguei onde eu queria. Ninguém bate em alguém de óculos. É humilhante! Dá pena. Agora entendi porque minha mulher adora me ver sem óculos, pois me transformo quase num Super-Homem cheio de virilidade. Menos Guilherme, menos.

Se semana passada eu disse aqui que roupa define caráter, por que não um acessório, como um par de óculos? Já imaginaram Hitler de óculos de grau, bermuda xadrez, chinelo de dedo e regata? O holocausto não estaria nos livros de história. Falei tudo isso e ainda não cheguei na reflexão principal, a qual me fez iniciar esta crônica. Bem, o meu instrutor brutamontes e inofensivo da autoescola, certo dia, enquanto me indicava as ruas pelas quais eu deveria passar, pediu-me para que eu parasse em frente a um gramado alto. Assim que parei o carro, ele desceu e foi até lá, onde havia umas flores amarelas, as quais não sei o nome. Eu fiquei olhando aquilo e pensando: “Por que diabos ele está pegando essas flores?”

Assim que entrou no carro, explicou: “Sempre que posso, paro aqui e levo essas flores para a minha mulher. Ela adora.” Este fora um dos atos mais doces e românticos que presenciei até hoje. E ele falou isso de uma maneira natural e sincera. Ele não tinha vergonha de seu romantismo, como a grande maioria dos homens têm. Nós, homens, na frente dos amigos, nos orgulhamos de sermos pulhas e canalhas, mas nos envergonhamos quando expomos nosso lado romântico. Esta cena me salvou. Eu que estava em um relacionamento no qual já havia perdido o significado e o romantismo, ao deparar-me com este ato, pensei: “Sou um merda!”

Esta cena não salvou meu namoro, mas salvou aquela fagulha de romantismo que havia dentro de mim. Aquelas flores amarelas fizeram uma fagulha romântica se transformar em um fogaréu vivo. Lembro-me de parabenizá-lo pelo ato de levar as flores amarelas para sua mulher. Em seguida fiz a confissão humilhante: “Eu era romântico no início, depois tudo se acabou.” De súbito, ele respondeu: “Este é o problema da maioria dos casais, eles deixam a rotina acabar com os pequenos romantismos.” E hoje eu penso que talvez, o ato de parar para recolher algumas flores amarelas num extenso gramado verdejante, fora um ato tão pequeno. Ora, é só parar o carro, descer, pegar as flores e pronto. Então por que não fazemos?

Talvez este ato seja pequeno para quem se deixou afogar pela liquidez do mundo moderno. Mas digo-lhe, leitor: este ato é gigante, pois se trata de um ato de amor, e qualquer ato de amor é monumental. É um brutamontes dócil, que no meio de seu trabalho, pede para o seu aluno parar o carro, enquanto ele vai até aquele gramado alto para pegar flores amarelas para sua mulher. Imagine esta mulher recebendo estas flores. Imagine o quão amada ela se sentiu ao ver o marido chegando em casa com flores amarelas nas mãos e dizendo-lhe: “São pra você!” Já falei por aqui e repito: um momento pode fazer uma vida inteira valer a pena. E esta cena das flores amarelas são um destes momentos.

Para passar o tempo, eu e o instrutor brutamontes, inofensivo e romântico, conversávamos muito sobre nossas vidas. Havia algo que ele falava de maneira obsessiva: dizia estar juntando dinheiro para comprar uma casa com sua mulher. E eu espero, do fundo do meu coração, que eles tenham conseguido comprar a casa, que estejam felizes, que se amem além da vida e além da morte, e, principalmente, que ele ainda leve flores amarelas para ela.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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