ROUPA DEFINE CARÁTER!

No último sábado postei o episódio 29 do Querido Sobrevivente Podcast. Foi um dos podcasts mais insanos que já gravei. Falei sobre a morte do Lázaro, que até agora não ressuscitou. E acredito que nem vai ressuscitar. Para quem não entendeu a piada, eu explico: Lázaro é um personagem bíblico que é ressuscitado por Jesus. É aí que está a ironia! Você leitor, viu a quantidade de tiros que o desgraçado levou? Foram tantos, mas foram tantos tiros, que eu desconfio que o miserável sequer vai conseguir reencarnar. Morreu para duas vidas inteiras, ou mais. As balas atingiram até o espírito daquele homem.

Mas eis o que eu queria dizer. No mesmo podcast, relatei um caso de amor à primeira vista. Sim, eu que tanto já falei por aqui que não existe amor à primeira vista, acabei por amar um casaco. Mas não é qualquer casaquinho meia-boca. É um casaco longo, vistoso, preto, com uma gola à moda Conde Drácula. Ele me olhou de longe, eu o encarei de volta e disse: “Eu preciso daquele casaco!” Só havia um. O vesti sem pensar. O encaixe foi perfeito. Adequou-se ao meu tamanho. Ao olhar-me no espelho, senti-me poderoso, como aqueles chefões da máfia italiana. Assenti para mim mesmo em frente ao espelho, como quem diz: “Eu vou dominar o mundo com um casaco destes.” Abri um sorrisinho de cafajeste, aquele com o canto dos lábios. Imaginei-me sentado em uma poltrona, fumando um charuto, bebendo uma dose de whisky e com uma Glock no coldre.

Menos Guilherme, menos. Mas você leitor, já se perguntou de onde vem esta sensação pelo fato de colocar um simples casaco? Já percebeu uma criança quando veste uma fantasia de super-herói? Aquela roupa, de certa forma, dá poder para ela. Ela sente-se poderosíssima de imediato, pois em seu imaginário, habita a lembrança de uma personalidade forte, que age daquela forma e se veste daquela forma. Então, o que fazemos? Introjetamos aquele comportamento para dentro de nós. O que há em meu imaginário quando me olho no espelho com aquele casaco? Homens durões, poderosos e sedutores; detetives; chefões de máfias; o Neo, personagem do Filme Matrix. Tudo isso habita em meu imaginário. E pasmem: este imaginário pode influenciar diretamente em meu comportamento, em meu senso de humor e em minha postura diante da realidade.

Já imaginou vestir uma farda policial? Há tantas lembranças em seu imaginário sobre a farda, sobre a polícia, sobre o poder. E vestir um terno, uma gravata, um sapato? Acredito que o terno pode curar a timidez, pois ele te dá poder. Ele te dá uma sensação de confiança em si mesmo. Eu sei que para muitas pessoas isso pode ser tão óbvio, não para mim. Aliás, por muito tempo na minha vida, eu simplesmente não me importava com o meu vestuário. Eu misturava uma regata roxa com uma bermuda branca xadrez. E pior: já fui em baladas assim; já fui para a faculdade assim. Eu que já era feio, reforçava a minha feiura ao me vestir. Eu passava para o mundo o que realmente eu era: um desleixado. O problema é que os jovens acham que é “cool” ser desleixado com a própria aparência. Para 95% deles, não é, ficam apenas mais feios do que já são.

Talvez você pergunte: “E ninguém te falava nada a respeito de seu péssimo gosto ao se vestir?” Me falavam, mas eu era o rebelde sem causa. O que você esperaria de um jovem espinhento? As coisas começaram a mudar quando passei a namorar. Todas as minhas namoradas odiavam regatas. Elas odiavam tanto regatas, que hoje, não tenho uma mísera regatinha no guarda-roupa. Elas conseguiram passar para mim aquele ódio por “homens de regata”. Este foi o início de minha ascensão na vida: quando joguei todas as minhas regatas no lixo. Até hoje, ao ver homens de regata em eventos sociais, penso: “Pobre homem que acha bonito ser feio.”

Nos últimos anos a minha vida melhorou — é isso o que acontece quando você joga fora aquelas suas regatas que já estão amareladas debaixo do sovaco e passa a se vestir como gente. Ok, talvez não fora só isso. O que eu quero deixar claro nesta crônica, é a verdade dolorida de que roupa, na grande parte das vezes, define caráter. Eu sei. Você vai falar que políticos de terno e gravata são tão pulhas quanto um ladrãozinho de celular que usa bermudão, camiseta de time falsificada, chinelo e boné de aba reta. Você não está errado. Ora, mas se os fatos estão contra mim, pior para os fatos. Entenda, querido leitor, que estou olhando para a minha circunstância. Eu era um pulha, um mesquinho, um egoísta quando usava regata, bermuda e chinelo para sair com a ex-namorada.

Repito: eu era um desleixado, tanto com minhas roupas, quanto com a minha vida. Eis a falha ululante em meu caráter. Imagine a cena: minha namorada se arruma toda, pinta as unhas, arruma os cabelos, se maquia, coloca um salto alto, veste uma de suas melhores roupas e vai me encontrar com toda sua classe. Ao me ver, se depara com um desgraçado de regata, bermuda xadrez e chinelo de dedo. Isso é de um mau-caratismo monumental. De súbito, eu deveria ser preso por desacato à beleza. Eis uma de minhas maiores descobertas nos últimos tempos: a beleza sempre importa. E ela não é relativa.

Mas deixe-me voltar ao casaco. Eu já estava há anos usando os mesmos casacos em todos os invernos. Casacos que passaram do meu pai para mim. As roupas antigas duravam mais. E até hoje, toda vez que os visto, lembro-me dele. Até o cheiro característico de meu pai, uma mistura de fumo com óleo diesel, é possível sentir naqueles casacos de lã, mesmo depois de anos. Eis o que eu queria dizer. Minha única tristeza naquela tarde de sábado foi quando percebi o preço de três dígitos do tal casaco. Tive um mini infarto, mas passo bem. Imediatamente, iniciou-se um debate entre cérebro e coração. Meu cérebro racional, com toda pose, dizia: “Não vale a pena gastar um valor tão exorbitante em um casaco.” Minha mulher, para ajudar o meu cérebro, disse: “Amor, esse é daqueles casacos que gruda pelo. Tem certeza que vai levá-lo?” Mas meu coração urrava de paixão: “Ele vai durar a sua vida inteira! Ele te dá poder! Ele ficou perfeito em você! Ele será passado para o seu filho!” Pensei por mais alguns segundos, e então o coração veio com o argumento fulminante, liquidando o cérebro: “Este casaco define o seu caráter!”

Comprei.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

2 comentários em “ROUPA DEFINE CARÁTER!

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