“O que os outros vão pensar de mim?”

Estes dias, enquanto lia algumas confissões de Nelson Rodrigues, eis que me deparo com uma daquelas frases espectrais, a qual temos a certeza que levaremos até o caixão. “O medo do ridículo é responsável pelas piores doenças psicológicas.” Perceba você, leitor, que Nelson explica com pouquíssimas palavras o que psicólogos, professores e intelectuais, muitas vezes, levam mais de quinhentas páginas entediantes para elucidar.

Então vem o nosso Anjo Pornográfico e, com uma maestria invejável, com apenas oito palavras, resume calhamaços científicos com o seu óbvio ululante. E não é óbvio?! É claríssimo como a luz do dia.

Eis o que quero dizer. O medo de ser e parecer ridículo nos consome até as entranhas. Nos aprisiona dentro de nós mesmos. Fobias, compulsões, paranoias, transtornos de ansiedade e até a depressão podem nascer diante do medo do ridículo. Nos padronizamos. Queremos ser aceitos pela multidão padronizada, que julga de maneira contumaz cada vez que ousamos simplesmente tentar. Você precisa ser um outdoor de você mesmo. E ser um outdoor é passar a ver o ridículo como algo a ser exterminado de você, sendo que o ridículo é uma de nossas dimensões mais válidas.

O ridículo normalmente é o contraste do padrão. Ora, você nasce sem filtro, sem padrão comportamental, está nu diante de todas as possibilidades da existência. E cada possibilidade lhe excita, lhe enche o peito de vitalidade. Você sonha, imagina, fala pra si mesmo o que deseja ser, tem ideias e as coloca em prática.

Todavia, à medida em que vamos crescendo, vamos sendo tolhidos para que nos adequemos ao padrão. E temos mesmo de ser tolhidos para que consigamos viver em sociedade. O problema é você tolher seus sonhos, seus projetos, seus objetivos, seu potencial, e tudo isso pois você tem medo de ser julgado.

E sabe o que é o pior? A culpa é sua! Você se tolhe para agradar os outros como uma forma de aprovação desesperada. Eis o nosso mundo de hoje. O mundo no qual preciso agradar a todos e não posso correr o risco de ofender ninguém, nem que para isso eu me torne um castrado, um fracote de merda, um egoísta que se coloca no centro de tudo, pois estou sempre a repetir: “O que os outros vão pensar de mim?”

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

2 comentários em ““O que os outros vão pensar de mim?”

  1. Nelson Rodrigues foi perfeito na análise. É verdade o medo do que os outros pensam apavora tanto que a gente deixa de fazer o que sonha.

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  2. O bom é que ao envelhecer vamos perdendo os medos (pelo menos eu tenho essa impressão), inclusive o medo de parecer ridículo 🙂 Não vim a esse mundo pra agradar a todo o mundo! Acima de tudo tenho que prestar contas a Deus e à minha consciência.

    Curtido por 1 pessoa

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