O CANALHA HONESTO

Hoje quero lhe apresentar um personagem que passará a ficar recorrente em minhas crônicas: Naldo, o canalha honesto. “Ora, Guilherme, como assim um canalha honesto? Se é canalha, não é honesto, se é honesto, não é canalha.” Calma lá. Deixe-me explicar-lhe este paradoxo maravilhoso. Antes, é preciso fazer um adendo: o canalha aqui, é o canalha do afeto, aquele que não poupa nem as cunhadas, como dizia Nelson. Naldo é este canalha, ou melhor, fora este canalha, como ele mesmo diz.

Se bem que não acredito muito nesse papinho de ex canalha. Um canalha tende a ter cristalizado na alma a canalhice. Levará para a eternidade. Não sabemos se Deus aceitará os canalhas no céu, mas, quem sabe os canalhas honestos? Fica aí a possibilidade, e, se Deus estiver lendo isso aqui, posso falar que o Naldo é um homem bom de coração. Eis o que quero dizer. Naldo é o canalha honesto pelo simples fato de deixar claro a sua intenção antes do coito.

O Naldo não é o canalha que promete mundos e fundos para a dama em sua frente simplesmente porque deseja usá-la para o seu prazer e, no outro dia, após satisfazer sua vontade primal, a descarta como se a dama fosse um objeto insosso e inanimado. Nada disso. O homem é de uma honestidade lancinante, dolorida, que tende a deixar marcas. Ele chega, e antes de partirem para o sexo, diz: “É só por hoje. Eu não quero nada sério. Não é para você se apaixonar.” Cá entre nós, leitor, é ou não é um canalha honesto? E mais: é carinhoso enquanto está com a moça. Não é daqueles canalhas que sequer olham nos olhos da mulher, que sequer oferecem um carinho após o clímax, pois em seus corações enregelados e siberianos só há espaços para eles mesmos se amarem.

Naldo é daqueles capaz de dormir com a moça de conchinha uma noite inteira, e então, assim que toca o despertador pela manhã, ele se veste, e como se nada tivesse acontecido, ele deixa a moça na imensidão de uma cama vazia.

Onde está o óbvio nesta história? Qual mulher não se apaixonaria por um homem que possui uma boa conversa, demasiadamente sincero, com boa pegada e que ainda dá carinho? Todas! O canalha honesto é mais nefasto para a alma feminina do que o canalha comum, justamente pelo fato da sinceridade e do carinho, adjetivos que sequer dão as caras nos canalhas unânimes. Destes últimos, as mulheres desapegam na força do ódio, pois não passam de uns mentirosos de uma figa. Já dos canalhas honestos, não há nada do que reclamar. Eles avisaram que era só por uma noite.

Eu, por pouco, não me tornei um canalha. Espere, minto. Já fui um canalha, e da pior espécie. Minto de novo. Não era da pior espécie. Não prometia nada além de uma trepada desesperada, porém, não conseguia dar um mísero de carinho e intimidade para aquela alma feminina, a qual implorava por afeição, por amor, e não apenas por sexo sujo e barato — aliás, nenhuma mulher deseja apenas sexo sujo e barato, nenhuma. Mulheres existem para serem amadas e desejadas. E é isso o que elas querem. As prostitutas, as periguetes, as vagabundas, as feministas, as religiosas, as recatadas. Todas elas.

Deixe-me voltar à história, pois descobri que menti mais uma vez. Eu não era tão frio assim. Sempre fui um obsessivo pelo beijo, o beijo molhado, o beijo com saliva. Não me venham com beijo chocho, daqueles sem saliva e sem língua. E por que falo do beijo? Os canalhas mais frios sequer beijam suas amantes na boca, e beijar os lábios da mulher é um ato carinhoso. Por que você, leitor, acha que as prostitutas não beijam na boca? O beijo na boca é íntimo, apaixona, acalenta. Diferente de uma penetração insossa entre dois objetos feitos de carne.

Para um canalha que está afogado na luxúria, beijar a amante na boca é como entrar excitado e ereto numa igreja. Ou seja, são contrastes que não cabem em seus contextos. E eu beijava. Já é alguma coisa. Meu coração não era tão enregelado e siberiano quanto os dos canalhas comuns. Minha quarta e última mentira desta crônica: talvez há salvação para os canalhas. Eu me salvei. Me salvei no sentido de me doar apenas para uma mulher. Eis o milagre: um ex canalha niilista que passou a acreditar no amor, na monogamia e no romantismo. Ok, não é bem assim. O que de fato acontece é que o canalha descobre a magia da intimidade; ele percebe o quão maravilhoso é ter alguém de verdade em sua frente, cuja intimidade lhe é concedida, e não simplesmente dada a você como um objeto qualquer. Eu já falei por aqui que a sua intimidade é o seu relicário? Se não, fica aí este óbvio.

Quero finalizar esta crônica com este personagem que se tornará espectral por aqui: Naldo, o canalha honesto. Estes dias, enquanto conversávamos a esmo, eis que o bendito fruto me diz: “Tá pegando pesado na academia, hein?!” E o Naldo é magricelo, fino, liso. Nelson dizia que todo canalha é magro. Toda vez que olho para o Naldo, lembro desta frase do Nelson. Então resolvo perguntar para o canalha honesto: “E você, nunca pensou em fazer musculação e ganhar músculos?” E o bendito fruto me dá uma resposta triunfal: “Se assim já chove mulher, imagina se eu ficar musculoso?! Aí eu não vou ter mais paz na minha vida. Eu já assumi pra mim que eu não posso ficar muito gostoso.”

Eu gosto desse cara.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

2 comentários em “O CANALHA HONESTO

  1. Gostei do texto ainda mais com referência a Nelson Rodrigues. Eu prefiro alguém dolorosamente honesto a um fulano cheio de elogios falsos.

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