FÉRIAS SÃO PARA DESCANSAR, MENOS PARA A MINHA NOIVA

Eu e minha mulher, agora noiva, saímos de férias. Fomos para Porto Seguro, na Bahia. Uma semana antes, estávamos um pouco receosos sobre a viagem. “Quem em sã consciência vai viajar em plena pandemia de COVID-19? E se tudo fechar enquanto estivermos lá? E se os voos forem cancelados? Será que vamos para outro destino?” Lembro-me que ela me olhou com aqueles olhos esperançosos e disse: “— Amor, não importa para aonde vamos, não importa se tivermos que ir para outro lugar ou ficar aqui, o que importa é que estaremos juntos. A gente faz as nossas férias.” Como não pedir uma mulher destas em casamento, hein?!

Eis uma das primeiras reflexões que fiz nas férias: não é possível um negócio de milhares de toneladas voar! Não me venham com explicações científicas. Sim, estou falando de um avião monumental, feito de ferro, alumínio, metais pesados. Voei pouco em minha vida, mas desde o primeiro voo, pergunto-me como aquele negócio sai do chão e alcança os céus. Todas as vezes que o avião tremulava, eu virava-me para minha mulher e sussurrava: “— Tá errado! Isso aqui não era para estar voando.” O que me admirava eram as pessoas, calmas, serenas, como se aquilo fosse comum. Ok, é comum, mas não está certo. Cadê as velhinhas rezando o Pai Nosso com o terço nas mãos enquanto o avião passava por uma turbulência? Não escutei um mísero “Ai meu Deus!”, de ninguém, nada. Minha vontade era levantar, ir no corredor e perguntar-lhes: “Viu, pessoal, isso aqui não é Uber, não, a gente está a doze mil metros do chão, em um troço de ferro que pesa toneladas, e vocês estão calmos, tranquilos, sorrindo? Vocês ainda têm coração?”

Mas o avião não caiu. Milagre. Sabe o que também achei um milagre? O aeroporto, principalmente o Viracopos, de Campinas. Enorme, magistral. Fiquei estagnado, olhando toda aquela complexidade funcionando em minha frente. Aviões decolando, aviões pousando; carrinhos no pátio para lá e para cá; trabalhadores com aqueles coletes coloridos fazendo sinais uns para os outros; caminhões enchendo os tanques dos aviões. E lá dentro não era diferente: horários de voos, telas para tudo que é lado, embarque, desembarque, avisos a cada cinco minutos, lojas, praça de alimentação, diversos funcionários, esteiras, elevadores, centro de comando. Meu Deus! E tudo funcionando. Você, leitor, talvez esteja me achando um legítimo colono, do interior, que se espanta com um simples aeroporto. Você está errado. Desculpe, mas você está errado. Eu me espanto com a docilidade de um “bom dia” de uma vizinha amargurada, quiçá então de um aeroporto milagroso.

Lá em Porto Seguro, ficamos em três pousadas diferentes. Uma na própria cidade de Porto Seguro, a outra em Arraial D’ajuda e a última em Trancoso. Descobri, lá na adolescência, que não sou muito adepto a seres humanos em demasia, amontoados, eis o lado bom de se viajar numa pandemia: a maior parte dos locais estavam lotados de beleza e vazios de gente. Bingo! Acertamos as férias. Espere. Minto! Minha mulher acertou. Nunca que um homem, ao marcar suas férias em família, iria para três pousadas diferentes. Não, senhor. É mais provável que ele fosse para aqueles resorts, com all inclusive, e ficasse dez dias ali, na piscina, bebendo, comendo e conversando com os garçons. A gente é tão simples que chega a doer na alma feminina tamanha simplicidade.

Estes dias conversava com meu sogro, que me dizia: “— Olha, eu tenho horror a ficar conhecendo lugares e pontos turísticos nas férias. Férias é para descansar. Depois que tive meus filhos, a gente só ia para resorts com tudo incluso. Eu já caminhei muito nessa minha vida por causa da minha ex-mulher.” Eu ouvi aquilo e agora eu entendo o sofrimento dele. Após estes oito dias na Bahia, voltei mulato e com pernas fortíssimas, torneadas. Sim, meu leitor, caminhamos trocentos quilômetros a pé, sob um sol escaldante. Subíamos morro, descíamos morro, areia, mar, estrada de terra, asfalto e etc. Falei para a minha mulher que ela deveria escrever-se para uma maratona. A loira tem fôlego de sobra. E não teve um dia de descanso.

E, para melhorar, íamos para a praia, nos aprochegávamos em algum quiosque — de preferência os mais baratos —, enchíamos o rabo de areia, éramos importunados a cada dois minutos por algum vendedor ambulante, e pagávamos dez reais numa longneck. Diz pra mim: não era melhor ficar nas pousadas? Que, diga-se de passagem, eram maravilhosas, principalmente a Jakuara, lá em Arraial D’ajuda. Vista maravilhosa, piscina maravilhosa, café maravilhoso, chalé maravilhoso. Mas, minha doce e ainda, naquele momento, namorada, queria porque queria conhecer tudo e mais um pouco.

Você, leitor, deve me achar um sovina, mão-de-vaca e espírito de porco, não é mesmo? Exagerei um pouco no relato, mas nem tanto, nem tanto. Vou provar que sou um cara legal. E por quê? Ora, esta viagem ficará marcada para sempre em nossos corações, pois foi lá em Arraial D’ajuda, no dia 11 de março de 2021, na pousada Jakuara, ali pelas 17 horas, diante de uma das vistas mais belas que já tive o prazer de desfrutar, que pedi a mão da minha mulher em casamento. Ah, este momento superou qualquer caminhada de quilômetros, qualquer longneck de dez reais na beira da praia, qualquer infortúnio que já vivemos. Lembro-me de nós naquela noite, deitados, nus, de conchinha. Eu a abracei e disse: “— Eu poderia morrer agora que já teria valido a pena.” Pode parecer clichê, mas foi uma das coisas mais verdadeiras e sinceras que eu disse e senti nesta existência. A gente transbordava amor. E é isso o que a parte transcendental do amor faz: completa aquele vazio que você sente em boa parte da vida.

Aqui vai uma dica para casais que estão em crise: viajem, durmam fora de casa, nem que seja num hotelzinho de beira de estrada. Nós não estávamos em crise, mas, se estivéssemos, a viagem a curaria de imediato. E por quê? Não sei vocês, mas quando viajo, o meu desejo sexual atinge os céus, igualzinho aos aviões que expliquei anteriormente. Sim! Isso acontece porque você quebra a rotina ao meio — e o desejo, normalmente, tem ojeriza à rotina. “— Ai, Guilherme, você acha que só sexo resolve crises?” Acho! A mulher se sente desejada, protegida, e o homem se sente um garanhão e um protetor viril de sua fêmea. Pronto. Não é à toa que as mulheres voltam grávidas destas viagens. Olha, se minha mulher não estiver grávida neste exato momento, já afirmo que não foi por falta de tentativa. Eu tentei.

Após uma semana indo e voltando da praia, há um momento em que você simplesmente enjoa de sol, mar, areia, protetor solar e corpos quase nus. Ou será que sou só eu? Dá vontade de voltar pra casa, pois, como diz minha mãe — a melancólica da família —: “É bom sair de casa, mas melhor ainda é voltar.” E lá fomos eu e minha noiva fazer nossas malas para voltarmos à vida normal. Pegamos táxi, atravessamos uma balsa, chegamos no aeroporto, pegamos um avião para Salvador, outro para Campinas, lá em Campinas dormimos em um hotel dentro do aeroporto para pegarmos o próximo voo pela manhã em direção a Foz do Iguaçu. No outro dia, antes das onze, já estávamos em Foz. Minha cunhada queridíssima foi buscar-nos no aeroporto, então andamos mais 65 quilômetros até Medianeira. Enfim, em casa. Ao abrir a porta de nossa morada, adivinha quem veio nos receber? Ele, o nosso gato preto da sorte, o Adão. Esmagamos o pobre felino na tentativa de matar a saudade. Ele sobreviveu e passa bem.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

6 comentários em “FÉRIAS SÃO PARA DESCANSAR, MENOS PARA A MINHA NOIVA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: