MORTE À BURGUESIA!

Na minha infância e adolescência, sempre tive um medo absurdo de apanhar. Sempre evitava ao máximo o conflito para que isso não acontecesse. Não lembro de ouvir a frase espectral que ressoava a dar com pau entre os corredores escolares: “Te pego na saída!” Nem de meninos querendo bater-me e muito menos de meninas querendo beijar-me. Paciência, não é mesmo?! Pergunto-me de onde vinha meu medo irascível e acredito que já tenho a resposta. Quando você tem seus treze ou quatorze anos, o que mais acontece entre amigos são histórias inventadas: “Fulano apanhou até morrer!”, “Fiquei sabendo que sequestraram meu vizinho para um ritual de magia negra.”, “Tem um cara querendo te quebrar a cara!”.

Todas estas histórias, ou, pelo menos, noventa por cento delas, eram fantasias tiradas de mentes lúdicas. O que havia de verdadeiro nesta época era a amizade. Ah, isso era tão verdadeiro quanto o ar que respiramos. Mas eis o que eu queria dizer. Eu era o menino pacífico que evitava o conflito, porém — sempre há um “porém” —, há pessoas no mundo que buscam o conflito, o caos, a briga, a todo o momento. E jovens, normalmente, estão com os hormônios pingando entre seus poros. Nos jogos escolares, os hormônios masculinos faziam a festa, ainda mais pelo fato de que as competições eram entre todas as escolas da cidade. A minha escola era pública, mas era considerada por todas as outras como uma escola de playboy, de riquinhos, de mauricinhos e patricinhas. E, normalmente, ganhávamos todos os campeonatos, principalmente de futebol.

Mas não era bom ganhar. Ganhava-se com peso na consciência, pois a chance de apanhar, que já era alta por sermos uma “escola de playboys”, duplicava. Outra frase espectral que ouvíamos ano após ano em todos os jogos escolares: “No final do jogo a gente vai quebrar vocês todos a pau!” Nunca me esquecerei de um jogo contra a escola mais casca grossa da cidade. Eles tinham um jogador chamado Dinael. Era famoso naquele nosso universo adolescente por dar surras homéricas em moleques da nossa idade. Alguns comentavam que o tal Dinael já era traficante e que usava drogas pesadíssimas. O Dinael era mulato, encorpado e, obviamente, mais velho, pois era repetente. Ninguém era louco o suficiente de se meter com ele.

O jogo manteve-se no zero a zero até os noventa minutos. Eis que no último minuto de jogo, Dinael recebe a bola e vem em direção a mim. Eu era zagueiro. No ápice da euforia, nem pensei. Fiz o meu papel. Cheguei firme no cara mais perigoso da minha adolescência. Roubei a bola do Dinael e então nosso time conseguiu um contra-ataque. Antes da bola chegar em nosso atacante, Dinael virou-se para mim com uma das faces mais ressentidas e odiosas que pude presenciar durante toda a minha pouca existência. Ele franziu o cenho, apertou os lábios e então berrou: “— Tu não escapa, grandão! Vou te arrebentar!” Caguei-me por dentro. Por fora, tentei manter-me sereno. O outro zagueiro do meu time veio até mim e disse: “Tá fodido, hein?!” Para piorar a minha situação, graças a este contra-ataque fizemos o gol da vitória.

Comemorei com dor. Você, leitor, já passou por isso? Eu estava ferrado. Ganhamos, mas, como disse anteriormente, ganhava-se com peso na consciência. Demorei a sair de campo. Meu objetivo era deixar os ânimos arrefecerem para então podermos ir embora. No fim, acabou que ninguém bateu em ninguém, ninguém apanhou de ninguém. E este era o padrão, graças a Deus. Na verdade, na maioria das vezes, os homens fazem de tudo para evitar um confronto físico. A ameaça, penso eu, acontece justamente para não se chegar ao soco na cara. E tem mais: quando acontecia de alguém apanhar, quem apanhava, era pego desprevenido, era pego pelas costas. E por quê? Porque não há contato olho no olho. É mais fácil ser cruel quando você desumaniza seu oponente. E encará-lo olho no olho, humaniza. O olhar humaniza. A face amedrontada e temerária humaniza. Deixá-lo falar, humaniza. Por isso que normalmente todos ficavam só na ameaça.

O ser humano se torna realmente vil, quando ao olhar no olho de seu adversário, quando ouvir suas desculpas, não surge um pingo de piedade, não surge um pingo de compaixão. Muito pelo contrário, ao vê-lo neste estado fragilizado, isto excita ainda mais sua maldade. Talvez o tal Dinael, naquela época, ainda não era um sujeito completamente vil, caso contrário, teria quebrado a minha cara sem dó nem piedade. Mas não creio que seu futuro melhorou. Não sei se está vivo. Não sei se construiu uma vida valorosa. Espero que eu esteja errado.

Mas eis o que eu realmente queria dizer. Meu medo não era só de apanhar, mas de ser roubado. Na minha cidade tinha aqueles marginaizinhos que cometiam pequenos furtos, pequenos roubos. E como se tratava de uma cidade pequena, sabíamos quem eram os moleques. Certo domingo, ruas vazias, no crepúsculo, enquanto voltava para casa, sozinho, avistei à frente dois moleques no outro lado da rua. Eles estavam de costas para mim. Atentei-me de imediato: perigo! Só pelo jeito malandro de andar, com toda aquela roupagem larga, bonés de aba reta, cochichando um com outro. Não tinha como sair nada bom daqueles dois. “Ah, Guilherme, isso é preconceito!” Continue lendo a crônica, por favor.

Percebi que eles diminuíram as passadas. Andavam devagar. Neste momento, caguei-me novamente, como no jogo contra o Dinael. Fui acompanhando o passo lento deles. Na verdade, o passo era a única coisa lenta em mim, por dentro, o coração estava prestes a sair pela boca. É como se eu soubesse que a qualquer momento eles viriam em minha direção. Ora, meu preconceito acertou em cheio. Eles viraram-se de imediato e logo atravessaram a rua. “— E por que você não correu?” Se eu corresse eles me pegariam, e a surra poderia ser certa. Um deles foi logo dizendo: “— Ô, ô, ô, pera aí, fica parado aí, playboy.” Eu fiquei. Pensei: “Perdi. Me ferrei!” Cada um veio de um lado. O que eles não sabiam, é que eu era um pé rapado. Nem carteira eu tinha na época. A única coisa que estava em meu bolso era a chave de casa.

Mas você acha que esses marginaizinhos perderiam a viagem? O mais velho deles, inclusive era o que ainda tinha coração, percebeu que eu usava um brinco. Ele me disse algo como: “— Brinco maneiro, me passa aí!” Eu demorei a reagir. Foi neste momento que o outro, o mais novo, ameaçou-me: “— Passa o brinco senão a gente vai te rasgar a orelha.” E falava isso encarando meus olhos medrosos. Esse cara já não tinha muita humanidade sobrando. O que um ser humano normal faria numa situação destas? Entregaria o brinco sem dizer um pio. O que eu fiz? Notei que o mais velho usava um brinco também. Minha reação foi automática: “— Teu brinco é bem melhor que esse meu. O meu é de latão, infecciona a orelha. Se tu quiser trocar, eu aceito.” Estou escrevendo esta cena e rindo da minha cara de pau. “Poxa vida, como assim os caras foram te assaltar e você propôs uma troca?!” E este moleque pensou por alguns instantes. Ele ainda era humano. Enquanto o outro não parava de ameaçar-me.

Salvei o meu brinco de prata. Vitória. Entretanto, foi como eu disse: eles não perderiam a viagem. O mais novo olhou para a minha mão e viu um anel. Perdi! O mais novo não tinha coração. Ameaçou socar-me a face se eu não entregasse. Entreguei, e os dois foram embora rindo da minha cara de pavor. O anel custou-me cinco reais. Não era nada. O que doeu-me de verdade, na alma, foi a humilhação. Ah, essa doeu. Senti-me indefeso, inseguro, injustiçado. Aquilo acontecera na minha rua. O que mais eu poderia esperar? Eu teria que passar todos os dias por aquele local e lembrar-me daquela humilhação.

Com o tempo, transformei esta história em algo cômico, em algo que eu conto para os outros e todos rimos. E pensando sobre tudo que escrevi hoje, sobre o Dinael e seu ódio aos “playboys”, sobre ser assaltado por dois marginaizinhos, percebi algo: estes meninos eram um bando de ressentidos. Todos eles. Quando fui roubado, pelos dois malandros que usavam roupas de marca, não importava o que eles fossem roubar, o que alimentava aqueles ressentidos de uma figa era ver alguém que veio de uma família boa, que estudava, que talvez tivesse um futuro melhor, humilhado. Como se dissessem: “Viu, seu playboy, não adianta nascer numa boa família, não adianta estudar em uma boa escola, não adianta ser educado, não adianta se esforçar, não adianta ser bom aluno, não adianta ter valores, pois você sempre será humilhado por nós, que não temos uma família boa, não queremos estudar, não queremos ser bons alunos, não temos valores, não queremos trabalhar. Entendeu? A gente sempre vai ganhar de você, playboy!”

Era isso o que todos eles queriam: nos humilhar. Isso se trata do ressentimento sendo colocado para fora. Esses meninos tinham inveja, rancor e amargura dentro de suas almas. “Ah, Guilherme, mas você foi privilegiado em relação a eles. Então é justificável que eles sejam ressentidos.” Entre os meus amigos, se tratando de bens materiais, eu sempre fui o menos privilegiado. Eu nunca fui o playboyzinho que usava roupas de marcas e esbanjava sua riqueza por aí, porque eu nunca tive isso. Eu poderia olhá-los com ódio e pensar: “É injusto eu não ter nem metade do que a maioria deles têm.” No momento que você justifica o ressentimento — como muitos intelectuais, psicólogos, jornalistas e políticos “pau-moles” fazem por aí — você justifica o mal, você justifica a atitude vil de um moleque matar a queima roupa um “playboy” por causa de um celular, você justifica assassinatos em massa, como na antiga União Soviética, onde a luta de classes assassinou mais de vinte milhões de pessoas. “— Morte à burguesia!” Berravam os comunistas. Sim, a “burguesia” foi fuzilada por um bando de ressentidos.

Quem é a burguesia? Quem define o que é a burguesia? Meus amigos eram burgueses em relação a mim? Eu era um burguês em relação ao Dinael? O Dinael era um burguês em relação a uma criança africana prestes a morrer de inanição? Um branco sempre é privilegiado em relação a um negro? Um homossexual branco sempre é privilegiado em relação a uma mulher negra? Uma mulher é mais privilegiada em relação a uma mulher trans? Que privilégios são esses? Materiais? Sociais? Físicos? Quem é o inimigo comum? Homens héteros e brancos? Quem são os “vilões” que devem ser fuzilados dentre todas estas “classes”? Quem é o mais malévolo desta história? Quem deve ser o mais odiado dentre todas estas “classes”?

Se tem algo que aprendi nas minhas andanças, foi perceber que grande parte da maldade humana é motivada pelo ressentimento. O mundo é feito de gente, não de classes. Quando classificamos um indivíduo dentro de uma classe, fica mais fácil odiá-lo, fica mais fácil destruí-lo. Agora ele faz parte da massa, agora ele é multidão, agora ele perdeu sua humanidade: MORTE À BURGUESIA!

Publicado por Guilherme Angra

Me chamo Guilherme Angra, sou um escritor com dois livros publicados e diversos textos postados na internet. (Crônicas, artigos, contos, poemas). Me formei em Administração, pós-graduei-me em Gerenciamento de Projetos e atualmente estudo Psicanálise. Além disso, crio conteúdo nas plataformas do YouTube, Facebook e Instagram. Meu conteúdo baseia-se em reflexões filosóficas sobre as várias nuances da vida: relacionamento, felicidade, tristezas, angústias, trabalho, finanças, intelecto e etc. Espero poder ajudá-lo de alguma forma.

2 comentários em “MORTE À BURGUESIA!

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