EU TRAÍ A MIM MESMO

Você já foi traído? Eis uma das certezas da vida. Dizem, pelo menos. Nunca esqueço da minha vez. Primeiro namoro. Eu era um jovem ridículo — e qual jovem não é ridículo? —, apático muitas vezes, não tinha tomada de decisão para praticamente nada. Enfim, era um pau mandado. A namorada fazia o que queria. Eu fazia de tudo para não desagradá-la. Achava que assim ela se encantaria cada vez mais. Triste engano. E, normalmente, todo homem aprende isso na dor. Aliás, grande parte das coisas que aprendemos na vida, é pela dor.

Eu era um rapaz puro; a primeira namorada me corrompeu a alma. Ok, talvez eu esteja exagerando em minha pureza, mas eu sequer cogitava a hipótese de traí-la. Para mim, o namoro deveria ser algo imaculado, caso contrário, não havia jeito de continuar. Eis que fui pego de surpresa. Uma facada nas costas. Sim! Eu não esperava o chifre. Estávamos em uma véspera de ano novo, lá na minha cidade natal, com toda a minha família reunida: pais, irmão, tios, tias, primos, avós. Eu e ela estávamos radiantes, nos amando, felizes. A minha certeza que ela era a mulher certa para casar e ter filhos aumentara de imediato após apresentá-la às minhas origens.

Minutos antes da meia noite, sentamos lá fora, numa escada. Estávamos só nós, abraçados, apaixonados. Começamos a ver algumas fotos no celular dela — maldita hora que inventaram o celular. Eram pastas e mais pastas com fotos atuais, antigas e velhíssimas. Eu fui clicando naquele mundaréu de pastas recheadas de imagens e vídeos. Havia umas fotos de uns ex ficantes. Até aí, tudo bem. Eu era legal, lembra? Não iniciaria uma discussão por isso. Mas eis que surge a primeira foto que acelerou meu coração. Era ela, nua, sem mostrar o rosto. “— O que é isso?” Perguntei, tentando conter a emoção. Ela se calou. Fui passando as fotos. Em todas as fotos ela estava exatamente como veio ao mundo: nua. Havia um vídeo também: ela dançando sensualmente para a câmera. Acabara a sua farsa!

Ela passou a chorar; com o choro veio a confissão humilhante: ela mandou aquelas fotos e aquele vídeo para um homem de outro estado, um cara que ela havia ficado há tempos, mas que nunca o esquecera. O filho da mãe ainda era casado. Para tentar diminuir sua culpa, disse que já fazia meses que havia enviado os arquivos para ele. Para mim, essa informação não importava. Ela me traiu, ela oferecera sua intimidade para outro homem. Ela preferia outro homem. Minha alma fora devastada de imediato. A dor era excruciante. Eu não queria acreditar que aquilo era verdade. Ela jurava: “— Me perdoa! Isso já faz meses. Eu te amo!”. Neste exato momento aconteceu a explosão de fogos. Ano novo, lembra? A família inteira abrindo champanhe, se abraçando, comemorando o novo ano, todos com sorrisos largos. Enquanto eu não conseguia raciocinar sequer minha próxima atitude, meu próximo passo. Eu estava naufragado diante de toda a minha família.

Meu desejo era sair dali e colocar pra fora toda a raiva, toda a ira que estava dentro de mim. Apontar o dedo na cara dela e gritar a plenos pulmões, e mostrar o tamanho da ferida que ela abrira em meu peito. Queria que ela sentisse a minha dor. Não fiz isso naquele momento. Entretanto, não consegui disfarçar minha tristeza. Minha mãe, de súbito, percebeu meu estado de angústia, veio até mim e perguntou o que houve. Falei que precisava ir embora. Tadinha de minha mãe. Tomou um susto ao ver sua nora aos prantos e eu em pedaços. Não entendeu bulhufas do que estava acontecendo entre a gente, mas compreendeu a nossa dor. Tratou de chamar meu pai para irmos embora. Consegui acabar com o final de ano da minha família. Na época eu não me atentei a isso, pois estava preocupado com a minha dor. Eu só queria sair daquele amontoado de gente. Eu queria ficar sozinho para expressar a minha dor sem ser julgado.

Na volta para a casa de meus pais, abrimos o jogo. Ela falou para eles a sacanagem que fez comigo. Meu pai não queria mais vê-la. Tomou minhas dores. Minha mãe foi mais compreensiva com toda a situação. A namorada se desculpava sem parar. Ao chegarmos em casa, eu queria apenas apagar, dormir, esquecer a dor. Eu não queria encarar aquilo, eu queria fugir de todo aquele clima abjeto que se formara. Foi isso que tentei fazer, mas não obtive sucesso. Dormimos no mesmo quarto. Ela tentava me abraçar, fazer carinho, demonstrar amor, e tudo que me passava pela cabeça, naquele momento, era: “Como que ela teve a coragem de fazer isso comigo? O que vai acontecer a partir de agora? Quem é este cara?” Deitei-me de costas para ela. De sua boca trêmula, saía, de minuto em minuto, sussurros de “desculpa”. E por mais que eu estivesse a odiando, no fundo eu ainda conseguia sentir pena. A culpa que ela estava sentindo era sincera — talvez uma das únicas coisas sinceras que aconteceu em nosso relacionamento —, as desculpas que não paravam de sair de sua boca, eram sinceras. Ela estava arrependida. Com este misto de sentimentos acometendo-me as entranhas, afundava-me em angústia. Esta, sem sombra de dúvidas, talvez foi a pior noite da minha vida.

Para piorar toda a situação, no outro dia, pegaríamos a estrada para voltarmos a Foz do Iguaçu. Eram mil quilômetros dentro de um carro com ela, meu irmão e minha cunhada. Dezesseis horas dentro de um carro remoendo toda esta situação. E foi exatamente isso que aconteceu. Despedi-me de meus pais com lágrimas nos olhos. Sentia-me inseguro. Não sabia o que fazer diante de todo este caos. Entramos no carro e fomos daqui até lá imersos no mesmo clima triste e caótico. Seus pedidos de desculpa eram constantes. E dentro de um carro com meu irmão e minha cunhada, obriguei-me a conter meus sentimentos, minha ira, minha vontade de jogar tudo para o alto e gritar feito um louco. Conter sentimentos desta magnitude é a fórmula perfeita para o sujeito adentrar de cabeça nos maiores sofrimentos que o habitam. Lembro-me de olhar amiúde para a minha aliança de namoro e em seguida ser devastado por um sentimento de inferioridade ao perceber que ela preferia outro homem. Em minha cabeça, a todo momento, vinha a dúvida lancinante: “Será eu capaz de perdoá-la?”

Se aquela noite fora a pior da minha vida, esta, com certeza, fora a pior viagem que fiz. Enfim, para o alívio geral de nós quatro, chegamos. Fomos levá-la em casa — nesta época eu morava com meu irmão. Ao pararmos o carro em frente à casa dela, sua mãe a esperava no portão. Ela desceu e foi chorar nos braços de sua progenitora, a única que poderia acalentar sua alma naquele momento. Meu irmão também desceu, pois foi abrir o porta-malas para ela pegar suas coisas. Enquanto isso eu sofria calado dentro do carro, encarando a aliança. Eis que de súbito, sem pensar, abro a porta do carro, caminho até ela, paro em sua frente, a fito nos olhos, retiro a aliança de meu dedo e lhe ofereço, como quem diz: “— Adeus. Está tudo acabado!”

Ela se ajoelhou naquela calçada suja de barro e abraçou minhas pernas. Soluçava de tanto chorar. Pedia o meu perdão, implorava o meu perdão, faria de tudo pelo meu perdão. Eu não conseguia reagir a nada, só queria sair dali. A mãe dela precisou agarrá-la e arrancá-la de meus pés. Virei as costas e entrei no carro. A aliança havia ficado comigo. Fiquei dois dias sem falar um mísero “oi” para ela. Nestes dois dias, as coisas se acalmaram. Consegui tomar fôlego e enxergar a situação de outra perspectiva. Lembro-me de falar com meu irmão e dizer: “— Vou perdoá-la, vou continuar o namoro.” Ele me apoiou. Talvez você, leitor, me chame de imbecil por ter tomado tal caminho, mas eu nunca havia visto aquela mulher descer do salto daquela maneira. Ela jogou todo o seu ego fora e, talvez, pela primeira vez em sua vida, ela foi verdadeiramente sincera com ela e comigo. Uma mudança radical acontecera conosco após essa descida para o caos. Eu compreendi isso de imediato logo que a turbulência passou.

Eu nunca mais seria o mesmo homem subserviente e demasiadamente abnegado às suas vontades. Ela nunca mais seria a mesma mulher egocêntrica e mesquinha que vivia olhando apenas para o seu próprio umbigo. Nosso relacionamento melhorou. Fomos muito felizes por algum tempo. Porém — sempre há um “porém” —, ao deparar-me com a oportunidade de traí-la, eu traí. Para amenizar a culpa desta primeira traição — sim, vieram outras depois —, eu racionalizava comigo: “Ela já me traiu uma vez! Eu posso traí-la uma vez também.” Senti tanta culpa após gozar com a outra, que obriguei-me a ligar para o meu pai, às seis da manhã, para desabafar e relatar tudo que acontecera naquela madrugada de pecado.

A culpa não foi o suficiente. Quando tive a oportunidade novamente, a traí de novo, e de novo, e de novo. Trair passou a dar prazer. Eu mentia e me safava. Notei que eu era um bom mentiroso, percebi que as amantes se excitavam com este meu “eu” cafajeste. Eu me tornara um completo canalha, e isso deixou uma marca eterna em minha alma. Eis o relato de uma traição que transformou ambos em traidores e ambos em traídos. Enfim, eu traí a mim mesmo.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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