EIS O MEU INÍCIO NA ESCRITA

Vez ou outra alguém me indaga sobre como a literatura e a escrita entraram em minha vida. Normalmente as pessoas já supõem que nasci numa casa recheada de livros e autores clássicos, que desde pequenino eu fora influenciado pelo meus pais a ler e a escrever diariamente, que aos dez anos eu já havia lido Dom Casmurro, A Moreninha, A Divina Comédia, Hamlet, Grande Sertão: Veredas e etc. Outros me perguntam: “— Guilherme, essa influência pra música e pra escrita é de família?”

Veja você, leitor, o cômico desta história: lá em casa havia pouquíssimos livros, e destes poucos, se li um inteiro, foi muito. Meus pais também não liam. Meu pai diz que leu apenas dois livros na vida: Ali Babá e os Quarenta Ladrões e Robinson Crusoé — se duvidar, ele não leu nem os meus livros, e eu entendo, ele tem mais o que fazer da vida. Minha mãe lia, lá de vez em quando, Paulo Coelho. Tenho lembranças dela ao lado do fogão à lenha, lendo O Alquimista. “Ah, Guilherme, mas então eles devem tocar instrumentos, trabalhar com arte ou coisa parecida…” Não. Eles apenas consumiam arte. “— Então a influência veio dos tios, do avô…” Também não, ou, pelo menos, não que eu saiba.

Lembro-me que desde pequeno, a minha paixão era a criação. Eu desejava criar algo. Esta vontade sempre esteve aqui dentro, pulsando. Minha mãe comprava para mim aqueles soldadinhos de plástico, e eu ficava horas e horas me divertindo com aquilo. Criava personagens, cidades, vilões e heróis. Eu era uma criança calma por fora, mas hiperativa por dentro. Quando viajava com meu pai — meu pai é caminhoneiro —, escorava-me em seu banco, e ele ficava horas me contando em detalhes sobre sua vida, sobre sua infância numa cidade do interior, sobre sua adolescência repleta de “namoradas” e amigos, sobre o seu amor pela minha mãe, sobre sua vida na estrada. E falava tudo isso enquanto dirigia madrugada adentro. Aquilo era alento de vida para uma criança que estava descobrindo o mundo.

Eis o que eu queria dizer. A vontade de ser músico veio muito antes do que a vontade de ser um escritor. Eu ainda não tinha nem dez anos e já trancava-me no quarto para fazer meus shows. Sim! Para mim era um ritual diário: à noite eu adentrava no quarto, “roubava” algum disco do meu irmão, e o colocava para tocar. Eu era a banda inteira: vocalista, baixista, baterista, guitarrista solo e guitarrista base, e, às vezes, até o pianista. Ah, e como isso me dava vitalidade! Eu saía ainda mais vivo daquele quarto. A capacidade imaginativa é tudo para uma criança, e, por que não, para um adulto?!

Mas eu não sabia tocar bulhufas. Eis que o meu primo, o Marcel, resolveu começar a fazer aulas de violão. E o Marcel era o meu vizinho. Sempre nos demos muito bem. Ele também tem esse lado mais calmo por fora e hiperativo por dentro. Acredito que somos dois melancólicos. Algum tempo depois, após ver ele tocando diversas músicas das quais eu gostava, eu também comecei a fazer aulas de violão. Eu precisava aprender a tocar! Fiz seis meses de aula. Após aprender quatro acordes, compunha minha primeira canção. É o que eu disse: eu era um tarado pela criação. Eu e o Marcel nos reuníamos lá no meu módico quarto e ficávamos horas tocando, compondo e se divertindo. Essa é uma das melhores lembranças da minha infância e pré-adolescência.

Algumas vezes, de madrugada, eu pegava o violão, um caderninho velho, uma caneta, e ia para o banheiro compor. Sentava-me no vaso e começava a cantoria. E por que o banheiro? Por causa da acústica; e como era de madrugada, eu não queria acordar minha mãe. Vez ou outra ela me pegava no flagra: “— Meu filho, você de novo tocando aqui no banheiro?!” Não preciso explicar que o “tocando” era o violão, né? Eu devo ter escrito pelo menos umas seis músicas no banheiro. Aquilo era paixão: levantar em uma madrugada fria da serra gaúcha, pegar o violão e ir em direção a um banheiro úmido e frio… a lógica não explica. Era preferível mil vezes estar debaixo das cobertas e deitado sobre aquele travesseiro com cheiro de amaciante. Nada supera estes cheiros característicos da infância, principalmente o cheiro de amaciante das cobertas e dos travesseiros. Aquilo só poderia ser obra da minha mãe. Depois, ao morar sozinho, nunca mais senti tal aroma sobre os meus travesseiros.

Deixe-me voltar à trama. Até aí eu nunca havia lido um clássico sequer. Talvez um livro ou outro, mas só. A escrita, até então, era apenas estrofes de músicas. Ah, e como era bom o sentimento de finalizar uma composição. Até hoje, ao finalizar uma crônica, um poema, um livro, sinto uma plenitude indescritível. É como se eu estivesse com o coração no lugar certo. “É isso que nasci para fazer e é justamente isso que estou fazendo.”

Eis que então, após o colegial, estreei a minha Carteira de Trabalho. Acabara a brincadeira. Agora era preciso trabalhar, pagar contas, virar adulto. E lá fui eu para o meu primeiro emprego: operador de máquina numa fábrica de sapatos. Trabalhava com quatro homens diretamente. Ali eu passei a virar gente. Um destes homens tinha a alcunha de Terrorista. Imagino eu que este apelido modesto deveria ser pelo fato de sua barba volumosa e de sua falta de cabelo. Além do mais, como lidávamos com resinas tóxicas, tínhamos que usar aquelas máscaras à lá Chernobyl. O Márcio realmente parecia um terrorista.

Um dia descobrimos algo em comum: O Senhor dos Anéis. Eu era apaixonado pelos filmes e ele pelos livros. Então o Terrorista ousou dizer que O Senhor dos Anéis era apenas uma história que acontecera dentro da Terra Média. Ele disse que eu precisava ler a Bíblia daquele mundo: O Silmarillion. O homem conseguiu me despertar tamanha curiosidade, que resolvi pegar emprestado com ele a tal “Bíblia de Tolkien”. Eu a li, mas entendia pouquíssimas coisas daquele universo. E perceba o milagre: mesmo eu não entendendo bulhufas, mesmo eu precisando reler diversas páginas para tirar algo valoroso, tomei consciência de algo que mudaria a minha vida para sempre: “Quer dizer que eu posso ser o Deus de um mundo? Quer dizer que eu posso criar um universo, com seus personagens, com seus conflitos, com os heróis, com as princesas e com os vilões? E tudo isso vai sair da minha cabeça?” Lembro deste momento como se fosse hoje. O sentimento de liberdade que experimentei foi algo indescritível.

Comecei a imaginar uma história — como já era de costume —, alusiva à obra O Senhor dos Anéis. Era um dia frio, havia uma cerração baixa e densa lá fora. Eu vestia uma blusa grossa e uma calça de moletom. E, como de costume, eu colocava a meia por cima da barra da calça. Esta é uma imagem espectral da minha infância e adolescência: eu com as meias por cima da barra da calça, usando uma pantufa velha e sentando ao lado do fogão à lenha, enquanto minha mãe tomava um chimarrão. Nada poderia ser tão aconchegante quanto este momento e esta lembrança. O calor do fogo, o amor de minha mãe e uma módica casa feita de madeira por dentro e tijolo por fora.

Peguei um caderno que havia usado na escola, sentei-me na cadeira ao lado do fogão, e passei a escrever o que estava implorando para sair. Eu escrevi, naquela tarde fria, umas seis folhas frente e verso. Assim que parei de escrever, tentei desenhar um mapa daquele mundo que eu começara a criar. Eis o milagre: aquela leitura despretensiosa fez-me acordar para a escrita, fez-me tentar escrever meu primeiro romance sem nunca ter escrito sequer um conto. Serei grato ao Marcio até o fim dos meus dias.

Lembro-me de nós dois, após o almoço, sentados sobre rolos de tecidos, lendo em voz alta O Velho e o Mar, de Hemingway. Líamos um para o outro para praticar a dicção e a leitura. Eu peguei gosto pela coisa. Ele me emprestou mais alguns livros, era uma literatura mais elaborada e robusta. Tratei de os ler. Este foi o meu início na vida intelectual: enquanto trabalhávamos operando uma máquina, no chão de fábrica, arrumávamos tempo para filosofar sobre a vida e ainda ler alguns livros. Grande Marcio! Eu nunca havia conhecido alguém que me apresentara de maneira tão verdadeira o universo da literatura, da escrita e da filosofia.

O Marcio me chamava de Gigante por causa de minha altura, mas veja você, leitor, a ironia do destino: quem era o gigante, no fim das contas, era o Marcio, pelo fato do tamanho de seu coração e de sua paciência para com um jovem de dezoito anos, que não sabia bulhufas sobre a própria vida. Espero que todos encontrem um Marcio em suas jornadas. Eis o meu início na escrita: uma tentativa fracassada de um romance escrito à mão, motivada pela leitura de um livro que entendi pouquíssimas páginas, livro este indicado por um homem de coração gigante e com cara de terrorista. A vida, como já falei por aqui, é um sopro, mas é um sopro cômico.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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