É UM MILAGRE! É AMOR!

Todo final de ano me encho de esperanças. É como se eu pudesse pegar os erros da véspera e não repeti-los no ano seguinte. É como se eu pudesse pegar projetos engavetados e colocá-los em prática no ano seguinte. As ideias surgem como um turbilhão. Sento-me em frente ao computador e as coloco em uma planilha. O mesmo acontece com os objetivos e as metas. Sejamos sinceros: é uma chance de recomeçar, reavaliar a rota, redirecionar a bussola para novos horizontes. Você, leitor, também tem esta sensação?

Além do mais, as pessoas à nossa volta se apresentam mais solícitas, empáticas, amorosas. Até o mais carrasco e prepotente de seu meio, ao passar por você, lhe cumprimenta, lhe deseja feliz Natal e um próspero Ano Novo. E como é bom sentir todo este clima harmonioso entre as pessoas. Isso é um milagre! Eu vejo como um. Há uma história famosa sobre a Primeira Guerra Mundial: no dia de Natal de 1914, o exército alemão e o exército britânico, em vez de guerrearem até a morte, ofereceram uma trégua. Os soldados de ambas as nações, em um clima de alegria e descontração, passaram a andar desarmados pelo fronte de batalha, e pasmem: alguns se reuniram para trocar alimentos, charutos e boas histórias. Você vai me dizer que isso não se trata de um milagre? É um milagre escancarado.

Em meio a um conflito que resultou em milhões de mortes, duas nações inimigas preferem unir-se em vez de matar-se. “Ah, Guilherme, mas isso foi só na noite de Natal.” Foi, mas imagine-se você, na trincheira, cercado pelo caos, talvez já sem esperança, acabara de perder amigos no campo de batalha. Eis que, ao longe, você ouve um instrumento de sopro, em seguida percebe-se as vozes, em coro, do exército inimigo. Eles cantam uma música de Natal. Em seguida, seu pelotão passa a acompanhar a música e a cantar junto. Os homens de ambas as nações saem das trincheiras, desarmados, caminham até o meio da zona de guerra, cumprimentam-se e decidem que naquela noite de Natal, não haverá mortes. Milagre!

Partindo da premissa que 90% da história humana foi feita por meio da violência, da guerra, da malevolência, do ódio, ver algo assim, é um milagre. As pessoas, vez ou outra, surgem com aquelas perguntas bobas: “— Nossa, como existe tanta violência no mundo?” A pergunta que deveríamos fazer é esta: “Como existe paz e harmonia no mundo?” Isso é um mistério. Este é o milagre que as pessoas, por viverem em tempos “confortáveis”, não se dão conta.

Eis o que eu queria dizer. Após sair da casa de meus pais e ir morar em outro estado, vejo eles, normalmente, uma vez por ano. E adivinhe em que época? Natal e Ano Novo. A família reúne-se novamente e eu tenho a possibilidade de matar fisicamente a minha saudade. Há algo mais enobrecedor para a alma humana do que abraçar um ente querido? Quando falo que a vida vale a pena apesar de todo o sofrimento inevitável, é isso. São estes segundos que você fica dentro de um abraço com uma pessoa que ama; é perceber que, apesar de todos os defeitos que você e eles tenham, o amor supera tudo.

É engraçadíssimo olhar meu pai e minha mãe: são dois opostos. Meu pai é um sanguíneo puro. Externaliza tudo que sente, é expansivo, ama estar em companhia de outras pessoas, é demasiadamente carinhoso, brincalhão, e, amiúde, transforma um ambiente triste e apático em algo alegre e festivo — às vezes, festivo até demais. Já a minha mãe é melancólica. Externaliza poucas coisas que sente, é introspectiva, ama estar com sua própria companhia ou, se tiver alguém ao redor, que seja da família, caso contrário, se emburrece fácil; seu carinho é medido, é calculado; ela acalma o ambiente, ela coloca limite no fogaréu do meu pai.

Ver estes opostos de temperamentos novamente em minha frente é estar diante do amor. E por quê? Porque só o amor dá conta de juntar dois opostos. Às vezes pego os dois em algumas discussões acaloradas e penso: “Como eles estão juntos até hoje?” Eu tento racionalizar como eles resolvem suas divergências e, simplesmente, não consigo. Não há lógica. Meu pai quer acender o fogo e minha mãe quer apagá-lo. Estão juntos por um milagre, estão juntos por amor, estão juntos porque resolveram construir uma família, custe o que custar.

É como os dois exércitos inimigos que citei logo acima: apesar de se matarem nos dias anteriores e nos dias posteriores ao Natal de 1914, naquele 25 de dezembro, resolveram unir-se e comemorar. A única diferença entre esta história e a de meus pais, é que meus pais se aturam há quase trinta anos, enquanto os alemães e os ingleses tiveram que se aturar apenas um dia. Será que um casamento pode ser pior que uma guerra entre nações?

Se minha mãe ler isso, ela me mata. Por isso, deixe-me retratar-me: não é bem assim. “Aturar” foi uma palavra pesada. É como se o outro fosse um peso morto a ser carregado pelo cônjuge até o fim dos dias. Não! Dentro de todas estas turbulências que uma relação amorosa traz, há o carinho, há uma admiração sincera pelo outro, há uma gratidão, há intimidade. As coisas boas superam as ruins. E, pensando bem, graças a Deus que os dois são opostos, quem iria apagar o fogo do meu pai se não fosse a minha mãe? Melhor ainda: quem iria derreter o coração de gelo de minha mãe se não fosse o calor de meu pai? Foram feitos um para o outro. Não há como discordar. Isso é um milagre! Isso é amor!

Publicado por Guilherme Angra

Me chamo Guilherme Angra, sou um escritor com dois livros publicados e diversos textos postados na internet. (Crônicas, artigos, contos, poemas). Me formei em Administração, pós-graduei-me em Gerenciamento de Projetos e atualmente estudo Psicanálise. Além disso, crio conteúdo nas plataformas do YouTube, Facebook e Instagram. Meu conteúdo baseia-se em reflexões filosóficas sobre as várias nuances da vida: relacionamento, felicidade, tristezas, angústias, trabalho, finanças, intelecto e etc. Espero poder ajudá-lo de alguma forma.

6 comentários em “É UM MILAGRE! É AMOR!

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