QUAL É O SEU PORQUÊ?

Estava pensando cá com meus botões em como eu despertei para a vida nestes últimos anos. E entenda o “despertar” como um chamado de você para você mesmo: “— É isso, pare de se amedrontar e encare a vida! Está na hora. Ninguém lhe deve nada. Ninguém vai lhe pegar pela mãozinha e carregá-lo até o sucesso, até um local seguro.” Aliás, o que é sucesso? Uma palavra criada para fazer todos corrermos feito loucos atrás de conquistas que outros mandaram você buscar? É uma reflexão válida. E segurança? Quanto mais nos afundamos em segurança e estabilidade, mais adormecidos ficamos. E gente adormecida não se expande e muito menos descobre suas potencialidades e suas vocações. Veja você, leitor, o cômico disso tudo: a vocação tende a se mostrar apenas à luz da insegurança, da instabilidade, do incômodo.

O que seria de Pelé se ficasse em casa com vergonha de jogar contra os colegas da escola? O que seria de Johnny Cash se rejeitasse a ideia de subir em um palco por puro medo e insegurança? O que seria de Nelson Rodrigues, um de nossos gênios, se parasse de escrever com a primeira crítica “construtiva” que recebera sobre uma de suas crônicas? Imagine você, leitor, o quanto perderíamos de talento, de arte, de exemplos. É um custo inimaginável para a civilização. Talvez tenham surgido outros Pelés, outros Nelsons, mas decidiram ficar na estabilidade, no local seguro, ou, talvez, pelas tragicidades da vida, acidentaram-se, morreram. É impossível saber. O que dá para concluir, sem perigo de errar, é que existiram e existem estes homens no refúgio de suas alcovas.

Obviamente usei exemplos de verdadeiros gênios. 99% da população não se trata de gênios, se trata de pessoas normais, assim como eu e você. Mas isso não importa, pois há um potencial em cada um de nós. Há uma vocação a ser descoberta em nosso íntimo, em nossa circunstância. E quando você a descobre, você entra em sincronia com o universo — os antigos gregos falavam algo assim. Não quero aqui romantizar ingenuamente a ideia de vocação, como se ela estivesse à sua espera, e que basta você encontrá-la para ter uma vida plena. Não! Deus me livre de tamanha ingenuidade. Muito pelo contrário, há um caminho ardiloso e denso a ser enfrentado, um caminho chamado “vida”. Perceba, caro leitor, que não basta apenas encontrar sua vocação. Isto é o mínimo! Após encontrá-la, é preciso dedicar horas e mais horas para aperfeiçoa-la, ou, quem sabe, uma vida inteira. E é justamente isso que irá fazer a diferença: o esforço, o treino, o trabalho.

Não há caminho fácil. Não existem atalhos. O que há é um ser humano de carne e osso diante de um mundo repleto de sofrimento e malevolência, onde sua única possibilidade de existência é enfrentar toda esta sombra. Eis o motivo de fortalecermos nossa estrutura, nosso intelecto, nosso corpo, nossos relacionamentos e, principalmente, dedicarmo-nos à nossa vocação. Entenda, meu caro leitor: quem tem um “porquê”, enfrenta qualquer “como”. E é aqui onde quero chegar. Qual é o seu porquê? Pelo que você levanta todos os dias? Há algum propósito aí dentro? Há algo que pulsa, que transcende esta mera carcaça a qual você, eu e todos nós estamos presos?

Dias atrás, finalizei a obra Arquipélago Gulag, do russo Alexander Soljenítsin. Para resumir: se trata de um relato do próprio Alexander, que fora condenado a oito anos em um campo de trabalho forçado, na antiga União Soviética, ou seja, ele foi condenado à escravidão pelo próprio país. Você deve estar pensando aí com seus botões, que Alexander, no mínimo, roubou ou matou alguém. Não! Ele fora condenado por cometer um ato “antirrevolucionário”. Em outras palavras: ele apenas enviou uma carta para um amigo fazendo algumas críticas a Stalin. Pronto! Bastou para tornar-se inimigo da nação. Alexander livrou-se de ser fuzilado, diferentemente de outros milhares de seus compatriotas, porém, agora teria de encarar todo o horror e a malevolência do comunismo soviético na pele. Trabalhar dezesseis ou mais horas por dia, comida escassa, milhares de prisioneiros, temperatura chegando a quarenta graus negativos no inverno, torturas, inanição, estupros, assassinatos, mortes… Este, de maneira resumidíssima, era o Arquipélago Gulag!

Como sobreviver a isso tudo? Tendo um porquê! Este porquê era uma centelha do divino dentro da alma de Alexander. Quase como uma faísca procurando o que queimar para não deixá-lo na completa escuridão. Em meio a todo o caos do arquipélago, Alexander arrumava um jeito de introjetar vida para dentro de sua carcaça cadavérica. Ele escrevia em segredo. Decorava suas histórias e poemas, e então livrava-se dos manuscritos, pois se fosse pego, poderia ter sua pena aumentada, a vida ceifada ou sabe lá Deus o que mais poderiam fazer com ele.

Além de fazer sua vocação — escrever — em um local inóspito, há outro fator fundamental que o fez continuar achando coisas para queimar: se redimir com sua própria consciência, pois antes do arquipélago, Alexander apoiava o regime comunista. Ao sentir na pele toda malevolência da foice e do martelo, sentiu-se culpado. Este ímpeto de externalizar o que de fato era o regime comunista o acompanhou por toda sua pena, o fazendo levantar todos os dias e prometer a si mesmo: “algo deve ser feito contra isso”. Anos depois ele escreveu um dos maiores clássicos do século XX: Arquipélago Gulag. Um livro que todo professor de história deveria ler antes de sair falando bobagens para os jovens, ao defender com afinco a URSS.

Repare que é impossível fazer do mundo um lugar melhor sem antes melhorar a si mesmo. Este é o cerne de toda a discussão deste texto. Desconfie principalmente de jovens revolucionários, que bramam por aí em salvar o mundo, mas que não respeitam seus pais, não lavam a louça da janta e não arrumam seus quartos. É mais fácil “salvar” a humanidade do que fazer algo de concreto em sua circunstância, pois “salvar” a humanidade não demanda responsabilidade alguma; é vago, vazio, sem substância. Serve apenas para inflar o ego destes sujeitos. E eles crescem com estas ideias bonitinhas e “corretas” na cabeça. A paranoia dessa gente chega em seu ápice ao entrarem na universidade, onde conhecem outros jovens egocêntricos e professores descolados, e todos possuem a mesma mentalidade de “salvadores da humanidade” apenas por lerem alguns livros difíceis e escreverem artigos de como o mundo deveria funcionar partindo de suas visões teóricas “corretíssimas”.

Ao pegarem o diploma, ou melhor, o atestado de semideuses, agora eles fazem parte da elite intelectual. Perceba que até o momento, este indivíduo nunca sequer olhou para dentro de si e identificou sua maldade inata, seus anseios sombrios, sua condição mesquinha de existência. Não! O problema sempre são os outros; o inferno sempre são os outros; o mal sempre está no lado de fora. Com isso, há a perda do contato com a humanidade, há a perda do contato com a vida prática e um afundamento em si mesmo. Veja o paradoxo: por mais que este sujeito esteja voltado para si mesmo, este voltar-se a si é mais como uma forma cega de venerar-se, e não de atentar-se aos seus defeitos. Isso resultará em uma personalidade imatura, incompleta, inacabada.

Então repito: é impossível fazer do mundo um lugar melhor sem antes melhorar a si mesmo. O que acontece de fato é: você se fortalece como indivíduo, arruma sua casa, aperfeiçoa seu intelecto, introjeta valores, vive a vida prática buscando o maior bem possível, aprende com os fracassos, evolui sua personalidade, toma consciência de sua maldade, amadurece, encontra sua vocação, encontra um porquê em estar vivo e trabalha arduamente em cima disto. As coisas ao seu redor melhoram. A convivência na sua casa, na empresa, com seus amigos, ou seja, sua circunstância melhora e todos que estão à sua volta também.

Eis o ouro: achar a sua vocação e um porquê em estar vivo é apenas o começo.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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