NADA NOS HUMILHA MAIS DO QUE O DESEJO

Você, leitor, já parou para pensar que nada nos humilha mais do que o desejo? Imagine um homem barbado, sentado em frente ao computador, nu. Literalmente com o pau na mão, se acariciando para um monitor LCD. Após o clímax, de imediato, o miserável fecha as quinze abas que havia aberto com a intenção de realizar seu desejo. Em seguida, o pudor lhe permeia os sentidos. E então vem a única constatação possível: “Nada nos humilha mais do que o desejo.” Não é preciso ficar apenas no onanismo. Quantas vezes, você, homem, fez o diabo para satisfazer seu desejo da carne, correu riscos, modificou rotinas, traiu valores, tudo isso apenas para dar vazão à sua concupiscência? Diversas vezes, não é mesmo?! Logo após o gozo sem intimidade, vem à sua consciência a mesma constatação: “Nada nos humilha mais do que o desejo.”

Hoje quero falar sobre sexo e sobre o desejo que nos invade desde a mais tenra idade. Nelson Rodrigues dizia que quando entra o sexo, o amor começa a morrer. Lendo rapidamente, poderíamos imaginar que não passa de uma bobagem, dita por alguém que talvez nunca sentira os prazeres baratos da carne, e, consequentemente, nunca se maravilhou com tamanho prazer que uma relação casual pode proporcionar. É só mais um tiozão reprimido cagando regras e frases de efeitos por aí. Me pergunto: será? Quanto mais leio Nelson, e quanto mais ganho experiência de vida, ou seja, quanto mais percebo a minha natureza, sinto que o nosso Anjo Pornográfico (apelido de Nelson), acertara em cheio.

A discussão aqui é sobre o sexo sem amor. Pois acredito que é isso que o Nelson quis dizer com sua frase. O sexo sem amor, o sexo sem intimidade, o sexo usado apenas para satisfazer um desejo efêmero que lhe invade as entranhas. Ele pode ser maravilhoso, sejamos sinceros — eis o problema. Imagine um homem a encarar uma moça dentro do metrô. A moça aceita a encarada e revida. Ao saírem da estação, ambos seguem para um banheiro sujo e trepam ali mesmo. A moça poderá sentir-se uma vagabunda, e o homem, um canalha completo. E talvez, justamente por causa desta sujeira moral, de ir contra as regras, de correr o risco, de perverter a normalidade, há de ser maravilhoso. E muitos se perdem nesta decida para a sujeira.

É inegável que o sexo e o desejo carregam esta sujeira. Ora, uma relação sexual é uma troca de fluídos entre dois corpos em estado de excitação. E mais: eles lhe tiram da civilidade. Por um momento você estava sentado em um banco, no vagão do metrô, pensando nos relatórios que terá de entregar no dia. Em outro momento você está em um banheiro sujo com uma desconhecida nesta troca de fluídos, e, obviamente, neste instante de prazer, ambos passam a ficar vulneráveis, ambos colocam tudo a perder por causa do desejo.

Em Galveston, livro de Nic Pizzolatto, há uma cena onde Roy, o protagonista da trama, passa a encarar as coxas de uma mulher. E Roy narra: “Não conseguia parar de olhar para as pernas e as coxas dela. O desejo sempre me pareceu vagamente humilhante.” Ora, e por que humilhante? Homens possuem a capacidade de transformarem-se em feras indômitas quando estão tomados pelo desejo. É como se aquela excitação sexual os transformasse em escravos da vontade. Após o gozo, normalmente, este homem é liberto de sua escravidão. Seu superego volta a funcionar. Porém, muitas vezes, ao voltar para o controle de si mesmo, vem a culpa, vem a constatação triunfal: “Nada nos humilha mais do que o desejo.” Quantos casamentos não foram para o espaço por causa disso? Quantas famílias não foram destroçadas por isso? Quantos valores não foram quebrados por isso? O sexo nunca fez santos ou homens de caráter, apenas pulhas e canalhas.

Repito: quando entra o sexo, o amor começa a morrer. E alguém poderá indagar: “— Mas em uma relação onde há amor, não pode haver sexo?” Nada é tão literal assim. Em uma relação amorosa, o desejo não lhe humilha, não lhe torna um escravo. Em uma relação amorosa, o casal se sente confortável no silêncio, tanto dos corpos, quanto da língua. Você e sua mulher deitam na cama, um abraça o outro e vocês dormem até o outro dia. E isso é maravilhoso. Silêncio de corpos e de língua. Eis a intimidade.

Schopenhauer, para estragar o meu parágrafo poético, dirá apenas que este silêncio ocorrera devido à dominância, ou seja, “Esta fêmea já é minha, logo, o desejo esvaiu-se de meu corpo e passou a dispersar-se novamente por outras fêmeas. Não há um porquê em esforçar-se neste relacionamento.” Errado não está, partindo de uma visão puramente objetiva. Para Schop, o desejo do homem é disperso, ou seja, nós desejamos milhares de mulheres a todo tempo, entretanto, quando nos apaixonamos por uma delas, este desejo que era disperso, agora passa a focar somente nesta mulher. Por isso que o início de qualquer relacionamento é puro desejo. Porém — sempre há um “porém” —, com o tempo, este desejo volta ao seu estado padrão: a dispersão. Aqui é onde costumam acontecer as traições, pois o homem rende-se para o desejo, para o sexo, e então torna-se um canalha, torna-se um escravo da vontade.

Mas calma lá, a vida é trágica, mas nem tanto. O homem não precisa render-se à dispersão de seu desejo. Podemos concordar com isso? E, justamente, ao não se render, ao lutar contra essa vontade que lhe invade as entranhas, eis aí o seu caráter, eis aí um mísero de suas virtudes. E Schopenhauer que vá catar coquinho com essa objetividade insossa. Mal sabe ele como é bom dormir de conchinha quando se ama uma mulher. E digo mais: só há conchinha quando há intimidade. E intimidade é algo a ser conquistada. É impossível dormir ao lado de uma mulher quando não há intimidade, imagine então de conchinha. Diferentemente do sexo, que pode ocorrer com estranhos, em qualquer lugar, em qualquer tempo. É fácil, é efêmero, é fugaz, é humilhante.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

6 comentários em “NADA NOS HUMILHA MAIS DO QUE O DESEJO

  1. Muito bom! Não se trata de moralismo, mas de psicologia no melhor sentido da palavra: aquilo que me plenifica é bom, e aquilo que me envilece é mau. O bem deve ser feito, o mal, evitado. Não pprque alguma norma o diz, mas porque isto nos faz bem! Obrigado!

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  2. Concordo plenamente com o título… Mas sobre a análise da frase de Nelson Rodrigues, discordo. “Quando entra o sexo, o amor começa a morrer” não é referente ao sexo sem amor mas o contrário, que amamos enquanto estamos abrindo caminhos pro sexo… O amor tipo paixão… Aí quando conseguimos o fim, e o sexo é sempre o fim para essa frase, o interesse passa ser a continuidade do sexo, dentro do relacionamento ou fora… Então sim, a frase está correta, mas não que o sexo sem amor que acaba com o amor. É a falta de objetivos… Podemos sustentar o amor se tivermos o objetivo de constituir família, ou de termos os mesmos objetivos, como viajar, se aposentar cedo, montar uma empresa… A admiração e ou a dedicação sustenta esse amor… Mas se o amor é somente sem objetivo, este é o sexo… E isto começa a matar o amor a partir de quando começa…

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  3. Penso que tanto no amor quanto no sexo não há regras definidas. Iguais pra todos quero dizer. As pessoas são muito diferentes. E cada uma delas interpreta o amor e o sexo a sua maneira. Assim como tem diferentes necessidades de sexo e de amor.

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  4. Perfeito! Essa luta da carne com os padrões morais e a consciência é o caminho para a elevação espiritual.
    Você precisa ler “O diabo” – Dostoievski.

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