UMA BOA RELAÇÃO AMOROSA É COMO UMA DANÇA

Me perguntaram, tempos atrás, o que eu considerava uma “boa relação amorosa”. Digo-lhe, leitor, que vejo uma boa relação amorosa como uma dança, onde o homem toma coragem e tira a mulher para dançar. E é ele quem deve conduzir a moça pelo salão. A mulher, envolvida nos braços de seu galanteador, deixa-se ser conduzida ao ritmo da música. Ela sente-se amada e protegida, pois o homem a segura firme e a encara no fundo dos olhos. Ela confia no homem que está em sua frente, e isso basta. Ele sente-se útil e responsável por sua amada, e esta é sua única possibilidade de existência: a responsabilidade.

Perceba que a mulher deixou-se ser conduzida quando o homem tomou a iniciativa de chamá-la para dançar, ou seja, só há uma relação amorosa de fato, quando ambos reconhecem o seu papel. Se os dois tentarem conduzir, não há dança; se nenhum dos dois tomar a frente para conduzir, não há dança; se a mulher for a responsável por conduzir, o homem sente-se um completo e perfeito inútil. Então repito: a única possibilidade que nos sobra é o homem conduzir, e a mulher ser conduzida.

Na última vez que escrevi sobre isso, chamaram-me de machista. “Ora, como assim você está dizendo que há papeis definidos de homens e de mulheres? Isso não existe mais, agora ambos podem conduzir ou fazer o que quiserem dentro da relação.” Perceba, leitor, que falar o óbvio causa espanto. Digo e reafirmo: os maiores problemas nos relacionamentos atuais, é que ninguém sabe o seu papel, e quando ambos estão perdidos na relação, não há segurança, não há um chão sólido no qual é possível firmar-se, não há um vínculo forte entre o casal, não há confiança e os dois se afogam na liquidez do mundo moderno, ou, para continuar em minha analogia, o casal se perde no ritmo da dança, pisam nos pés um do outro e passam a discutir no meio do salão.

Alguns poderiam pensar que isso é uma ideia deveras romântica de um bom relacionamento, ou seja, é tudo uma utopia. Mas digo-lhe, leitor, com altivez: é óbvio que é uma ideia romântica. Para que diabos eu escreveria, gravaria vídeos, me dedicaria a falar sobre comportamentos humanos, sobre relacionamentos, sobre paixões, sobre amor se não fosse para romantizá-los? Imagine: “— Então, pessoal, o amor não existe, é apenas uma palavra criada pelos homens como diversas outras, não há nada além de desejos sexuais que invadem nossos corpos, casamento é uma ilusão criada pelo patriarcado para oprimir mulheres, e o que nos resta é ‘aproveitar’ o presente e sair por aí como um cachorro atrás de cadelas no cio, mas, claro, sem se descuidar, né pessoal. Usem camisinha e respeitem seus parceiros.”

Nem se toda esta baboseira abjeta fosse verdade em sua totalidade, eu a engoliria. A ciência, talvez, irá concordar com tais afirmações, pois a ciência é isso, ela mostra o que as coisas são em sua materialidade insossa. É uma percepção de mundo objetiva e lógica. Porém, essa percepção de mundo não motiva nenhum zé ruela a fazer nada. Há algo a mais. Há a percepção subjetiva de mundo, ou seja, você não é só um amontoado de pele, órgãos e ossos que mija, caga e trepa por aí. Há uma personalidade interessantíssima aí dentro, há sentimentos a serem explorados, há histórias que lhe inspiram, há motivações inexplicáveis, há crenças, há fé, há atos gloriosos, há irracionalidade, há todo um universo singular e cheio de pulsão e vitalidade. É disso que estou falando. É por causa deste universo misterioso que você levanta todos os dias.

A morte de um pai para a ciência é um atestado de óbito, informando a causa de sua morte e etc., mas, para um filho que sentiu o amor do pai, ou melhor, de seu herói, durante cinquenta anos, é um emaranhado de sentimentos e subjetividades avassaladoras. Há algo a mais que nos move pelo universo, como se fosse uma centelha da força de Deus. É nisso que acredito, é no mistério que me invade toda vez que penso sobre a existência.

Uma visão estritamente lógica, científica e objetiva sobre tudo lhe empobrece a alma, é como se pegássemos a vida e todos os seus mistérios e jogássemos no lixo, e, a partir disso, as coisas só serão válidas se houver um respaldo lógico e científico. Não! Deus me livre tornar-me um idiota da objetividade, como falava Nelson. Estes dias assistia um sujeito, cheio de pose e palavras dificílimas, defender o aborto de um ser humano, amparado apenas por questões lógicas e científicas: “O corpo é da mulher, logo, ela faz o que quiser” ou “Até três meses o feto não sente dor, não tem ‘lógica’ alguém ainda ser contra o aborto” Cacete! Que ideia absurda pensar em um ser humano apenas como um amontoado de pele e ossos, algo a ser descartado como se fosse um brinquedo estragado.

Isso me lembra os regimes ditatoriais mais perversos que existiram — e alguns ainda existem —, comunismo, nazismo, fascismo, que tinham em sua essência esta lógica científica e racional, apenas. Para eles, o ser humano não passa de um cálculo para uma equação. “Cem milhões foram assassinados por ditadores comunistas? Ora, era um teste, né pessoal. Vamos continuar tentando, vai que uma hora a gente acerta, né? Nem que para isso morram mais cem milhões, pois o que vale é atingirmos o nosso objetivo: o progresso.” Entenda, meu querido leitor, que homens como Stalin, Hitler, Lênin, Mao, desumanizaram-se. Eles perderam o contato com a visão subjetiva de mundo, logo, perderam o contato com a humanidade. A partir disso, se precisar fuzilar, torturar, assassinar, para que o mundo se adeque à visão deles, eles o farão, e pior, sem sentir culpa alguma, pois estão respaldados pela ciência e por suas ideologias. Estes homens, com certeza, foram os maiores idiotas da objetividade que a humanidade já viu.

Fui longe, eu sei, mas eis o que eu queria dizer e reafirmar: um bom relacionamento amoroso é como uma dança, e uma dança é puro romantismo — nem todas, nem todas, ainda mais em nossa modernidade. Lembro-me na puberdade, ao ir em algumas festas. Olhava todo aquele pessoal dançando, enquanto eu ficava ali, parado, explodindo por dentro e sereno por fora. Vez ou outra, ao procurar no salão, achava uma moça solitária. Pensava: “É a minha chance!” Todavia, eu não sabia dançar. “E agora?” E a moça estava sedenta por uma dança, então dançava sozinha. Há algo mais humilhante para a alma masculina do que uma mulher dançando sozinha por falta de homens? E não me entendam mal, pois a falta de homens não se tratava de uma questão numérica. Só havia homens naqueles bailões, porém, poucos dançavam, e destes, pouquíssimos tinham coragem de tirar as mulheres para dançar.

Tratei imediatamente de aprender a dançar — pelo menos para dar aquela enganada. Tomei vergonha na cara e pedi para a minha mãe me ensinar o básico. Lembro-me até hoje eu e ela na cozinha: “Dois pra lá, dois pra cá. Ou, dependendo, dois pra lá, um pra cá. Agora é só seguir o ritmo da música.” Ensaiamos alguns ritmos e pronto. Quando percebi, sabia dançar. Obviamente não era um pé de valsa, mas agora, ao ver uma mulher dançando sozinha, eu poderia tirá-la para dançar em vez de ficar sendo humilhado pelo meu próprio ego. Você, leitor, já tirou uma mulher para dançar? Lembra-se das primeiras vezes? Você a encara de longe. Neste momento há um embate: “Vou ou não vou?” Então você toma a decisão de ir. E aquela caminhada até ela parece demorar uma eternidade. Enquanto caminha, a dúvida lhe percorre a alma: “Será que ela vai aceitar?” A tensão e o medo tomam conta de seu corpo, mas, mesmo assim, você vai. Esta, sem dúvida, é uma das primeiras vezes que você demonstra ter coragem na vida. Então você chega, pergunta e ela aceita. É ou não é para aplaudir de pé, igreja?

Após esta primeira tensão, vem a segunda: não pisar nos pés dela enquanto a conduz pelo salão. Você a agarra firme pela cintura, e este ato é alento para a alma masculina, como quem diz: “Você se entregou a mim ao aceitar dançar comigo, e agora irei lhe guiar, irei lhe proteger, irei lhe proporcionar um ótimo momento.” Depois de umas duas músicas dançadas com sucesso, você fica mais confiante, e a moça confia mais em você. Agora vocês conversam um no ouvidinho do outro. Ela sorri. Você sorri. Eis o início de milhares de relacionamentos, ou, talvez, de uma noite bem vivida.

Toda esta cena que relatei fora romantizada. Eu vivi tudo isso, eu senti tudo isso. O romantismo é o que nos resta, meus caros, é o que nos resta. Se não for para romantizar a minha vida, para que diabos hei de levantar da cama todos os dias? É melhor nem levantar. Não sejamos mais um bando de gente apática e vazia que se afogou na liquidez do mundo moderno e na lógica do mundo objetivo.

Publicado por Guilherme Angra

Me chamo Guilherme Angra, sou um escritor com dois livros publicados e diversos textos postados na internet. (Crônicas, artigos, contos, poemas). Me formei em Administração, pós-graduei-me em Gerenciamento de Projetos e atualmente estudo Psicanálise. Além disso, crio conteúdo nas plataformas do YouTube, Facebook e Instagram. Meu conteúdo baseia-se em reflexões filosóficas sobre as várias nuances da vida: relacionamento, felicidade, tristezas, angústias, trabalho, finanças, intelecto e etc. Espero poder ajudá-lo de alguma forma.

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