SOMOS UM ROMANCE AMBULANTE

Há algo mais extraordinário do que pessoas comuns, vivendo suas vidas comuns e contando suas histórias comuns? Todos nós somos um romance ambulante de, pelo menos, mil páginas — e mil páginas é um baita calhamaço. Mil páginas lidas, relidas e entendidas na sua profundida, podem lhe ocupar a alma por anos, ou, quem sabe, por uma vida inteira.

Pensava sobre isso esses dias enquanto almoçava com um colega de trabalho, sobre as raridades que existem nos universos singulares das pessoas comuns. Aliás, qualquer escritor que se preze, necessita enxergar além do novo e da novidade e passar a enxergar o óbvio ululante. A vida é extraordinária e fascinante. E ela acontece nos detalhes. Repito: nos detalhes. Lembro-me de minha infância, ao voltar da escola, no fim da tarde. Chegava em casa e a mesa já estava posta. Meu pai, minha mãe e meu irmão já estavam a me esperar para então tomarmos aquele café em família. O sol do fim de tarde adentrava pela módica janela da porta da sala e nos iluminava. Por um momento parecíamos todos imortais. É disso que lembro: dos raios de sol iluminando as pessoas que mais amo, das gargalhadas em família e do gosto forte do café. Detalhes.

E até hoje são os detalhes, são os pormenores que me enchem a alma de espanto e admiração. Quando perdermos a capacidade de admirar, de se espantar, de romantizar, voltaremos a andar de quatro. Hoje está difícil alguém se espantar com a novidade, com o grandioso, o monumental, quiçá então espantar-se com os detalhes, com o ínfimo, com o óbvio. Dias atrás, recebi uma mensagem de um leitor dizendo-me que não enxergava valor no romantismo, na entrega da aliança, em datas comemorativas e etc. Ora, perguntei a ele se já estava relinchando por aí e comendo pasto.

Nossa vida há de ser romântica. E digo mais: ela precisa ser romantizada. É a nossa única possibilidade de uma existência menos miserável. Do contrário, eu caio no materialismo insosso e apático do mundo moderno, onde homens e mulheres andam por aí relinchando e mugindo numa existência nula e abjeta.

E perceba, leitor, o que falei no início desta crônica: somos um romance ambulante. Este é o arquétipo da vida humana. Você nasce numa circunstância específica, só sua. Só sabe babar e chorar no colo de sua mãe. É cheio de defeitos a serem trabalhados. Há toda uma história singular para ser desvendada. Você cresce e então decide enfrentar a existência de olhos abertos, de costas eretas, mirando no maior bem possível. Ao longo do caminho, se depara com os vilões mais vis que pode encontrar. E você os enfrenta, perde algumas batalhas, ganha outras, aprende com os erros. Com isso tudo, você descobre qual é a sua vocação, qual é a razão de sua existência, entende que tudo se trata de ordem e caos.

No meio de sua jornada surge uma princesa, pela qual você se apaixona instantaneamente. Com o tempo, sente o que é amar e ser amado. Vocês dois se casam. Os filhos vêm em seguida, e você os ama incondicionalmente, você os protege do mal, lhes mostra o caminho, sente o amor deles por ti. À medida que a idade chega, as doenças e a fadiga aumentam. Você ainda é repleto de defeitos, mas um velho cheio de defeitos é infinitamente mais sábio do que um jovem cheio de defeitos. Você passa sua sabedoria para aqueles que ama. Logo depois você é acometido por uma morbidade. Fica de cama, vai para o hospital. Percebe que está chegando ao fim de sua jornada. Sua esposa, seus filhos e seus netos lhe fazem visitas, como se tivessem se despedindo. Lhe enchem de amor e afeição até o momento de sua morte.

Eis a jornada do herói, eis uma vida romântica, eis uma vida com significado. A arte imita a vida.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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