CABEÇA PARA DAR E VENDER

A minha cabeça era grande, gigantesca, monumental. Sim, a crônica desta semana é para falar de minha aparência deplorável. Os que me conhecem há tempos se oporão: “Era? Não! Ainda é!” Hoje ela ainda é grande, admito, porém, o contraste com o restante do meu corpo passou a ser menor. Ora, agora eu tenho 108 quilos — os mais engraçadinhos dirão que 100 é de cabeça. Não, senhores! Atualmente, tudo em mim é grande — pensem o que quiserem. Criei barriga e até alguns músculos nos últimos tempos, o que ajudou consideravelmente na diminuição deste contraste “corpo x cabeça”.

Mas na minha infância e adolescência eu pesava no máximo 70 quilos, era um dos mais altos da turma, e a cabeça era do mesmo tamanho. Meu Deus, não havia como não ser alvo de chacota dos amigos. Era impossível! Qualquer um que me olhasse, pensaria: “Este cabeçudo tem que ser zoado! Olha para esse cara!” Depois criaram uma palavra chique para a zoeira na infância, o famoso bullying. Eu sou fruto do bullying, e digo mais, eu sou a origem do bullying. O termo existe por minha causa. Você, leitor, não sabia disso? As professoras devem ter pensado: “Tadinho do cabeçudo, não tem um dia que os amigos não zombam de sua aparência física desagradável, temos de criar um termo bonitinho para essa situação, e precisa ser um termo em inglês, pois está na moda.” Eis a origem do bullying.

Confesso que eu também não me ajudava. Lembro-me de uma época em que fiz a burrada de deixar o cabelo crescer. Ora, eu começara a andar de skate e a ouvir bandas mais pesadas, e todo skatista rockeiro é estiloso. É um estilo do horror, eu sei, mas não deixa de ser um estilo. O problema fundamental aqui é: se minha cabeça já era grande o suficiente com um cabelo curto, imagine esta mesma cabeça com um cabelo comprido. E veja bem: meu cabelo é crespo, muito crespo. Então ele crescia para cima, aumentando ainda mais o comprimento da minha cabeça. Nesta época ganhei o apelido de “Cachopa Mestre”. No dia a dia, para simplificar, chamavam-me: “Ô Cachopa” ou “Ô Cachopudo”.

O pior é que meu pai incentivava-me a deixar o cabelo crescer, ele me achava o moleque mais lindo do mundo. Em momentos da vida dos quais sentia-me triste por ser eu, ele motivava-me: “— Filho, tu é lindão. Quem não queria ter tua altura? E esses cabelos? É estiloso. Eu sempre quis ter um cabelo assim. Tu chega em um lugar e todos te olham!” Ele estava certo, todos me olhavam, mas pelos motivos errados — ou certos —, pois eu era quase um animal exótico, e entenda o “exótico” aqui como um eufemismo para “feio para um caralho!” Por isso, sempre digo: opinião dos pais não conta, pois eles te amam incondicionalmente. É óbvio que o filho sempre será belíssimo diante do amor que eles sentem por ti. O problema passa a ser o mundo. Você sai de casa e as pessoas “normais”, que não lhe amam como seus pais, lhe atiram na cara suas crudelíssimas opiniões.

Então eu fiquei meses com aquela cachopa, talvez tenha ficado um ano ou mais. E eu tinha a mania obsessiva de a todo momento ficar arrumando os meus cabelos, como se fosse mudar alguma coisa, como se magicamente eu fosse ficar mais bonito e mais apresentável para as meninas, pois nesta idade, beijar alguma garota era um dos meus maiores objetivos de vida. Já contei aqui como foi o meu primeiro beijo. A cachopa veio logo depois disso. Então, se o interesse das mulheres por mim já era ínfimo antes da cachopa, com a cachopa, não havia interesse algum, era nulo, beirando o negativo. “O quê? Ficar com aquele garoto ali? Ui, não!”

Eis que me enfureci. Cortei a cachopa! Lembro-me de chegar à sala de aula e minhas colegas arregalarem os olhos. Era possível ler seus pensamentos: “Nossa, ficou muito melhor!” E algumas me falaram isso. Entenda, leitor, que eu não fiquei bonito, longe disso. Fiquei menos feio. Mas já era alguma coisa. A partir deste dia, jurei nunca mais deixar o cabelo crescer. Foi como se eu tirasse um peso de minhas costas, ou melhor, de minha cabeça. O apelido “cachopa” não morreu, continuou intacto, espectral. E, obviamente, vieram outros ao longo de todos estes anos: “Cabeçudo”, “Capitão Planeta”, “Cara de Cavalo”, ou em inglês “Horse Face”, “Caixa D’água” e etc. Alguns tentavam motivar-me: “— Guigo, sua cabeça não é grande, o mundo que é pequeno”.

Se eu fosse me irritar com isso, não teria amigos nem no passado e nem no presente, eu seria excluído dos meios sociais, eu, certamente, seria “o chato que não aguenta piadas”, eu seria aquele garoto que ninguém convidaria para o futebol ou para os churrascos, pois se ofende com tudo, e gente que se ofende com tudo, não dá para confiar. Sabe aquele moleque que passa a chorar pois o mundo não é como ela quer? Sabe aquele seu amigo que era sempre o chorão da turma, que ninguém poderia brincar, pois ele sempre sentia-se ofendido e então começava a chorar? Não, eu não fui esse cara. No início eu ficava colérico, tinha vontade de bater em todo mundo, xingava de volta, desfazia amizade e etc., porém, em pouco tempo, percebi que quanto mais eu lutava contra este fato irretocável — o fato de minha cabeça chamar a atenção —, mais eu me excluía, mais eu me levava a sério, e mais eu me afundava em meu narcisismo.

Lembro-me de quando comecei a trabalhar em meu primeiro emprego: numa fábrica de sapatos. Eram cinco homens ao redor de uma máquina que resinava tecidos. Na primeira semana, recebi meu apelido: “Monstro” Ora, eu tinha quase dois metros de altura, era magro como um fumador de craque, e ainda era meio desengonçado. Admirei-me de não ter recebido nenhum apelido devido à circunferência da minha cabeça. Eu aceitei o “Monstro” de bom grado. Pegou! E mais, todos ali tinham apelidos: Terrorista, Gaúchão, Chiquinho, Macabro, Zé Colmeia e etc. Qualquer novato que chegasse, apelidávamos de imediato. Era um teste. E digo com sinceridade: todos os novatos que se ofendiam ou iam chorar para o supervisor por causa de um apelido ou por uma brincadeira parecida, não duravam. Não era legal estar com eles. Não era alguém confiável para ficar naquele meio, pois eram ressentidos e vingativos. E isto é perceptível desde a escola. Os homens criam um código de conduta entre eles. Pode parecer cruel e maldoso, muitas vezes, mas quando você aprende a lidar com isso, há grandes possibilidades de você tornar-se um adulto melhor, um homem melhor. Se você não der conta de um apelido, de uma brincadeira, de uma chacota, você vai dar conta do quê?

Meus melhores amigos são assim: aceitam a chacota e fazem a chacota. Na última vez que um amigo de infância me viu, de súbito, afirmou: “— Mas tua cabeça cresceu, hein!” Eu respondi: “Tem uma outra cabeça que cresceu mais. Quer ver?” Rimos e nos abraçamos.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

4 comentários em “CABEÇA PARA DAR E VENDER

  1. Gostei demais da crônica, Oh cabesss…. ops, kedizê, Guilherme kkkkkk. Ri do início ao fim. Muito bom seu senso de humor. Ganhei o apelido mais ridículo do mundo mas por outro motivo (se bem que era cabeçudo também rsrsrsrs). Parabéns meu caro amigo… se rir ainda é o melhor remédio, rir da gente mesmo é placebo kkkkkk. Um forte abraço!

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