BALADA NÃO É UM BOM LUGAR PARA SE ESTAR

Que semana, meus queridos, que semana. Hoje quero refletir sobre o caso mais aclamado do momento, o de Mari Ferrer, sim. Não sou desses de entrar em polêmicas, e nem quero. Aliás, nem vou me ater às especificidades deste caso, apenas relatarei as reflexões que fiz a partir dele. Não serei mais um juiz da internet a sair acusando alguém disso ou daquilo, como se tivesse uma certeza enviada por Deus. A única conclusão plausível e irretocável que me vem à mente é: balada não é um bom lugar para se estar. Música altíssima, ambiente escuro, e drogas para dar e vender. Porém, se fossem apenas estes três elementos, não haveria problemas. Eis o quarto elemento desta mistura do horror: nós! Sim, uma multidão de homens e mulheres.

Alguém já se perguntou o porquê uma balada precisa destes três elementos essenciais? Pensei nisso esta semana. Ora, o pessoal não vai na balada rezar uma missa. Eu já escrevi que balada é a dança do acasalamento moderno. Não é preciso ser um gênio para enxergar o óbvio. Os homens, quando bebem, sentem-se, normalmente, mais confiantes e desinibidos. E pasmem: mais tarados. Deixe-me corrigir: somos tarados com álcool ou sem álcool. O que o álcool faz é libertar a canalhice masculina, ou seja, agora o homem colocará sua canalhice para fora. As mulheres, quando bebem, tendem a ficar mais soltas, alguns diriam, mais “fáceis”. E é verdade! Mulheres fáceis, homens tarados. Juntou a fome com a vontade de comer. Viu? A dança do acasalamento moderno.

Certa vez fui a uma cervejada. Você, leitor, sabe o que é uma cervejada? Explico. Você paga uma vez e bebe até morrer. O famoso open bar. Normalmente começa cedo, ali pelas quatro da tarde. E segue noite adentro. O ambiente tende a ser um espaço aberto, com piscina, com áreas diversas e etc. Fui em duas na minha vida. Na última, beijei, pelo que me lembro, umas sete bocas estranhas. E digo estranhas, pois não criei um pingo de intimidade com aquelas mulheres. Para mim, elas eram apenas bocas. Simplesmente eu estava bêbado, tarado e com “coragem”. De súbito, uma moça atravessava a minha frente, nos olhávamos e nos beijávamos, assim, sem mais nem menos. Após o beijo sem intimidade, ela seguia o seu caminho a uma outra boca, e eu também. À medida que escurecia, a concupiscência aumentava. De novo: não é preciso ser um gênio para enxergar o óbvio. No escuro, com uma música prestes a estourar os tímpanos, com o álcool em grande quantidade no sangue, eis o que sobra: instinto, ou, segundo a psicanálise, sexualidade e agressividade.

Alguns casais transavam ali mesmo, atrás de algum banheiro químico, atrás de alguma moita ou atrás de algum carro, no estacionamento. Outros ficavam mais agressivos. Arrumavam briga com o primeiro que pisasse em seu pé — principalmente entre os homens. Alguns não aguentavam o tranco e passavam a vomitar onde estivessem. Não é raro pisar em algum vômito, garrafa quebrada, copo quebrado ou qualquer outro item destes quando se está numa balada. Outros cambaleavam para lá e para cá, a esmo, sem saberem sequer onde estavam. Triste. Se balada como um todo já é ruim, imagine o seu final. É degradante! É desesperador! É como se o homem — espécie —regredisse e passasse a andar de quatro novamente, enquanto berra: UGA! UGA!

Repito: balada não é um bom lugar para se estar, muito menos um bom lugar para se entorpecer e perder completamente os sentidos. Não é à toa que grande parte das pessoas que são abusadas sexualmente, estão sob efeito de drogas. O mesmo acontece com os agressores. Pessoas boas são capazes de coisas ruins quando estão sob o efeito de drogas. Ora, não sejamos hipócritas. Todos já fomos adolescentes, já bebemos até perder a consciência, já fizemos coisas maldosas ou fomos vítimas de coisas maldosas — e nem me refiro aqui a atos sexuais, mas a atos violentos, como quebrar coisas alheias, arrumar confusão e etc. Qual o homem que nunca saiu bêbado de uma balada juntamente com uma mulher bêbada? Vocês entram no carro, o homem dirige até um motel ou até a casa dele, vocês transam e adormecem. No outro dia, ao olhar para o lado, ambos se arrependem do que fizeram. E agora?

Imagine ainda que essa mulher não lembre de nada referente à noite anterior, ou seja, ela não lembra se consentiu aquele ato sexual. “Estupro? Abuso sexual? Acidente? Perversão? Crime?” O que ela faz? Bem, ela pode perguntar para o cara: “— Então, eu aceitei transar com você ontem?” E ele pode responder: “Sim! Em nenhum momento você mandou eu parar.” Ou ele pode responder: “Também não lembro direito.” Ou ainda: “Você até pediu para pararmos, mas eu insisti e você cedeu!” Ou ele pode ser um estuprador de fato e mentir! E agora, o que fazemos com isso? E ainda podemos inverter, ou seja, o homem não lembra bulhufas e resolve perguntar para a mulher.

Quantas relações sexuais daquela cervejada que fui, foram consentidas racionalmente? Talvez, nenhuma. Talvez todos tenham se sentido sujos e pulhas no dia seguinte. O cômico do nosso mundo moderno é que as pessoas querem apenas o bônus, ou seja, querem sair para a noitada, desbravar seus desejos, usar todo o tipo de droga, realizar suas fantasias sexuais e ainda se sentirem plenas, seguras e felizes. No mundo utópico, perfeito, ético, realmente, deveríamos ter apenas o bônus. Eis o problema monumental: não vivemos neste mundo. Vivemos em um mundo onde há o ônus em tudo que fazemos. E este ônus, muitas vezes, carrega o sofrimento e a maldade humana.

Quando um pai, consciente da podridão do ser humano, vê sua filha lindíssima, prestes a sair para uma balada, de imediato a recomenda: “— Não beba nada no copo dos outros. Não beba até perder a consciência. Não vá ficar com vários homens. Tome cuidado, minha filha, por favor.” E ela, cheia de si, responde ao velho: “— Sai fora, pai. Esse pensamento é machista. A gente é livre para fazer o que quiser.” Exatamente. Todos somos livres para fazermos o que quisermos, inclusive aqueles com más intenções. E há muitos por aí. O pai desta moça sabe que o mundo é um lugar perigoso e cheio de maldade. Aliás, o problema não é o mundo, é o ser humano.

Como dizia Nelson em uma de suas crônicas: “O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo.” A balada desumaniza o ser humano, e mais: ali, tudo é feito com a intenção de desumanizar o homem e transformá-lo em um animal. Exagero? Pessimismo? Talvez eu esteja apenas enxergando o lado ruim de uma balada. Mas e o lado bom? A diversão, a pegação e as histórias hilárias para contar? Isso é bom, não é? Diga-me você. O que quero deixar claro aqui é: balada não é lugar de dar chance para o azar.

Eu já dei, não na balada, mas na vida. Explico. Lembro-me de certa vez, eu voltando da faculdade a pé, à noite. A rua era de uma escuridão assombrosa. Próximo dali, havia um beco ainda mais assombroso, apelidado, carinhosamente de “beco da droga”. O que se faz quando se está em um lugar como este? Ora, passos rápidos, sem olhar muito para os lados e atenção redobrada. Mas eis o que o idiota resolve fazer: tirei o celular do bolso e resolvi ligar para a minha mãe. Enquanto falava com ela, um moleque cadavérico atravessou a rua em direção a mim. Ao se aproximar, sacou um canivete e me encarou com aqueles olhos esbugalhados: “— Passa o celular!” Graças a Deus, consegui encerrar a ligação com a minha mãe antes da ameaça do moleque, caso contrário, ela teria tido um treco do outro lado da linha.

Dei uma baita chance para o azar, mas, por sorte, ainda paguei um preço baixo. Celular eu compro outro. Eu, obviamente, fui vítima de um criminoso. Quanto a isso, não há discussão. Mas perceba que eu me coloquei numa situação vulnerável que poderia ter sido evitada, ou seja, eu dei chance para o azar. No mundo utópico, eu poderia tirar meu celular do bolso dentro do beco da droga e nada me aconteceria. Mas será que em um mundo utópico existiria o beco da droga? Sei lá. O que eu sei e reafirmo aqui é: o ser humano se falsifica. Um homem bom na véspera, pode ser um homem mau no dia seguinte.

E antes que eu me esqueça: balada não é um bom lugar para se estar, mas, se você estiver, não dê chance para o azar.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

2 comentários em “BALADA NÃO É UM BOM LUGAR PARA SE ESTAR

  1. Se estou à beira de um precipício admirando, digamos, o poente, quando – de súbito – alguém me empurra, isto foi um suicídio ou um homicídio? Veja, seu argumento é tal qual a minha metáfora. Gostaria muito que refletisse ao invés de esbravejar, mentalmente ou em alto e bom som, que não o é.
    Grande abraço.

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    1. Homicídio. Mas qual é o meu argumento? Estou apenas dizendo que balada não é um bom lugar para se estar, muito menos para perder a consciência, pois a natureza humana pode ser de uma maldade avassaladora. Não estou tomando lados de quem está certo ou errado, só estou expondo um fato, e que acontece frequentemente por aí. Abraço.

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