OLHOS FAMINTOS

Ao sentar-me no sofá para assistir a um filme de terror na Netflix, lembrei-me da infância. O leitor já deve ter notado que há semanas venho lembrando da época mais inocente da minha vida. Isso se deve ao fato de obrigar-me a escrever. A escrita me obriga a rebuscar memórias, e como isso é maravilhoso na maior parte das vezes.

Eis o que eu queria dizer. Naquela época, quando queríamos assistir a um filme, tínhamos de ir até uma locadora, lá no centro da cidade, e então escolhíamos o bendito filme — é importante explicar estes detalhes para a geração que nasceu pós anos 2000, que nasceu em um mundo com possibilidades beirando ao infinito. Era a famosa fita VHS. Meu irmão, que tem dez anos a mais que eu, era fissurado por filmes. Então, toda semana, ele alugava alguns para assistirmos juntos.

Eu e ele deitávamos no módico sofá lá de casa — sim, eram dois marmanjos em um mesmo sofá, e eu já era grande com nove anos. Nos tapávamos com umas duas cobertas para encarar o inverno da serra gaúcha, e então assistíamos algum filme do qual ele escolhera. Normalmente, eu não tinha uma mísera ideia do que estava prestes a assistir. Tinha vezes que ele simplesmente dizia: “— Brow, vem cá assistir um filme comigo.” É assim que ele me chama desde a infância, de “Brow”. Minha mãe, vez ou outra, o recriminava: “— Caetano, não vai assistir filmes de terror com o Guilherme, por favor!” Mas quem disse que adiantava.

Vem daí a minha paixão por filmes de guerra. Eram os mais locados pelo meu irmão. Não é à toa que ele, deliberadamente, serviu à pátria. Porém — sempre há um ‘porém’ —, lá de vez em quando, ele alugava filmes de terror. Não vou mentir: ele nunca me obrigou a assisti-los. Ele apenas atiçava-me: “— Brow, esse é de terror, vai querer assistir?” Por muitas vezes eu recusei. Lembro-me de ir para o quarto, curiosíssimo, e, enquanto meu irmão assistia, eu ficava a escutar, lá da minha cama, os gritos de dor das vítimas de algum serial killer.

Um destes filmes marcou-me: Olhos Famintos, de 2001. Tomei a maldita decisão de assisti-lo. Era no meio da tarde. Estávamos apenas eu e meu irmão em casa. Pra quem nunca o assistiu, deixe-me resumi-lo: um jovem casal de namorados — ou eram irmãos? Não lembro — decide viajar de carro para o interior do país. No meio da viagem, os namoradinhos se deparam com um caminhão estranho na estrada. E é exatamente o que você, leitor, está vaticinando: o motorista do caminhão é um serial killer. Mas esta não é a pior parte. O que me deixou borrado de medo é o fato deste serial killer não ser um humano. O serial killer era um alienígena que se alimentava de humanos.

Este detalhe foi o que deixou-me apavorado. “Meu Deus, quais seriam as minhas chances contra este monstro? Contra um humano, eu até tenho chances de escapar, mas contra uma criatura destas, nunca, eu seria comido de imediato. Eu seria a refeição mais fácil do dia.” Este pensamento passou a me atormentar logo após que assisti ao filme. Eis que chega minha mãe em casa. De súbito, vira-se para mim e ordena: “— Filho, vai lá no açougue buscar um maço de cigarros pra mim.” Meu irmão, consciente de minhas cuecas borradas, ainda dá uma força: “— Brow, cuidado com o caminhão aí na estrada.”

E lá fui eu. A cada dez passos olhava para trás. Na minha cabeça de criança, aquele monstro poderia existir. Sim! Poderia passar na rua de minha casa, inclusive, e encontrar-me indo em direção ao açougue comprar um maço de câncer para a minha mãe. Graças a Deus ele não me encontrou. Fui e voltei. “Consegui!” Pensei. Mas o pior ainda estava por vir: a noite, na hora de dormir, no momento onde se apagam todas as luzes da casa e o silêncio impera. “Ora, mas eu tenho um irmão, e nós dormimos no mesmo quarto. Ufa, que alívio. Qualquer coisa ele me protege.”

Como eu era inocente. Meu irmão, na época, estava com dezenove anos. Você, leitor, conhece algum jovem de dezenove anos que fica em casa nos finais de semana? Então, meu irmão não era diferente. Lembro-me eu, sentado no sofá, perto da hora de dormir, torcendo para meu irmão não sair de casa. Até que o infeliz sai do banho, arrumado, perfumadíssimo, pronto para a caça. “Droga! Me ferrei.” Ele vai em direção ao meu pai, e, de uma maneira dócil, pergunta: “— Pai, me empresta vintão?” Naquela época se fazia muitas coisas com vinte reais. Por dentro eu berrava: “Não empresta! Não empresta! Não empresta!” Mas meu pai emprestava. Espere, minto. “Emprestar” é um verbo ruim para tal situação, pois meu irmão nunca devolveria o dinheiro. Meu pai dava o dinheiro. Agora ficou melhor.

E agora? Bem, ainda havia uma possibilidade: meu pai ir dormir comigo, pelo menos até eu pegar no sono. Mas eu tinha uma vergonha monumental de fazer tal pedido. Poxa, eu já tinha nove anos. Meus amigos não dormiam com os pais por causa de um filminho de terror. Será que eu terei de dormir? Então eu ficava no sofá, tenso e ansioso. Minha mãe notava esta estranheza em mim, e, como se lesse meus pensamentos — mãe é mãe —, indagava-me: “— Tu assistiu filme de terror com o teu irmão, né?” Eu apenas assentia com a cabeça. Ela virava-se para o meu pai: “Lé (é como ela chama meu pai), dorme com o Guilherme até ele pegar no sono.”

Eu não gostava de causar desconforto, e eu sei que, naquele momento, eu estava causando. Ora, meu pai chegara de uma longa viagem, louco para deitar-se com sua amada, e então eu, cagando-me de medo por causa de um filminho de terror, estragaria o amor dos dois. Bem, lá foi meu pai dormir comigo. Eu sabia que seria como das outras vezes. Ele não ficava nem cinco minutos e então partia para a sua missão de macho alfa. Homem é homem. E eu nunca dormiria em cinco minutos. Mas eu era um filho legal, pois fingia que estava dormindo. Eu não era daquelas crianças birrentas. Foi como disse, eu não gostava de causar desconforto.

Desde essa época, aprendi que eu era o único responsável pelas minhas atitudes. E eu, dentro daquele quarto escuro, culpava-me: “Seu tonto, quem mandou assistir ao filme?! Agora está aqui, cagado de medo. Bem feito!” Eu também tentava racionalizar o meu medo: “Capaz que um alienígena entraria aqui em casa e viria justo no meu quarto me pegar. Não! Mas e se ele viesse, o que eu poderia fazer? Hum… eu poderia pular a janela e correr… mas e meus pais? Não, eu não poderia deixá-los aqui. Já sei! Eu poderia gritar para o meu pai. Espera, mas aqui em casa não tem armas, meu pai morreria na hora.” Eu ficava horas tentando enfrentar o meu medo. Vez ou outra eu ficava tanto tempo nesta querela comigo mesmo, que, de repente, no meio da madrugada, meu irmão chegava da festa. “Ah, que alívio, agora sim posso dormir.”

Tenho um amigo que certa vez tomou a infeliz decisão de assistir ao O Exorcista — este eu nunca assisti, pois eu sabia que, se caso assistisse, seriam anos de trauma. O guri ficou tão horrorizado que levou um pau de lenha para debaixo do travesseiro. Crianças e suas estratégias contra o “mal”. Ora, sobrevivemos. Somos sobreviventes de um mundo singular, de um mundo mágico que, na maior parte das vezes, era belo e cheio de vida pulsante à nossa volta. Outras vezes, era tomado por coisas assombrosas e macabras, as quais tiravam nosso sono. Mas pergunto-me: o que seria de mim se não fosse este enfrentamento do medo na infância? Como quem diz: “Ok, agora sou eu e meu medo. O que eu faço com isso? Enfrento, oras!”

Com isso não estou dizendo que os pais devem obrigar seus filhos a assistirem filmes de terror, mas, sejamos sinceros, um filminho de terror, lá de vez em quando, não faz mal à nenhuma criança. Pode até fazer bem. Terei de assistir Olhos Famintos novamente.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

5 comentários em “OLHOS FAMINTOS

  1. Oi Guilherme! “Olhos Famintos”, para mim, não era terror e sim “suspense”. Não sentia medo e sim uma puta angústia! Igual quando estava sob ameaça de levar uma surra dos meus pais, a pior parte era não saber “quando” e nem “onde” o bicho ia pegar. Mas de fato, assistir “O Exorcista” me fez passar meses dormindo de luz acesa.

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