EU ERA UM COMPLETO CANALHA

Após terminar o meu primeiro namoro, estava livre. Livre de um lado, escravo de outro. Explico. Eu me libertara da prestação de contas. Ora, agora eu poderia fazer o que bem entender sem dar um pingo de explicação a ninguém, e o principal: sem aquele pesar na consciência por agir como um canalha. Lembro-me de chegar em casa depois de um dia quente e cansativo de trabalho, e encontrar meu módico apartamento do avesso. Havia passado um furacão por ali, um furacão em formato de gente, em formato de mulher. Aliás, o furacão morava comigo até aquele dia, antes disso, talvez não era um furacão, era, no máximo, uma tempestade com ventos fortes e uivantes, mas que não possuía a ira e a força necessária para causar destruição.

O pobre apartamento estava devastado. Eram fotos e mais fotos rasgadas sobre o chão. Algumas haviam sido cuspidas — as fotos em que estávamos juntos. Roupas e mais roupas espalhadas pelos três cômodos; alguns pequenos móveis derrubados; alguns de meus jogos de Playstation quebrados e, para finalizar, na parede branca do meu quarto, uma frase de recordação, escrita com caneta Bic: “Pode comer suas putas à vontade!” E o que eu fiz diante de tudo isso? Bem, caminhei lentamente até o sofá, sentei-me devagar e escorei a cabeça na almofada. Em seguida abri um sorriso de orelha a orelha. Acreditam nisso? Sim! Eu estava felicíssimo. Acabara de me libertar. Este era o meu sentimento mesquinho e verdadeiro: liberdade. A tempestade havia ido embora e agora eu estava livre.

O leitor deve estar pensando: “Mas o que você fez para despertar tanto ódio?” Escrevi. Escrevi um conto erótico — agora vocês sabem o porquê larguei os contos eróticos de mão —, intitulado “Arquivo Morto”. Fazia meses que o havia postado em meu falecido blog — eis o lado bom de ser desconhecido: a realidade demora a bater na sua porta, mas ela bate, e bate forte. A vida é uma caixinha de surpresas. Ao final da tarde, enquanto estava no trabalho, meu irmão me ligou, e, sem dizer um olá sequer, tacou-me sua dúvida crudelíssima: “— É verdade o que está escrito naquele conto?” O furacão havia mandado o conto erótico para a minha família, no grupo do WhatsApp, e escrevera para liquidar-me de vez: “Este é o filhinho de vocês! Que conta suas experiências com vagabundas para quem quiser ver.”

Não era verdade! O conto era fictício. Apesar de ser acometido pelo pudor, pois minha família lera tal obscenidade, por outro lado, orgulhei-me da minha escrita, como quem diz: “— Escrevi tão bem, escrevi com tamanha verossimilhança, que todos ao lerem, pensaram de imediato: esta história é real.” Então eu esperava algo do tamanho de um furacão ao chegar em casa no final daquele dia. Mas ela conseguiu me surpreender. E veja bem, não me orgulho disso, mas também não me arrependo do conto. Era um jovem que precisava passar por tais infortúnios para aprender a virar gente. Mas não virei gente a partir daquele dia. Demorei, ô se demorei.

De fato, o meu desejo era terminar aquele namoro há tempos. Já havia tantas cicatrizes, e algumas mal curadas, que estávamos apenas aturando um ao outro. O carinho entre nós tornou-se algo raro. As cicatrizes nunca fechariam por completo, e eu sabia disso. Eis aqui um homem covarde, cuja pusilanimidade o levou à canalhice. A traí. Não uma, não duas, mas várias vezes. As primeiras vezes foram as mais difíceis, pois, obviamente, havia um sentimento de culpa monumental em minha alma. Havia ainda um pingo de significado naquele namoro. Porém, com o tempo, a canalhice passou a dar prazer. A cada traição, o significado do meu namoro esvaia-se em meu gozo. Sem significado, sem romantismo algum, sem propósito, o que sobra? Instinto! Tornei-me um niilista e um hedonista do afeto.

Ela nunca descobriu. O namoro acabou por causa do “Arquivo Morto”. O meu sorriso ao sentar-me no sofá era o típico sorriso de um covarde e de um canalha — sinônimos? — “Acabou! Não precisei tomar coragem e terminar o namoro. Ela terminou e ela foi embora. Estou livre da responsabilidade.” Eu estava certo: estava livre da responsabilidade, mas me tornara escravo de meus desejos.

Posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que esta época fora uma das piores que já vivi — conto com detalhes em meu livro, Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho, lançamento para 2021. Baixei o Tinder, o Happn e o Badoo. Minha vida era isso. Encontros casuais e sem significado, onde um é objeto do outro. Nunca antes na história o ser humano desvalorizou-se tanto um para o outro. E falo de homens e de mulheres. Ninguém escapa.

A minha ideia para a crônica desta semana, era contar sobre um de meus encontros com uma garota do Tinder. Mas calma, não haveria nada sexual, era apenas uma história cômica, da qual deixei a garota no bar e fui embora. Contarei rapidamente. Muitos poderiam vaticinar: “— Você a deixou no bar porque era feia. Enganou nas fotos!” Não, não foi isso. Eu era feio. A aparência física da moça, muitas vezes, pouco importava. Ainda mais para um homem que era escravo do desejo, como eu. Foi a conversa. De súbito, a garota me diz: “— Não gosto de beijar, beijar dá sapinho. Acho nojento!” Eu pensei comigo mesmo: “Mas por que diabos você está no Tinder? Se você acha nojento beijar, imagine o resto…” E ela continuou: “— Minha amiga ficou com um cara uma vez e no outro dia acordou com a boca virada em bolhas e feridas.”

O que levou aquela moça a entrar no Tinder e marcar um encontro comigo? Será que ela desejava apenas conversar com o sexo oposto? Eu gosto de uma boa conversa, mas aquela, definitivamente, não estava sendo uma boa conversa. Até hoje me pergunto sobre isso. Aquela ojeriza ao beijo me desestimulou de imediato. Eu amo o beijo, sou um fissurado por beijo, aquele beijo molhado, com vontade e desejo de ambas as bocas. Tomem nota: não há nada mais triste do que o beijo sem vontade, do que o beijo sem desejo. Certa vez conheci um homem, o verdadeiro tiozão do churrasco de domingo. Vou chamá-lo de Bill. Ele me disse: — Quer saber se sua mulher está te traindo ou se já deixou de te amar? Vá de encontro à boca dela, se ela virar o rosto oferecendo a bochecha, notícia ruim pra você, meu camarada. Se ela te beijar sem vontade, notícia ruim, mas não tão ruim quanto a anterior.” Nada como a sabedoria popular.

Não consegui tolerar aquilo. Fingi que meu irmão havia me ligado. Sim, eu peguei o celular, na frente dela, coloquei na orelha e falei para ninguém, no mais puro cinismo: “— Sério? Sério mesmo? Claro! Te ajudo. Daqui vinte minutos tô aí.” Levantei, me desculpei, paguei minha conta e fui embora, rindo. Eu era um completo canalha, e pior, eu tinha a consciência de minha canalhice. Nelson Rodrigues dizia que todo canalha é magro, e eu era magro, seco, virado em cabeça.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

13 comentários em “EU ERA UM COMPLETO CANALHA

  1. Você foi vítima do seu próprio conto fictício. Também passei por retalhação pessoal por escrever sobre erotismo. Hoje eu uso o anonimato para evitar aborrecimentos. Por um segundo me senti como você de escrever sobre algo e as pessoas acreditarem me induzindo ao personagem. De forma geral, as pessoas são cruéis e nós é quem precisamos tomar certas medidas cautelosas.

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  2. Gostei muito do seu texto, já fui pega por um twitter que tinha poesias eróticas e não ė fácil, espero que ninguém descubra esse aqui. Obrigada por seguir também estou te seguindo, se tiver um twitter me segue lá ė @lotusnalama

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  3. Oi Guilherme. Sabe… Eu fiquei com uma sensação estranha no fim do texto. Como se estivesse inacabado… Como se você ainda tivesse algo para acrescentar sobre o assunto… Ou, talvez eu tenha criado expectativas de desfecho diferente (?)… Enfim… Este é o texto completo mesmo ou um trecho dele? Ahhh! Antes que eu me esqueça: gosto de ler o que você escreve, você sempre me faz rir. É um dos poucos e-mails que faço questão de abrir assim que vejo o aviso de novo post no blog. Parabéns e obrigada por escrever! 😊

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