ANDAR A PÉ CONSTRÓI CARÁTER E LHE ENCHE O ESPÍRITO DE VITALIDADE

Desde que me conheço por gente, ando a pé. Lembro eu, pequenino, a acompanhar minha mãe no itinerário nosso de cada dia: casa, hotel da minha vó, centro, mercado, casa. Eu, vez ou outra, fazia birra. Não queria caminhar. Minha mãe encarava-me com uma face de poucos amigos. Às vezes, apenas com aquele olhar tirânico, eu engolia o choro e continuava na sua cola, sem reclamar, sem dar um pio. Porém, lá de vez em quando, ela precisava me dar alguns puxões de orelha. E ela fazia isso no meio da rua, sem pudor algum. Paciência não era o seu forte. E sejamos justos: eu mereci cada puxão daqueles. Ora, onde já se viu uma criança ficar de birra por ter de caminhar? Ou pior: por se negar a ir comprar uma carteira de cigarros para seus pais?

Naquele tempo, as crianças podiam comprar cigarros e bebidas alcoólicas nos estabelecimentos comerciais. O moleque saía de casa pensando: “Poxa vida, estou compactuando com a morte lenta de meus pais! Estou indo buscar o câncer deles!” Mentira. Eu apenas saía reclamando em pensamentos por ter de caminhar até a mercearia mais próxima. Pura preguiça.

Quando comecei a estudar, também: tudo a pé. Ia e voltava da escola a pé. Ao entrar na puberdade e adolescência, momentos da vida de um homem regado a festas e bacanais homéricos — não para mim —, meu meio de locomoção eram as pernas. Normalmente, ia e voltava das festas a pé, às vezes sozinho, às vezes com amigos e, às vezes, com conhecidos embriagados. No paroxismo da madrugada, lá estava eu, a voltar para casa a pé. De rua em rua, eu olhava para o céu e percebia a beleza da escuridão, a beleza das estrelas e a beleza da lua e das ruas. Lembro-me de fazer reflexões profundíssimas — deixe-me corrigir: profundíssimas partindo daquela minha consciência de dezesseis anos, pois, uma das verdades mais fundamentais de nosso século é que ninguém é profundo aos dezesseis anos. Talvez Kafka, talvez.

O leitor deve estar se perguntando: “Mas por que não usavam o carro?” Ora, porque não tínhamos carro. Então fazíamos tudo a pé. Mas veja o lado bom. Naquela época eu percebia mais o mundo à minha volta, pois além de não possuir um carro, também não possuía celular com internet móvel, aliás, fui ter um celular com internet só lá em meados de 2013 ou 2014. O máximo que um celular poderia me entreter, na adolescência, era com o jogo da “cobrinha”. De resto, vivíamos mais próximos da humanidade, ou melhor, vivíamos com a humanidade.

Após mudar-me para Foz do Iguaçu, em 2011, apesar de meu irmão ter um carro, nossos horários eram divergentes. Então lá ia eu, mais uma vez, a pé. Para o meu estágio, para a academia e para a faculdade à noite. Espere, minto. Certa vez comprei uma bicicleta, mas, como todo mundo que compra uma bicicleta, a usei por um ano e depois a deixei enferrujar em um canto. E o leitor, mais uma vez, poderá indagar: “Mas por que não pegava ônibus?” Eu preferia caminhar quatro quilômetros do que pegar um ônibus. Evitava ao máximo pegar um ônibus. Eu sempre tive horror a ônibus. E por quê? O ônibus, normalmente, era um lugar de gente triste e de um sentimento coletivo de desesperança.

Eu olhava aquelas mulheres passando a catraca — eram as mulheres que me chamavam a atenção —, com suas bolsas e sacolas, que pareciam, muitas vezes, pesadíssimas. Elas sentavam-se em algum banco sujo, ao lado de algum velho tarado que fedia a álcool, e suas faces eram de uma amargura monumental. Raramente havia algum riso ou algum parecer de felicidade sobre aquelas almas femininas. Nada. Eu pensava comigo mesmo: “Não era para essas mulheres estarem aqui, carregando sacolas, num calor de quarenta graus, aguentando todo tipo de pulha. Eu sou homem. Eu fui feito para essas mazelas. Estas moças eram para estar em casa, protegidas deste mundo injusto, cuidando do lar e da família. Em algum ponto a gente errou como civilização.” Este era o pensamento que passava pela minha cabeça toda vez que eu pegava um ônibus.

Eis o que eu queria dizer. Tudo na vida há de ter um lado bom, e caminhar tem vários. Em meu primeiro namoro, nunca esqueço-me quando minha namorada, com olhos rútilos de desejo, elogiou-me assim, de súbito: “Nossa, amor, como eu amo suas pernas! Elas me excitam!”. Ouvir aquilo foi alento para o meu ego frágil e melancólico. Eu não estava acostumado com elogios cara a cara vindo daquela mulher. “Já caminhei muito nessa vida. Por isso!” Disse eu, com um certo ar de superioridade enquanto exaltava meus músculos protuberantes das pernas. Me senti como aqueles homens que passaram por uma vida inteira de mazelas e então se encontram diante de um jovem rapaz, que ainda não sabe bulhufas da vida. É um prato cheio para o ego do sujeito.

Mas não pense, você, leitor, que caminhar ajuda apenas no porte físico. Não, senhor! Andar a pé constrói caráter e lhe enche de vitalidade. Percebi isso esta semana, ao ir, depois de muito tempo, a pé para a academia. Hoje eu tenho a possibilidade de ir de carro para qualquer lugar. Pernas, para que te quero? Estava indo trabalhar de carro, voltava de carro, seguia para a academia de carro, voltava de carro e etc. Eis que esta semana minha mulher precisou utilizar o carro e me deixou a pé. Saí de casa em direção à academia e não levei celular. O sol estava se pondo no horizonte, o crepúsculo logo se iniciaria. O ar fresco lufava a minha face. As aves gorjeavam no céu. Eu inspirava e expirava aquele ar límpido, profundamente. Maravilhoso! A vizinhança idosa, que há muito não cumprimentava pois estava sempre de carro, agora os cumprimentei, um a um. Abanei para eles, vi seus rostos e seus sorrisos depois de muito tempo. Pareciam felizes em me ver. Passei por algumas crianças que brincavam a esmo na calçada e lembrei da minha infância. Quanta felicidade e quanta paz de espírito que senti apenas com uma caminhada. Pode parecer uma descrição piegas, mas hoje, para o nosso mundo líquido e insosso, qualquer descrição de sentimentalismo é piegas.

Perceba, você, leitor, que nesta caminhada curtíssima enchi o meu espírito de vitalidade. Senti o mundo real, a vida real, voltei à humanidade. Andar a pé também lhe permite refletir, ficar consigo mesmo. Eu já perdi as contas de quantas ideias me surgiram para crônicas, contos e romances por meio de um simples ato: o ato de caminhar. Inclusive esta crônica ocorreu-me na caminhada. E quantas vezes obtive respostas para perguntas que estavam a consumir minha consciência? Diversas vezes. Tome tento, homem, e caminhe, mas não leve smartphone ou qualquer outro aparelho digital. É você e Deus. É você e a vida pulsante à sua volta.

Hoje o sujeito levanta, e antes de dar um “bom dia” para sua amada, olha o celular; sai de casa apressado, entra no carro, segue para o trabalho; passa o dia inteiro atrás de uma máquina fazendo tarefas repetitivas e automáticas; volta para casa de carro; em casa, em vez de conversar com a esposa, prefere ficar apático em seu smartphone, longe do mundo real, longe da vida pulsante. E assim ele segue, dia após dia, se afastando de tudo que importa. Com menos de trinta e cinco anos, este sujeito passa a sofrer de ansiedade. Algumas neuroses, que antes não lhe causavam sofrimento, agora passam a fatigá-lo de uma maneira irascível. Ao procurar ajuda, recebe também o diagnóstico de “depressão”. Seu casamento, que vinha de mal a pior, principalmente por falta de afeto, termina de uma vez. Sem esperança alguma, sem motivação para levantar-se da cama, o que lhe resta? Ressentimento? Suicídio? A vida deste sujeito esvaiu-se de dentro dele. E por quê? Por falta de vida real, por falta de humanidade.

Não quero finalizar esta crônica de uma forma trágica, por isso lembrei-me de quando estava a conhecer minha namorada, numa das primeiras vezes em que ela fora lá em casa, eu, inocente, arrisquei um convite inesperado num domingo de tardezinha: “Vamos dar uma caminhada?” Ela encarou-me com uma face de poucos amigos, exatamente como a face de minha mãe no tempo em que eu fazia birra ao ter de acompanhá-la a pé em nosso itinerário. Pelo menos, desta vez, não levei um puxão de orelha. Ela apenas não estava acostumada a receber convites de homens para caminhar. Após um silêncio, ela me dá sua resposta triunfante: “Quê?! É sério?” Era tão sério que estou com a moça até hoje.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

4 comentários em “ANDAR A PÉ CONSTRÓI CARÁTER E LHE ENCHE O ESPÍRITO DE VITALIDADE

  1. Guilherme, que texto leve e agradável. Me identifiquei em várias partes. Quando pequena, detestava ir logo cedo comprar pão aos domingos, kkkk. E no momento atual, sinto falta de levar minha filha para a escola à pé, pois nesse trajeto sempre acontecem boas conversas e descobertas de coisas simples pelo caminho, que ficam guardadas na memória. Andar a pé é algo virtuoso mesmo! Abraço.🌷

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