UM PAI, POR OBRIGAÇÃO, DEVE TER UM ANTEBRAÇO LARGO E FORTE

Neste final de semana peguei a estrada, minto: pegamos a estrada. Eu, minha mulher e o Adão, nosso gato preto da sorte. Deixe-me fazer um breve comentário antes de continuar a crônica. Nada como ter um gato. O Adão, apesar de pequenino e de ser apenas um bicho “irracional” — coloco entre aspas, pois, às vezes, penso que o Adão não é tão irracional assim —, preencheu a nossa casa de compaixão e fofura. Minha mulher, ao se direcionar a ele, volta a ser uma menina melíflua e doce. Eu também, não vou mentir. Imaginem: um homenzarrão de 1,92, barba por fazer, voz grave, ao pegar o Adão no colo, de súbito, transforma-se em um poço de sensibilidade e comiseração. A voz afina de imediato, a postura — que antes era de um homem ereto como um mordomo de filme inglês — agora, com aquele bichinho inocente no colo, fica comprometida, curvada.

Ao falar com o Adão, usamos o menor número possível de consoantes e letras que carregam um som “mais autoritário”, “mais sério”. Minha mulher o chama carinhosamente de “pocalia”, ao invés de “porcaria”. Tira-se o ‘r’, e insere-se um ‘l’. Imagine-se em uma discussão. Seu oponente, de súbito, lhe adjetiva: “Seu pocalia!” Não haveria discussões, brigas e guerras no mundo se usássemos a linguagem do Cebolinha (Turma da Mônica).

Dias atrás ouvi o hino da antiquíssima União Soviética. De imediato invadiu-me uma motivação cujo resultado fora pensamentos beligerantes: “Preciso de uma arma para acabar com o capitalismo!” Deixe-me voltar ao Adão. Reparem na seguinte cena. Minha mulher entra em casa, desarma-se ao ver o Adãozinho, e, em seguida, diz: “Vem cá, pocalia da mãe.” E lá vem ele, todo pomposo. Eu e ela podemos estar irritados um com o outro, fulos da vida com algum infortúnio, mas, ao abrir a porta de casa e deparar-se com o Adão, lá se vai a cólera.

Mas eis o que eu queria dizer. Antes de partirmos da cidade, passamos no posto para abastecer o carro. Enquanto o frentista enchia o tanque, tive uma epifania. Lembrei-me da infância, lembrei-me de meu pai e da minha profunda admiração por aquele homem de antebraço forte — todo pai da velha guarda possuía um antebraço grosso, duro, pulsante. Antigamente se trabalhava fazendo força. Tenho diversas lembranças de infância, onde meu pai está a fazer força, seja trocando o pneu do caminhão, seja enlonando e amarrando a carga, mas lá estava ele, com seu antebraço sujo de graxa exalando confiança. Da minha geração em diante, nascemos todos deficientes de antebraço, e pior, não carregamos um mísero saco de batatas para engrossá-lo. Eis o declínio físico e moral do homem moderno.

Meu pai é caminhoneiro, e mais: tem alma de caminhoneiro. Ele não está apenas cumprindo uma função monótona como um funcionário dos Correios. Não. Meu pai trocou o Bradesco para ser caminhoneiro. Há de se admitir que ser caminhoneiro é sua vocação. E eu sabia disso desde criança. Na minha tenra cabeça já era impossível separar “pai”, “caminhão” e “estrada”. Tornaram-se sinônimos espectrais.

Ao despedir-se de mim para pegar a estrada, começava meu choro sincero. Meu pai era o meu herói, era como se ele estivesse saindo de casa para caçar bandidos. E caçar bandidos é perigoso. Ora, ele poderia não retornar para casa. A primeira vez que tomei consciência que poderia perder meu pai para a estrada, foi quando, em uma viagem com ele, nos deparamos com um acidente. Lembro-me de ver, com olhos curiosos de criança, o motorista do caminhão, esmagado pelo próprio para-brisa. Aquilo marcou-me com força. E você, leitor, poderá indagar: “Como seus pais deixaram você ver tal horror?” Bem, eles não deixaram, mas eu espiei. Como disse, olhos curiosos de um garoto que estava a descobrir o mundo. Não consigo esquecer a face de sofrimento do morto. “Poderia ser meu pai ali.” A partir daí, toda vez que meu pai chegava de viagem, era um alívio, era uma vitória. Ao ouvir o som tonitruante do motor ecoar pela General Osório, um sorriso de orelha a orelha invadia-me os lábios. “É o pai, mãe! É o pai!”

Eu o esperava na porta de casa. Ele descia do caminhão e, apesar de cansado, me colocava em seu colo. Ao abraçá-lo, o cheiro que eu sentia era sempre o mesmo. Uma mistura de óleo diesel com tabaco. Talvez venha daí a minha adoração pelos aromas de elementos inflamáveis: gasolina, fósforo, querosene e etc. Minha mãe, normalmente o esperava com a janta na mesa. E nós dois ficávamos ali, com olhos rútilos, ouvindo meu pai relatar toda a sua jornada.

Na minha cabeça de criança, um homem dirigir um caminhão — algo grandioso e pesado — e, além disso, partir do Rio Grande do Sul até o nordeste do país, era um desafio insano. Apenas super-heróis poderiam fazer tal feito. Eu pensava comigo: “Será que um dia eu conseguirei fazer isso? Como meu pai não se perde na estrada? Como ele consegue ir e voltar toda semana?” Vez ou outra, ao viajar com ele, parávamos na praia de Itapema, em Santa Catarina. Entrávamos no mar. Meu pai, com seus braços fortes e antebraços largos, me colocava em seus ombros. Eu me sentia um gigante, eu me sentia seguro, pois estava com o meu herói. Naquele momento poderíamos enfrentar um tsunami. Eu olhava para aquele homem e o admirava. Meu pai, meu herói.

Hoje eu também pego a estrada, mas não vou de caminhão, vou de carro. E não vou até a Bahia ou até Minas Gerais, vou, no máximo, até Foz do Iguaçu. Espero que meu filho tenha, pelo menos, metade da admiração que tive pelo meu pai na infância. Mas, como disse anteriormente: não se fazem mais homens de antebraços largos e fortes. Um pai, por obrigação, deve ter um antebraço largo e forte. Acho que descobri mais uma de minhas obsessões.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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