PODRES DE MIMADOS!

A humanidade anda muito sem ter o que fazer. Estamos enfados de confortos. Alguns dirão que o pior mal da COVID fora o tédio. Para a grande maioria, sim. O tédio foi tamanho, que, dias atrás, descubro a existência de um pessoal irascível, lutando para que sejam usados os tais “pronomes neutros” ao se comunicar com um ser humano “inidentificável”, ou, como eles dizem, pessoas não-binárias. Se seguirmos o caminho do Canadá ou de qualquer outro país cujo excesso de conforto dobrou o número de idiotas, é possível que esta patifaria torne-se lei, pois se o Seu Zé, o pedreiro da minha sogra, dirigir-se a um “não-binário” utilizando masculino ou feminino, e este sentir-se ofendido, seu Zé estará cometendo um crime perante a lei.

Aliás, não lembro se o nome do Seu Zé, é Seu Zé, mas não importa, todo pedreiro chama-se Seu Zé. Podemos até trocar o Zé por João, mas o “Seu” continua intacto, espectral. Imagine você, leitor, que a partir de agora, o Seu Zé precise estudar pronomes neutros. Um homem da prática, que levanta casas e muros com a força física, de súbito, terá que preocupar-se em usar “elu” em vez de “ele”, ou usar “delu” em vez de “dele”. Seu Zé, um homem que certa vez, ao ser questionado se gostara do bolo de laranja que minha sogra havia lhe dado, apenas respondeu: “Não se preocupe, dona, ‘nóis’ não têm paladar!” Esta foi uma das respostas mais maravilhosas que já ouvi. É um óbvio ululante que o Seu Zé e sua equipe não têm paladar. Eles colocam para dentro o que vier. No mundo prático, a frescura não tem vez. Vocês conhecem algum pedreiro com intolerância à lactose? Bem, eu não.

Esse pessoal anda nadando no conforto para propor uma estupidez deste tamanho. Repito: é não ter o que fazer! Com os dois parágrafos acima, já poderia encerrar a crônica desta semana, mas quero ir além, quero falar ainda de uma entrevista que assisti na véspera, onde um homem acima do peso, rechonchudo, gorducho, enorme, reclamava em um programa, na Globo, de como sua vida era difícil, pois em um país ‘gordofóbico’ como o Brasil, pessoas obesas tinham que se submeter a humilhações ao fazer uma simples viagem, pois não cabiam nos assentos dos ônibus, aviões ou qualquer outro meio de transporte que inventamos. O rechonchudo bramava: “As empresas precisam criar assentos especiais para nós, senão fica muito difícil viver.” Ou seja: “Mundo, se adeque a mim!” Pergunto-me se nem por um momento não passou pela cabeça deste homem algo como: “Acho que eu preciso emagrecer. Não consigo sequer sentar-me em um simples assento.” Pelo jeito, não. E este retrato mostra o que nos tornamos: podres de mimados!

A partir do momento em que a humanidade, sentada em seu sofá confortabilíssimo, conseguiu pedir 5000 calorias por telefone, iniciou-se a nossa queda como civilização. A queda moral. Imagine uma criança na África Subsaariana a morrer de inanição, escrava do próprio destino terrível, deparar-se com o tal homem gordo reclamando por não existir assentos que o suporte, pois ele comeu demais, ele comeu para, pelo menos, viver três vidas inteiras. A pobre criança africana sequer conseguiu comer para durar quatro anos.

E é justamente esse pessoal que enche o peito para falar que é um absurdo vivermos em um mundo tão desigual, tão preconceituoso, tão problemático. Vos digo: a maior prova de que nunca se vivera em um mundo tão imoral e desumano, são pessoas lutando por essas pautas mesquinhas. São esses podres de mimados que bramam por aí: “Precisamos salvar o mundo!”, mas não arrumam a cama do próprio quarto. Sim, arrumar a cama do seu quarto é mais digno do que ir a um programa chorar por não caber em um assento. E por quê? Ora, de um lado temos o gordo ressentido com a humanidade porque ela não se adequou a ele, e do outro, há alguém que entendeu que a única possibilidade de existência é fazer suas responsabilidades, dia após dia, e, assim, talvez construir um mundo com menos sofrimento.

A parte mais triste de toda esta crônica é perceber que em nossa contemporaneidade é preciso explicar a diferença abissal e ululante que há entre estes dois personagens de nosso tempo: o ressentido e o adulto.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

4 comentários em “PODRES DE MIMADOS!

  1. Bom dia Guilherme… seu texto é perfeito, meu querido amigo! Estas discussões está além de minha compreensão por ser tão óbvio. Não sou o Seu Zé, mas também acho que não tenho paladar… tenho um buraco negro na barriga kkkkkk. Parabéns pelo belo texto. Que seu dia seja iluminado e produtivo… um forte abraço!

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