QUANDO O CORAÇÃO ESTÁ NO LUGAR CERTO

Vez ou outra pergunto-me se meu coração está no lugar certo. Já fui tanta gente, já fui o bonzinho e melífluo da turma, já escrevi de maneira odiosa e colérica, já agi como se soubesse de tudo, já deixei de agir pois pensava que não sabia nada. Já fui o cara romântico ridículo, que é desesperado pela aprovação da amada, como também já fui o babaca que trata uma mulher como um verdadeiro objeto. Já pensei em ser gestor de projetos, engenheiro ambiental, professor de Excel, como também já pensei em ser músico, palestrante e escritor. São tantos Eu’s, são tantas personalidades criadas, corrigidas, recriadas. Mas quem de fato sou eu? Quem de fato está aqui, agora, escrevendo estas palavras endereçadas para você e para mim mesmo?

Alguém poderia objetar: “Hipócrita! Você não passa de um hipócrita!” E quem não o é? Quem já nasceu com o coração no lugar certo? Pouquíssimos felizardos tiveram essa sorte. Infelizmente, não sou um deles. Eu sempre fui o “perdidão” da turma. Deparava-me com alguns amigos que tinham a certeza na fuça: sabiam o que cursar, no que trabalhar, em qual religião acreditar e até quem namorar. Invejava a certeza como uma criança inveja um amiguinho de brinquedo novo.

Eu sempre fui amigo do muro. Ora, grande parte da minha vida eu voltei para cima dele e, muitas vezes, ali fiquei. Já fui ateu, agnóstico e religioso. Já fui de esquerda, direita e libertário. Já comprei livros de Richard Dawkins e Charles Darwin, como já consumi livros de Santo Agostinho e Dostoiévski. Já escrevi contos, crônicas, artigos e poesias. Já mudei tantas vezes de opinião como quem muda de roupa. Estes dias fiz um teste de temperamento: 70% melancólico, 30% sanguíneo. Dois opostos. Este sou eu, um oposto em mim mesmo. Puxei o sanguíneo de meu pai. Aliás, vocês deveriam conhecê-lo. É um homem deveras caloroso, extrovertido e exala uma energia positiva inexplicável. Sanguíneo puro. O melancólico veio de minha mãe. Como explicar o meu apreço pelo isolamento voluntário? Namorei a solidão durante muito tempo, entretanto, tenho muita afeição pelo afeto humano, em conversar e ouvir as pessoas, suas histórias, suas confissões. Abraçá-las, dar carinho, receber carinho.

Independente do fato de eu ser um oposto em mim mesmo, a energia para a criação sempre esteve aqui dentro de mim, pulsando como um coração estupidamente apaixonado. E ela precisa sair. É preciso dar vazão a esta energia. É preciso direcioná-la. Ah, e como é difícil escolher tal direção. São tantas as possibilidades. Graças a Deus descobri a escrita. Posso afirmar: a escrita me salvou. E por quê? Porque uma página em branco aceita qualquer coisa, aceita qualquer absurdidade, aceita qualquer tradução de um silêncio. Meu primeiro livro — ou melhor, meu primeiro projeto de livro — foram reflexões variadas sobre a vida (Quando a Vida Vale a Pena); o segundo livro tratou-se de um romance de ficção científica (Depois de Nós); o terceiro será de confissões sobre o afeto (Ninguém Deveria Envelhecer Sozinho); o quarto será outro romance, intitulado Quilômetro Treze; o quinto será de crônicas; o sexto ainda não está claro, mas tem tudo para ser meu terceiro romance.

Além disso, tenho mais de trinta músicas compostas, guardadas na gaveta, e apenas quatro delas fazem meu coração pulsar até hoje. São as quatro últimas. Quando as compus, eu estava com o coração no lugar certo. E por quê? Há algo na arte que se chama “verdade”. Eis uma das tarefas mais hercúleas da arte. Quantas e quantas vezes eu desejei ser alguém que não era eu. E isso reflete como um canhão de luz na arte do artista. Lembro-me de minhas primeiras composições: letras prolixas, acordes difíceis e riffs estranhos. Ora, eu compunha músicas para o público. Primeiro a plateia, depois o artista. Vos digo: esta receita da modernidade destrói a verdade da arte.
E a verdade não é a tal “complexidade” — como eu achava na adolescência, ao tentar compor músicas e escrever textos “complexos”, ou, pior ainda, tentar ser alguém que não era eu —, a verdade é simplesmente quando o artista está com o coração no lugar certo, quando ele se descobre e, a partir de então, passa a ser sincero consigo mesmo. Se sair simples, tudo bem. Se sair complexo, tudo bem. Contanto que ele esteja sendo sincero com sua essência.

Talvez todos estes Eu’s que evidenciei ao longo do texto, fora eu tentando achar a minha verdade, o meu caminho. Hoje sei que estou mais perto de mim. E esta aproximação deve-se ao fato da tentativa. É como uma luta contra o adversário mais forte de sua circunstância: a vida. E você apanha, cai, se machuca, pensa em desistir, e, quando a vida já tem a certeza da vitória na fuça, quando ela passa a comemorar e a bradar sua conquista, você levanta novamente e a surpreende, como quem diz: “É só isso que você tem?” Já escrevi há tempos: a questão aqui não é o quanto você aguenta bater, mas o quanto você aguenta apanha e continuar lutando.

E por mais que estas tentativas muitas vezes estejam longe da sua essência como artista, há algo de você ali, nem que seja uma centelha, mas está ali. Quando algum jovem deseja iniciar na escrita e pergunta-me o que escrever, repondo-lhe: “Escreva, apenas escreva. Você precisa arriscar.” Já conheci “escritores” que só passaram a escrever depois do advento da internet, pois assim tinham público para inflarem seus egos e ferramentas “apropriadas” para a sua escrita. Ou seja, esses “artistas” de uma figa abandonariam a arte se não tivessem as ferramentas “certas” ou um público vociferando seus nomes para elevar-lhes o ego. Aqui a gente separa os homens dos moleques, ou melhor, os artistas dos artistas de fachada.

Se você realmente ama uma arte, você não precisa de plateia, você não precisa da ferramenta “perfeita” para então colocá-la em prática. Você vai lá e faz com o que tem, pois aquilo está na sua alma, implorando para sair. Lembro-me de minhas primeiras tentativas na escrita: caneta Bic, um caderno velho, uma cadeira surrada para sentar-se, e o principal: a vontade de escrever.

Publicado por Guilherme Angra

Me chamo Guilherme Angra, sou um escritor com dois livros publicados e diversos textos postados na internet. (Crônicas, artigos, contos, poemas). Me formei em Administração, pós-graduei-me em Gerenciamento de Projetos e atualmente estudo Psicanálise. Além disso, crio conteúdo nas plataformas do YouTube, Facebook e Instagram. Meu conteúdo baseia-se em reflexões filosóficas sobre as várias nuances da vida: relacionamento, felicidade, tristezas, angústias, trabalho, finanças, intelecto e etc. Espero poder ajudá-lo de alguma forma.

9 comentários em “QUANDO O CORAÇÃO ESTÁ NO LUGAR CERTO

  1. Fantástico. E o escrever não necessita ser uma escrita primorosa, uma obra literária de grande valor, logo de início. É o exercício, a prática, que vai nos tornando melhores na escrita, como em qualquer outra arte. Por isso, o não ter medo de escrever é fundamental. Parabéns pelas suas palavras!

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  2. Achei seu texto incrível porque já passei por todos esses processos. E continuo no aprendizado infinito… meu coração acalmou um pouco quando comecei a entender que tentamos o tempo todo expressar o que poderia ajudar a melhorar o mundo um pouquinho… quem só faz pelo ego perde o sentido…

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  3. Que show conhecer um cara como você, com essa liberdade de pensamento e coragem na escrita. O medo da exposição não te incomoda e acredito que até empodera. Parabéns pela sinceridade e maturidade intelectual apresentada no texto. Sucesso merecido. O mundo é o seu berço!!!

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  4. Muito bom! Meus primeiros textos também surgiram em cadernos velhos. Desabafos de uma mente lotada… Mas ainda busco o lugar do meu coração. Embora esteja mais perto da escrita ultimamente e, aos poucos, mais perto de mim. Obrigada por compartilhar o texto!!!

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