O DIA EM QUE O ESCRETE FOI MASSACRADO

Não espere nada de mim. Olhe para este homem que lhe escreve e não espere absolutamente nada. Faça pior: diga-me que sou incapaz de suprir suas expectativas. Aqui começa uma de minhas maiores alegrias da pré-adolescência: o sentimento primoroso de surpreender aqueles que não apostavam sequer um mísero centavo no meu potencial, ou melhor, no potencial do meu time, lá no ano de 2006 ou 2007, na Escola Técnica Estadual Monteiro Lobato.

Nesta época rebelde, eu estava no primeiro ou no segundo ano do ensino médio. Formamos um time com os garotos de nossa turma, queríamos participar do torneio de futsal que acontecia anualmente. Nosso time não era ruim, mas, comparado ao escrete dos garotos do terceiro ano, éramos um nada, éramos o cocô do cavalo do bandido. O escrete não andava pela escola, eles desfilavam como se fossem semideuses. Eles tinham a certeza na fuça. Além de bons de bola, faziam sucesso com as garotas. Ora, é um óbvio ululante que as moças preferem o escrete em qualquer lugar do mundo. Eles denotavam poder naquele universo adolescente, e poder, atitude e malandragem, atraem mulheres como nádegas femininas atraem homens. Isto nunca mudará.

Eu sempre joguei atrás pelo fato do meu tamanho. Eu era o típico zagueiro do interior: alto e magricelo, sem habilidade para driblar, passava bem a bola, tinha força no chute e, vez ou outra, estava disposto a deixar a bola passar por mim, mas o adversário ficava entre os meus cascos. Para ser sincero, eu tinha tudo para ser um grande jogador de futebol: chuteiras, meias, calção. Só me faltava futebol. Detalhes, apenas detalhes.

Não lembro com pormenores de nosso time, mas lembro que nos dávamos muito bem, principalmente fora de quadra. Éramos amigos, e isso é tudo o que importa na adolescência, os amigos. Alguém sem amigos na adolescência está fadado a um futuro ressentido e triste, aliás, isso é fruto de uma infância mal desenvolvida, onde a criança não consegue criar laços sociais com o mundo externo e, quando o cria, ofende-se por tudo, não aceita as chacotas — pesadas muitas vezes — das outras crianças, o famoso bullying. Foi nesta época que compreendi algo elementar para a vida: ensinem seus filhos a lidarem com o mundo, e não o mundo a lidarem com os seus filhos.

Deixe-me voltar à história: momentos antes do torneio começar, reunimos nosso time na arquibancada, que estava apinhada de gente, principalmente de garotas histéricas, que ansiavam ver um duelo entre os homens mais viris da escola. Quase como a multidão que reunia-se para assistir os gladiadores se enfrentarem até a morte nos antigos jogos romanos. Pelo menos, no nosso modesto torneio, o perdedor não teria a vida ceifada, talvez a dignidade perante as garotas, mas a vida, graças a Deus, não.

Cada time tinha sua torcida organizada. Normalmente eram as garotas da própria turma, com exceção, é claro, do escrete, que tinha à disposição garotas de todas as turmas para torcer por eles. Era uma legião de fãs gritando efusivamente sem parar. Minutos antes do torneio começar, com o ginásio lotado, sentíamos a pressão na pele, ela pingava por meio de nosso suor frio. E pasmem! Conseguimos passar da fase de grupos. Agora enfrentaríamos o escrete nas oitavas de final. Era o jogo da nossa vida em meio aquele universo adolescente. Lembro-me do nosso time no vestiário, pouco antes de iniciar a partida. Nos olhávamos tensos, respirávamos fundo. Por mais que a classificação tivesse nos dado um ânimo, tínhamos consciência da nossa limitação diante do escrete. Eis que o Adriano, o ala do nosso time, em um ato súbito e glorioso, enfatizou-nos com sangue nos olhos: “A gente pode vencer! Eles estão nas alturas, eles têm a certeza da vitória na cara. Eles estão há semanas se vangloriando entre os corredores da escola. Todos acreditam na vitória deles! Até vocês. Isso tem que mudar agora! Está na hora da gente acabar com essa invencibilidade. E pra isso, precisamos dar o máximo lá na quadra. Essa é a nossa chance.”

O Adriano sempre esteve à frente do nosso tempo. E aquele discurso fez-me transformar uma fagulha de esperança, que queimava lentamente, em um fogaréu vivo e pulsante. Entramos na quadra de cabeça erguida e olhos bem abertos, encarando face a face o escrete, que sorriam com aquele cinismo típico da certeza. Nós os odiávamos e daríamos o sangue a partir do apito do juiz. Meu nervosismo escafedeu-se diante de um propósito maior: ganhar do escrete.

Iniciou-se a partida. Chegávamos firmes naquela malandragem cínica. Eles tocavam a bola, mas não conseguiam ultrapassar nossa defesa. A torcida ensandecida vociferava o nome deles, clamavam por um gol do escrete, mas o gol não saía. Aquela face cínica do início da partida deu lugar ao nervosismo. Com o nervosismo, eles passaram a errar passes, errando passes, vieram as discussões entre eles, e, entre estas discussões, roubei a bola do pivô, corri até o meio da quadra, e, com toda a gana e ódio que invadia-me, chutei em direção ao gol… na gaveta. Golaço! O goleiro sequer viu a cor da bola. Urrei como um ancestral após matar um mamute, urrei como um espartano após degolar um inimigo na arena. Cumprimentei cada companheiro de nosso time e os encarei nos olhos, como quem diz: “A gente vai acabar com eles!”

Na arquibancada, houve um silêncio sepulcral. Apenas algumas de nossas colegas bramavam nossa performance. Para o escrete, o que já estava ruim, piorou. Brigavam entre si. E nós aproveitamos a fraqueza do adversário. Fizemos mais um gol. A torcida feminina do escrete passou a nos apoiar a partir de então. Naquele momento éramos imbatíveis! Estávamos com fome de vitória. Nosso time manteve o ritmo durante toda a partida. Não cansávamos de correr e marcar forte. Destruímos o escrete, ou melhor, eles se destruíram. No apito final nos abraçamos e comemoramos. Que felicidade, meus amigos, que cena mágica ganhar dos favoritos.

Enquanto comemorávamos nossa vitória merecidíssima, dois jogadores do “ex-escrete” trocavam socos entre si. “Como assim a gente perdeu para estes moleques do segundo ano?” Eles não podiam nos culpar, então tentaram jogar a culpa um no outro. Sentiam-se humilhados e ofendidos e não sabiam lidar com estes sentimentos humanos, pois eram os reis daquele universo, eram os ditadores daquele território. Ditadores não aceitam derrotas e humilhações. Stalin matou mais de 20 milhões tentando suplantar sua utopia comunista, que, ao chocar-se contra a realidade, humilhava-o como uma criancinha que é repreendida na frente dos amiguinhos.

Para nós, o torneio acabou ali. Nossa energia psíquica e física esgotou-se contra o escrete. Não passamos das semifinais, mas cumprimos nossa missão. Saímos de cabeça erguida e com a imagem eterna em nossas mentes: o dia em que o escrete cínico e malandro fora massacrado pela raça e pela vontade de vencer.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicoterapeuta. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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