O PRIMEIRO BEIJO

Vocês lembram do primeiro beijo? Sim! Aquele beijo que possui uma expectativa infantil e avassaladora. Tornamo-nos psicóticos pensando no primeiro beijo. Criamos uma realidade ficcional: lá está a garota que desejo; ela tem os olhos rútilos e os lábios úmidos. Seus cabelos são compridos e charmosos. Eu chego e, de súbito, a beijo lentamente por minutos. Nossos lábios se tocam e sinto um calor subir pelo meu corpo. Eis que acordo deste delírio beijando uma laranja. Na minha época, falava-se exaustivamente sobre treinar beijo com laranjas: — É batata! Quem treina beijando laranjas, será um beijoqueiro contumaz.

Cansado de chupar laranjas, faltava-me ir para a prática. Eu queria beijar uma mulher que não fosse o beijo do tipo “selinho”. Vocês que nasceram nos anos 2000, sabem o que é selinho? Deixe-me explicar-lhes: apenas dois lábios secos se tocam rapidamente. Sem língua ou saliva. Este é o selinho. Em minha época, um selinho não valia mais de nada. Era como beijar uma bochecha. Triste. Depois, o beijo de língua não valia mais de nada, depois, a nudez fora profanada, até chegarmos, então, no sexo, que também parece estar perdendo o valor.

Ao ouvir que alguns de meus colegas homens já haviam beijado, a inveja acometia-me como uma doença grave. Eu ficava mal. Me sentia um frouxo, um ser inferior. O pior era ter de ouvi-los contando vantagem em nossas conversas e brincadeiras. E sabe como é jovem, né? Exageram até não poderem mais. Alguns falavam que até já tinham conseguido colocar a mão em algumas nádegas femininas durante o beijo. Ó céus, e eu aqui, sem nada, sem um mísero contato físico com uma mulher. Espere, minto.

Em minha primeira infância, as professoras obrigavam os meninos a darem as mãos para as meninas quando tínhamos que sair da sala de aula em fila ou em determinadas brincadeiras. Este “dar as mãos” para o sexo oposto, fazia-nos suar frio. Era algo tão íntimo, sincero, ingênuo e inocente. Imaginem?! Tocar na pele de uma menina, segurar-lhe a mão, como papai e mamãe fazem quando estão apaixonados. No começo era constrangedor, depois passou a ser enobrecedor, ainda mais quando a menina era uma das mais bonitas da sala. Me sentia o homem mais viril do mundo, mesmo não sabendo o que significava a palavra “viril”. O sentimento estava ali, pulsando. Será que as professoras tinham noção do que acontecia dentro nós? Presumo que não.

Não sendo um garoto popular, mas, muito pelo contrário, sendo um garoto impopular, o que sobrava-me era o delírio, era imaginar-me com minhas colegas mais belas em atos heroicos: salvando-as de algum babaca de outra escola, recebendo sua admiração e, quem sabe, um beijo cheio de pecado. Entretanto, a realidade sempre surpreendia-me. No outro dia, ao chegar na sala de aula, descubro que as minhas colegas — aquelas que eu salvava na minha imaginação — andavam aos beijos com os babacas das outras escolas. Como assim elas preferiam os anti-heróis? Ninguém havia me falado isso. Os filmes mostravam-me o contrário: a moça em apuros apaixonava-se pelo herói, não pelo vilão. A verdade nua e crua é que elas preferiam os canalhas! Aqueles homens cheios de “marra” e trejeitos de malandro, que usavam roupas de marca e boné de aba reta. Normalmente eram repetentes, mas tinham atitude. Eis o segredo: a atitude. Eu não tinha atitude alguma, logo, não poderia ser um herói e, menos ainda, um vilão. Para se ter atitude é preciso de coragem, e nada nos humilha mais do que a coragem alheia. Eis o porquê do meu ressentimento aos garotos corajosos e babacas.

Pelo fato da maior parte dos pré-adolescentes serem covardes, o primeiro beijo, na maioria das vezes, é algo terceirizado. Explico: você diz para um amigo que está interessado em uma garota, este amigo tem uma amiga que é chegada desta garota. Então começa o “telefone sem fio” mais deprimente da história. A resposta pode demorar, mas, normalmente, retorna. Todavia, eu era ainda mais covarde. Nem coragem para pedir a um amigo que eu estava a fim de uma garota, eu tinha. O meu medo era a rejeição. Era ouvir um tonitruante “não”! Eu tinha consciência da minha condição deprimente de existência, então ficava adiando o sofrimento.

Certo dia, lá estava eu, com meus doze anos, no recreio da escola. Thobias, meu amigo de infância, chamou-me em um canto: “Por que você não fica com a Júlia? Eu e ela somos amigos, posso fazer os teus lados com ela!” Meu coração foi parar direto na boca apenas com essa pergunta. Respondi, meio sem jeito: “Capaz, deixa pra lá.” Eis que o Thobias foi falar com a tal Júlia mesmo assim. Voltou algum tempo depois todo alegre e efusivo: “Ela aceitou, cara, ela aceitou! Vai ser na festa junina da escola, amanhã à noite.” Se de um lado eu queria pular de alegria pelo fato de uma menina aceitar beijar-me os lábios, de outro, eu sentia um aperto de angústia pesadíssimo esmagar meu peito. Era um sentimento de ansiedade que eu precisava expor para o mundo. “Como assim uma menina aceitou isso?” De súbito, perdi o apetite. Passei a imaginar como seria aquele beijo, como eu me sairia, como seria minha performance, será que ela ia gostar dos meus lábios? Já havia ouvido comentários do tipo: “Fulano não sabe beijar”, “Fulana tem bafo de bode”. E só Deus sabe o quanto isso pode ferir a honra na pré-adolescência.

Eu havia conversado com a Júlia de relance, e foram pouquíssimas vezes. Não tínhamos um pingo de intimidade um com o outro. Não dei-me conta disso à época. Ora, estamos falando de um jovem. O que esperar de um homem na puberdade? Nesta idade, o garoto passa a exalar hormônios. Descobre que o seu pinto não serve apenas para mijar — mas estas reminiscências, deixarei para outra crônica. Voltemos à Júlia. Ela não era bonita, mas eu também não. Eu não era alguém que poderia escolher o primeiro beijo.

As horas seguintes até o beijo foram um tormento. Ao chegar na festa junina, obviamente não consegui aproveitar bulhufas. Não tinha apetite, não conseguia me concentrar nas conversas dos amigos e, muito menos, participar das brincadeiras típicas. A minha expectativa estava a ponto de liquidar-me. Eis que chegamos ao fim da festa. A Júlia foi lá para o outro lado da escola, onde havia uma penumbra e pouco movimento. Thobias chegou e disse: “É agora! Ela está te esperando. Vai lá!” Tomei fôlego e fui. O Thobias veio junto. Ela estava ali, em minha frente. Havia algumas pessoas nas redondezas. Tudo neste momento era pressão. Tinha que ser rápido para nenhum professor nos pegar no flagra. A beijei. Enquanto a beijava, coloquei minhas mãos em sua cintura.

Nos beijamos e logo nos separamos. Um beijo típico do nosso tempo: seco, rápido e insosso. Toda aquela pressão de segundos atrás, capaz de matar-me por dentro, esvaiu-se em seguida. A minha fome voltou com força, a minha racionalidade também. Ao sair daquela penumbra, percebi que havia alguns meninos por ali, como se estivessem esperando alguma coisa. E estavam: “Cara, eles também vão ficar com a Júlia.” Disse o Thobias, numa crueldade ímpar. Pensei: “Como ela consegue fazer isso? E os pais dela, o que pensam a respeito disso?”

Preciso deixar uma coisa clara aqui: o beijo foi horrível! Aquele momento foi horrível! “É isso que vocês chamam de beijo? É isso que me fez perder o apetite? É isso que esse bando de crianças almeja fazer?” O lado bom desta história: eu beijei alguém. Inevitavelmente nosso ego vai às alturas. O lado ruim: eu beijei alguém. Bem, para tudo tem uma primeira vez, mas eu beijei “alguém”, e alguém não é ninguém. E não me entendam mal quando uso a expressão “ninguém”. A moça não era ninguém em meu mundo singular. O que importava era apenas o ato, o que importava, no fim das contas, era poder dizer para a multidão: “Eu não sou mais BV (boca virgem)!” E para ela eu também não era ninguém, como os outros da fila também não eram ninguém. Uma fila de homens buscando desesperadamente afirmar-se uns para os outros. A moça não valia de nada para nós, e, pensando melhor, o ato também não valia de nada. Deveria ser proibido beijar bocas e despir-se para o outro quando não se tem intimidade.

A Júlia não mudou. Continuou nessa vida de “filas”. Tempos depois, ficou conhecida como “Júlia Boquete”. As pessoas são cruéis, meus caros, são cruéis. Espero que ela tenha achado outro caminho. Espero que ela tenha achado um homem que a ame incondicionalmente e, que assim como eu, olhe para o passado e se sinta alguém idiota. O que nos resta agora é rir de tudo isso.

Publicado por Guilherme Angra

Me chamo Guilherme Angra, sou um escritor com dois livros publicados e diversos textos postados na internet. (Crônicas, artigos, contos, poemas). Me formei em Administração, pós-graduei-me em Gerenciamento de Projetos e atualmente estudo Psicanálise. Além disso, crio conteúdo nas plataformas do YouTube, Facebook e Instagram. Meu conteúdo baseia-se em reflexões filosóficas sobre as várias nuances da vida: relacionamento, felicidade, tristezas, angústias, trabalho, finanças, intelecto e etc. Espero poder ajudá-lo de alguma forma.

4 comentários em “O PRIMEIRO BEIJO

  1. Olá, Guilherme!
    Que bom estar em contato com você. Mais alguém nesse mundo apaixonado pelas letras. Elas são irresistíveis.
    Comecei a escrever a pouco tempo pra dar um pouco de vazão a minha sobrecarregada mente… está sendo incrível.
    Vou ler seus posts com muita atenção. Nesse momento estou abduzida pelo home office e pelo mestrado…rs
    Grande abraço!

    Curtido por 2 pessoas

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