A FACULDADE DA VIDA REAL NÃO É COMO EM “AMERICAN PIE”

Eu ainda era um jovem rapaz. Acabara de iniciar na faculdade de Administração. Sentia-me perdido. Obviamente, o curso escolhido fora resultado de minha indecisão. Aquele ditado clássico para quem faz o curso de administração caiu como uma luva para mim: “Administração é curso de quem não sabe o que fazer.” Mas pergunto-lhe, leitor, quem realmente sabe o que fazer quando se tem dezoito anos? Um homem com dezoito anos não sabe nem tirar o sutiã de uma mulher sem usar as duas mãos, quiçá escolher uma faculdade. Se sou perdido hoje, na época eu sequer sabia do que se tratava o tal do “vestibular”. Eu era burro como uma porta. Ainda lembro-me de minha mãe, um dia antes de eu me mudar para Foz do Iguaçu: “Filho, cuidado para atravessar as ruas lá de Foz, olhe bem para os lados.” Até hoje me pergunto se essas palavras significavam amor ou a percepção de que seu filhinho amado era burro como um jegue. E, para piorar, eu era feio como um funcionário dos correios — tal analogia é resultado das minhas idas a esta empresa pública. Era impressionante a feiura daqueles funcionários desmotivados.

Nesta época, eu pesava cerca de 74 quilos e tinha 1,92 metros de altura. Parecia uma longarina na vertical. Era só o pau da placa — como dizia-me uma ex-namorada. E lá ia eu, de a pé, para o primeiro dia de faculdade. Vestia uma regata cinza com a estampa do Led Zeppelin, bermuda xadrez de cor marrom e um tênis cinza de skatista. Qualquer um que me olhasse adentrando pela porta da faculdade, pensaria: “Por acaso a faculdade está dando ‘bolsa crack’?” Se eu tivesse em uma faculdade pública, não haveria tal espanto, pois eu estava vestido de acordo, mas eu estava entrando em uma faculdade privada, onde a maior parte dos alunos eram opulentos financeiramente.

Assim que cheguei nas redondezas escolares, deparei-me com mulheres lindíssimas, e melhor ainda, para todos os gostos: altas, baixas, morenas, loiras, negras, árabes, paraguaias, brasileiras… como eu disse, para todos os gostos. Algumas usavam roupas curtíssimas — perdoe-me pelo excesso de superlativos. Enquanto eu caminhava pela calçada, à medida que estas moças passavam por mim, seus perfumes doces faziam-me quase delirar. Aquele lugar era um verdadeiro colírio para os olhos masculinos e, para uma minoria de homens, era um verdadeiro harém.

Fui um dos primeiros a entrar na sala. Havia uns quatro meninos estranhos conversando a esmo. Pouco tempo depois, a sala já estava lotada. Sessenta adolescentes amontoados. E então, eis que entrou o professor de economia; logo se apresentou e, em seguida, pediu para que cada um fosse até o alambrado e passasse vergonha ao se apresentar para toda aquela gente. Eu era tão bicho-do-mato, que neste momento passei a ficar quente. Sabe aquele calor que lhe sobe pela espinha quando você fica nervoso? Este era eu no primeiro dia de aula. Para piorar a situação, à medida em que eu analisava os meus colegas homens se apresentarem, percebi que todos estavam bem vestidos: calça jeans, camisa polo, sapatênis, cabelo penteado. Havia apenas um garoto que identifiquei-me: gordinho, cara fechada, camiseta de banda. “O que estou fazendo aqui?” Pensava comigo. Mas lá fui eu apresentar-me. Devo ter gaguejado em todas as palavras, mas consegui, não desmaiei.

Ao voltar para casa durante aquela semana, deparava-me com cenas tão vergonhosas e vexatórias. Era uma falta de respeito comigo. Poxa vida, eu caminhando pela calçada, com minha mochilinha nos ombros, ouvindo alguma palestra do Luiz Felipe Pondé nos fones de ouvido, eis que me deparo com carros estacionados nos arredores da faculdade. Até aí tudo bem. O meu ressentimento começa agora: homens e mulheres transando dentro daqueles veículos! Que falta de decoro com quem não transa há tempos, hein! A faculdade é para estudar, não para trepar. Quase tornei-me socialista nesta época ao ver meus colegas árabes chegando na faculdade com carros importados, carros que eu sequer imaginava um dia adquirir. Mas os árabes ainda humilhavam, eles usavam um carro para cada semana, pois não tinham apenas um carro importado, mas vários. A variedade, obviamente, não era só para carros. Cada dia saíam com uma mulher diferente, ou duas, ou três. Eis o harém que citei anteriormente.

No início da faculdade, o mais próximo que tive de um contato carnal com uma mulher, foi no trote de nosso curso. Estávamos todos bêbados em um bar próximo ao campus. Houve um momento em que sentei-me, pois minha cabeça girava devido ao excesso de álcool. Para a minha surpresa, uma moça de bom coração aproximou-se, virou-se e sentou-se em meu colo. Assim mesmo, de súbito, sem sequer dar um “oi”, sem sequer apresentar-se. Eu pensei: “Agora sim, é isso que eu chamo de faculdade de verdade!” Bem, ela não ficou muito tempo em meu colo, logo depois se direcionou para outros colos, procurando alguém para acabar com o seu tédio.

Agora estou imaginando o pai desta meretriz, o que pensaria se soubesse que sua filha andava por colos alheios? Triste. Mais triste ainda era eu, que ficaria na seca. Paciência, homem. Eu achava que a faculdade era como o filme American Pie: sexo, bebedeiras, drogas, bacanais, rock n’ roll, festas e amizades verdadeiras. E descobri que sexo, para mim, seria raro; festas, drogas e bebedeiras eram lá de vez em quando, pois era preciso passar nas matérias; bacanais? Nem sei o que é isso; o rock n’ roll fora trocado pelo sertanejo universitário. Ora, restaram-me as amizades verdadeiras e algumas histórias como essa.

Ps: Pelo menos, ao final da faculdade, eu já conseguia tirar um sutiã usando apenas uma mão.

Publicado por Guilherme Angra

Me chamo Guilherme Angra, sou um escritor com dois livros publicados e diversos textos postados na internet. (Crônicas, artigos, contos, poemas). Me formei em Administração, pós-graduei-me em Gerenciamento de Projetos e atualmente estudo Psicanálise. Além disso, crio conteúdo nas plataformas do YouTube, Facebook e Instagram. Meu conteúdo baseia-se em reflexões filosóficas sobre as várias nuances da vida: relacionamento, felicidade, tristezas, angústias, trabalho, finanças, intelecto e etc. Espero poder ajudá-lo de alguma forma.

7 comentários em “A FACULDADE DA VIDA REAL NÃO É COMO EM “AMERICAN PIE”

  1. Diria eu que este texto é o reflexo da jornada de um jovem que estava a descobrir o seu caminho. Com 18 anos eu tinha 1.96cm, portanto, não se sinta mal por isso. E quanto à desorientação que possamos ou não experimentar, diria que em muitos casos é melhor esperar um ano ou dois antes de entrar na faculdade para se perceber o que se quer. Porém, vamos sempre a tempo de tirar outro curso e de seguir um novo caminho profissional.

    😉

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