DEUS VISITA APENAS CEMITÉRIOS VAZIOS

Fui ao cemitério no último domingo. Era final de tarde. O crepúsculo se iniciava no céu. E como fazia tempo que não pisava em um cemitério, vivi aquela experiência com o máximo de atenção, com o máximo de esmero, se é que me entendem. Acredito que a última vez que havia pisado em um, fora no falecimento da minha tia, se não me engano, no ano de 2007 ou 2008. Eu ainda era um adolescente birrento. Lembro-me de meu avô, bem vestido, segurando o choro ao enterrar a filha. Olhei para o meu pai e também não vi lágrimas. Mas eu sentia que por dentro, estavam devastados. Esta é a única cena deste dia que me vem à memória.

Desta vez fui ao cemitério com minha mulher. Ela fora rezar pelo seu pai, que estava de aniversário. Ao adentrarmos, percebi que não havia ninguém a não ser nós dois. E como haveria? Cemitério é lugar de mortos, não de vivos, dir-me-ia o idiota da objetividade. Fomos caminhando e conversando sobre os defuntos que jaziam por ali. Minha mulher, que nascera na cidade, contava o que os mortos eram quando estavam vivos, em que trabalhavam, onde moravam e etc.

Eu olhava aqueles túmulos de mármore com frases e homenagens e pensava na linha tênue entre a vida e a morte. Em um momento, disse para minha mulher: “Como vou morrer primeiro que você, preciso pensar numa frase pra deixar no meu túmulo.” Não quero morrer e alguém colocar uma frase qualquer, do tipo: “Que a felicidade vire rotina.” Eu voltaria do mundo dos mortos para assombrar quem fizesse esta patifaria. Eu seria aquele espírito rancoroso, ressentido, com olhos fundos e face lívida de raiva a vagar por aí tentando descontar minha frustração nos outros. Deus me livre.

Porém, pensando melhor, talvez seria egoísmo de minha parte escolher a frase da minha própria partida. São os entes que homenageiam o morto, e não o contrário. Eu não posso homenagear-me dentro de uma cova, seria o cúmulo do narcisismo. Quem deve escolher a frase do meu túmulo é minha mulher e, quem sabe, meus filhos. Sim! Até lá, hão de conhecer-me até as entranhas. Todavia, quero deixar algumas sugestões. Sabem como é, vai que na hora falte criatividade:

“Aqui jaz Guilherme, o homem que tinha a melhor giromba terrena.”

“Aqui jaz Guilherme, o homem que enxergava felicidade no seu fracasso.”

“Aqui jaz Guilherme, o homem que perguntava: ‘No céu tem pão?’ Agora ele vai descobrir.”

“Compre meus livros, caso contrário, voltarei para assombrá-lo.”

Além disto, já quero pedir para enterrarem-me com um bom terno, daqueles lustrosos e elegantes. Já que minha face não ajuda, pelo menos a vestimenta há de ser agradável aos olhos dos presentes. E, dependendo da forma de meu óbito, caixão fechado, por favor. Aliás, dane-se isso. O caixão, no meu velório, deve estar fechado mesmo que eu pareça um galanteador shakespeariano. Sim. Não quero que a última imagem que ressoará na cabeça de meus parentes seja eu lívido e sem alma dentro de uma caixa rumo à eternidade. Melhor que isso: coloquem um quadro com uma foto minha ao lado do caixão, sorrindo e felicíssimo. Mas por favor, que seja uma foto com um sorriso natural, espontâneo, nada forçado como aqueles sorrisos desalmados de políticos em campanha eleitoral.

Se não for pedir muito, enterrem-me com algum dispositivo que eu possa pedir ajuda caso o médico legista cometa algum engano e eu seja enterrado vivo. Entendam que um de meus maiores medos é ser enterrado vivinho da silva. Tenho arrepios só de imaginar tal infortúnio. Então, só por desencargo de consciência, façam este gesto nobre antes de me jogarem em um buraco.

Mas voltando ao cemitério: eu e minha mulher seguimos em direção ao túmulo de seu pai. Paramos em frente e rezamos com devoção. Senti algo bom vindo daquele lugar escasso de gente viva. Ela, com olhos lacrimejados, dizia: — Eu consigo sentir o cheiro que meu pai exalava depois de fazer a barba. Aquele cheiro característico do creme de barbear. — Enquanto a abraçava no meio daquele cemitério vazio, dei-me conta de que Deus estava ali. Nelson Rodrigues dizia que Deus só visita igrejas vazias, acrescento aqui: Deus visita apenas cemitérios vazios.

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