TEMPOS DE CORONA

Eis que estamos vivendo um surto viral. O ano é 2020. Preciso deixar isto marcado na história. Já pensou quando eu, com meus noventa anos deparar-me com esta crônica? Se bem que noventa anos é muito. Não sei se passo dos sessenta. Mas fico a imaginar eu, um velho carcomido, brocha, triste e quase débil, lendo estes escritos; sabe-se lá se não vai ser uma de minhas poucas alegrias da velhice. Mas vamos adiante. Todos os mercados estão em baixa, e só nesta semana, a bolsa brasileira passou por três Circuit Breaker, que é quando o mercado cessa suas operações pelas baixas assustadoras do dia. A única coisa que sobe é o dólar, o número de infectados pelo coronavírus e o desespero das pessoas.

Além do mais, aqui em Medianeira, no Paraná, estamos passando por um surto de dengue (inclusive eu peguei dengue semanas atrás), por uma seca das bravas e por um calor insuportável. O que mais, meu Deus? Acho que a humanidade estava com uma falsa impressão de estabilidade e, consequentemente, segurança. Estávamos muito seguros de que a ciência salvaria o mundo, de que os coachings salvariam a humanidade e de que o Estado daria conta de todas as mazelas sociais.

Triste engano. Aqui está um dos ensinamentos mais importantes para se aprender sobre a vida: nada é estável! Talvez apenas os parasitas que estão no funcionalismo público, mas de resto, nada é estável e seguro: seu emprego, seu casamento, seus investimentos, seu corpo, suas células, sua vida. Nada! É necessário deixar isto claro. A única coisa permanente é a mudança. Acostume-se.

Esta semana falei com meus pais, e, por incrível que pareça, nunca os vi tão felizes. É como se fosse dois mundos diferentes. De um lado eu, com todas as preocupações que citei acima, do outro eles, que me contavam com entusiasmo sobre suas vidas lá na serra gaúcha e de como estavam felizes com as reformas da nossa casa. Me senti bem ouvindo eles falarem sobre seus cotidianos, sobre aquela vida quase bucólica e de como estava ficando bela a nossa casinha no alto da montanha. Acho que foram os únicos com quem conversei nesta semana que não comentaram sobre coronavírus, crise econômica, e que tudo isso que está acontecendo é um plano da China para ganhar dinheiro.

Agora começaram alguns boatos sobre um isolamento total aqui no Brasil: todos em casa, por, pelo menos, quinze dias para frear a disseminação do vírus. Ontem, ao deitar-me na cama com minha mulher, conversávamos sobre isso. Conversávamos sobre estarmos vivendo um momento histórico e sobre este sentimento de nulidade que nos acomete. Um vírus pouco letal, algo que é invisível aos olhos, que começou lá na China, consegue causar todo este caos. A humanidade já passou por coisas bem piores: peste negra, gripe espanhola, guerras mundiais, misérias homéricas… mas agora eu pergunto: qual destas mazelas você vivenciou? Aposto que nenhuma, assim como eu. Nós ainda somos puros, somos uns bebês que sempre tivemos tudo, sempre fomos protegidos da sujeira. Crescemos com a falsa impressão de que a vida é estável e segura, de que a humanidade não corre o risco de ser extinta. Momentos difíceis formam homens de caráter.

Fico a imaginar eu com meu neto socialista daqui há cinquenta anos tentando dar uma lição de moral em seus hormônios revolucionários: — Você não sabe nada da vida. Seu avô aqui passou pela pandemia de coronavírus lá em 2020, onde todas as bolsas quase quebraram, empresas quebraram, governos proibiram a população de saírem às ruas, escassez nos mercados, crise de petróleo, crise de liquidez, tudo ao mesmo tempo. Agora pare de reclamar só porque seu pai não comprou o seu Iphone 50 plus e vá arrumar o quarto!

3 comentários em “TEMPOS DE CORONA

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