A VERDADEIRA TRISTEZA NÃO SE ASSOA

“A verdadeira tristeza não se assoa.” Esta frase maravilhosa, tirei de uma crônica de Nelson Rodrigues. Vejam como Nelson observava o óbvio, e, justamente por isso, era um gênio. Imaginem a cena de uma viúva aos prantos no enterro do marido, derramando-se em lágrimas, aquelas lágrimas que nos impedem de falar, de respirar. Um parente qualquer, ao ver a situação da viúva, lhe oferece um lenço. A viúva o recusa, pois ao aceitar, estaria profanando a memória de seu amor. Ao assoar as lágrimas, estaria mais preocupada com sua aparência do que com o morto, mais preocupada com os transeuntes do que com o falecido.

A verdadeira tristeza requer tanta comiseração a ponto de perdermos todo nosso amor-próprio, todo nosso ego. A viúva, naquele momento, não se importaria com nada à sua volta. Ela receberia abraços e palavras de conforto de quem quer que seja. Não haveria julgamento algum. Do mais pulha ao mais honrado homem, da mais cínica a mais venerada mulher.

Esta cena marcou-me: a viúva em prantos. Quantas vezes você sentiu esta dor sentimental tão avassaladora que a única forma de expô-la, seria humilhar-se em lágrimas? Aposto que pouquíssimas vezes. A tristeza é um dos únicos sentimentos capazes de nos arrancar o ego e de nos trazer de volta à humanidade.

2 comentários em “A VERDADEIRA TRISTEZA NÃO SE ASSOA

  1. A verdadeira tristeza faz a gente achar que não adianta nada chorar, pois ninguém vai se importar com a nossa vontade de chamar a atenção pela dor.

    Parabéns pelo texto.

    Curtido por 1 pessoa

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