POR AMOR ÀS CAUSAS PERDIDAS, OU TALVEZ, NEM TÃO PERDIDAS ASSIM

A vida é a guerra, você é um soldado, e, como quase em toda guerra, esta já está perdida. Este pensamento permeava meu ser quando declarei-me ateu. Algumas coisas mudaram nestes últimos dois anos. Primeiro a minha descrença no ateísmo e a minha crença em Deus. Aconteceram coisas na minha vida que seriam impossíveis de entregar ao acaso, ao acidente da matéria. Aliás, minha vida sempre fora tomada por milagres e momentos sublimes, o que mudou foi a maneira de enxergá-los.

Quando eu era ateu, havia uma frase sagrada que me acompanhava: “Por amor às causas perdidas.” Ou seja, mesmo eu sendo este soldado ateu indo para uma guerra já perdida e tendo a consciência de uma morte certa, eu tinha a concepção de honrar a vida que ganhara, de seguir lutando por amor à existência, de dar sentido nos pormenores do cotidiano. Por mais que tal presente tão precioso tivesse sido dado pela contingência. Não importava. Este pensamento me dava ânimo e alento. Por amor às causas perdidas.

Digam-me como um ser humano descrente de sua capacidade imaginativa, consciente de sua cova, ainda consegue ter motivação para levantar todos os dias? Já disse aqui: talvez até existiram seres mais inteligentes que nós neste universo infinito, mais racionais, mais lógicos, porém, este excesso de consciência foi tamanho que a única opção para estes miseráveis da razão seria o suicídio ou a loucura. Chesterton, em sua obra-prima chamada Ortodoxia, dizia que a imaginação não gera a insanidade; o que gera a insanidade é exatamente a razão, ou seja, o louco não é um homem que perdeu a razão, o louco é um homem que perdeu tudo, exceto a razão.

A minha capacidade imaginativa sempre estivera aqui, no meu âmago, por mais ateu ou agnóstico que eu fosse. A morte do homem se dá quando se perde isso, quando perde-se a capacidade de colocar sentido, quando perde-se o propósito da existência. Ter um propósito, um objetivo, uma crença, tudo isso nos leva ao mistério, e é justamente este mistério que nos dá forças para levantar todos os dias. Talvez Deus já saiba o que acontecerá amanhã, mas nós não sabemos sequer o que acontecerá no minuto seguinte, e isto é fascinante. Chesterton traz luz a esta questão:

Enquanto se tem um mistério se tem saúde; quando se destrói o mistério se cria a morbidez. O homem comum sempre foi sadio porque o homem comum sempre foi um místico. Ele aceitou a penumbra. Ele sempre teve um pé na terra e outro num país encantado. Ele sempre se manteve livre para duvidar de seus deuses; mas, ao contrário do agnóstico de hoje, livre também para acreditar neles. Ele sempre cuidou mais da verdade do que da coerência. Se via duas verdades que pareciam contradizer-se, ele tomava as duas juntamente com a contradição. Sua visão espiritual é estereoscópica, como a visão física: ele vê duas imagens simultâneas diferentes e, contudo, enxerga muito melhor por isso mesmo.

Entendam o quão triste é vermos a vida apenas com a razão pura e simples, apenas por meio de estatísticas e números, de modo utilitário. Seu universo se torna vazio, insosso e mecânico. Esta visão de mundo cria brechas para tantas atrocidades, assim como somente a visão imaginativa, que torna seu mundo uma fantasia totalmente desconexa da realidade. Resumindo: aquele que não possui um pé na terra e outro no país encantado, torna-se um fanático.

Hoje, com a crença em Deus, continuo sendo um soldado, e a vida, a guerra, mas agora há a possibilidade desta guerra não ser uma causa perdida. Eis o mistério, eis a beleza da vida…

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

2 comentários em “POR AMOR ÀS CAUSAS PERDIDAS, OU TALVEZ, NEM TÃO PERDIDAS ASSIM

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