NOTA LITERÁRIA #16 – RESSURREIÇÃO (MACHADO DE ASSIS)

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Hoje lhes trago o primeiro romance escrito por Machado de Assim: Ressurreição (1872), e, também, o primeiro livro que li e consegui absorver alguns diamantes deste autor. Digo “o primeiro”, pois na época do ensino médio, nas aulas de literatura, onde a professora obrigava todos os alunos a ler “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, eu não conseguia entender bulhufas. Óbvio, eu não tinha sequer o mínimo de bagagem: nem vocabulário, nem experiência mundana para entender sua genialidade.

Ler Machado com a bagagem que tenho hoje é alento de vida. Seguem abaixo as notas que marquei do livro:

Tudo nos parece melhor e mais belo, — fruto da nossa ilusão, — e alegres com vermos o ano que desponta, não reparamos que ele é também um passo para a morte.

Era casto por princípio e temperamento. Tinha a libertinagem do espírito, não a das ações.

— Que mulher será essa, perguntou a si mesmo, tão bela que mete medo, tão fantasiosa que causa lástima?

Sou um coração defeituoso, um espírito vesgo, uma alma insípida, incapaz de fidelidade, incapaz de constância. O amor para mim é o idílio de um semestre, um curto episódio sem chamas nem lágrimas. Há seis meses que nos amamos; por que perderás tu o dia em que começa o ano novo, se podes também começar uma vida nova?

(…) os meus amores são todos semestrais; duram mais que as rosas, duram duas estações. Para o meu coração um ano é a eternidade. Não há ternura que vá além de seis meses; ao cabo desse tempo, o amor prepara as malas e deixa o coração como um viajante deixa o hotel; entra depois o aborrecimento — mau hóspede.

Era uma dessas mulheres que fazem o mesmo efeito que um vaso de porcelana fina: toca-se-lhes com medo de as quebrar.

— Não sei se se lembra de mim? perguntou ele. — O Dr. Félix? Perfeitamente: foi-me apresentado há muito tempo, mas eu tenho boa memória. De mais, só se esquecem as pessoas vulgares.

Vale a pena comprar o prazer de uma hora por alguns dias de enfado.

Lívia representava ter vinte e quatro anos. Era extremamente formosa; mas o que lhe realçava a beleza era um sentimento de modesta consciência que ela tinha de suas graças, uma coisa semelhante à tranquilidade da força. Nenhum gesto seu revelava o amor-próprio geralmente inseparável das mulheres bonitas. Sabia que era formosa, mas tinha para si que, se a natureza se havia esmerado com ela, era por uma razão de harmonia e de ordem nas coisas terrestres. Afeiar as suas graças, parecia-lhe um crime; tirar orgulho delas, frivolidade.

A tez, levemente amorenada, tinha aquele macio que os olhos percebem antes do contato das mãos.

A viúva era um pouco sarcástica, mas daquele sarcasmo benévolo e anódino, que sabe misturar espinhos com rosas.

(…) e não basta ver uma mulher para a conhecer, é preciso ouvi-la também; ainda que muitas vezes basta ouvi-la para a não conhecer jamais.

Tinha uma fidelidade filha do costume; a sua máxima era não esquecer o amante presente, não recordar o amante passado, nem se preocupar com o amante futuro.

(…) não é em terra que se fazem os marinheiros, mas no oceano, encarando a tempestade.

— Dou-te enfim um conselho, disse Félix. Meneses levantou os olhos com ansiedade. — Qualquer que seja a resolução que tomares, continuou Félix, não recues um passo. — Onde acharei esta resolução? — Aqui, disse Félix pondo-lhe o dedo na testa. — Oh! não! suspirou Meneses; a cabeça nada tem com isso; todo o mal está no coração. — Recorre à cirurgia: corta o mal pela raiz. — Como? — Suprime o coração.

— Fuma; eu já observei que o fumo impede as lágrimas, e ao mesmo tempo leva ao cérebro uma espécie de nevoeiro salutar.

“Se tu não vês o que está a teus pés, por que indagas do que está acima da tua cabeça?”

(…) o casamento é justamente isso; acalma os afetos para os tornar mais duradouros.

Félix passou-lhe o braço à roda da cintura e puxou-a docemente para si; depois segurou-lhe a cabeça entre as mãos, e inclinou os lábios para lhe imprimir um beijo na fronte.

— Vê? disse ela; a pouco se reduz a minha felicidade: o senhor e aquela criança.

Quando Félix chegou a encarar-lhe o coração, sentiu a fascinação do abismo, e caiu nele. Esta queda, como disse, foi lenta; o médico começou a sentir que a presença da moça era para ele uma necessidade. Pesavam-lhe as ausências mais longas, e, o que era mais, vinham suavizar-lhas umas saudades, que ele definia por outro modo, mas que, em suma, eram saudades. Quando a ia ver, e à proporção que se aproximava dela, sentia bater-lhe alguma coisa dentro do peito; o médico dizia que era o sangue ainda juvenil e irrequieto. Seria uma razão fisiológica; mas havia também uma razão moral; era a lava da paixão que se ia formando e subindo até romper a garganta do vulcão. Longa foi a gestação do amor; mas quando o médico descobriu o estado de sua alma, não era centelha que se pudesse abafar, mas incêndio que lavrava e consumia tudo.

Decidam lá os doutores da Escritura qual destes dois amores é melhor, se o que vem de golpe, se o que invade a passo lento o coração. Eu por mim não sei decidir, ambos são amores, ambos têm suas energias. O de Félix parecia ter criado no silêncio uma força invencível.

— Fui talvez cruel no que lhe escrevi, disse ele, e quero crer que fosse também injusto, mas amo-a, é todo o meu crime…

— O amor não é isso que o senhor diz; não nasce de uma circunstância fortuita, nem de uma longa intimidade, é uma harmonia entre duas naturezas, que se reconhecem e completam. Por mais semelhante que seja o nosso espírito, sinto que Deus não nos fez para que o amor nos unisse.

Quando o coração padece não há maior importuno que um conversador indiferente e frívolo.

Aquelas cadeias tão leves que nos prendiam um ao outro, e que eu chamava cadeias de rosas, tornaram-se de ferro pesado.

— Como é que vieste a amá-lo? perguntou ela. — Não sei, respondeu ingenuamente Raquel; nasceu-me o amor sem que eu reparasse nele. Nem sei se nasceria; creio que foi apenas transformação, porque eu de pequena me acostumei a admirá-lo. Foi talvez a admiração que se fez amor quando eu cresci.

— Por que razão, pensava ela, me há de lançar a Providência esta gota amarga na taça das minhas delícias? Se eu ao menos o ignorasse… a minha felicidade não seria travada de remorsos… Felicidade? continuou ela dirigindo o pensamento a uma nova ordem de ideias; será deveras felicidade? O sonho, tantas vezes dissipado, realizar-se-á, enfim?… Há quase um ano que eu pus toda a minha existência nesta vaga probabilidade; está próximo o termo, não sei que sorte avessa me repele para longe. Não a mereço talvez, ou então ambiciono demais… Chamam-me bela; devia talvez contentar-me com ser admirada…

— Jura-me ainda uma vez que me amas! dizia ele. É doce à minha alma ouvir-te essa confissão! — Pelo céu, por meu filho, por ti, juro que te amarei sempre! Amava-te ainda quando eras indiferente ao meu afeto, quando o negavas, quando me pagavas com o desdém. Por que te não amaria agora que és todo meu…

A rua estava deserta, o silêncio era profundo. Félix entrou em casa exaltado e alegre. Não tinha sono; recorreu aos livros, mas não lhe aproveitou o recurso, porque se os olhos corriam no papel, o espírito estava ausente, no tempo e no espaço: buscava a amada e planeava futuros.

Que lhe importava a ele a melancolia da natureza, se tinha dentro da alma uma fonte de inefáveis alegrias?

O casamento é bom; tem seus inconvenientes, como tudo neste mundo; mas é bom, com a condição única de o aceitarmos como ele deve ser… — Um pouco livre? disse Félix sorrindo. — Não sei se pouco ou muito, é questão de temperamento. O essencial é que seja livre. Eu assim o entendo e pratico; sou um pecador miserável, confesso, mas tenho ao menos o mérito de não ser hipócrita.

Hesitei, a voz da razão era mais fraca que a do pecado, e venceu o pecado.

(…) mais vale sonhar com a felicidade que poderíamos ter do que chorar aquela que houvéssemos perdido.

(…) seu espírito engendrará nuvens para que o céu não seja limpo de todo. As dúvidas o acompanharão onde quer que nos achemos, porque elas moram eternamente no seu coração. Acredite o que lhe digo; amemo-nos de longe; sejamos um para o outro como um traço luminoso do passado, que atravesse indelével o tempo, e nos doure e aqueça os nevoeiros da velhice.

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