OLHOS CHEIOS DE CORAGEM

João, tempos atrás, enfatizava, com olhos rútilos, para seu velho amigo Josias:
— Aquela mulher é tão bela que eu não consigo ficar cinco minutos ao lado dela. Tu tens noção disso? Cara, assim, eu fico nervoso, sabe? Como pode a beleza feminina mexer tanto com a gente?
— Entendo.
— Não, tu não estás entendendo. A mulher, além de ter uma beleza descomunal, ainda consegue ser de uma docilidade de cachorro sem dono.
— Bela e simpática? Duvido! — disse solenemente.
— E digo mais, é inteligente.
— Agora tu foste longe demais. Três características impossíveis de encontrar em uma só mulher.
— Aquilo não é uma mulher, é uma semideusa, Josias, uma semideusa! — enfatizou o amigo.
— Só acredito vendo.

A prova

João tratou de provar para o amigo que a tal mulher existia, em carne e osso. Sônia trabalhava com João em um banco no centro da cidade. Este, quando viu o amigo adentrar na agência, disparou atônito em sua direção.
— Está vendo aquela moça sentada? É a Sônia — disse João, direcionando apenas com os olhos para ninguém perceber sua excitação.
— Sim.
— Vais dizer que não é coisa mais linda que já viu na face da Terra? — indagou com olhos rútilos.
— Já vi melhores — respondeu Josias, numa secura de defunto.
— O quê?! — espantou-se João, com um berro.
Os transeuntes que aguardavam na fila viraram os pescoços em direção aos dois amigos.
— Calma, João. Até parece que profanei algo sagrado.
— Claro que é sagrado, oras. Me fala, do fundo do coração, como não se apaixonar por aquela mulher? Se um dia ela me der uma chance, me ajoelharei todas as noites aos seus pés para agradecê-la — disse, gesticulando efusivamente com as mãos.
Josias negativava com a cabeça a constatação do amigo.
— Já disse, João, vá com calma, vá com calma. Não é tudo isso.
— Tu és doente se não consegue ver a beleza daquela mulher.
— Eu, doente? Já se olhou no espelho? Estou olhando para ela e lhe digo, sem sombra de dúvidas: já vi melhores.
— Seu canalha de uma figa! — vociferou João em um ato impensado, sentindo-se ofendido. — Espero não vê-lo nunca mais.

A investida

A respiração de João estava ofegante ao final do expediente. Se preparava mentalmente para convidar Sônia para um encontro. João era alto e magrelo, usava uns óculos sem aro de lente grossa e tinha um cabelo liso irritante, daqueles que são cortados semanalmente, além de não ter nada de barba e bigode. João era o estereótipo do homem correto. Um homem cordial, respeitoso, trabalhador, manso, amigável, dócil; um homem que não faria mal a uma barata. Sua vida era de um planejamento milimétrico. Fora feito para o casamento, para a fidelidade. E agora, achara a mulher de sua vida. Só precisava tomar coragem e convidá-la para sair, e foi o que fez:
— Sônia, caso não esteja ocupada amanhã à noite, estava pensando cá com meus botões se podemos sair para jantar? — perguntou com rubor e suor em seu rosto.
— Olá, João. Agradeço seu convite, mas tenho compromisso amanhã — disse Sônia com um sorriso simpaticíssimo. João sentiu seu corpo esquentar como uma chaleira entrando em ebulição.
— Ou quem sabe no domingo, podemos ir assistir algum filme. Você pode escolher — insistiu sorrindo para disfarçar seu nervosismo.
— Então, João, estou conhecendo outro alguém neste momento. Não tem possibilidade de sairmos juntos. Ok? — respondeu a moça, sentindo pena de João, pois percebera que o rapaz fizera um esforço tremendo para conseguir falar-lhe as intenções.
— Quem seria o sortudo? Posso saber? — perguntou ele, numa mistura de ódio e nervosismo.
— Tu vais conhecer alguma hora dessas.
João sentiu-se humilhado. Sua preparação, seus meses ensaiando tons de vozes e frases em frente ao espelho, as noites mal dormidas, sua amizade desfeita, sua devoção àquela mulher, tudo fora em vão.

Uma surpresa

Na semana seguinte ao ocorrido, Sônia estava mais sorridente e falante que o normal. Os comentários entre os funcionários, principalmente entre as mulheres, ia de “vagabunda” a coisas piores em questão de segundos. “Com quem será que saiu para estar nessa alegria?”, “O final de semana rendeu.”, “Aposto que a família não sabe que Sônia é uma mulher de vida torta.” Sônia já acostumara com este tipo de burburinho. Enfrentou isto a vida inteira. Ela sabia que toda beleza seria castigada, pois o que mais havia no mundo era gente miserável à procura de atenção. E, se não conseguissem admirar a beleza, cairiam na inveja, espalhando aos quatro ventos o quanto alguém detentor de uma virtude sempre há de ter algum defeito incurável.
João, ao ouvir tais comentários, se enfureceu. Após passar por um dos piores finais de semana de sua vida, chegar ao trabalho e se deparar com a razão de sua ira estar felicíssima, foi a gota d’água.
— Pelo jeito não vai demorar muito para eu conhecer a razão de sua alegria? — perguntou, num cinismo irritante.
— João, tu não és assim — disse Sônia, com uma voz doce e delicada.
— Na verdade, acho que sempre fui assim, aquela outra besta que não era eu — respondeu, enquanto encarava Sônia.
— Não seja trágico, por favor.
— O que ele tem que eu não tenho?
— Quê? — perguntou perplexa.
— Tu me achas feio? Achas que eu não posso lhe sustentar? Me achas um covarde?
— Perdeste o juízo, agora preciso trabalhar. — João estava dando as costas, mas empertigou-se e virou-se com olhos cheios de fúria, em seguida desabafou:
— Desde que lhe conheci, a venero. A amo desde quando passou por aquela porta. Nenhum outro vai lhe amar como eu ou venerar-lhe como a venero. Sou capaz de tudo para tê-la, tudo!
Sônia ouviu atentamente João despejar suas entranhas, e, por mais paradoxal que seja, aquela auto-humilhação a fez sentir nojo dele. Ela apenas abaixou a cabeça e continuou seu trabalho. João voltou para o caixa e lá ficou, o dia inteiro, atendendo os clientes com uma apatia de funcionário público. Não almoçou, não foi ao banheiro, não emitiu som algum ao longo do expediente. Vez ou outra encarava Sônia.
Ao fim daquele dia angustiante, enquanto João fechava o caixa, viu aproximar-se da mesa de Sônia, um rapaz alto, imponente, bem aprumado. A princípio, pensou que fosse algum cliente para abrir conta, mas então seu mundo caiu: o homem a beijou. Esta cena fez João perder o raciocínio. Sua pouca lucidez foi para o espaço quando o sujeito virou-se: era Josias. Aquele bigode no meio da cara era inconfundível; aquele jeito malandro de caminhar era único. “Canalha, mil vezes canalha.” Dizia João para si.

O acerto de contas

Batidas à porta. Josias levantou-se calmamente da cama, deixando Sônia dormindo após o clímax. “Deve ser a pizza.” Pensou. Ao abrir a porta, deparou-se com João. O miserável tremia e franzia o cenho, como se estivesse sofrendo de alguma doença grave.
— Traidor! Canalha! — vociferou João. Josias, ainda assustado, tentou acalmá-lo.
— Calma, João.
— Foi o que me disse tempos atrás: “calma, até parece que estou profanando algo sagrado.” Lembra disso, seu canalha?
— Se acalme, homem, pelo amor de Deus — suplicou Josias, que estava apenas usando um calção de dormir.
Com a gritaria, Sônia acordou lívida e preferiu ficar no quarto, escutando-os.
— Eu disse que era uma semideusa, não disse? E tu duvidastes. Agora estás aqui, com ela, aos beijos e sei lá mais o quê. — João sacou um revólver e apontou para o ex-amigo.
— Estás louco? Vire esta arma pra lá.
— Pela primeira vez eu sinto o medo em ti. Se pudesse ver seus próprios olhos pusilânimes, teria a exata sensação do que fui uma vida inteira — disse João, com o revólver apontado para a cabeça de Josias.
— Por favor, não me mate. Não atire! Tu se arrependerás — implorou Josias, que logo passou a chorar.
Sônia correu na direção dos dois:
— Não mate ele, João. Eu fico contigo até a eternidade, mas por favor, não mate ele — balbuciou Sônia, com os dedos entrelaçados em sinal de súplica.
— Não quero sua pena, Sônia, quero, apenas uma vez nesta minha vida miserável, ser um homem corajoso.
— Ser corajoso não significa matar um amigo.
— Quem disse que vou matá-lo?
João apontou o revólver contra sua própria cabeça e estourou seus cornos. Seu corpo caiu sobre o chão frio. Morrera de olhos abertos, olhos cheios de coragem.

Publicado por Guilherme Angra

Me chamo Guilherme Angra, sou um escritor com dois livros publicados e diversos textos postados na internet. (Crônicas, artigos, contos, poemas). Me formei em Administração, pós-graduei-me em Gerenciamento de Projetos e atualmente estudo Psicanálise. Além disso, crio conteúdo nas plataformas do YouTube, Facebook e Instagram. Meu conteúdo baseia-se em reflexões filosóficas sobre as várias nuances da vida: relacionamento, felicidade, tristezas, angústias, trabalho, finanças, intelecto e etc. Espero poder ajudá-lo de alguma forma.

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