A SOLIDÃO DEVE SER SUA AMANTE, NÃO SUA NAMORADA

“Reservado”. Está aí um adjetivo que ouvi sobre mim durante muito tempo, seja nos relacionamentos amorosos, no núcleo familiar ou em qualquer outro vínculo social. Mas o que seria um cara “reservado”? Praticamente alguém que namora com a solidão e tem dificuldade de expor seus sentimentos para o outro, peremptoriamente face a face. Por este fato, usei e uso a escrita para destrinchar as entranhas e, aos poucos, percebi que a usava como uma válvula de escape para expor pensamentos que me atormentavam e que nunca tive a coragem de dizê-los no mundo real. Chamem-me de covarde.

Isso me fez escrever textos deveras agressivos — principalmente os primeiros. Mas os leio hoje e percebo que não havia como ser diferente. Era o meu espírito colocando para fora sua verdadeira face: cólera. E acredito que grande parte da minha essência é colérica, efusiva, intensa, logo, preciso buscar equilibrar as coisas, caso contrário, perco a razão e me afundo na emoção. Hoje, um pouco mais maduro, consigo controlar parcialmente esta ira que me assola, pois, como já escrevi, o ódio, a raiva ou qualquer outro sentimento, são capazes de feitos maravilhosos, são capazes de um poder de criação imparável, mas claro, se bem controlados.

E ao longo dos anos também percebi que namorar a solidão durante muito tempo passou a ser prejudicial para a minha autoestima, vos digo: ninguém consegue ser feliz sozinho. E olha que sou agraciado com a família de sangue que tenho, mas estou me atendo no contato físico, naquele ser humano de carne e osso que está em sua frente e você tem a possibilidade de tocá-lo, abraçá-lo, servi-lo, ver suas reações, apertar sua mão, vê-lo sorrir. Depois que saí da casa dos meus pais, morei com meu irmão, com minha primeira namorada, com minha segunda namorada, e, entre este meio tempo, também morei sozinho, e atualmente ainda moro só. Lembro quando terminei meu segundo namoro: ao chegar à casa e caminhar entre os cômodos, era possível ouvir o eco do vazio daquele ambiente com pouquíssimos móveis pelo fato da mudança. Senti um misto de insegurança e liberdade de espírito. Insegurança por não saber se daria conta de ficar sozinho novamente e liberdade por eu poder fazer o que quiser sem dever nada a ninguém.

Fiquei praticamente um ano namorando a solidão. Neste período fiz muitas coisas produtivas: livro, textos, vídeos, música, podcast, estampas, pois o meu tempo era só meu. Todavia, tinha momentos que sentia um vazio, uma vontade de ter uma família que eu pudesse afagar e falar bobagens, pelo menos nos finais de semana, onde o vazio era maior. Ao conhecer o amor da minha vida, confesso que fiquei receoso para me entregar. Demorei para me desarmar e tomar uma decisão, pois de um lado eu namorava a solidão e tinha toda a “liberdade” do mundo para fazer as minhas coisas com ela; do outro, eu tinha uma mulher de carne e osso que estava disposta a se entregar de corpo e alma em meus braços. E agora? Meus queridos, ninguém resiste ao afeto verdadeiro ou ao amor. Como dizia Nelson, até Satanás daria metade de suas trevas por uma furtiva lágrima de amor; e eu, por que não daria boa parte das minhas trevas por diversas atitudes de amor e carinho?

Escolhi o amor da minha vida, óbvio. E digo que caráter e personalidade é o que nos leva à admiração pelo outro. Encantei-me com os pormenores das atitudes dela. Quando conheci sua família, me senti em casa. Lembro-me do primeiro dia, ao abraçar minha sogra e meu sogro, pensei: “nunca mais quero sair daqui.” Senti uma energia tão verdadeira e afável que há muito não sentia, apenas nas visitas dos meus pais ou quando viajava para ver a família no Rio Grande do Sul.

Se eu tivesse que dar uma lição para esta história, diria que a solidão deve ser sua amante, não sua namorada. Demorei algum tempo para aprender que precisamos sair da ilha para enxergá-la. Comecei a perder o solo debaixo de meus pés quando nada mais possuía senão o mundo interior de meus pensamentos. Por isso, saia deste quarto, vá servir a alguém no mundo real, sinta-se útil para alguma coisa, encontre uma pessoa que te ame e sinta o quão maravilhoso é ser amado, construa sua vida com significado, não encha o saco e trabalhe. Vez ou outra dê uma escapada com a amante, mas não a torne fundamental no seu cotidiano.

Publicado por Guilherme Angra

Me chamo Guilherme Angra, sou um escritor com dois livros publicados e diversos textos postados na internet. (Crônicas, artigos, contos, poemas). Me formei em Administração, pós-graduei-me em Gerenciamento de Projetos e atualmente estudo Psicanálise. Além disso, crio conteúdo nas plataformas do YouTube, Facebook e Instagram. Meu conteúdo baseia-se em reflexões filosóficas sobre as várias nuances da vida: relacionamento, felicidade, tristezas, angústias, trabalho, finanças, intelecto e etc. Espero poder ajudá-lo de alguma forma.

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