NOTA LITERÁRIA #15 – ORTODOXIA (G. K. CHESTERTON)

ortodoxia

Meus queridos, este livro mudou a minha forma de ver o cristianismo. Eu já passei pelo ateísmo, agnosticismo e voltei a ser um cristão. Já vi e revi diversos argumentos de todos os lados. Ortodoxia é algo que transcende a maneira da argumentação. Chesterton traz um bom humor e ao mesmo tempo uma visão cristã profunda sobre a nossa vida, sobre os nossos valores, e tenta mostrar que viver uma vida sem significado nos levará à degradação do ser, à insanidade. Ainda vou escrever muitas reflexões baseadas nesta obra, aguardem…

Por enquanto, fiquem com as notas preciosas que marquei:

O amor perdoa o imperdoável, senão deixa de ser virtude. A esperança não desiste, mesmo em face do desespero, senão deixa de ser virtude. E a fé acredita no inacreditável, senão deixa de ser virtude.

“O desespero não está em cansar-se do sofrimento, mas em cansar-se da alegria”.

“Para responder ao cético arrogante, não adianta insistir que deixe de duvidar. É melhor estimulá-lo a continuar a duvidar, para duvidar um pouco mais, para duvidar cada dia mais das coisas novas e loucas do universo, até que, enfim, por alguma estranha iluminação, ele venha a duvidar de si próprio”.

Como podemos imaginar ficarmos ao mesmo tempo assombrados com o mundo e, mesmo assim, nele nos sentirmos em casa?

Tentei fundar uma heresia só minha; e quando lhe dei o último acabamento descobri que era a ortodoxia.

Total autoconfiança não é simplesmente um pecado; total autoconfiança é uma fraqueza.

A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão.

Aceitar tudo é um exercício, entender tudo é uma tensão. O poeta apenas deseja a exaltação e a expansão, um mundo em que ele possa se expandir. O poeta apenas pede para pôr a cabeça nos céus. O lógico é que procura pôr os céus dentro de sua cabeça. E é a cabeça que se estilhaça.

O homem feliz é que faz coisas inúteis; o homem doente não dispõe de força suficiente para ficar sem fazer nada.

O louco não é um homem que perdeu a razão. O louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão.

Muito mais ampla seria a sua vida se o seu eu pudesse tornar-se menor dentro dela; se você pudesse realmente olhar para os outros homens com uma curiosidade e um prazer comuns; se você pudesse vê-los caminhando tais quais eles são em seu radiante egoísmo e viril indiferença! Você começaria a interessar-se por eles porque eles não estão interessados em você.

(…) e a maioria dos doutores da loucura são doutores da loucura em mais de um sentido. Todos apresentam exatamente aquela combinação que já observamos: a combinação de um raciocínio expansivo e exaustivo com um reduzido bom senso.

O homem sadio sabe que nele há um vestígio da fera, um vestígio do demônio, um vestígio do santo, um vestígio do cidadão. Mais que isso, o homem realmente sadio sabe que nele há um vestígio do louco. Mas o mundo do materialista é totalmente simples e sólido, exatamente como o louco tem plena certeza de que ele é sadio.

Agora a acusação contra as principais deduções do materialista é que, certas ou erradas, elas aos poucos destroem a sua humanidade. Não estou me referindo apenas à bondade; estou me referindo a esperança, coragem, poesia, iniciativa, tudo o que é humano.

O homem que não consegue acreditar nos seus sentidos, e o homem que não consegue acreditar em nada além dos seus sentidos, os dois são insanos, porém a insanidade deles não é provada por algum erro na sua argumentação, mas pelo erro evidente de sua vida.

(…) podemos dizer, em resumo, que é a razão usada sem raízes, a razão no vazio. O homem que começa a pensar sem os apropriados primeiros princípios fica louco; começa a pensar do lado errado.

Enquanto se tem um mistério se tem saúde; quando se destrói o mistério se cria a morbidez. O homem comum sempre foi sadio porque o homem comum sempre foi um místico. Ele aceitou a penumbra. Ele sempre teve um pé na terra e outro num país encantado. Ele sempre se manteve livre para duvidar de seus deuses; mas, ao contrário do agnóstico de hoje, livre também para acreditar neles. Ele sempre cuidou mais da verdade do que da coerência. Se via duas verdades que pareciam contradizer-se, ele tomava as duas juntamente com a contradição. Sua visão espiritual é estereoscópica, como a visão física: ele vê duas imagens simultâneas diferentes e, contudo, enxerga muito melhor por isso mesmo.

Todo o segredo do misticismo é este: que o homem pode compreender tudo com a ajuda daquilo que não compreende.

É impossível, sem a humildade, desfrutar qualquer coisa que seja — mesmo o orgulho.

O homem foi concebido para duvidar de si mesmo, mas não duvidar da verdade, e isso foi exatamente invertido. Hoje em dia a parte humana que o homem afirma é exatamente a parte que não deveria afirmar. A parte de que ele duvida é exatamente a parte de que não deveria duvidar — a razão divina.

(…) a antiga humildade fazia o homem duvidar de seus esforços, o que possivelmente o levava a trabalhar com mais afinco. Mas a nova humildade faz o homem duvidar de seus objetivos, e isso o fará parar de trabalhar pura e simplesmente.

É inútil falar sempre da alternativa de razão e fé. A própria razão é uma questão de fé. É um ato de fé afirmar que nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade por mínima que seja.

Nenhum homem enlouquece por criar uma estátua de um quilômetro de altura, mas alguém pode enlouquecer ao calcular os centímetros quadrados dessa estátua. Ora, há uma escola de pensadores que percebeu esse fato e agarrou-o vendo nele um jeito de renovar a saúde pagã do mundo. Eles percebem que a razão destrói; mas a vontade, dizem eles, é criadora. A autoridade suprema, dizem eles, está na vontade, não na razão.

Todos os adoradores da vontade, de Nietzsche ao sr. Davidson, estão na realidade completamente vazios de volição. Eles não podem querer; eles mal podem aspirar. E se alguém precisa de uma prova disso, ela pode ser achada muito facilmente no seguinte fato: eles sempre falam da vontade como algo que se expande e se liberta. Mas é exatamente o contrário. Cada ato de vontade é um ato de autolimitação. Desejar uma ação é desejar uma limitação. Nesse sentido todas as ações são ações de sacrifício de si mesmo. Quando você escolhe uma coisa qualquer, você rejeita tudo o mais.

A arte é limitação; a essência de todos os quadros é a moldura.

No momento em que se entra no mundo dos fatos, entra-se no mundo dos limites.

Pode-se libertar as coisas de leis externas ou acidentais, mas não das leis da sua própria natureza.

Em resumo, o revolucionário moderno, sendo um cético sem limites, está sempre ocupado em minar suas próprias minas.

Este é o primeiro princípio da democracia: as coisas essenciais nos homens são as coisas que eles têm em comum, não as que eles têm em separado. O segundo princípio é simplesmente este: o instinto ou desejo político é uma dessas coisas que eles têm em comum.

A vida pura e simples é suficientemente interessante.

O teste de toda felicidade é a gratidão; e eu me sentia grato, embora mal soubesse a quem.

Esse sentimento dos contos de fada também calou fundo em mim e tornou-se um sentimento em relação ao mundo inteiro. Eu sentia e sinto que a vida em si brilha como um diamante, mas é frágil como uma vidraça; e quando os céus eram comparados ao terrível cristal, eu ainda posso lembrar-me do calafrio. Tinha medo de que Deus deixasse o cosmos cair e ele se espatifasse.

A poligamia é a falta da realização do sexo; é como quem apanha cinco pêras de uma só vez num mero gesto de insanidade.

(…) suas duas doutrinas mais essenciais. Já expliquei que os contos de fadas sedimentaram em mim duas convicções: primeiro, de que o mundo é um lugar fantástico e surpreendente; segundo, de que diante dessa loucura e prazer nós deveríamos ser modestos e submeter-nos às estranhas limitações de uma bondade tão estranha.

É um bom exercício, em horas vazias e desagradáveis do dia, olhar para qualquer coisa, a caixa para carvão ou a estante de livros, e pensar que alguém poderia sentir-se feliz por ter tirado aquilo de um navio a pique numa ilha solitária.

Todos os homens passaram por uma horrível aventura: como criança abortada, como um bebê que nunca viu a luz do dia. Na minha infância falava-se muito de limitados ou arruinados gênios: e era muito comum classificar alguém como um “Poderia-Ter-Sido”. Para mim há um fato mais concreto e assustador: qualquer transeunte que vai pela rua é um “Poderia-Não-Ter-Sido”.

Eu sentia na alma: primeiro, que o mundo não se explica a si mesmo. Pode tratar-se de um milagre com uma explicação sobrenatural; pode ser um truque de mágica com uma explicação natural. Mas a explicação do truque de mágica, para eu considerá-la satisfatória, terá de ser melhor do que as explicações naturais que ouvi. A coisa é mágica, verdadeira ou falsa. Segundo, comecei a sentir que a mágica deve ter um sentido, e o sentido deve ter alguém que lhe dê origem. Havia no mundo algo pessoal, como numa obra de arte; o que quer que significasse, o significado era violento. Terceiro, considerei esse propósito belo em seu plano antigo, apesar de seus defeitos, como os dragões. Quarto, considerei que a forma apropriada de agradecer a ele é alguma forma de humildade e limitação: deveríamos agradecer a Deus pela cerveja e o vinho francês não os bebendo em excesso. Devíamos também obediência ao que quer que nos tenha criado. E por fim o sentimento mais forte: entrara na minha cabeça uma vaga e vasta impressão de que, de algum modo, todo bem era uma sobra a ser guardada e tida como sagrada proveniente de alguma destruição primordial. O homem salvara seu bem como Crusoé salvara seus bens: ele os salvara de um naufrágio. Tudo isso eu sentia e a época não me oferecia estímulo algum para senti-lo. E durante todo esse tempo eu nem sequer havia pensado na teologia cristã.

O ser humano pertence a este mundo antes de começar a perguntar se isso é agradável. Ele lutou pela bandeira, e muitas vezes conquistou heroicas vitórias por ela muito antes de estar sequer alistado. Para resumir o que parece ser a questão essencial, ele tem um dever de lealdade muito antes de ter qualquer admiração.

Minha aceitação do universo não é otimismo, mais se parece com patriotismo. É uma questão de lealdade primária.

A questão não é que este mundo é triste demais para ser amado ou alegre demais para não o ser; a questão é que, quando se ama alguma coisa, a sua alegria é a razão para amá-la, e a sua tristeza é a razão para amá-la ainda mais.

Roma não foi amada por ser grande. Ela foi grande por ter sido amada.

A moralidade não começou com um homem dizendo a outro: “Eu não vou bater em você se você não bater em mim”; não há vestígio de uma transação semelhante. HÁ, sim, um vestígio de que ambos disseram: “Nós não devemos bater um no outro no lugar sagrado”. Eles conquistaram a moralidade vivendo a religião. Eles não cultivaram a coragem. Lutaram pelo santuário e descobriram que se haviam tornado corajosos. Eles não cultivaram o asseio. Purificaram-se para o altar e descobriram que estavam asseados.

Ouso dizer que o ponto negativo do amigo sincero é simplesmente que ele não é sincero. Sempre esconde alguma coisa — seu prazer sombrio em dizer algo desagradável.

Deixe-me explicar usando mais uma vez o paralelo do patriotismo. O homem mais capaz de destruir o lugar que ama é exatamente aquele que o ama por uma razão. O homem que vai melhorar o lugar é aquele que o ama sem uma razão.

Antes de qualquer ato cósmico de reforma devemos prestar um juramento cósmico de fidelidade. O homem deve estar interessado na vida; depois poderia desinteressar-se de suas maneiras de vê-la. “Meu filho, dê-me seu coração”; o coração deve estar preso à coisa certa; a partir do momento em que temos o coração preso temos liberdade para as mãos.

Nessa combinação, afirmo eu, o otimista racional é que falha; o otimista irracional obtém êxito. Ele está disposto a agredir violentamente o universo inteiro em benefício do próprio universo.

O suicídio não só constitui um pecado, ele é o pecado. É o mal extremo e absoluto; a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo.

Mais ou menos na mesma época li uma solene bobagem de algum livre-pensador. Dizia ele que um suicida era simplesmente o mesmo que um mártir. A patente falácia desse texto ajudou-me a esclarecer a questão. Obviamente um suicida é o oposto de um mártir. Um mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal. Um suicida é um homem que se preocupa tão pouco com tudo o que está fora dele que ele quer ver o fim de tudo. Um quer que alguma coisa comece; o outro, que tudo acabe.

Dentre todas as formas concebíveis de iluminismo, a pior é o que essa gente chama Luz Interior. Dentre todas as religiões horríveis, a mais horrível é a adoração do deus interior. Qualquer que conheça alguém sabe como isso funciona; qualquer que conheça alguém do Centro do Pensamento Superior sabe como isso realmente funciona. O fato de o Silva adorar o deus interior em última análise significa que o Silva adora o Silva. Que o Silva adore o sol ou a lua, qualquer coisa em vez da Luz Interior; que o Silva adore gatos ou crocodilos, se conseguir encontrá-los na rua, mas não o deus interior.

O cristianismo veio ao mundo acima de tudo para afirmar com veemência que o homem não só não devia olhar para dentro, mas devia olhar para fora, contemplar com assombro e entusiasmo uma companhia divina e um capitão divino. O único prazer de ser cristão era que o homem não ficava sozinho com a Luz Interior, mas definitivamente reconhecia uma luz exterior, bela como o sol, clara como a lua, formidável como um exército com bandeiras.

A natureza física não deve ser transformada no objeto direto de obediência; ela deve ser desfrutada, não adorada.

E a expressão radical para todo o teísmo cristão era esta: que Deus era um criador, como um artista é um criador. Um poeta está tão separado de seu poema que ele mesmo refere-se a ele como uma coisinha que foi “jogada fora”. Até mesmo no ato de produzi-lo ele o jogou fora. Esse princípio segundo o qual toda criação, toda procriação é um desprender-se é no mínimo coerente através do cosmos como o princípio evolucionário de que todo crescimento é uma ramificação. Uma mulher perde o filho exatamente quando o está dando à luz. Toda criação é separação. O nascimento é uma despedida tão solene quanto a morte.

O princípio filosófico básico do cristianismo era que esse divórcio no ato divino de criar (como o que separa o poeta do poema ou a mãe do filho recém-nascido) era a verdadeira descrição do ato com o qual a energia absoluta criou o mundo. Segundo a maioria dos filósofos, Deus ao criar o mundo o escravizou. Segundo o cristianismo, ao criá-lo Deus o libertou.

O otimismo cristão baseia-se no fato de NÃO nos encaixarmos no mundo. Eu tentara ser feliz dizendo a mim mesmo que o homem é um animal como outro qualquer que procurava seu alimento provindo de Deus. Mas agora eu estava realmente feliz, pois aprendera que o homem é uma monstruosidade. Eu estivera certo ao sentir que todas as coisas eram estranhas, pois eu mesmo era simultaneamente pior e melhor que todas elas. O prazer do otimista era prosaico, pois baseava-se na naturalidade de tudo; o prazer cristão era poético, pois residia na antinaturalidade de tudo à luz do sobrenatural. O filósofo moderno me dissera muitas e muitas vezes que eu estava no lugar certo, e eu ainda me sentia deprimido mesmo aceitando isso. Mas eu ouvira que estava no lugar ERRADO, e minha alma exultou de alegria, cantando como um pássaro na primavera. O conhecimento revelou e iluminou aposentos esquecidos da casa escura da infância. Agora eu sabia por que a relva sempre me parecera estranha como a barba verde de um gigante, e por que eu podia sentir saudades de casa estando em casa.

Um soldado cercado por inimigos, se quiser achar uma saída, precisa combinar um forte desejo de viver com uma estranha despreocupação com a morte. Ele não deve simplesmente agarrar-se à vida, pois então será covarde — e não escapará. Ele não deve simplesmente aguardar a morte, pois então será suicida — e não escapará. Ele deve buscar a vida num espírito de furiosa indiferença diante dela; deve desejar a vida como água e, no entanto, beber a morte como vinho.

São Francisco, elogiando todo o bem, pôde ser um otimista mais retumbante do que Walt Whitman. São Jerônimo, denunciando todo o mal, pôde pintar um mundo muito mais negro que Schopenhauer. As duas paixões estavam livres porque as duas eram mantidas dentro de seu espaço.

Assim, a dupla acusação dos secularistas, embora lançando apenas trevas e confusão sobre si mesmos, projeta uma luz real sobre a fé. É verdade que a Igreja histórica enfatizou ao mesmo tempo o celibato e a família, defendeu ferozmente ao mesmo tempo (se assim se pode dizer) que se deve ter filhos e que não se deve tê-los. Manteve as duas coisas lado a lado como duas cores fortes, vermelho e branco, como o vermelho e o branco no escudo de São Jorge. Sempre teve um ódio sadio pelo rosa. Ela odeia a combinação de duas cores, que é o fraco recurso dos filósofos. Ela odeia essa evolução do preto para o branco, que é o mesmo que um cinza sujo. De fato, toda a teoria da Igreja sobre a virgindade poderia ser simbolizada na afirmação de que o branco é uma cor: não simplesmente a ausência de cor. Tudo aquilo em que estou insistindo aqui pode ser expresso dizendo-se que o cristianismo procurou, na maioria desses casos, manter as duas cores coexistindo, porém puras. Não se trata de uma mistura como o castanho ou o roxo; trata-se antes de algo como a seda jaspeada,3 pois a seda lustrada sempre forma ângulos retos, segundo o padrão da cruz. Isso acontece, naturalmente, com as acusações contraditórias dos anticristãos sobre a submissão e a carnificina. Pois é verdade que Igreja pediu que alguns homens lutassem e que outros não lutassem; e é verdade que aqueles que lutaram comportaram-se como raios e aqueles que não lutaram, como estátuas. Tudo isso simplesmente significa que a Igreja preferiu usar seus super-homens e usar seus tolstoianos. Deve haver algo de bom na vida da batalha, pois tantos homens bons sentiram prazer em ser soldados. Deve haver algo de bom na ideia da não resistência, pois tantos homens bons parecem gostar de ser quacres. Tudo o que a Igreja fez (no que se refere a esse ponto) foi impedir que uma dessas coisas boas desbancasse a outra. Elas existiram lado a lado.

As pessoas adquiriram o tolo costume de falar de ortodoxia como algo pesado, enfadonho e seguro. Nunca houve nada tão perigoso ou tão estimulante como a ortodoxia. Ela foi a sensatez, e ser sensato é mais dramático que ser louco. Ela foi o equilíbrio de um homem por trás de cavalos em louca disparada, parecendo abaixar-se para este lado, depois para aquele, mas em cada atitude mantendo a graça de uma escultura e a precisão da aritmética.

A Igreja ortodoxa nunca tomou a rota fácil ou aceitou as convenções; a Igreja ortodoxa nunca foi respeitável. Teria sido mais fácil ter aceitado o poder terreno dos arianos. Teria sido mais fácil, durante o calvinista século 17, cair no abismo infinito da predestinação. É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um esnobe. Cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro e exagero que um modismo depois de outro e uma seita depois de outra espalharam ao longo da trilha histórica do cristianismo — isso teria sido de fato simples. É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda, e apenas um para mantê-lo de pé. Cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue de pé.

Assim, não interessa (comparativamente falando) quantas vezes a humanidade fracassa na imitação do seu ideal; pois nesse caso os seus velhos fracassos são frutíferos. Mas interessa dramaticamente quantas vezes a humanidade muda o seu ideal; pois nesse caso todos os seus velhos fracassos são infrutíferos.

“O meu ideal pelo menos está fixo, pois foi fixado antes das fundações do mundo. A minha visão de perfeição indubitavelmente não pode ser alterada, pois se chama Éden. Você pode alterar o lugar para o qual se dirige, mas não pode alterar o lugar do qual saiu. Para o ortodoxo sempre deve haver um argumento em favor da revolução, pois no coração dos homens Deus foi posto sob os pés de Satã. No mundo superior o inferno uma vez se rebelou contra o céu. Mas neste mundo o céu está se rebelando contra o inferno.

A corrente pode parecer tão natural para o escravo, ou a maquilagem para a meretriz, como a plumagem para o pássaro ou a toca para a raposa; mesmo assim, elas não são naturais, se são pecaminosas.

É muito mais provável que o homem moderno coma carne humana por afetação do que o homem primitivo a tenha comido por ignorância.

Com base na evolução, você pode ser desumano ou absurdamente humano; mas não pode ser um ser humano. O fato de você e um tigre serem a mesma coisa pode ser motivo para ser gentil com o tigre. Ou então pode ser motivo para ser tão cruel como o tigre. Um jeito é treinar o tigre a imitar você; outro jeito mais rápido é você imitar o tigre. Mas em nenhum desses casos a evolução lhe diz como tratar o tigre racionalmente, isto é, admirando-lhe as listras e evitando-lhe as garras.

Infelizmente, se você considerar a natureza como mãe, vai descobrir que ela é madrasta. O ponto principal do cristianismo era este: que a natureza não é a nossa mãe: a natureza é nossa irmã. Podemos sentir orgulho de sua beleza, uma vez que temos o mesmo pai; mas ela não tem autoridade sobre nós; temos de admirá-la, não de imitá-la.

(…) poderíamos inconscientemente evoluir seguindo a linha de desenvolvimento oposta ou nietzschiana — um super-homem esmagando super-homens numa torre de tiranos até que o universo fosse destruído por diversão. Mas queremos o universo destruído por diversão? Não está perfeitamente claro que aquilo que realmente esperamos é um gerenciamento particular e uma proposição destas duas coisas: uma certa dose de restrição e respeito, uma certa dose de energia e de mistério?

Se nossa vida realmente quiser ser bela como um conto de fadas, devemos nos lembrar de que toda a beleza de um conto de fadas está no seguinte: que o príncipe tem um espanto que quase chega a ser medo. Se ele temer o gigante, será o seu fim; mas também se ele não se sentir atônito diante do gigante, será o fim do conto de fadas. A questão toda depende de ele ser ao mesmo tempo suficientemente humilde para espantar-se e suficientemente orgulhoso para desafiar.

A perfeita felicidade dos homens sobre a terra (se ela um dia acontecer) não será uma coisa plana e sólida, como a satisfação dos animais. Será um equilíbrio exato e perigoso; como o equilíbrio de um romance desesperado. O homem precisa ter a medida exata e suficiente de fé em si mesmo para ter aventuras; e ter a medida exata e suficiente de dúvida de si mesmo para desfrutá-las.

Eu dissera: “O ideal deve ser fixo”. E a Igreja respondera: “O meu é literalmente fixo, pois existiu antes de qualquer outra coisa”. Eu disse depois: “Ele dever ser artisticamente harmonioso, como um quadro”. E a Igreja respondeu: “O meu é literalmente um quadro, pois eu sei quem o pintou”. Depois passei para a terceira questão, que, a meu ver, era necessária para uma utopia ou ideal de progresso. Das três, esta é inifnitamente mais difícil de expressar. Talvez se possa apresentá-la assim: nós precisamos de vigilância até mesmo na utopia, para não cairmos fora da utopia como caímos do Éden.

Se você abandona um poste branco à própria sorte, ele logo será um poste preto. Se você deseja particularmente que ele seja branco, precisa pintá-lo continuamente; isto é, você precisa estar sempre promovendo uma revolução. Em resumo, se você quer o velho poste branco, precisa ter um novo poste branco.

A gente “se fixa” numa espécie de seriedade egoísta; mas é preciso erguer-se para um alegre esquecimento de si mesmo. Um homem “se afunda” num escritório marrom; mas ele tenta alcançar um céu azul. A seriedade não é uma virtude. Seria uma heresia, mas uma heresia muito mais sensata, dizer que a seriedade é um vício. É na verdade um lapso ou tendência natural a levar-se muito a sério, porque é a coisa mais fácil de fazer. É muito mais fácil escrever um bom artigo de fundo para o Times do que escrever uma boa piada para a punch. Pois a solenidade flui dos homens naturalmente; mas o riso é um salto. É fácil ser pesado, é difícil ser leve. Satanás caiu devido à força da gravidade.

Eu jamais poderia conceber ou tolerar nenhuma utopia que não me deixasse a liberdade que mais prezo, a liberdade de me obrigar.

Existe o costume de nos queixarmos da correria e do árduo trabalho da nossa época. Mas na verdade a marca principal da nossa época é uma profunda preguiça e fadiga. O fato é que a verdadeira preguiça é a causa da aparente correria.

A oposição existe em cada ponto; mas talvez a mais concentrada demonstração disso seja o fato de o santo budista ter um corpo harmonioso e luzidio, mas olhos pesados e cerrados pelo sono. O corpo do santo medieval é desgastado e exibe seus estranhos ossos, mas os olhos estão assustadoramente vivos. Não pode haver nenhuma real comunhão de espírito entre as forças que produziram símbolos assim tão diferentes.

Pouco tempo atrás, a sra. Besant anunciou, num artigo interessante, que só havia uma religião no mundo, que todas as fés eram apenas versões ou perversões dessa religião, e ela estava totalmente preparada para dizer qual era. Segundo a sra. Besant, essa Igreja universal é simplesmente o eu universal. É a doutrina de que todos nós somos realmente uma só pessoa; de que não há muros reais de individualidade entre um ser humano e outro. Se assim posso dizer, ela não nos diz para amar o próximo; ela nos diz para sermos o nosso próximo. Essa é a ponderada e sugestiva descrição da religião da sra. Besant na qual todos os homens devem estar de acordo. Nunca ouvi em minha vida uma sugestão da qual eu discorde com mais veemência. Quero amar o próximo não por ele ser eu, mas precisamente por ele não ser eu. Quero adorar o mundo, não como quem gosta de um espelho, por ele ser o eu de quem vê, mas como quem ama uma mulher, por ela ser inteiramente diferente. Se as almas estão separadas, o amor é possível. Se as almas estão unidas, o amor é obviamente impossível. Pode-se dizer que alguém ama vagamente a si mesmo, mas não se pode dizer que alguém possa apaixonar-se por si mesmo, ou então, se isso vier a acontecer, só pode ser um namoro monótono. Se o mundo está cheio de eus reais, pode haver eus que realmente não sejam egoístas. Mas, segundo o princípio da sra. Besant, todo o cosmos é apenas uma enorme pessoa egoísta.

Todas as filosofias modernas são correntes que se interconectam e prendem; o cristianismo é uma espada que separa e liberta. Nenhuma outra filosofia faz Deus de fato exultar com a divisão do universo em almas vivas.

O amor falso termina em acomodamento e filosofia comum; mas o amor real sempre terminou em sangue derramado.

Insistindo que Deus está no interior do homem, o homem está sempre no interior de si mesmo. Insistindo que Deus transcende ao homem, o homem tem de transcender a si mesmo.

Assim, a moral cristã sempre disse ao homem, não que ele perderia sua alma, mas que ele deveria cuidar para não perdê-la. Na moral cristã, em suma, é perverso chamar um homem de “condenado”; mas é estritamente religioso e filosófico chamá-lo de condenável.

Um homem pode ficar deitado inerte e curar-se de uma enfermidade. Mas ele não pode ficar deitado inerte se quiser curar-se de um pecado. Pelo contrário, ele precisa levantar-se e correr por aí feito louco.

A questão toda de fato está expressa à perfeição na própria palavra usada para quem está hospitalizado: “paciente” tem um sentido passivo; “pecador” tem um sentido ativo. Se um homem quiser se salvar de uma gripe, ele pode ser paciente. Mas se quiser se salvar de uma falcatrua, ele não pode ser paciente, tem de ser impaciente. Ele deve sentir-se impaciente com a falcatrua. Toda reforma moral começa na vontade ativa, não na passiva.

(…) a ortodoxia não é apenas (como muitas vezes se ressalta) a única salvaguarda segura da moralidade ou da ordem, mas é também o único guardião lógico da liberdade, da inovação e do avanço. Se quisermos derrubar o próspero opressor, não podemos fazê-lo com a nova doutrina da perfectibilidade humana; podemos fazê-lo com a velha doutrina do pecado original. Se quisermos arrancar as crueldades inerentes ou elevar populações perdidas a uma condição superior, não podemos fazê-lo com a teoria científica de que a matéria precede a mente; podemos fazê-lo com a teoria sobrenatural de que a mente precede a matéria. Se quisermos especialmente despertar as pessoas para uma vigilância social e uma incansável busca de atuação prática, não poderemos conseguir muito êxito insistindo no Deus Imanente e na Luz Interior, pois essas são, na melhor das hipóteses, razões de satisfação. Poderemos conseguir muito êxito insistindo no Deus transcendente e no raio fugaz e fugidio, pois isso significa insatisfação divina. Se quisermos particularmente afirmar a ideia de um equilíbrio generoso em oposição ao de uma terrível autocracia, deveremos ser instintivamente trinitários em vez de unitários. Se quisermos que a civilização europeia seja um ataque e um resgate, deveremos preferir insistir que as almas correm um risco real a dizer que o perigo que correm, em última análise, é irreal. E se desejarmos exaltar o banido e o crucificado, deveremos antes desejar pensar que um Deus verdadeiro foi crucificado, e não um mero sábio ou herói. Acima de tudo, se quisermos proteger os pobres, deveremos nos posicionar em favor de regras fixas e dogmas claros. As regras de um clube ocasionalmente são em favor de um associado pobre. A tendência de um clube é sempre estar em favor de quem é rico.

Se me perguntarem, num sentido puramente intelectual, por que acredito no cristianismo, só posso responder assim: “Pela mesma razão que faz um agnóstico inteligente não acreditar nele”. Acredito no cristianismo de modo totalmente racional, com base na evidência. Mas a evidência no meu caso, como no caso do agnóstico inteligente, não está nesta ou naquela alegada demonstração; está num enorme acúmulo de fatos pequenos, mas unânimes.

O maior desastre do século 19 foi este: o homem começou a usar a palavra “espiritual” como se fosse o mesmo que a palavra “bem”. Ele pensou que se tornar mais refinado e incorpóreo era se tornar mais virtuoso.

(…) pois somente com o pecado original podemos, ao mesmo tempo, ter compaixão pelo mendigo e desconfiar do rei.

Publicado por Guilherme Angra

Me chamo Guilherme Angra, sou um escritor com dois livros publicados e diversos textos postados na internet. (Crônicas, artigos, contos, poemas). Me formei em Administração, pós-graduei-me em Gerenciamento de Projetos e atualmente estudo Psicanálise. Além disso, crio conteúdo nas plataformas do YouTube, Facebook e Instagram. Meu conteúdo baseia-se em reflexões filosóficas sobre as várias nuances da vida: relacionamento, felicidade, tristezas, angústias, trabalho, finanças, intelecto e etc. Espero poder ajudá-lo de alguma forma.

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