UMA MÃE É UM ANJO DA GUARDA

Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, lá estará minha mãe, para me guiar, me dar amor, me dar carinho e oferecer uma luz na escuridão. Quantas e quantas vezes já liguei para ela em momentos de agonia, angústia e medo. Momentos em que eu sentia que precisava apenas ouvi-la. Não queria uma resposta inteligente, uma fórmula pronta para um problema complexo, apenas queria ouvir uma mulher que me ama incondicionalmente independente das minhas atitudes. Eu sabia que no final da ligação ela ia dizer o quanto me ama, e isso já era o suficiente.

Hoje estamos longe e perto ao mesmo tempo. Longe fisicamente, perto espiritualmente. Minha vida sempre foi permeada pela saudade, e, desde cedo, quando tomei a decisão de mudar-me para outro estado, sabia das consequências, mas tinha algo que ainda não havia percebido: o quanto uma mãe faz falta. Claro, morando com ela e tendo todas as benesses possíveis, não havia como comparar. Lembro que no meu primeiro emprego ou quando comecei a estudar em uma cidade próxima da minha terra natal, eu precisava acordar 05h30, de segunda a sexta-feira. Quem me acordava todos os dias da semana? Minha mãe. Quem fazia café com torradas todos os dias da semana? Minha mãe. Quem se preocupava se eu estava levando casaco e guarda-chuva? Minha mãe. Quem me recebia em casa ao fim de um dia frio com a mesa farta e com fogo no fogão? Minha mãe.

Ao refletir sobre estas memórias, absorvo um misto de sentimentos, pois ao mesmo tempo que sinto um aconchego imediato com tais lembranças, também me acomete um sentimento de tristeza. Sei que hoje, ao final da tarde, quando chegar em casa, não terá uma mesa farta, não terá fogo no fogão, não terá minha mãe para perguntar como foi o dia. Vou abrir a porta e dar de cara com a solidão. Tudo bem, a gente se acostuma. Sempre namorei a solidão, por isso não digo isso em um tom exclusivamente melancólico e vitimista. Digo isso no sentido de que uma mãe preenche o ambiente, ou seja, ela é o oposto da solidão. E na época em que morávamos juntos, passávamos grande parte do tempo, apenas eu e ela, pois meu pai vinha só nos finais de semana e meu irmão morava em outro estado. Éramos companhia um para o outro.

No dia da minha mudança, foi a primeira vez, depois de passar pela infância, que senti uma tristeza profunda pelo fato de ir para longe da pessoa que mais cuidou de mim durante aqueles dezoito anos. Lembro de entrar no carro chorando enquanto olhava minha mãe abanando e se derramando em lágrimas. Esta cena me marcou, pois até o dia da minha partida, eu estava bem, estava tranquilo e já tinha aceitado a situação da mudança. Porém, minutos antes de partir, ao abraçá-la e sentir sua cabeça contra o meu peito, a ficha caiu: eu não teria mais minha mãe por perto; e como foi doloroso perceber isto com ela em meus braços.

Nas primeiras horas da viagem, me mantive em silêncio, encarando a vegetação que acompanhava a estrada enquanto pensava em tudo que ficara para trás. Meu irmão, acostumado com a saudade, logo me falou: “É difícil agora, depois a gente acostuma.” Ele estava certo. Acostumamos com a saudade, com a falta. Porque no fim, as mães criam os filhos para o mundo. E sair da casa dos pais é um grande passo para ganharmos dignidade, para nos tornarmos adultos de fato. Passamos a ser responsáveis por pagar nossas contas, cozinhar, lavar a louça, limpar a casa, trabalhar e construir uma família. O ciclo recomeça, a mãe se torna avó, sua mulher se tona mãe e você se torna pai. As coisas mudam, mas o amor continua o mesmo.

Acredito que uma mãe é um anjo da guarda na vida de um filho ou de uma família. Sei que a minha reza todas as noites por mim. Sua preocupação constante em me ver bem é algo inexplicável que só o amor materno é capaz de fazer. Ela é o coração da família. É ela que areja a casa, que deixa os lençóis com cheiro de amaciante, que faz a melhor comida que já degustei, que cuida do meu pai, que me repreende quando mereço, que me ajuda quando preciso, que chora assistindo ao Caldeirão do Huck, que luta para ver toda a família bem. Enfim, a nossa única possibilidade de uma vida digna, é de alguma forma tentarmos retribuir este amor puro. E enquanto a minha mãe estiver aqui, viva, é o que tentarei fazer.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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