NOTA LITERÁRIA #12 – GALVESTON (NIC PIZZOLATTO)

9780751554816

Confesso a vocês que comprei este livro por se tratar do mesmo criador da série de TV da HBO True Detective. Quando assisti a primeira temporada, fiquei fascinado com o enredo e com a atuação dos dois protagonistas, Matthew McConaughey, interpretando Rust Cohle e Woody Harrelson, interpretando Martin Hart, ambos detetives desvendando uma série de crimes ritualísticos ligados a uma mesma seita. De qualquer forma, indico a primeira temporada. Assistam, por favor!

Nic Pizzolatto traz em Galveston um protagonista que está em decadência nos dias atuais: Roy. Um estereótipo dos homens com características masculinas que se perderam na última década. Homem corajoso, hábil com armas, bom de briga, sincero e que honra a sua palavra. Além do mais, Roy descobre que está com um câncer no pulmão e que seu tempo é curto, então conhece Rocky após salvá-la da morte. Rocky é uma garota com seus dezoito anos, que tem um passado fodido, como o de Roy. Ambos seguem juntos durante a trama compartilhando seus passados e tentando fujir dele. A relação entre Roy e Rocky é confusa, pois muitas vezes Roy admira Rocky sexualmente, analisando suas belas curvas, mas em outras, ele parece tratá-la como sua filha. De qualquer forma, o romance vale a pena. A escrita de Nic é repleta de detalhes da ambientação, trazendo o leitor para dentro da história.

Seguem abaixo as notas que marquei do livro:

Carmen me fazia lembrar de um copo vazio de drinque que já tinha sido bebido, com gelo e uma casca de limão esmagada no fundo.

Dependendo dos lugares por onde passávamos, a tonalidade da noite ao nosso redor variava de nanquim, vermelho e roxo até um amarelo desbotado que pendia como gaze diante da escuridão, como se desse para ver a escuridão sentada sob a luz e, em seguida, voltar a ser nanquim, e o cheiro do ar variava de sal marinho, polpa de pinho, amônia e óleo queimado.

A primeira e a mais útil das regras da prisão é que você cumpre a própria pena, não a de outra pessoa.

Conheci caras assim a vida inteira, caipiras idiotas presos a um estado de permanente ressentimento. Torturam animais pequenos, crescem e dão surras de cinto nos filhos e destroem suas caminhonetes dirigindo bêbados, descobrem Jesus aos quarenta anos e começam a ir à igreja e a sair com prostitutas.

Como o mais puro assassino, eu já estava morto.

Descobri que todas as pessoas fracas compartilham uma obsessão básica: elas se fixam na ideia de satisfação.

Em qualquer lugar a que você vá, homens e mulheres são como corvos atraídos por objetos brilhantes. Para alguns, esses objetos brilhantes são outras pessoas — e seria melhor ser viciado em drogas.

Não conseguia parar de olhar para as pernas e as coxas dela. O desejo sempre me pareceu vagamente humilhante.

(…) toda mulher que você amou é, ao mesmo tempo, uma mãe e uma irmã que você não teve, e que o que você realmente está sempre procurando é a parte feminina de si mesmo, o seu animal fêmea ou algo assim.

— Do que você sente tanta saudade, afinal? Não terminou bem, Roy. — Nada termina.

— Então, do que você gostava em mim? Ela bateu a unha no queixo. — Não lembro muito bem. Provavelmente, algum tipo de poder. Mas — ela suspirou — do tipo que não o leva muito longe.

— Estou morrendo — falei. — E não estamos todos? A porta se fechou.

Você nasce e, quarenta anos mais tarde, sai mancando de um bar, assustado com as próprias dores. Ninguém o conhece. Você dirige por estradas escuras e inventa um destino porque mover-se é fundamental. Então segue em direção à última coisa que tem a perder, sem nenhuma ideia real do que fará com aquilo.

Uma tristeza envergonhada estremeceu no rosto de Rocky, e ela voltou a parecer uma menina, e eu podia sentir quão profundamente ela odiava a si mesma.

Toda noite, eu ia para a cama à espera que o câncer expandisse, mas aquilo simplesmente ficou ali, adormecido, esperando a sua vez. Cumpri quase doze anos de pena assim. Exatamente assim.

Eu estava errado quando disse para Rocky que você pode escolher o que sente. Não é verdade. Nem mesmo é verdade que você possa escolher quando vai sentir. O que acontece de fato é que o passado coagula como uma catarata ou uma casca, uma casca de lembranças sobre seus olhos. E, um dia, a luz a atravessa.

Eu estava preocupado por achar que viveria para sempre.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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