QUEM É O MAIS COVARDE NO FRACASSO DE UMA RELAÇÃO AMOROSA?

Esta semana conversava com um amigo que acabara de terminar seu “quase” namoro. Na verdade, foi ela que terminou, e foi exatamente isso que o deixou mal. Vinham a tempos naquele “chove e não molha”, porém, talvez faltou coragem de colocar o pau na mesa e tomar a decisão: ou a gente namora ou cada um segue seu rumo. Ele tomou esta decisão, mas já era tarde. Ao questioná-la sobre o futuro dos dois, recebeu a resposta mais manjada que existe: “vamos terminar, mas o problema não é você, sou eu.” Não foi exatamente isso que ela disse, mas em resumo, foi isso que ela quis dizer, ou seja, você é perfeito, o problema sou eu.

O que aconteceu com ele, já aconteceu comigo. Adiamos o fim mesmo sabendo que já acabou. Isso, pensando bem, é até uma covardia moral, mas é uma covardia de alguém com coração, pois não quero ver a mulher que está comigo sofrer por eu terminar o namoro ou o quase namoro. É uma decisão difícil, sejamos sinceros. Mas pior que esta covardia, é usar uma desculpa mesquinha para terminar. A mulher enaltece o homem e finaliza: vamos acabar, pois o problema sou eu, não você. Já fiz isso. Como tomar a decisão de terminar é mais difícil que receber o término, quem termina usa subterfúgios para fugir da culpa após o rompimento do vínculo amoroso.

Quem é mais covarde agora: quem não termina por sentir pena do outro ou quem termina usando uma desculpa mentirosa para diminuir o peso da consciência? É difícil, mas acho que fico com a segunda opção. Apesar que a pena é um sentimento que repudio, ou seja, não quero que as pessoas sintam pena de mim, vou me sentir ainda pior numa relação sustentada por pena. Porém, como somos seres humanos, é inevitável não sentir pena em certos momentos. Você olha o outro e sabe que não sente mais o fogo que sentia; sabe que já acabou e a única solução é terminar. Vocês já tentaram de tudo. Conversaram, discutiram, mudaram algumas coisas de lugar, mas a essência já não é a mesma, e, se mudou a essência, o amor já se foi. O que resta então é a pena e a culpa por ter investido numa relação predestinada ao fracasso.

A notícia boa é que não há outro caminho senão este. Sempre vamos chegar nesta encruzilhada. Talvez um casal acerte na primeira. Sei lá, o amor aconteceu, mas esta não é a regra, é a exceção da exceção. O resto vai tentar, vai cair, vai perder, vai discutir, vai sentir pena, vai usar subterfúgios para sentir menos dor e quem sabe um dia vai achar o amor de sua vida. Não que eu acredite que há uma alma perfeita para preencher nosso coração, mas a tendência é que à medida que vamos ganhando experiências em relacionamentos amorosos, a chance de estar cada vez mais perto de um par ideal, aumente.

Sei que o ideal não existe. A história da outra metade da laranja simétrica é tão fantasiosa e infantil quanto quem acredita naqueles filmes de comédia romântica de Hollywood, onde a mocinha encontra um príncipe que faz de tudo por ela, e este mesmo príncipe fica o filme inteiro tentando conquistá-la, até chegar ao final, onde eles vivem felizes para sempre. A outra metade sempre será assimétrica e imperfeita, e talvez aí resida a graça da vida, pois seria muito fácil conviver com pessoas perfeitas criadas para satisfazer nosso ego.

A visão que tenho do amor é trágica, simplesmente por ser um sentimento acompanhado da paixão (paixão vem do grego “pathos”, ou seja, patologia, doença, sofrimento). Justamente por se tratar de uma doença da alma, o amor verdadeiro passa por cima de tudo, inclusive por cima de você mesmo, da sua dignidade, da sua racionalidade. Ele pode te destruir, como já aconteceu em muitos casos passionais que terminaram com a morte de ambos ou de um dos amados. Normalmente ele não mata ninguém, mas corrói a alma, principalmente no começo, onde o fogo é abundante e interminável que sequer conseguimos imaginar viver sem o outro. Depois que passa desta etapa, as coisas amenizam e o casal tende a prosperar.

E talvez você ainda esteja pensando quem é o mais covarde no fracasso de uma relação. Agora isso não importa, pois se a relação acabou, não existia amor, pois todo amor verdadeiro é eterno; e, quando há amor, lutaremos até se as causas já estiverem perdidas. Acredito que esta é a beleza do amor: ele não se importa com a razão, com a ciência, com a finitude da vida, com a dúvida da existência; ele é um soldado indo para a guerra com a certeza que vai morrer, mas, mesmo assim, ele vai, é como um Dom Quixote que luta contra moinhos de vento achando que eram dragões. O que vale é a honra de Dom Quixote, é a sua vontade, é a sua energia, é o seu feito. Então concluo que os covardes são aqueles que deixaram de acreditar no amor.

Publicado por Guilherme Angra

Me chamo Guilherme Angra, sou um escritor com dois livros publicados e diversos textos postados na internet. (Crônicas, artigos, contos, poemas). Me formei em Administração, pós-graduei-me em Gerenciamento de Projetos e atualmente estudo Psicanálise. Além disso, crio conteúdo nas plataformas do YouTube, Facebook e Instagram. Meu conteúdo baseia-se em reflexões filosóficas sobre as várias nuances da vida: relacionamento, felicidade, tristezas, angústias, trabalho, finanças, intelecto e etc. Espero poder ajudá-lo de alguma forma.

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