A ARTE IMORTALIZA OS MORTAIS

Uma das coisas que mais gosto no ato de escrever é me deparar com meus textos antigos. É como se eu conseguisse me transportar para o passado e me colocar no exato momento em que escrevia o devaneio. Acredito que esta sensação é uma das mais belas se tratando da arte. Não estou aqui me atendo se o texto era bom ou ruim, continha erros de português ou não, ou se dá para chamar de arte. Mas o sentimento de olhar-se no passado através de palavras e se comparar com o presente é algo único e indizível. Você já pegou seus cadernos do ensino fundamental após passar quinze ou vinte anos? Ou leu aquelas mensagens tocantes que marcavam o verso das fotos antigas? É quase o mesmo sentimento.

Como eu sou apaixonado por estes pormenores, guardo comigo todas as cartas, declarações, palavras, cadernos e fotos. É quase um desespero de eternizar pessoas das quais não quero deixar morrer. A arte possui um poder transcendental de imortalizar os mortais. Quando escutamos uma música de um artista dos anos 70, quando lemos um livro do século dezoito, quando admiramos uma pintura da idade média. Neste momento o artista é um imortal, pois sua obra, ou seja, seu DNA artístico sobreviveu frente ao tempo.

Dias atrás gravei um podcast com meu pai com o objetivo único de guardá-lo enquanto eu estiver vivo. Conversamos sobre o amor que ele sente pela minha mãe e sobre sua vida de caminhoneiro. Agora me imagino apresentando esta gravação para o meu filho daqui há vinte ou trinta anos. “Ouve, filho, este aqui era seu avô no ano de 2019 conversando comigo.” Qual será a sensação de ouvir meu pai quando ele não estiver mais aqui? Tento fazer da minha vida um relicário, e, assim, passá-lo adiante de alguma forma. Justamente por isso descrevo com palavras momentos que desejo eternizar na memória. Eu sei que a memória não é eterna, e talvez um dia ninguém com consciência estará aqui para contemplar a vida em todas suas nuances, mas sigo por amor às causas perdidas.

Já pensei muito sobre a brevidade da vida e de como estamos desesperados por sentido. A arte existe para aliviar este desespero. A arte existe para que a realidade não nos destrua. Por isso Nelson Rodrigues pedia para seus contemporâneos fazerem arte, pois era a única coisa que ecoaria na eternidade. E você pode pensar: “mas eu não sou artista para fazer arte.” Não se engane, todos somos artistas de alguma forma. Todos somos feitos de histórias, experiências, afetos, desafetos, dores, alegrias e tristezas. Porque no fim das contas, a arte, nada mais é do que aquilo que toca tua alma e te faz pulsar. Quando vejo meu pai contando histórias ou minha mãe sendo exímia na cozinha, enxergo espontaneidade, enxergo artistas fazendo arte. Entendem?

Não tem nada mais belo do que enxergar alguém sendo sincero com sua alma. E nós temos esta capacidade. Conseguimos perceber quando um ser humano é sincero consigo mesmo, pois transparece para o mundo uma espontaneidade única. Acho que é por isso que grande parte dos meus textos insisto para que não nos transformemos em robôs apáticos programados para a perfeição. Quando isso acontece, criamos artistas sem alma, e não há nada mais vil do que um ser humano inumano. Lembre-se: desafinado é o coro dos contentes.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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