JOVENS, ENVELHEÇAM RAPIDAMENTE!

Parado em um ponto de ônibus, Nelson ouvia duas senhoras papear à esmo. Uma delas estava com o olho roxo e parecia mancar à medida que se locomovia. A outra, curiosa de ver aquilo, perguntou: “O que aconteceu?” E a velhinha espancada responde calmamente: “Meu filho me bateu.” “Mas o que a senhora fez para ele fazer isso?” O assunto morreu ali. Nelson foi o único a ficar horrorizado com este fato e isso o deixou perplexo. Agora tem motivos para um filho bater numa mãe idosa? O poste está mijando no cachorro?

Foram fatos como este que fez Nelson prever a degradação da família. Obviamente ele sabia que nada é mais sagrado do que o vínculo familiar e seus valores, por isso sua preocupação com fatos abjetos como aquele se tornarem banais e irrelevantes diante do público. Um filho que bate na própria mãe não merece nem o pão que o diabo amassou, quiçá o silêncio dos inocentes.

E os jovens têm todas as certezas do mundo. São arrogantes por natureza; ditadores na essência. Todos precisamos de limites, mas os jovens, sem sombra de dúvidas, precisam mais. Quem impõe limites na babaquice adolescente são os pais. Isto é inegável. Quando faltam os pais, raramente o jovem se salva de seu próprio veneno. Afogam-se em seu narcisismo e aí não há limites para sua bestialidade.

Eu digo que jovem é igual a merda, Nelson Rodrigues dizia a mesma coisa, mas com uma classe de mordomo de madame: jovens, envelheçam rapidamente. Por isso, uma sociedade que dá mais voz para jovens revolucionários do que para adultos, tenderá ao declínio. Com isso, criamos uma cultura de homens e mulheres cada vez mais imaturos, mimados e que não conseguem lidar com problemas cotidianos. A idade aumenta, porém, a cabeça continua de um adolescente birrento e revolucionário. Este é o preço que se paga ao inverter a ordem espontânea.

Calma! Não estou dizendo que jovens não podem ter voz, a única ressalva é: confie mais nos adultos e na experiência do que na imaturidade e arrogância de um adolescente que quer salvar a África mas não arruma a própria cama do quarto.

Sei disso, pois muitas vezes meu pai, que não leu muitos livros, ou sequer passou perto da porta de uma universidade me deu os melhores conselhos de vida. Minha mãe tratou de colocar os limites na minha vontade. “Não é não, filho.” Às vezes me pego pensando no dia em que serei pai. Se eu for metade do que meu pai foi pra mim, já vai estar de bom tamanho. Agora só falta encontrar a minha futura esposa, que neste momento deve estar tão perplexa e horrorizada com filhos que batem nos pais quanto o Nelson Rodrigues no começo deste texto.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

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