DEZENOVE ANOS

Ontem conversava com um conhecido que há tempos não via. Perguntei a ele o porquê do sumiço repentino. Ele disse que estava apaixonado por uma tal garota de dezenove anos. No mesmo instante eu fiquei desconfiado:
— Como assim apaixonado por uma garota de dezenove anos? Tu não acha arriscado se entregar assim por uma guria de DEZENOVE ANOS? — O sorriso dele era algo primoroso. Era nítido sua paz de espírito. Tudo bem, sei que a paixão nos deixa cegos, mesmo assim, tentei entender o porquê deste frenesi por uma garota de DEZENOVE ANOS.
Ele começou a falar:
— Cara, namorei oito anos com uma guria que me largou. A gente tinha tudo planejado: emprego, terreno, casa, móveis. Um dia cheguei em casa e a bendita disse que essa vida não era pra ela e abandonou o barco. Fiquei sem chão, porque eu nunca esperaria isso, nem no meu pior pesadelo, foi mais dolorido que um chute no saco. Estou há dois anos solteiro, e, nestes dois anos fui movido pelo ódio. Este ódio me ajudou a conquistar muita coisa. Minha família pedia para eu perdoar ela, mas mandei se foderem, não vou perdoar alguém na qual eu entreguei tudo que eu tinha pra depois ser chutado que nem um cachorro. — E ele continuava com olhos rútilos. — Tentei sair nestes dois anos, fui em algumas festas, fiquei com algumas gurias, mas me sentia cada vez mais vazio. Percebi que essa vida de solteiro não é pra mim. Agora conheci essa menina que é perfeita — Precisei intervir:
— Como assim perfeita? Isso não existe — Ele riu e respondeu em seguida:
— Ela tem dezenove anos, namorou duas vezes, trabalha, corre atrás das coisas, tem objetivos de vida e o melhor: é virgem. — Nós rimos e eu precisei perguntar:
— Mas ela namorou duas vezes e não perdeu a virgindade? Como? Ela é da igreja?
— Por isso mesmo que não deu certo com eles, porque não aguentaram ficar sem sexo.
— E tu vai aguentar? — Ele apertou os lábios e expressou um sorriso de malícia.
— Ela perguntou se eu aguentaria seis meses, mas olha, pelo rumo que estamos indo, acredito que até o final do ano eu consigo. Ela já confia em mim, e talvez era isso que faltava nos dois relacionamentos passados dela: confiança. Eu já pensei em tudo. Vamos passar o final de ano juntos, enquanto a família faz as comemorações, nós vamos entrar em 2019 fazendo amor.
Eu realmente fiquei abismado com este otimismo de um cara barbado de vinte e cinco anos, mas, ao mesmo tempo, fiquei feliz por ele, pois era possível ver uma felicidade verdadeira emergir só de olhá-lo. Hoje carrego um pessimismo comigo, pois, assim como ele, já imaginei transas e momentos homéricos que nunca foram fiéis à realidade e, no fim, acabei descobrindo algo valoroso sobre a vida: quanto mais inesperado e espontâneo, melhor.
— Tudo isso me deixa encucado, cara, quando estamos apaixonados podemos ir ao céu e ao inferno em questão de segundos. E isso acontece porque toda essa felicidade depende de uma guria de dezenove anos. E se não der certo? — Ele apenas riu, como das outras vezes.
— Vai dar certo, já te disse, ela é perfeita pra mim.
— Mas deve ter algo que tu não gosta nela, por favor
— Tem duas coisas: ela bebe e eu não bebo; e ela também tem uns amigos que tenho vontade de bater. Não acredito em homem amigo de mulher, todos eles querem comê-las, sem exceção. Não entendo como as mulheres acreditam que homem pode ser apenas um amigo. Isso acontece se ele for gay — enfatizou, e eu não conseguia parar de rir.
— Espera, eu tenho duas amigas de coração, isso quebra teu argumento.
— Mas aposto que tu já cogitou a hipótese de ficar com elas no começo, mas percebeu que não tinha chance e precisou aceitar a friendzone — refleti alguns segundos e percebi:
— Não tinha parado pra pensar nisso. É, tu tem razão neste ponto, mas ainda sim a nossa amizade é verdadeira.
— Tem certeza? — me perguntou colocando as mãos na cintura.
— Tenho.
— Bom, mas no caso da minha garota é diferente porque os tais amigos ficam convidando ela pra sair, curtem e comentam nas fotos dela e eu sei que querem algo a mais.
— E o que ela pensa sobre isso?
— Ela acredita que é só amizade mesmo…
— Dezenove anos, né? — ironizei.
— Sim, ainda tem muito o que aprender, mas eu vou ensinar, estou disposto a isso — disse solenemente.
— Cuidado com esse ego, ele pode te derrubar hein cara. Ainda mais porque mulheres não têm coração — ele me olhou desconfiado. — Veja bem: a partir do momento que elas colocam uma coisa na cabeça, acabou. Pegamos sua ex como exemplo: tu acha que ela pensou em toda história de vocês antes de pular pra fora do barco? Ela simplesmente tomou uma decisão e tchau. Nós homens podemos fazer muita merda, mas normalmente somos dominados pelo instinto, elas fazem tudo com a consciência. Cada ato é pensado e calculado. Caralho, vou morrer e não vou entender de onde vem tanta frieza. Às vezes fico relembrando cada término de namoro e o tanto que sofri e senti cada um deles. Até hoje, em certo momentos, no meio do meu dia, de repente vem a cara delas, como se fosse um flash, e meu mundo para, são fantasmas do passado que ficam me assombrando, como pode?
— Cara, isso também acontece comigo. Acho que carregaremos estes fantasmas até o caixão. Mas quando vem, sinto ódio, e uso esse ódio como um motivador. Caralho, perdi minha adolescência inteira por causa daquela guria pra me largar assim, do nada, mas que merda! Estou há dois anos procurando alguém, e agora achei. Não posso perder essa oportunidade. Onde vou encontrar uma guria de dezenove anos virgem? — Eu levei a mão à cabeça.
— Vou ser sincero contigo, nunca tirei a virgindade de ninguém e também nunca tive essa vontade, sei lá, a primeira vez é sempre uma merda. Tudo bem, eu entendo que tu vai namorar com ela, e a pureza importa, mas tirando isso…
— Claro que importa! Imagina que eu vou ser o primeiro e talvez o único homem que vai fazer amor com ela. Meu Deus, só de pensar nisso começo a ficar excitado — disse ele, sorrindo que nem uma criança quando ganha um chocolate.
— Normalmente o homem dá muito valor para bens raros no mercado — Ele franziu o cenho. — Mulheres que se guardam ou que não saem dando pra geral possuem um valor muito maior para os homens que querem algo sério. Entendeu?
— Ah sim, e elas dão valor para os cafajestes, como pode né?
— Na verdade elas acham que podem mudar o cafajeste, é quase como um desafio, elas veem o homem galinha e garanhão como um animal a ser domado, isso deve deixar a mulherada excitada, sei lá.
— É isso mesmo. E como nunca fui esse cara, sempre me fodi com as mulheres. O meu negócio é ir morar numa fazenda com minha garota de dezenove anos, ter uns dois filhos, um arsenal de armas e uns charutos pra fumar nos finais de semana, é pedir muito? — indagou ele, querendo uma aprovação.
— Me identifico com teu objetivo de vida, a única coisa que mudaria seria a mulher de dezenove anos, mas de resto… — Nós rimos.
— Cara, qual o problema das mulheres mais novas? É tudo o que um homem sonha.
— Calma lá meu amigo, só acho que a maturidade importa mais do que qualquer coisa. Sei que talvez a idade não diz nada sobre maturidade, mas com certeza é um ótimo indicador. Só de pensar em todas as frescuras e discussões inúteis que terei que passar até o relacionamento se estabilizar… é um baita desafio. Será que vale a pena? — ele ficou me encarando como se pensasse profundamente em tudo aquilo. — A questão é que tu está apaixonado por ela, ou seja, quase incapacitado de pensar racionalmente, mas isso é bom, porque no fim das contas o que conta é este sentimento. Não sei se tu ama ela, mas se for amor, vocês vão viver juntos até o fim dos dias, e tudo por amor vale a pena.
— Mesmo ela tendo dezenove anos? — brincou ele.
— Mesmo assim, cara. Só não vai sumir de novo por causa de mulher, pelo amor de Deus.

Publicado por Guilherme Angra

É escritor e psicanalista. Publicou seu primeiro livro em março de 2018, Quando a Vida Vale a Pena: Reflexões sobre o Amor e Outras Doenças. Depois disso, publicou seu primeiro romance em fevereiro de 2020, o Depois de Nós. Escreve textos semanais em suas redes sociais desde 2018. Em 2021 iniciou seu maior projeto até então, o Querido Sobrevivente, que tem como objetivo ajudar as pessoas a construírem uma vida com substância. Faz postagens regularmente em suas redes sociais trazendo reflexões da vida como ela é, e oferece atendimento psicoterapêutico de forma online e presencial.

Um comentário em “DEZENOVE ANOS

  1. Cara, quando comecei a ler imaginava um quarentão dando tanto valor assim a menina de 19 anos… Ela pod ser perfeita… Mas ele não… Não respeita ela… Está com ela com o primeiro objetivo de tirar a virgindade dela… Depois, se ela continuar perfeita, aí casar e viver a vida de um Olavete… Machismo puro… E o fato da virgindade é a ode máxima desse machismo…
    Aos meus 25 me separei e logo a primeira garota com quem sai, de 18 anos, era virgem… Não prometi loucuras, fui sincero… Ela se entregou confiando e sem alimentar expectativas de namoro… Foi horrível… Seguimos em frente… Antes dos 27 sai com mais duas virgens… Mesma abordagem… Foram sexos maravilhosos… Uma se apaixonou e pulou fora sem um segundo encontro… A outra eu pedi em namoro… Ela ficou com medo e também fugiu… Não daria certo… Agora ele vai tirar o que ela mais valoriza e se acha mais esperto que os outros ex namorados… Espero que a garota perceba que ele é igual… Só mais paciente…

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